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Palavra da Vogue 21. 6. 2022

#VogueBookClub: The Silence of the Girls, de Pat Barker

by Pedro Vasconcelos

 

Nesta releitura de Ilíada, omitem-se os floreados mitológicos, realçando a humanidade das personagens esquecidas pela história.


The Silence of the Girls é uma releitura da Ilíada que, ao contrário do que já se tornou clichê neste género literário, opta por recusar a interpretação leve da epopeia, embarcando numa narrativa declaradamente mais pesada. Através da perspetiva de Briseis, uma rainha de um pequeno reino em Troia, que, após a conquista por tropas gregas, se tornou a concubina de Aquiles, o herói titular da épica grega, mas que, para a protagonista de Barker, é apenas o homem que matou o seu marido e irmãos, e da qual se tornou propriedade sexual.

Briseis torna-se fundamental na narrativa de Homero já que foi devido a esta que Aquiles se terá recusado a combater quando Agamémnon decide apoderar-se desta que, na obra original é vista apenas como parte das propriedades do semideus. É durante esta narrativa que a personagem principal brilha, aprofundando-se como uma personagem sagaz, capaz de modelar o trajeto da história através da sua posição enquanto escrava.

A astúcia e sagacidade de Briseis tornam-se por vezes questionáveis: será que houve alguma pessoa, mesmo uma rainha, que, após brutalidades bélicas, conseguisse preservar uma força de espírito tão intensa? Claro que estas interrogações são completamente quiméricas, nenhuma das palavras de mulheres desta época sobreviveram ao definhar dos séculos, parte da razão pela qual a obra de Barker é tão refrescante. A escritora não cai em tentações de envergar pelos caminhos do fantástico, escolhe invés realçar a humanidade das personagens que, na epopeia grega, são mero barulho de fundo.

As mulheres de Troia encaixam-se perfeitamente nesta categoria, consideradas meros prémios de guerra para os guerreiros gregos. Briseis representa esta tipologia perfeitamente, encarnando a humanidade daquelas que, em histórias de guerra conduzidas por homens, são esquecidas como mais do que danos colaterais. A perspetiva feminista é óbvia, mas não é feita de forma entediante, através de clichês expectáveis de um escritor menos hábil, é exatamente pela capacidade de Barker de tecer a narrativa feminista de forma tão natural que The Silence of the Girls se destaca.

Pontuação: 

O Vogue Book Club é uma rubrica semanal. Neste espaço, um membro da equipa da Vogue Portugal propõe-se refletir, ou apenas comentar, um livro - seja uma novidade literária ou um clássico arrebatador. Pode participar nesta discussão através da hashtag #VogueBookClub.  

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