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Palavra da Vogue 8. 3. 2022

#VogueBookClub: Uma ode a mulheres escritoras

by Pedro Vasconcelos

 

Esta semana, o #VogueBookClub celebra o Dia da Mulher, honrando cinco escritoras que revolucionaram o meio literário.

Como é o caso do resto da arte ao longo da história, escritoras mulheres foram reduzidas ao seu género, descartadas a favor da sua feminilidade, independentemente do seu talento. Historicamente, este tipo de discriminação baseia-se em argumentos que carecem, não só de lógica, como de senso comum. Durante muito tempo a narrativa debatia-se sobre a associação do feminino ao fraco, ou ao doméstico e, como seres exclusivamente femininos, as mulheres não poderiam alcançar a aptitude masculina. Confinadas ao seu género, muitas escritoras não eram sequer consideradas para publicação, e as que eram, ficavam categorizadas imediatamente como escritoras mulheres, e portanto excomungadas da possibilidade de obter respeito artístico.

Por serem mulheres num mundo patriarcal, muitas das mais bem-sucedidas escritoras foram forçadas a utilizar pseudónimos para conseguirem alcançar sucesso comercial. Foi esse o caso de Emily, Charlotte e Anne Brontë, que, face ao seu estatuto social e temas abordados nos seus livros, teriam sido praticamente ostracizadas se não o fizessem. Os livros das irmãs Brontë são verdadeiros marcos na literatura ocidental, o facto de terem de usar um nome masculino para que pudessem ser levadas a sério prova exatamente o ponto em questão. A presença reduzida de mulheres na arte escrita é apenas um símbolo de uma sociedade extremamente injusta, uma que descarta o potencial artístico do género feminino com intenções de o manter subjugado.

Pouco a pouco, o cenário foi mudando. À medida que os movimentos feministas foram evoluindo e as mulheres se aproximaram da igualdade face aos homens, também a literatura enquanto espaço artístico se metamorfoseou. Hoje em dia, a corrente mudou, aliás, inverteu-se completamente. De acordo com a revista britânica Bookseller, apenas 341 dos 1000 livros mais vendidos em 2020 foram escritos por homens. Adicionalmente, 75% dos livros de ficção publicados são escritos por mulheres. Esta mudança drástica na cultura literária fez-se por meio de muitas escritoras que, face a uma forma de arte que recusava a sua contribuição, fizeram com que as suas vozes fossem ouvidas de qualquer forma. É nestas que nos focamos na lista apresentada abaixo, nas mulheres que mudaram o panorama artístico pela potência da sua voz literária, assim como pela pertinência da sua mensagem.

Jane Austen

Qualquer pessoa que leia Jane Austen lhe poderá dizer que a autora escreve sobre personagens e situações que não têm nada de particularmente especial. É pela forma como esta escreve, pelo seu estilo sagaz e inteligente, que esta se destaca. Austen tem apenas seis livros publicados, mas, ainda assim concretizou algo raro: criou um movimento de ficção moderna. Ao descrever situações quotidianas de pessoas normais, a escritora britânica criou o género de realismo doméstico, um contraste forte face ao romantismo melodramático que era popular na sua época. Os livros de Jane Austen são deliciosos de se ler, uma mistura equilibrada entre realismo, paródia e romance que tornou a autora numa das mais proeminentes vozes da literatura do século XIX. A obra preferida da escritora era Orgulho e Preconceito, o seu livro mais famoso e uma obra essencial para todos aqueles que se chamam fãs de literatura.

 

Mary Wollstonecraft

Mary Wollstonecraft é um dos mais proeminentes nomes da primeira onda do feminismo. A escritora nasce em 1759, filha de um agricultor e, nos primeiros anos da sua vida profissional, trabalha como governanta e professora. É através destas experiências que começa a afinar a sua voz literária, ao ver as colossais diferenças entre a educação dos dois géneros, Wollstonecraft começa a refletir sobre o lugar das mulheres na sociedade da sua época. Os seus primeiros livros tocaram exatamente neste ponto, na educação como forma de desencadear mudança social. Inspirada pela Revolução Francesa, a feminista escreve Vindication for Women’s Rights, o livro é um manifesto aberto à igualdade entre homens e mulheres. No que é considerado a sua obra fundamental, a escritora questiona a noção de que as mulheres existem apenas em função dos homens. Wollstonecraft apela à igualdade das mulheres em todas as facetas da sociedade, desde a educação à politica, como a única forma de libertar o género feminino da opressão masculina. O livro foi um verdadeiro marco na escrita de mulheres pelo seu simbolismo, uma mulher a escrever para mulheres sobre a injustiça que estas sentiam na sua sociedade.

Mary Shelley

Uma das mais revolucionárias escritoras de todo o tempo, Mary Shelley é responsável pela criação do género de ficção científica como o conhecemos. A autora nasce Mary Godwin, filha da feminista Mary Wollstonecraft e do filósofo William Godwin, e desde cedo demonstra a sua aptidão para a arte literária. Aos 17 anos casa com o poeta Percy Shelley, e é através deste que se insere no circulo literário que estimulará a sua revolucionária escrita. Como parte de uma competição enquanto estava de férias, Mary Shelley começa a escrever a sua obra mais emblemática, Frankestein. Nesta obra, Shelley cria a linguagem de ficção cientifica moderna, estabelecendo os fundamentos para arquétipos que se tornaram sinónimos com o género literário. A autora escreve o livro com 20 anos, e inicia assim o seu trajeto artístico, dando autoria a inúmeras outras obras do mesmo género. Frankestein destaca-se pela sua forte componente filosófica, questionando a própria essência da ambição humana, assim como as consequências desta.

 

Agatha Christie

O nome de Agatha Christie tornou-se sinónimo do género de romance policial. Através de personagens como Hercule Poirot e Miss Marple, a escritora britânica inspirou a maioria dos livros policiais modernos. Semelhantemente a Mary Shelley, Christie é uma mulher escritora que fomentou um género literário que historicamente não se associava à feminilidade. A escritora é a segunda mais vendida autora de ficção, perdendo apenas para William Shakespeare. Ao longo dos seus 75 livros, Christie alcança um feito raro, especialmente no mundo da ficção policial: nunca repete uma narrativa, tornando cada um dos finais das suas obras completamente imprevisíveis. And Then There Were None é um dos mais bem sucedidos livros deste género, criando todo um estilo narrativo, que já se viu parodiado e copiado inúmeras vezes. Neste, um conjunto de pessoas que, aparentemente sem conexão, são convidadas para uma mansão onde, seguindo a lógica de uma lengalenga infantil, os mais macabros crimes se desenrolam.

 

Toni Morrison

Recipiente do Prémio Nobel da Literatura, assim como do Prémio Pulitzer, Toni Morrison é uma das mais poderosas vozes da literatura do século XX e XXI. Morrison sumariza a experiência da comunidade afro-americana nos Estados Unidos, focando-se particularmente nas cicatrizes geracionais do período de escravatura. A ficção da escritora é extremamente profunda, alternando entre um realismo intenso na descrição da vida de populações oprimidas, e elementos sobrenaturais que servem de metáforas viscerais às experiências destas. Morrison nasce numa pequena cidade do Midwest americano, numa comunidade maioritariamente afro-americana onde as suas particularidades culturais eram celebradas. Foi devido a esta valorização de algo que, fora do seu meio, se tratava com tanta repulsa que Morrison desenvolveu a sua particular sensibilidade. Entre a miríade de excelentes obras de ficção da escritora escolhemos Beloved, uma das mais belas representações da sua proeza literária. O livro centra-se à volta de Sethe, uma mulher que conseguiu escapar à tormenta da escravatura, mas que ainda vive atormentada pelos fantasmas da sua vida na Sweet Home, a propriedade da qual fugiu.

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