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Contar o tempo: 14 curiosidades sobre a relojoaria

30 Jan 2026
By Sara Andrade

Fotografia de Horst P. Horst / Getty Images. Esta modelo em Schiaparelli, com um alfinete Van Cleef & Arpels, está tão deslumbrada com este relógio-espelho de Serge Roche como nós, nesta fotografia para a Vogue americana, de 1937.

O tiquetaque de um relógio não faz só contagem de segundos, minutos, horas, dias, conta também histórias. A cronologia destas timepieces encerra diretrizes não faladas, histórias intemporais e curiosidades — temos 14 que exploramos abaixo.

Por exemplo, sabia que se diz que o relógio deve ser usado no pulso da sua mão não-dominante? Claro que a democracia contemporânea deita por terra esta ditadura, permitindo que qualquer um use o seu modelo de eleição no lado que quiser, mas a regra não-falada tem argumentos lógicos: a ideia subjacente é de que a mão dominante está sujeita a mais intempéries e atritos e, por conseguinte, também o relógio que a acompanha — usá-lo no pulso contrário permite salvaguardar a integridade do valioso cronómetro por mais tempo. Talvez seja dos que sempre preferiram contrariar esta diretriz, mas da próxima vez que for colocar o seu, pense nisto. E nestas curiosidades e histórias que também dão que pensar.

1. Ainda na senda das “leis” subentendidas sobre o uso do relógio, saiba também que, segundo os especialistas, o relógio deve assentar no pulso com alguma folga, mas não demasiado largo, e em termos de localização, a morada ideal será logo a seguir à saliência do osso (mas não em cima, pois isso seria doloroso). Neste ponto estratégico, não fica demasiado colado à mão, permitindo liberdade de movimentos ao mesmo tempo que evita que a coroa do mostrador crave no pulso (e porque, verdade seja dita, fica bem exatamente naquele sweet spot). Depois, há quem refira o tamanho do mostrador, que não pode ser demasiado grande, nem demasiado pequeno, mas com tantos modelos incríveis ao longo deste suplemento, quem somos nós para dizer qual é que deve ou não deve escolher?

2. As regras são para serem quebradas, mas talvez não as de etiqueta: pense antes de olhar para o relógio. Verificar as horas no momento errado pode ser considerado rude ou parecer que está desinteressado no que está a acontecer (numa reunião, num encontro, numa entrevista de emprego), ou até revelar-se perigoso (se estiver a conduzir — ou a usar o seu Patek mais valioso numa zona pouco aconselhável).

3. Se é fã de relógios, não use o mesmo todos os dias, pois permite variar a coleção pelos seus preferidos e, simultaneamente, evita submeter o mesmo modelo recorrentemente à azáfama do seu quotidiano, preservando-o. Para tal, não se esqueça que também deve mantê-lo limpo: parece redundante, mas muitos entusiastas ignoram frequentemente este importante passo. Não sabe como? Embora existam inúmeros tutoriais online, também pode — deve! — optar por uma limpeza profunda profissional, uma ou duas vezes por ano (que nos parece sempre a melhor aposta).

4. Claro que isso é etapa desnecessária no caso dos primeiros relógios, feitos em pedra — não ao género do que um Fred Flintstone usaria, obviamente. As evidências sugerem que os sumérios foram os primeiros a registar o tempo (2000 a.C.) e os antigos egípcios costumavam esculpir um grande obelisco em pedra que seria colocado num local específico e, à medida que o Sol se movia, o mesmo acontecia com a sombra da pedra, estimando o tempo a partir do comprimento e direção dessa consequente sombra.

5. Estes rudimentares e gigantes cronómetros evoluíram muito até aos relógios de pulso como os conhecemos, que ainda foram precedidos pelos seus primos de bolso, cuja história começa com o relojoeiro de Nuremberga, Peter Helein (1484-1542), creditado como o inventor de um relógio ornamental que era usado como pendente. Carlos II de Inglaterra, ao introduzir os coletes, achou estes relógios pendentes inconvenientes, espoletando a criação dos seus homólogos de bolso. O primeiro relógio de bolso é visto no retrato do rei Henrique VIII (1491-1547). Na altura, existiam apenas marcadores de horas; o ponteiro dos minutos não fez parte dele até ao século XVII.

6. Do bolso ao braço: os relógios de pulso, quando finalmente chegaram, eram associados ao universo feminino. Antes do século XX, apenas as mulheres usavam relógios de pulso como acessórios de moda. Em 1571, Isabel I de Inglaterra recebeu um relógio de pulso, descrito como "relógio braçadeira", de Robert Dudley; e o mais antigo relógio do género, sobrevivente até aos dias de hoje, (então descrito como um "relógio com pulseira") foi feito em 1806 e oferecido a Joséphine de Beauharnais. Em 1810, Abraham-Louis Breguet criou um relógio de pulso para Caroline Bonaparte, Rainha de Nápoles e irmã de Napoleão Bonaparte. No entanto, o primeiro, produzido por uma marca suíça, foi fabricado em 1868 por Antoni Patek e Adrien Philippe (fundadores da Patek Philippe) para a Condessa Koscowicz da Hungria. O quão errada estava a sociedade de então sobre a segregação destes modelos como femininos viria a História — e a política — a prová-lo: durante a Primeira Guerra Mundial, os relógios de pulso tornaram-se populares entre os homens, tanto pela sua importância vital na sincronização de manobras estratégicas como pela conveniência ao ajudar na liberdade de movimentos despreocupada e de fácil acesso (um traço que os de bolso não tinham). Desde a década de 1880, que as tropas alemãs eram vistas a usar relógios: na Europa continental, Girard-Perregaux e outros relojoeiros suíços começaram a fornecer relógios de pulso aos oficiais da marinha alemã por volta de 1880, e o início do séc. XX viria a sublinhar a sua popularidade. Em 1904, Louis Cartier produziu um relógio de pulso para permitir ao seu amigo Alberto Santos-Dumont (a linha de relógios Santos-Dumont continua como uma das mais emblemáticas da marca francesa) verificar o desempenho do voo na sua aeronave, mantendo ambas as mãos nos comandos, pois isso era difícil com um relógio de bolso. Mesmo depois da guerra, os homens optaram por continuar a usá-los, pois identificam-nos como heróis de guerra. Durante estes tempos, o fabrico de relógios de pulso com alarme apresentou um crescimento significativo.

7. Sabia que, nos catálogos e nas montras das lojas, os relógios estão configurados para mostrar a hora como 10 minutos depois das 10 horas ou como 10 para as duas? Esta é uma técnica de marketing chamada Happy Times, utilizada entre os vendedores de relógios para fazer com que o relógio pareça estar a sorrir, provocando nos clientes uma sensação de bem-estar.

8. Outro fun fact: a Bulova, em 1960, utilizou um diapasão vibratório em vez de um balanço no primeiro relógio eletrónico. Por isso, em vez de emitir o clássico som de tiquetaque, o relógio emitiu um subtil zumbido.

9. Falando em curiosidades de marcas, o primeiro relógio Casio-G Shock foi testado simplesmente atirando-o pela janela para uma queda de 10 metros. Não foi o único submetido a testes “de stress”: o conceituado Rolex já esteve no fundo do oceano. A sua edição especial Deepsea foi levada a quase 11.000 metros de profundidade na Fossa das Marianas e, tal como prometido, teve um desempenho irrepreensível, mesmo sob imensa pressão.

10. Por falar em Rolex e fundo do mar, o primeiro Rolex à prova de água foi revolucionário. Qualquer mergulhador sabe o quão importante um relógio de mergulho pode ser — até mesmo porque salva vidas. Mas a capacidade de levar um relógio até ao fundo do oceano evoluiu ao longo de décadas, começando com o fundador da Rolex, Hans Wilsdorf, e o desenvolvimento de uma tecnologia revolucionária não só para manter a água fora de um relógio de pulso normal, mas também para convencer o público de que até era algo que valia a pena comprar. O primeiro Rolex Oyster, lançado em 1926, foi o primeiro impermeável do seu género e apresentado como “o relógio maravilhoso que desafia os elementos”. Para o comprovar, em 1927, um Rolex Oyster atravessou o Canal da Mancha no pulso da jovem nadadora inglesa Mercedes Gleitze, feito que, per si, já estava a atrair bastante atenção dos média e do público. A travessia durou 10 horas e, quando terminou, o relógio continuava a funcionar perfeitamente. Para comemorar a travessia do canal, a Rolex publicou um anúncio de página inteira na capa do jornal Daily Mail proclamando o sucesso do relógio impermeável. Este evento foi o marco de criação do conceito de Embaixadores. O mediatismo não se ficou por aqui: Wilsdorf organizou, junto das lojas, ter o relógio exposto nas montras dentro de um aquário cheio de água. 

11. Outra história relacionada com a Rolex remonta a 1996, quando um pescador no Canal da Mancha apanhou, na sua rede, o corpo de um homem que utilizava um Oyster Perpetual. Graças ao registo imaculado das datas de compras e de serviços da Rolex, bem como à reserva de marcha de vários dias no próprio relógio, as autoridades conseguiram, não só determinar a data exata em que Ronald Platt foi assassinado, mas também o porquê. Platt era um reparador de televisões, em Inglaterra, que fez amizade com uma pessoa má num momento ainda pior. O consultor financeiro de Ontário, Albert Johnson Walker, fugiu para Inglaterra com a sua filha, que se fez passar por sua mulher, depois de desviar 3,2 milhões de dólares do dinheiro dos seus clientes. Tornando-se amigo de Platt e chegando mesmo a iniciar um negócio com ele, Walker aproveitou o desejo de Ronald de regressar ao Canadá — de onde também era natural — e convenceu-o a regressar. Quando partiu, Walker terá roubado a sua identidade e entrou em pânico quando Platt regressou alguns anos depois. Assassinou o “amigo” a bordo do seu iate em alto-mar, atando uma âncora à volta do corpo e atirando-o ao mar, mas o relógio denunciou-o, ao expor a vítima como o Ronald Platt original. Walker cumpre agora pena de prisão perpétua por homicídio, em Ontário.

12. Toda a gente sabe sobre o First Omega in Space, usado pelo astronauta Walter "Wally" Schirra a 3 de outubro de 1962, mas sabia que o Omega de um outro astronauta desapareceu de um museu, há umas décadas? Emitido pela NASA e entregue a Donn Eisele para a sua primeira missão Apollo 7 em 1968, o cronógrafo Omega Speedmaster Professional foi roubado do Instituto Geográfico Militar de Quito, no Equador, em 1989. Desde então, foi devolvido ao Museu Nacional do Ar e do Espaço do Smithsonian depois de entusiastas e autoridades da história espacial terem conseguido segui-lo através de programas de observação e, por fim, no eBay. Este Speedmaster em particular foi gravado pela NASA com o seu identificador comum — SEB12100039-002 — e o seu número de série único, 34. Mas está longe de ser o primeiro ou o último relógio da NASA a ser roubado: o modelo famoso do Apollo 11, o Speedmaster de Buzz Aldrin, está em paradeiro desconhecido desde 1970, quando desapareceu durante o trânsito para o Smithsonian. 

13. O Speedmaster Professional tornou-se no icónico Moonwatch devido ao impacto histórico deste relógio. Usado pelo astronauta Buzz Aldrin, o ST 105.012 não é apenas o primeiro relógio a atravessar a superfície da Lua, mas também um dos relógios de pulso mais importantes do século XX. As circunstâncias que rodearam o seu misterioso desaparecimento alimentaram a lenda em torno deste relógio oficial do equipamento da missão Apollo 11. Ao longo dos anos, tornou-se num artefacto lendário: um que testemunhou uma das maiores conquistas da história da humanidade, a chegada à lua. Poucos momentos depois de Neil Armstrong, Buzz Aldrin tornou-se o segundo ser humano a pisar a Lua e ajudou a transformar o Omega Speedmaster no Moonwatch, mas o relógio que fez história em 1969 desapareceu sem deixar rasto pouco tempo depois. As circunstâncias que rodearam o seu desaparecimento são, na melhor das hipóteses, incompletas e as questões sem resposta permanecem até hoje. No início da década de 1970, Buzz Aldrin providenciou a transferência do seu “Speedy” para o Museu Nacional do Ar e do Espaço do Smithsonian em Washington D.C., onde seria exibido permanentemente. Uma equipa foi contratada por encomenda especial da NASA para entregar o item no museu. No entanto, tal como o prólogo de um thriller, o relógio foi de alguma forma surripiado durante o transporte. Ao contrário do Speedmaster Professional de Neil Armstrong, que serviu como cronómetro a bordo do módulo lunar durante a Apollo 11, o Moonwatch de Aldrin nunca chegou ao Smithsonian. A NASA ficou especialmente descontente com a perda e organizou prontamente a devolução de todos os Speedmasters usados durante a primeira missão de aterragem na Lua. Mais tarde, Aldrin referiu que se sentia mal pelos seus ex-colegas, que passaram a gostar particularmente dos seus Speedmaster Professional, como uma lembrança única do seu feito lendário. Ao longo dos anos, circularam rumores sobre o seu paradeiro: em 2003, o proprietário de um Speedmaster acreditou ter descoberto o Moonwatch há muito perdido depois de ter encontrado uma pequena gravura com o número 43 no interior do fundo da caixa. Supostamente, Aldrin recebeu um Speedmaster Professional com este mesmo número de identificação. O proprietário, Morley, comprou o relógio por 175 dólares no início da década de 1990 através de um anúncio de jornal de um estudante, cujo pai terá descoberto o relógio numa praia em Santa Bárbara, na Califórnia, e contactou diretamente o Smithsonian Air and Space Museum e a NASA para verificar a sua autenticidade. Foi determinado um ano depois que o Speedmaster de Morley não era o Moonwatch original. Buzz Aldrin e o governo dos Estados Unidos também confirmaram publicamente que não era autêntico. Hoje, o Moonwatch arrecadaria num leilão somas avultadas na ordem dos milhões, ainda que, como qualquer artefacto histórico, é difícil prever o seu valor. Assim como seria difícil provar a sua propriedade, se o episódio de 2003 servir de exemplo.

14. E o primeiro relógio no topo do Evereste? As opiniões dividem-se: a maioria defende que Sir Edmund Hillary (o neozelandês foi o primeiro a fazer a escalada até ao cume com sucesso, em 1953) usava um Rolex no pulso durante a sua histórica expedição ao cume do Monte Evereste, mas há disputas sobre se estaria afinal a usar um Smiths De Luxe da já extinta S. Smith. Seja qual for a resposta, também são estas incógnitas em aberto que se escondem no tiquetaque dos relógios que tornam a narrativa relojoeira tão rica.

Publicado originalmente em Eternal Shine, o suplemento de joias da edição Dare To Be Bold da Vogue Portugal, publicado em dezembro de 2025, disponível aqui.

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