Moda  

Respectfully, Red: a história do vermelho na Moda

29 Jan 2026
By Esteban G. Villanueva

Fotografia de Jamie Nelson. Editorial Red hot chili lovers, da edição Love da Vogue Portugal, publicada em dezembro 2020.

O vermelho não é uma tendência, mas uma força — uma cor que seduz, confronta, protege e expõe. Esta é a história da tonalidade que moldou a moda, alterou a psicologia e definiu a coragem de ser vista.

O vermelho é a primeira cor que encontramos. Antes de aprendermos a temê-lo ou a venerá-lo, antes de o podermos nomear ou usar como arma, antes de o mundo se tornar mais preciso no seu significado, experimentamos o vermelho como calor — um brilho submerso, uma auréola suave atrás dos olhos fechados. Pesquisas sugerem que a luz do espectro vermelho pode penetrar na pele e iluminar o útero com um brilho ténue, no mesmo comprimento de onda da lua cheia. Independentemente de um feto realmente se aperceber desta cor ou não, o simbolismo parece correto. O nosso mundo sensorial mais primitivo é tingido de vermelho.

O vermelho não é uma cor que descobrimos. O vermelho é uma cor de que nos lembramos. E talvez seja por isso que ele permanece connosco muito depois do berço dessa luz. O vermelho negoceia diretamente com o corpo. Antes de a mente o interpretar, o sistema nervoso responde; o pulso acelera; a atenção aguça-se; algo ancestral desperta. O vermelho é a cor do sangue, da proximidade, da urgência, da possibilidade — todos limiares emocionais e biológicos que definem a sobrevivência. Ver vermelho é ser lembrado, consciente ou inconscientemente, de que algo importa.

Mas o vermelho é também a cor do clima interno — dos momentos em que o sentimento se sobrepõe à linguagem. Há momentos em que o mundo fica vermelho nas bordas, não de raiva, mas de clareza. Quando a verdade surge de algum lugar profundo dentro de nós e tinge tudo com o seu calor. Quando o embaraço ruboriza, quando o desejo arde, quando a vergonha mancha, quando a saudade emerge demasiado depressa para ser escondida. O vermelho é a cor da honestidade do corpo. O rubor íntimo e involuntário que se revela antes de se estar preparado. O calor que nos trai. A onda que expõe o que se tentou engolir. Talvez seja por isso que vestir vermelho parece visceral: é a única cor que espelha a nossa vida interior sem restrições.

A Moda entende isso instintivamente. Em teoria, o vermelho deveria ter sido uma cor difícil para os designers — demasiado chamativa, demasiado dominante, impossível de ignorar ou controlar. E, no entanto, o vermelho trilhou uma linhagem ininterrupta através de séculos de evolução estética. Surge com vestes renascentistas e na Versace dos anos 90, na Alta Costura carmesim e no streetwear moderno, em vestidos de arquivo e nas botas mais cobiçadas da época. O vermelho recusa-se a curvar às estações; recusa-se à efemeridade. É a única cor que se mantém relevante não porque se reinventa, mas porque se recusa completamente à reinvenção.

Os criadores usam o vermelho da mesma forma que os realizadores usam a luz: com parcimónia, reverência e estratégia. O vermelho em excesso sobrecarrega uma coleção; pouco vermelho deixa-a vazia. O vermelho é a pontuação da Alta-Costura — a expiração, o bater do coração, o momento da intenção. Um vestido vermelho nunca é apenas um vestido; é uma tese. Um casaco vermelho entra na sala antes de quem o veste. Os sapatos vermelhos não são usados; são declarados.

A beleza, por sua vez, manteve o vermelho vivo em todas as eras de reinvenção e resistência. Cleópatra esmagava insetos por ele; as flappers usavam-no contra a fragilidade vitoriana; as sufragistas usavam-no para desafiar as expectativas; as atrizes usavam-no para ofuscar as sombras do cinema noir. O batom vermelho nunca morre — simplesmente espera que o mundo volte a precisar dele. Durante séculos, os lábios vermelhos foram considerados impróprios, provocadores, perigosos, divinos. Mas cada década encontra o seu próprio vermelho que se torna mito.

A história do vermelho, contudo, vai muito além da vaidade e das passerelles. Ela pertence ao ritual. Os cardeais vestem escarlate para simbolizar a autoridade divina e o sacrifício. Os toureiros agitam capas vermelhas não para o touro — que reage ao movimento, não à cor — mas para o público. O vermelho é para nós, para o teatro, para a coreografia do perigo. No Oriente, as noivas vestem de vermelho porque simboliza a fortuna, a alegria, a continuidade; no Ocidente, os convidados evitam o vermelho nos casamentos porque é interpretado como um desafio, um holofote, uma perturbação. O vermelho transporta mais regras e mais reverência do que qualquer outra cor. Nenhuma cor é mais policiada. Nenhuma cor é mais desejada. O vermelho é a cor das revoluções, das coroações, dos protestos, das devoções. É a cor do coração e a cor da ferida. É a contradição na sua forma mais pura: santo e pecador, convite e aviso, amor e guerra.

E, no entanto, a sua natureza dual vai ainda mais fundo — à psicologia. O vermelho reside na interseção precisa entre a atração e a intimidação. Estudos mostram que o vermelho aumenta a desejabilidade percebida; que os indivíduos que vestem vermelho têm maior probabilidade de serem abordados; o vermelho sinaliza vitalidade, prontidão, sensualidade. Mas a mesma cor também eleva a perceção de domínio e autoridade. O vermelho pode seduzir ou repelir. Pode aproximar alguém ou manter alguém à distância. O vermelho é magnético porque também é perigoso. Ele desperta as partes primitivas de nós que não conseguem decidir se devem estender a mão ou recuar.

Esta dupla reação — desejo misturado com apreensão, curiosidade misturada com cautela — é o que torna o vermelho emocionalmente carregado na autoexpressão. Nenhuma outra cor desperta tanta complexidade tanto em quem a veste como em quem a observa. Vestir vermelho torna-se uma negociação entre querer ser visto e estar preparado para o que esse olhar pode revelar. O vermelho é a cor da exposição precisamente porque carrega a possibilidade tanto de ser adorado como de ser incompreendido.

E é por isso que vestir vermelho é fundamentalmente diferente de vestir qualquer outra cor — não por causa da aparência, mas por causa do comportamento. As pessoas vestidas de vermelho permanecem na memória, intensificam a atmosfera e alteram o clima emocional de um ambiente simplesmente por existirem no mesmo. O vermelho altera a perceção. O vermelho altera a presença. O vermelho altera a possibilidade.

A cor vermelha também tem efeito sobre quem a veste. Vestir-se de vermelho é tomar uma decisão. Muitas vezes, assumimos que as pessoas confiantes vestem vermelho, mas o oposto também é verdade. As pessoas não se vestem de vermelho porque se sentem confiantes; muitas vezes, sentem-se confiantes porque escolheram vestir de vermelho. O ato precede a emoção. O vermelho não pede permissão — cria as suas próprias condições. A coragem vem depois.

É por isso que o vermelho pode dar a sensação de exposição. Ele nega a invisibilidade. Elimina a opção de se misturar discretamente na multidão. O vermelho recusa a camuflagem. O vermelho recusa a neutralidade. O vermelho recusa o conforto de se misturar. Vestir-se de vermelho é exteriorizar o próprio sentimento que nos ensinam a suprimir: a intensidade. Talvez seja por isso que o vermelho sobrevive às tendências.

A cada poucas estações, a moda tenta anunciar o regresso do vermelho, como se a cor tivesse entrado num estado de dormência. Os designers reintroduzem-no, reinterpretam-no, repaginam-no. Mas o vermelho não precisa de renascimento porque o vermelho nunca desaparece. Não flutua com as paletas de cores nem se curva aos painéis de inspiração. O vermelho não entra na moda porque o vermelho nunca passa de moda. Existe acima da tendência, ao lado da tendência, abaixo da tendência — entrelaçado nos nossos instintos, nas nossas cerimónias, nos nossos sinais, nas nossas histórias. O que nos leva à essência do vermelho: a sua permanência não é estética; é existencial.

Vestir vermelho torna-se um dos atos mais ousados de autoafirmação que temos. Não se trata tanto de confiança, mas de clareza — uma disposição para habitar a sua própria intensidade, quer o mundo aprove ou não. O vermelho intensifica a presença, aguça a atenção, amplifica a autoridade. Escolher o vermelho é escolher a visibilidade. É escolher ser lembrado. É escolher ser lido — emocionalmente, simbolicamente, psicologicamente.

E é essa a tensão no centro do vermelho: ele é tanto o convite como o limite. Ele acena e avisa. Ele acolhe e protege. Diz "chega mais perto" e "não te aproximes tanto" na mesma respiração. Vestir vermelho significa carregar essa dualidade no corpo — permitir-se ser desejado, respeitado, notado, temido, admirado e mal interpretado, tudo ao mesmo tempo. O vermelho não pede às pessoas que olhem para si; prepara-o para o momento em que inevitavelmente olharão. Esse é o seu poder inabalável — não o espetáculo, mas a certeza. O vermelho lembra que a visibilidade não é algo que se conquista pela perfeição, mas algo que se escolhe pela verdade. Não oferece recuo. Nem desculpas. Exige intenção. Exige responsabilidade. Exige presença.

E assim, vestir vermelho — seja na moda ou na beleza, seja com ousadia ou no mais pequeno gesto secreto — continua a ser o ato mais ousado de autoafirmação. Porque o vermelho é a cor que procuramos quando finalmente estamos prontos para deixar de pedir desculpa. Porque revela a versão de si que se recusa a esperar pela permissão. O vermelho é o momento em que deixa de se esconder — não do mundo, mas de si próprio. E porque, quando veste vermelho, não está a colorir a superfície; está a revelar a temperatura sob a pele.

Originalmente publicado no Dare To Be Bold Issue, a edição de dezembro de 2025 da Vogue Portugal, disponível aqui

Esteban G. Villanueva By Esteban G. Villanueva

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