Para a leitura deste mês do Vogue Book Club, a escolha foi "Yesteryear", de Caro Claire Burke.
Yesteryear é o livro de estreia de Caro Claire Burke. Descrito como um romance sombrio e mordaz, a sua narrativa é um olhar sobre o movimento tradwives que tem conquistado palco nas redes sociais nos últimos anos. Entre temas como a fama, a tradição, a fé e a condição feminina, o livro acompanha Natalie Heller Mills, uma influencer tradwife, que dá por si em 1855. Deparada com uma realidade que não é a sua, a única coisa que sabe é que tem de escapar, custe o que custar.
Mariana Pimenta, Editora de Moda
Não consegui largar o livro Yesteryear – estava ansiosa por chegar ao fim da história para saber o que acontecia. Natalie Heller Mills, a protagonista detestável, é uma influencer digital de grande sucesso focada no estilo de vida tradwife. Nas suas redes sociais, vende uma rotina idílica com o casamento de sonho e crianças perfeitas, mas, na verdade, tudo é falso. Ao longo da história, acompanhamos os pensamentos (mega-egocêntricos) de Natalie, desde a sua passagem na faculdade até ao presente. Isto foi importante porque percebe-se melhor como é que tudo se desenvolveu e como é que a ideia do rancho floresceu. O plot twist de Natalie de repente acordar em 1855 foi interessante, mas senti que podiam ter explorado mais esta parte da narrativa. Precisava de algo mais… Não amei o final, mas entendo a razão pela qual tinha de acabar assim. É, de certeza, um livro que inspira diálogo.
Rita Petrone, Jornalista
Nos últimos anos, o discurso à volta do movimento tradwives tem infiltrado os mais diversos algoritmos. É uma temática que, após uma série de reações viscerais (tanto positivas como negativas) promove um diálogo difícil de escapar em plena vida contemporânea: a evolução do papel da mulher na sociedade. Yesteryear dá vida à questão que muitos colocamos quando confrontados com a realidade das tradwives: o que é que seria destas mulheres se, de facto, vivessem numa época onde a tradição é mais do que uma estética? Quando Natalie, uma influencer deste movimento, dá por si em 1855, percebe que escapar não é apenas uma possibilidade, mas sim uma necessidade em nome da sua sobrevivência. Ao longo do livro, que explora uma cronologia entre o passado e o presente, acompanhamos uma personagem que é, sem nem tirar nem pôr, uma pessoa absolutamente intragável (mas do tipo que nos faz querer continuar a ler). O final é fast-paced e avassalador: deixou-me boquiaberta – não pela sua imprevisibilidade, mas por ser tão cru – e obrigou-me a questionar muita da informação que tinha acumulado ao longo da narrativa. Acima de tudo, é um livro de estreia fascinante, que me deixou bastante intrigada para as próximas propostas de Caro Claire Burke.
Beatriz Fradoca, Social Media Manager
Yesteryear, de Caro Claire Burke, é, sem dúvida, um desafio para quem gosta de criar ligações com as personagens que encontra nos livros. Natalie Heller Mills apresenta-se como a “mulher tradicional” perfeita: vive num rancho idílico, cuida da família e partilha uma vida aparentemente irrepreensível com milhares de seguidores. Mas, à medida que a história avança, torna-se claro que a perfeição que vende ao mundo tem mais camadas do que aparenta. Quando Natalie acorda em 1855, numa realidade onde a vida tradicional é uma obrigação e não uma escolha, as comodidades modernas ganham um novo significado. A protagonista observa o mundo através de uma lente profundamente crítica e julgadora, especialmente em relação a outras mulheres. Tudo o que se afasta da sua visão de feminilidade e sucesso é alvo de escrutínio, muitas vezes sem que ela própria reconheça os preconceitos que alimenta. O ritmo da narrativa é lento e só perto dos últimos capítulos é que os acontecimentos aceleram, talvez até de forma demasiado repentina para compensar a demora inicial. Ainda assim, a curiosidade em perceber o destino das personagens e a reflexão sobre a idealização dos papéis de género mantiveram-me investida na leitura.
Inês Guerra, Editora de shoppings e tendências
Yesteryear mostra-nos o lado menos glamoroso de uma era obcecada pela Internet, pelos seguidores e pela necessidade constante de sermos vistos. Num momento em que as trad wives dominam tantas conversas online, o livro oferece uma perspetiva diferente (e desconfortável) sobre este fenómeno. Com um ritmo assumidamente slow burn, levou-me algum tempo a entrar na história, mas acabou por ter o efeito contrário: quando me apercebi, já não o conseguia pousar. As personagens não são particularmente fáceis de gostar ou compreender, mas talvez seja precisamente esse o objetivo. Há algo profundamente interessante em acompanhar uma protagonista tão complexa, cuja relação com a religião, a identidade e a validação expõe constantemente a distância entre quem somos e quem queremos parecer ser. Acho que é um bom livro e gostei da experiência de o ler — deixa-nos com vontade de o discutir com outras pessoas, o que é, talvez, a melhor característica que um livro pode ter.
Inaya Mussa, Colaboradora
Convencida pelas minhas parceiras do clube de leitura a ler Yesteryear, mergulhei nesta obra sem grandes expectativas nem ideias preconcebidas. Posso dizer que foi uma surpresa agradável. Dos extremos a que a protagonista está disposta a chegar para se afirmar como uma “good Christian woman” até ao mistério que sustenta a narrativa, o livro transporta-nos para uma realidade digital cada vez mais presente no nosso quotidiano. Ao mesmo tempo, explora temas como o consentimento de menores para a exposição pública, a religião enquanto performance e, embora Burke tenha optado por não abordar diretamente a política, a crescente viragem ideológica em direção ao conservadorismo e o papel que as chamadas tradwives desempenham nesse contexto. Admito que foi uma leitura viciante, cuja história me surpreendeu bastante e me deixou satisfeita.
Leitura do próximo mês

Babel, de R.F. Kuang.
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