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We got the blues for you: a história do género musical que é a base para toda a música popular e comercial

13 Nov 2020
By Diego Armés

O mundo sem Blues não seria este mundo, tal como o conhecemos – e, provavelmente, não teria metade da beleza que tem.

Peguemos em todos os nossos discos de música poppop num sentido lato, música não erudita nem tradicional – e tenhamos em mente o seguinte: tudo o que aí estiver registado é uma herança dos cânticos negros do Delta do Mississippi na transição do século XVIII para o século XIX. Tudo. É que foram esses cânticos que deram origem aos Blues. E o mundo sem Blues não seria este mundo, tal como o conhecemos – e, provavelmente, não teria metade da beleza que tem.

Billie Holiday, nome maior do Jazz e dos Blues, herdeira da enorme Bessie Smith, faz-se acompanhar de uma Big Band. Holiday foi uma das grandes divas do género. © Historical / Getty Images.
Billie Holiday, nome maior do Jazz e dos Blues, herdeira da enorme Bessie Smith, faz-se acompanhar de uma Big Band. Holiday foi uma das grandes divas do género. © Historical / Getty Images.

Os Blues são a base de toda a música popular e comercial desenvolvida no decorrer do século XX. Reparem: não falo em inspiração, nem em referência, aqui o assunto é mais concreto; os Blues são a base, a estrutura musical sobre a qual os restantes géneros se desenvolveram, tendo os mais primordiais (Jazz, Rhythm & Blues, Rock and Roll) derivado diretamente dessa música seminal, que merece que nos demoremos a contemplá-la e a aprender-lhe a história.

Encontrar a génese dos Blues obrigaria a uma viagem longa e profunda pela história da escravatura e, depois, pelo tempo anterior às vagas de tráfico de escravos da África subsaariana. Do território que é hoje o Senegal, ou a Gâmbia, ou o Mali, saíram os cânticos, as escalas e até os instrumentos que constituem a pré-história dos Blues, sendo, cada um deles, um antepassado remoto daquilo que veio a nascer nos Estados do Sul dos Estados Unidos da América, em torno do grande Delta do Mississippi. 

Os territórios férteis onde os Blues germinaram, despontaram e cresceram foram as plantações de algodão e as obras de construção de grandes infraestruturas, com a linha férrea norte-americana à cabeça. Era nesses contextos que os negros, na sua maioria escravos, entoavam, enquanto trabalhavam duramente, os chamados Spirituals, cânticos de inspiração bíblica de ritmos lentos e introspetivos, com estruturas simples, repetitivas, geralmente em torno de refrões. Havia alguns Spirituals de ritmos mais acelerados e alegres, com o chamado shout, mas estes normalmente convidavam à festividade e à folga, incluíam dança e marcação rítmica, ora com percussões, ora com palmas ou batimentos de pés. Havia ainda outros tipos de canções, como as work songs ou as field hollers, que funcionavam como uma espécie de desgarrada que os homens cantavam, entre eles ou de uns para os outros, e que também estarão na origem da amálgama primordial a que acabou por se chamar de Blues. Todas estas canções eram vocais, dispensando acompanhamento instrumental.

A tristeza e a melancolia eram, na época, muitas vezes apelidadas de blue devils.

São estes cânticos negros que constituem aquilo que hoje podemos considerar como o ponto zero dos Blues: o momento no tempo e o lugar no espaço em que o hoje popular género se começa a cristalizar e a ganhar forma. Muito provavelmente, é também graças a estas características – a melancolia, o cântico arrastado, a contemplação sugerida – que o termo blues surge associado a este género de música. A tristeza e a melancolia eram, na época, muitas vezes apelidadas de blue devils. Nas letras dos Blues, “to have the blues” é uma expressão popular que significa “estar triste” ou “sentir-se melancólico” que surge amiúde, tanto nas composições ancestrais como nas dos dias de hoje.

Blues: the story

O primeiro registo de uma composição de Blues, uma partitura em que aquele género musical surge inquestionavelmente associado à melancolia, é I Got the Blues, de 1908, da autoria de um músico de New Orleans, Antonio Maggio. No entanto, os primeiros relatos escritos deste tipo de música remontam ao princípio do século XX. Entre 1901 e 1903, são inúmeras as referências a esta nova música nos estados do Mississippi, da Geórgia ou do Texas, entre outros. Um desses relatos tornou-se particularmente conhecido: W.C. Handy, autoproclamado “pai dos Blues” e o segundo artista a assinar uma composição do género, The Memphis Blues, registada para efeitos de direitos de autor (a primeira, Dallas Blues, pertence a Hart Wand, mas ambas foram registadas em 1912), afirmava ter tido contacto com os Blues pela primeira vez durante uma viagem de comboio.

Handy viajava clandestinamente num vagão quando terá assistido a um homem negro que tocava uma guitarra usando uma navalha – uma técnica semelhante ao que hoje se chama slide guitar. O que o homem tocava durante essa viagem eram os St. Louis Blues, popularmente considerada a primeira canção de Blues da História – no entanto, esta consideração não deve ser tomada como verdadeira, já que é impossível identificar “a primeira canção”, até porque, como se pode depreender pelo que é descrito atrás, os Blues não nascem num só sítio nem de uma só circunstância, são antes um género que se vai espalhando num território específico, mas ao mesmo tempo vasto, e numa cultura concreta, mas simultaneamente dispersa.

O primeiro registo de uma composição de Blues é I Got the Blues da autoria do músico Antonio Maggio.

Neste período em que os registos sonoros e as partituras de Blues já existem, o género musical apresenta algumas características concretas identificáveis. Antes de avançarmos, regressemos ao início do texto, onde se afirma que tudo na música popular moderna tem origem nos Blues. Na verdade, há quem discorde por considerar que o Jazz tem um papel tão importante como os Blues nesse caldo primordial que veio a dar origem ao Rock and Roll, que, por sua vez, deu origem a grande parte do que conhecemos hoje. Acontece que uma corrente, pelo menos, defende que o próprio Jazz tem origem nos Blues (por oposição a outra corrente que defende que são “géneros irmãos”, que terão surgido na mesma época, mas com raízes diferentes).

Correndo o risco de melindrar quem defende a segunda corrente, opto por acreditar na primeira. Voltamos às características dos Blues para explicar a opção. Blues não é apenas um género musical, é também uma forma de progressão musical. Ou seja, é anterior ao próprio género e excedente do mesmo. A escala dos Blues (que se repete no Rock and Roll ad nauseam) surge nos primórdios do Jazz, sendo que, nesse tempo, no início do século XX, há inúmeras composições que, à luz das etiquetas que hoje usamos, podem tanto ser Blues como Jazz, como ambas em simultâneo. Portanto, faz sentido que o Jazz surja de uma fação dos Blues que se desprende da raiz e que vai progredindo noutra direção. Existe ainda outro pormenor da maior importância: a Blue Note. Qualquer apreciador de Jazz e de Blues associará de imediato à vetusta editora especializada em ambos os géneros. O seu nome é uma apropriação (legítima, claro) do termo blue note, surgido nos Blues, que designa uma nota que não é pura, isto é: que é tocada e afinada como se sofresse uma inflexão que a torna mais melancólica, “dobrando-a” até se obter um pitch mais baixo. As blue notes também existem no Jazz.

 “A vida que levava deixaria o mais selvagem dos rock stars de queixo no chão.” Bessie Smith

Outra característica fundamental dos Blues é a melisma. Notoriamente herdada dos Spirituals, que eram os tais cânticos religiosos a partir, por exemplo, de salmos, a melisma consiste na entoação de uma sílaba ao longo de mais do que uma nota. A técnica abunda nos cantos de Blues e não é preciso pensarmos muito para encontrarmos exemplos, nomeadamente nos primórdios do género, de sílabas que são prolongadas no canto ao longo de várias notas, como acontece na música Soul ou no R'n'B contemporâneo.

Sendo a origem dos Blues exclusivamente vocal, o género, à medida que foi crescendo, foi sentindo a necessidade de se fazer acompanhar de algo mais. Nos primórdios, uma guitarra acústica servia de base para que o vocalista cantasse sobre a característica progressão de acordes de Blues – nas composições originais de Blues, a melodia vai sempre subindo até atingir o ponto de inversão, ou seja, a nota em que se faz uma espécie de reset àquela linha melódica, que ora volta ao zero, ora dá a vez a uma nova melodia, que também irá funcionar em progressão. A esta maneira simples, sem adereços, de acompanhar o canto chamou-se Country Blues.

Os músicos, normalmente solistas, reinterpretavam com total liberdade as melodias de base, a que podemos chamar standards, e improvisavam sobre elas histórias e poesias muitas vezes espontâneas que abordavam inúmeros assuntos, embora fossem quase sempre melancólicos. Além da guitarra acústica, a harmónica a entrecortar o canto e o ritmo marcado pelo pé no chão também são característicos desta fase mais primitiva. A rápida difusão do género musical fez com que depressa chegasse a algumas das principais cidades norte-americanas, como Memphis ou Chicago. Não demorou até que os músicos começassem a atuar em concertos organizados. É assim que surgem os “City Blues”, com uma abordagem musical muito mais sofisticada e com as vozes acompanhadas por grupos de instrumentistas que tocavam piano, guitarra e por norma um instrumento de sopro (trompete ou saxofone, geralmente), além de uma secção rítmica composta por percussões e contrabaixo. 

Ladies sing the blues

Nesta fase, ou seja, num primeiro momento dos “City Blues”, assiste-se ao fenómeno “classic blues singer”. E é então que os primeiros grandes nomes de cantoras de Blues surgem. Sim, eram cantoras as “classic blues singers”. Esta era é dominada pelas vozes femininas de Ma Rainey, Bessie Smith, Sippie Wallace, ou Sister Rosetta Tharpe – que surgiu um pouco mais tarde e que interpretava de uma forma muito própria os Blues, tocando guitarra elétrica. Memphis Minnie, outro grande nome da época, também era guitarrista.

Bessie Smith (1900-1937) © Getty Images
Bessie Smith (1900-1937) © Getty Images

Antes de todas elas, havia Mamie Smith, a “mãe dos Blues”, a primeira mulher afro-americana a gravar uma canção de Blues, intitulada Crazy Blues. Mamie Smith era uma artista multitalentosa. Bailarina, pianista e atriz, fez-se notar por todas as razões. Era negra e era mulher, mas nenhuma dessas qualidades fez com que se deixasse intimidar. Cantou, deu concertos, gravou em estúdios, enfrentou um mundo que não estava preparado para ela, e fez-se lenda.

É em Mamie Smith que tudo começa, na verdade. Não no sentido em que os Blues começam com ela, porque já existiam, mas antes pela importância que teve enquanto performer e na definição de um estilo e de um registo. Olhando para Sippie Wallace, contemporânea de Smith, podemos considerá-la igualmente pioneira, embora tenha tido menos relevo. Apesar de ter tido uma carreira curta (preferiu tornar-se organista numa igreja e dirigir um coro) ainda gravou quatro álbuns, além de ter assinado várias composições, como Mighty Tight Woman, popularizada na década de 70 numa versão de Bonnie Raitt. 

De todas estas mulheres, porém, nenhuma tinha o nível de Bessie Smith – para o bem e para o mal. Há, sobre Bessie, inúmeras descrições, e é duvidoso que alguma delas assente na trindade “bela, recatada e do lar” – se acontecer, é ignorá-la, pois será a mais profunda mentira. Temperamental, boémia, assumidamente bissexual, dada aos exageros e nada refém do pudor, Bessie Smith “tinha a boca de um marinheiro”, segundo o académico especialista em Blues C.C. Rider, que acrescenta ainda o apetite voraz de Bessie por whisky, antes de concluir: “A vida que levava deixaria o mais selvagem dos rock stars de queixo no chão.” Ámen. O seu carisma, a sua voz robusta, a sua revolução em curso, foram de tal forma marcantes que é uma das influências mais referidas por cantoras de renome – como é o caso de Janis Joplin que, mais de 30 anos após a morte de Bessie Smith, pagou uma lápide para a sepultura da cantora.

O peso que as restantes artistas tiveram na história dos Blues deve-se àquilo que representaram quando surgiram no panorama musical. Por exemplo, Ma Rainey foi a primeira cantora profissional afro-americana. Já Sister Rosetta Tharpe teve no extraordinário domínio da guitarra elétrica o seu maior trunfo. Não será sem motivo que é citada como grande influência por gente tão distinta quanto Elvis Presley, Jerry Lee Lewis, Little Richard, Chuck Berry ou Johnny Cash. Num estilo que, a partir de determinado momento, passou a ser dominado pelas vozes (e as mãos, e as composições) masculinas, é difícil encontrar, na era contemporânea, uma diva com a dimensão destas, dos primórdios. Só, talvez, a já mencionada Bonnie Raitt, incluída em tudo quanto é lista de “melhores de sempre” dedicada aos Blues, ou às cantoras, ou aos guitarristas, atingiu um nível de notoriedade e influência semelhante. Claro que faltam aqui nomes: de Etta James a Billie Holiday, até àqueles menos conhecidos, mas ainda assim fundamentais nas histórias do Blues, como Viola McCoy. 

Bluesmen

Os Blues não evoluíram como um conjunto sólido, todo na mesma direção. Ao mesmo tempo que os “City Blues” se consolidavam com as divas clássicas a assumirem o microfone, um subgénero ia ganhando forma, miscigenando as raízes dos Blues com características e instrumentos, como os bandolins, do folk de outras paragens. A principal diferença, porém, residia mesmo no intérprete da letra. Numa espécie de regresso às origens, os homens pegaram nas guitarras e assumiram os palcos. De entre estes, o primeiro grande nome e, possivelmente, o mais influente músico de Blues de todos os tempos, é Robert Johnson. É elevado a uma condição semidivina por músicos incontornáveis, como Eric Clapton, que o descreve assim: “O mais importante cantor de Blues que alguma vez existiu.”

A revista Rolling Stone considerou Robert Johnson o quinto melhor guitarrista de todos os tempos. A influência de Johnson tem a ver, claro, com o período em que surge: os Blues eram uma música nova e ele foi dos primeiros a ganhar fama dentro desse universo que se ia desenhando e ganhando contornos. Compositor e cantor extraordinário, brilhava ainda, como se pode deduzir, pela maneira superlativa como tocava guitarra – em guitarras acústicas, como a célebre Gibson L1, por exemplo. A lenda de Johnson também se construiu de boatos, o mais célebre dos quais diz que terá vendido a alma ao diabo num cruzamento. Para quê? Para ganhar a sua habilidade incrível para tocar guitarra. Robert Johnson morreu em 1938 com apenas 27 anos, antecipando o que viria a ser, décadas mais tarde, uma espécie de marca trágica com um toque de coolness: ser uma estrela da música e morrer com 27 anos.

Dois anos antes da morte de Robert Johnson nascia outro dos mais importantes nomes dos Blues: Muddy Waters. McKinley Morganfield era o seu nome de nascença e ficou na história por ter sido um dos precursores dos Blues com guitarra elétrica, tal como BB King. Sendo músicos da mesma geração, imortalizaram o género através da eletricidade. Muddy Waters acrescentou--lhe ainda a percussão permanente na figura da bateria, algo que, numa viagem a Inglaterra na década de 50, viria a deixar influências semeadas pelo país, ao ponto de os Rolling Stones terem no músico uma referência incontornável. E BB King é... BB King.

Para muitos, confunde-se com os próprios Blues, é a encarnação dessa música nascida no delta do Mississippi, só que agarrado a uma guitarra elétrica linda de morrer chamada Lucille. BB King é simplesmente fundamental para os Blues e para toda a música popular contemporânea. BB King chamava--se Riley Ben King, na verdade. BB significava apenas uma coisa: Blues Boy. Terá sido um dos nicknames mais adequados da história dos Blues. Depois deste, outros vieram, como Eric Clapton, claro, para acrescentar as suas páginas à vasta História dessa canção negra oriunda das minas, dos caminhos de ferro e dos campos de algodão. Porém, os capítulos fundamentais, esses, foram escritos por aqueles de quem aqui se fala.

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