Antonie Formanová fotografada por Branislav Simoncik, com styling de Nina Ford, para a edição Celebrate Yourself Issue, da Vogue Portugal, publicada em fevereiro de 2022.
Como jornalista que lida com TDAH sem medicação, desde que me lembro que sempre tratei o açúcar como uma muleta.
Um quadradinho de chocolate negro com 70% de cacau antes de escrever e conseguia alcançar o que os discursos motivacionais, os podcasts sobre produtividade e as agendas agressivamente otimistas falhavam rotineiramente em inspirar. Só agora é que percebi que este mecanismo de defesa não era sustentável. Pensava que era um método de concentração, mas, na verdade, era um suborno químico para fazer o meu cérebro funcionar.
Em janeiro, deixei de basear a minha estabilidade numa embalagem de rebuçados e deixei o açúcar de uma vez por todas. Rapidamente percebi que, sem o meu chocolate da tarde, tinha dificuldade em começar as tarefas. Às vezes, para um cérebro como o meu, a distância entre as intenções e as ações pode parecer absurdamente grande. Pode querer começar, planear começar, falar longamente sobre começar e, depois, passar 40 minutos a reorganizar separadores e a encontrar formas cada vez mais criativas de não fazer aquilo que se tem vindo a evitar. Muitas vezes, acabamos por explicar isto como uma falta de disciplina ou de força de vontade, o que faz sentido visto de fora, mas parece muito diferente quando é a própria pessoa que está a passar por isso.
O açúcar parecia ser uma forma de reiniciar o meu sistema. Antes de uma entrevista, depois de uma tarde mentalmente exaustiva ou durante aquela hora perigosa em que a concentração começa a esmorecer, a doçura oferecia o caminho mais rápido da estagnação para o ímpeto. Mas eu sabia que aquilo não podia durar.
Comecei isto à espera de uma renovação de bem-estar de 90 dias, mas, em vez disso, deparei-me com um processo de luto por um sistema que me tinha mantido inteira.
A primeira semana da experiência foi estranha. O meu corpo sentia-se ligeiramente ofendido e senti dores de cabeça surdas, uma irritabilidade latente e a sensação de que um convidado de quem estava à espera não tinha chegado. Numa tarde, fiquei na minha cozinha a abrir e a fechar armários durante 20 minutos, à procura de produtividade por trás das caixas de cereais. Shruti Shah, psicóloga e fundadora da Holistic Mind Therapy, sugere que esta sensação tem mais a ver com a perda de parte da minha rotina do que com o próprio chocolate. "Sente falta da recompensa previsível e da função emocional que ela desempenhava", afirma.
Quando cheguei à marca dos 60 dias, tinha uma visão mais clara do meu sistema nervoso. Como antiga estudante de psicologia que estudou os circuitos de recompensa durante anos, foi uma lição de humildade descobrir que a minha motivação tinha sido sustentada por doces.
Quando deixei de usar essa "muleta", tive de aprender formas mais lentas e menos espetaculares de ganhar impulso, como ouvir música antes de escrever um e-mail difícil, definir temporizadores para tornar a minha concentração mais lúdica e ter um amigo na sala enquanto trabalhava, para sobreviver à "zona morta" do trabalho administrativo.
"Em vez de perguntarmos: “Como é que deixo de comer açúcar?”, temos de perguntar: “O que é que o açúcar me ajuda a regular?”", afirma Shah.
O atrito social foi a parte mais reveladora desses 90 dias. Em aniversários e reuniões familiares, a pressão para "provar só um pedacinho" era implacável. Numa cultura em que a celebração está ligada a momentos de bolo coberto de glacê, a minha recusa era vista como uma crítica ao prazer dos outros. "A vida deve ser aproveitada", diziam as pessoas, sem se aperceberem de que me estavam a pedir para derrubar a nova e frágil estrutura do meu foco, em nome de um ritual social.
Mas estou determinada a escapar dessa prisão do ciclo de recompensas. Hoje, passados mais de 90 dias, o meu foco está mais firme. Ainda tenho dificuldade em lidar com o TDAH e em dar início às tarefas. Só que agora são o movimento e a estrutura que me ajudam a passar o dia, e não o açúcar.
Traduzido do original, disponível aqui.
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