Fotografia de Jamie Nelson. Editorial Red hot chili lovers, da edição Love da Vogue Portugal, publicada em dezembro 2020.
O vermelho não é uma tendência, mas uma força — uma cor que seduz, confronta, protege e expõe. Esta é a história da tonalidade que moldou a moda, alterou a psicologia e definiu a coragem de ser vista.
O vermelho é a primeira cor que encontramos. Antes de aprendermos a temê-lo ou a venerá-lo, antes de o podermos nomear ou usar como arma, antes de o mundo se tornar mais preciso no seu significado, experimentamos o vermelho como calor — um brilho submerso, uma auréola suave atrás dos olhos fechados. Pesquisas sugerem que a luz do espectro vermelho pode penetrar na pele e iluminar o útero com um brilho ténue, no mesmo comprimento de onda da lua cheia. Independentemente de um feto realmente se aperceber desta cor ou não, o simbolismo parece correto. O nosso mundo sensorial mais primitivo é tingido de vermelho.
O vermelho não é uma cor que descobrimos. O vermelho é uma cor de que nos lembramos. E talvez seja por isso que ele permanece connosco muito depois do berço dessa luz. O vermelho negoceia diretamente com o corpo. Antes de a mente o interpretar, o sistema nervoso responde; o pulso acelera; a atenção aguça-se; algo ancestral desperta. O vermelho é a cor do sangue, da proximidade, da urgência, da possibilidade — todos limiares emocionais e biológicos que definem a sobrevivência. Ver vermelho é ser lembrado, consciente ou inconscientemente, de que algo importa.
Mas o vermelho é também a cor do clima interno — dos momentos em que o sentimento se sobrepõe à linguagem. Há momentos em que o mundo fica vermelho nas bordas, não de raiva, mas de clareza. Quando a verdade surge de algum lugar profundo dentro de nós e tinge tudo com o seu calor. Quando o embaraço ruboriza, quando o desejo arde, quando a vergonha mancha, quando a saudade emerge demasiado depressa para ser escondida. O vermelho é a cor da honestidade do corpo. O rubor íntimo e involuntário que se revela antes de se estar preparado. O calor que nos trai. A onda que expõe o que se tentou engolir. Talvez seja por isso que vestir vermelho parece visceral: é a única cor que espelha a nossa vida interior sem restrições.
A Moda entende isso instintivamente. Em teoria, o vermelho deveria ter sido uma cor difícil para os designers — demasiado chamativa, demasiado dominante, impossível de ignorar ou controlar. E, no entanto, o vermelho trilhou uma linhagem ininterrupta através de séculos de evolução estética. Surge com vestes renascentistas e na Versace dos anos 90, na Alta Costura carmesim e no streetwear moderno, em vestidos de arquivo e nas botas mais cobiçadas da época. O vermelho recusa-se a curvar às estações; recusa-se à efemeridade. É a única cor que se mantém relevante não porque se reinventa, mas porque se recusa completamente à reinvenção.
Os criadores usam o vermelho da mesma forma que os realizadores usam a luz: com parcimónia, reverência e estratégia. O vermelho em excesso sobrecarrega uma coleção; pouco vermelho deixa-a vazia. O vermelho é a pontuação da Alta-Costura — a expiração, o bater do coração, o momento da intenção. Um vestido vermelho nunca é apenas um vestido; é uma tese. Um casaco vermelho entra na sala antes de quem o veste. Os sapatos vermelhos não são usados; são declarados.
A beleza, por sua vez, manteve o vermelho vivo em todas as eras de reinvenção e resistência. Cleópatra esmagava insetos por ele; as flappers usavam-no contra a fragilidade vitoriana; as sufragistas usavam-no para desafiar as expectativas; as atrizes usavam-no para ofuscar as sombras do cinema noir. O batom vermelho nunca morre — simplesmente espera que o mundo volte a precisar dele. Durante séculos, os lábios vermelhos foram considerados impróprios, provocadores, perigosos, divinos. Mas cada década encontra o seu próprio vermelho que se torna mito.
A história do vermelho, contudo, vai muito além da vaidade e das passerelles. Ela pertence ao ritual. Os cardeais vestem escarlate para simbolizar a autoridade divina e o sacrifício. Os toureiros agitam capas vermelhas não para o touro — que reage ao movimento, não à cor — mas para o público. O vermelho é para nós, para o teatro, para a coreografia do perigo. No Oriente, as noivas vestem de vermelho porque simboliza a fortuna, a alegria, a continuidade; no Ocidente, os convidados evitam o vermelho nos casamentos porque é interpretado como um desafio, um holofote, uma perturbação. O vermelho transporta mais regras e mais reverência do que qualquer outra cor. Nenhuma cor é mais policiada. Nenhuma cor é mais desejada. O vermelho é a cor das revoluções, das coroações, dos protestos, das devoções. É a cor do coração e a cor da ferida. É a contradição na sua forma mais pura: santo e pecador, convite e aviso, amor e guerra.
E, no entanto, a sua natureza dual vai ainda mais fundo — à psicologia. O vermelho reside na interseção precisa entre a atração e a intimidação. Estudos mostram que o vermelho aumenta a desejabilidade percebida; que os indivíduos que vestem vermelho têm maior probabilidade de serem abordados; o vermelho sinaliza vitalidade, prontidão, sensualidade. Mas a mesma cor também eleva a perceção de domínio e autoridade. O vermelho pode seduzir ou repelir. Pode aproximar alguém ou manter alguém à distância. O vermelho é magnético porque também é perigoso. Ele desperta as partes primitivas de nós que não conseguem decidir se devem estender a mão ou recuar.
Esta dupla reação — desejo misturado com apreensão, curiosidade misturada com cautela — é o que torna o vermelho emocionalmente carregado na autoexpressão. Nenhuma outra cor desperta tanta complexidade tanto em quem a veste como em quem a observa. Vestir vermelho torna-se uma negociação entre querer ser visto e estar preparado para o que esse olhar pode revelar. O vermelho é a cor da exposição precisamente porque carrega a possibilidade tanto de ser adorado como de ser incompreendido.
E é por isso que vestir vermelho é fundamentalmente diferente de vestir qualquer outra cor — não por causa da aparência, mas por causa do comportamento. As pessoas vestidas de vermelho permanecem na memória, intensificam a atmosfera e alteram o clima emocional de um ambiente simplesmente por existirem no mesmo. O vermelho altera a perceção. O vermelho altera a presença. O vermelho altera a possibilidade.
A cor vermelha também tem efeito sobre quem a veste. Vestir-se de vermelho é tomar uma decisão. Muitas vezes, assumimos que as pessoas confiantes vestem vermelho, mas o oposto também é verdade. As pessoas não se vestem de vermelho porque se sentem confiantes; muitas vezes, sentem-se confiantes porque escolheram vestir de vermelho. O ato precede a emoção. O vermelho não pede permissão — cria as suas próprias condições. A coragem vem depois.
É por isso que o vermelho pode dar a sensação de exposição. Ele nega a invisibilidade. Elimina a opção de se misturar discretamente na multidão. O vermelho recusa a camuflagem. O vermelho recusa a neutralidade. O vermelho recusa o conforto de se misturar. Vestir-se de vermelho é exteriorizar o próprio sentimento que nos ensinam a suprimir: a intensidade. Talvez seja por isso que o vermelho sobrevive às tendências.
A cada poucas estações, a moda tenta anunciar o regresso do vermelho, como se a cor tivesse entrado num estado de dormência. Os designers reintroduzem-no, reinterpretam-no, repaginam-no. Mas o vermelho não precisa de renascimento porque o vermelho nunca desaparece. Não flutua com as paletas de cores nem se curva aos painéis de inspiração. O vermelho não entra na moda porque o vermelho nunca passa de moda. Existe acima da tendência, ao lado da tendência, abaixo da tendência — entrelaçado nos nossos instintos, nas nossas cerimónias, nos nossos sinais, nas nossas histórias. O que nos leva à essência do vermelho: a sua permanência não é estética; é existencial.
Vestir vermelho torna-se um dos atos mais ousados de autoafirmação que temos. Não se trata tanto de confiança, mas de clareza — uma disposição para habitar a sua própria intensidade, quer o mundo aprove ou não. O vermelho intensifica a presença, aguça a atenção, amplifica a autoridade. Escolher o vermelho é escolher a visibilidade. É escolher ser lembrado. É escolher ser lido — emocionalmente, simbolicamente, psicologicamente.
E é essa a tensão no centro do vermelho: ele é tanto o convite como o limite. Ele acena e avisa. Ele acolhe e protege. Diz "chega mais perto" e "não te aproximes tanto" na mesma respiração. Vestir vermelho significa carregar essa dualidade no corpo — permitir-se ser desejado, respeitado, notado, temido, admirado e mal interpretado, tudo ao mesmo tempo. O vermelho não pede às pessoas que olhem para si; prepara-o para o momento em que inevitavelmente olharão. Esse é o seu poder inabalável — não o espetáculo, mas a certeza. O vermelho lembra que a visibilidade não é algo que se conquista pela perfeição, mas algo que se escolhe pela verdade. Não oferece recuo. Nem desculpas. Exige intenção. Exige responsabilidade. Exige presença.
E assim, vestir vermelho — seja na moda ou na beleza, seja com ousadia ou no mais pequeno gesto secreto — continua a ser o ato mais ousado de autoafirmação. Porque o vermelho é a cor que procuramos quando finalmente estamos prontos para deixar de pedir desculpa. Porque revela a versão de si que se recusa a esperar pela permissão. O vermelho é o momento em que deixa de se esconder — não do mundo, mas de si próprio. E porque, quando veste vermelho, não está a colorir a superfície; está a revelar a temperatura sob a pele.
Originalmente publicado no Dare To Be Bold Issue, a edição de dezembro de 2025 da Vogue Portugal, disponível aqui.
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