Artigo Anterior

Estará o minimalismo com os dias contados?

Próximo Artigo

Phantasos

Tendências 18. 5. 2021

A verdadeira história de Halston

by Julia Hobbs

 

O designer que definiu o estilo do emblemático Studio 54 é o tema de uma nova série da Netflix, mas como é que era realmente a vida das festas mais luxuosas de Nova Iorque?

Bianca Jagger, Halston & LIza Minelli, 1979 © Getty Images

Para todos aqueles que ansiavam por uma nova série com muito glamour e digna de um binge-watching, a espera acabou. No dia 14 de maio estreou-se na Netflix uma biopic de cinco episódios, da autoria de Ryan Murphy, sobre a história de vida de Roy Halston Frowick (conhecido apenas como Halston, o homem que mudou para sempre a Moda norte-americana). Ewan McGregor desempenha o papel principal, ao lado das 'Halstonetes' Krysta Rodriguez (no papel de Liza Minnelli) e Rebecca Dayam (Elsa Peretti). Se ainda não devorou este drama palpitante, neste artigo contamos toda a glória e queda.

“O Halston e a Liza encontram-se e ele começou logo a drapear tecido no seu corpo", disse Rodriguez à Vogue, enquanto brindava à estreia virtual da série a partir de sua casa, em Nova Iorque. “Ewan passou por um treino intenso para descobrir como funciona o processo de drapeamento que resultou no melhor vestido que alguma vez vi no meu corpo - foi feito com apenas um único tecido e algumas agulhas.”

Na vida real, a madrinha de Minnelli, Kay Thompson, apresentou a estrela da broadway ao designer, marcando um encontro no seu estúdio. “Críamos logo uma ligação, e ele tornou-se no meu companheiro de Moda", recorda Minnelli desse primeiro encontro magnético. Rápido os dois encontram-se no número 101 - a casa de Minnelli ficava na 101 East 63rd Street, que passava clubhouse para a elite criativa da cidade - e também no icónico Studio 54. Entre eles, Elizabeth Taylor, Andy Warhol, Bianca Jagger, Anjelica Huston, Cher e a modelo Pat Cleveland. Foi Halston quem organizou a infame e decadente festa no Studio 54 em honra de Jagger, aquela em que Minnelli e Jagger foram apanhadas a soltar pombas brancas.

Bianca Jagger no Studio 54 © Getty Images

O designer era já um nome familiar por essa altura. Os talentos de Halston e o seu gosto impecável fizeram dele um raio de luz para a clientela da alta sociedade de Bergdorf Goodman, uma das quais se revelaria particularmente influente. Enquanto o mundo via John F Kennedy a fazer o seu juramento presidencial em 1961, a sua esposa Jackie era igualmente aplaudida como ícone globa. A era marcadamente 'clean' foi o ponto de viragem que introduziu modernidade no mainstream. Mas, há também algo de curioso sobre o facto de Halston se ter tornado um designer sensação numa era pré-internet. Os telespectadores afinaram o chapéu com uma amolgadela aparentemente intencional, uma impressão que a primeira dama tinha feito por acidente enquanto segurava a headpiece durante a tumultuosa cerimónia de inauguração. "Todos os que a copiaram fizeram uma mossa", Halston encolheu os ombros. 

Oito anos mais tarde, em 1969, lançou a marca epónima que se tornaria a marca registada da era Studio 54. Os seus bestsellers? Hot pants e camisolas em ultrasuede laváveis à máquina que evocavam a sua assinatura: um luxo fácil de usar. No entanto, as silhuetas descontraídas desmentiram a sua ambição esfomeada de transformar a indústria. Halston não fez segredo do seu desejo de "vestir toda a América", nem da importância da diversidade.

Liza Minnelli, Andy Warhol, Bianca Jagger and Halston © Getty Images

No entanto, foi através de negociações comerciais que a essência heróica de Halston caiu em perigo. Uma transação de 1973 viu-o perder o controlo do seu nome, e, em 1982, assinou a parceria com a JCPenney que iria aterrorizar o seu negócio de moda, enquanto ironicamente esboçava o projeto de inúmeras colaborações com designers de topo que estavam para surgir. Longe da sala de reuniões, o seu eixo social (leia-se: perenemente elevado) também teve o seu preço, algo em que a história de Murphy não aborda com profundidade.

Foi assim que Joel Schumacher (St Elmo's Fire, The Lost Boys), interpretado por Rory Culkin, recordou-o: "Estavam todos a fazer algo criativo. E nós estávamos a consumir drogas. Se se conseguia sobreviver aos anos 60, percebia-se que eramos apenas toxicodependentes e não almas com paz". O primeiro crédito cinematográfico de Schumacher como figurinista foi a adaptação de Play It As It Lays (1972), de Joan Didion, para a qual Halston generosamente forneceu amostras das suas peças. "Ele foi um dos amigos mais amorosos e gentis que alguma vez tive", acrescentou Schumacher.

A vida de Halston foi tragicamente curta. Morreu de complicações relacionadas com HIV em 1990, na Califórnia, deixando para trás um legado luminoso. Em pouco mais de duas décadas conseguiu mudar a forma como as mulheres se sentiam nas roupas e demonstrou a sua influência, imensamente positiva, que um designer pode ter na nossa vida quotidiana. Em vez de uma história cautelosa de ambição e de excessos, a série Halston paga as quotas à mestria e a ousadia de um dos maiores visionários da indústria.