The Sleeping Issue
Quando se fala de Maya Hawke, é impossível dissociar a artista da sua linhagem. Filha de Ethan Hawke e Uma Thurman, cresceu rodeada de referências artísticas e expectativas externas, mas cedo percebeu que talento de família não garante identidade própria. Ao longo da sua carreira — entre cinema, séries e música —, a atriz e cantora foi construindo, passo a passo, uma voz singular, pautada por escolhas conscientes e um olhar curioso sobre si própria e o mundo.
Há qualquer coisa de profundamente consciente na forma como Maya Hawke fala de si própria. Não no sentido calculado, mas numa lucidez quase desarmante, como se cada etapa fosse apenas mais um capítulo, nunca um ponto de viragem definitivo. Crescer entre Ethan Hawke e Uma Thurman poderia facilmente ter cristalizado uma ideia de destino, mas para a atriz e cantora há claramente uma consciência de que identidade e voz própria são construções lentas, muitas vezes desalinhadas com as expectativas externas. Antes da representação ocupar o centro, a câmara dominou noutro registo. A experiência como modelo, longe de ser apenas um prelúdio, acabou por lhe dar uma ferramenta técnica inesperada — a compreensão do corpo enquanto imagem bidimensional: “Saber existir numa fotografia, comunicar sem palavras, deu-me ferramentas que mais tarde usei na representação”, explica, sublinhando como cada experiência se torna combustível criativo. “Sempre gostei de representar e dar vida a uma pessoa diferente de mim”, confessa, e foi nesse desejo que construiu uma carreira que cruza cinema, televisão e música.

Top e calção-saia, EMMA FOLEY. Brincos, WYLD BOX JEWELRY. Sapatos, CHRISTIAN LOUBOUTIN.
E, ainda assim, nada disto simplifica o ofício, pelo contrário. Para a artista, representar continua a ser um exercício de equilíbrio instável: mergulhar em estados emocionais intensos sem perder o vínculo consigo própria. A teoria existe, mas na prática a história é outra, e Maya reconhece que a transição entre personagem e vida real continua a ser uma zona difícil. Há uma ideia de aspiração constante: a de um dia conseguir ir “ao fundo” emocional e regressar sem trazer esse peso para o quotidiano: “É extremamente difícil ter sentimentos de mania, tristeza ou solidão quando os estás a viver através de uma personagem, porque acabam por se infiltrar na tua vida diária. (...) Ainda estou a trabalhar para melhorar nisso como atriz e para não levar o trabalho para casa. Sempre vi essa ideia de não levar o trabalho para casa como um objetivo a alcançar. Acho que esse é o nível mais alto de um ator — alguém que consegue ir ao fundo do poço e depois sair de lá, continuando a ser um bom colega, um bom amigo e um bom parceiro, enquanto mantém acesso a toda a sua gama emocional de forma consciente. Acho que esse é o objetivo. Consigo sempre? Não. Estou sempre a trabalhar para isso? Sim.”

Vestido e brincos, PRADA.
Entrar em Stranger Things, a série aclamada da Netflix, já enquanto fenómeno global, acrescentou outra camada a essa equação. “Foi assustador fazer parte de algo que já era muito bom”, recorda, mas o medo inicial não era o de falhar isoladamente, mas o de perturbar algo que já funcionava. “Quando entrei, falava-se muito do género: ‘prepara-te, nem vais acreditar no que aí vem. E, de certa forma, isso era verdade... e, de certa forma, não foi nada essa a minha experiência. Lembro-me de estar à espera que a série saísse e de recusar vários trabalhos, porque pensava: ‘estes não são os certos. Os trabalhos certos vão aparecer quando toda a gente vir o meu trabalho nisto.’ Depois acabei por não trabalhar durante algum tempo e, quando a série finalmente estreou, também não trabalhei durante um período. Acho que é sempre difícil e complicado perceber onde é que a tua arte e a tua expressão criativa se encaixam na cultura comercial — no que é procurado, em quem é contratado e nas qualidades que procuram nessas pessoas.” Ainda assim, e apesar desse período de incerteza, o balanço acaba por se inclinar claramente para o lado criativo. Com o tempo, o impacto de Robin revelou-se menos imediato no plano profissional e muito mais profundo no plano artístico. A personagem funcionou como uma espécie de ponto de desbloqueio, um espaço onde Maya conseguiu experimentar, arriscar e, sobretudo, descobrir dimensões que não sabia ter enquanto atriz. No fundo, o papel deu-lhe aquilo a que chama, quase tecnicamente, “horas de prática”. Foi também aí que surgiu a comédia, quase por acidente, um território que nunca tinha imaginado para si, mas que rapidamente se tornou central na forma como olha para o seu trabalho. A partir de Robin, começaram a surgir oportunidades para explorar esse registo, para brincar com o timing, com o absurdo, com a leveza e, de repente, aquilo que não fazia parte do plano passou a ser uma das partes mais entusiasmantes do processo.

Colete, soutien e calções, tudo ISABEL MARANT. Pulseira, JOANNA LAURA CONSTANTINE. Pulseira, WYLD BOX JEWELRY.
Essa ideia de crescimento contínuo reflete-se na forma como pensa no investimento emocional em cada projeto. Para a atriz, dar de si a uma personagem ou a uma relação não implica perda, mas transformação: “Costumava pensar nos nossos corações como barras de chocolate e que, quando amas algo e dás uma parte de ti a alguma coisa — seja uma relação, um papel ou o que for — estás a partir um pedaço da tua barra de chocolate e a oferecê-lo. Mas o que é bonito no mundo é que, normalmente, aquilo a que deste esse pedaço acaba por partir um pedaço da sua própria barra e devolver-te um equivalente. E assim, começamos com uma barra clássica de chocolate e, no final, ficamos com dois quadrados desse chocolate, dois de chocolate negro e dois de chocolate branco. Vais acumulando este sentido mais amplo de quem és através das experiências, mas isso não muda a quantidade de quem és — apenas expande a diversidade do teu eu.” Mais do que uma metáfora, é quase uma filosofia de trabalho e de vida, onde cada papel deixa marcas, mas também acrescenta. Não se trata de perder partes de si, mas de se tornar mais complexa, mais densa e mais capaz de habitar diferentes versões de si própria dentro e fora do ecrã.

Vestido, saia, brincos e sapatos, tudo PRADA.
É esse mesmo sentido de expansão e de diversidade de experiências que Maya leva agora para um universo completamente distinto com The Hunger Games: Sunrise on the Reaping. Entrar numa saga desta escala implica enfrentar tensões próprias — a pressão de integrar uma história já icónica e de se manter fiel à sua própria voz artística —, mas também traz uma realização pessoal profunda. É um encontro entre o desejo de infância e o desafio artístico: habitar um mundo que sempre quis explorar, onde espetáculo e discurso político coexistem de forma intensa. A sua personagem, Wiress, acrescenta ainda outra camada — a de uma pacifista num contexto construído sobre violência — e é nessa contradição que a atriz encontra o verdadeiro desafio: “Adoro o facto de a personagem Wiress ser uma pacifista, e fiquei muito interessada na história que nunca foi contada sobre como é que uma pacifista vence os Hunger Games. (...) No geral, foi um papel muito divertido, criativo e filosoficamente desafiante de interpretar, num universo que admiro e que sempre quis fazer parte.”

Vestido, VERSACE. Brincos, SPINELLI KILCOLLIN.
Paralelamente, a música continua a assumir um papel central na sua vida criativa. O seu mais recente álbum, Maitreya Corso, mergulha no amor e na maturidade emocional, sem idealizar o desejo distante: “Quis mostrar a viagem do sonho de estar com alguém até chegar à felicidade concreta e presente, e como se continua a crescer dentro dessa relação”, revela. O marco do seu casamento (o enlace com o músico Christian Lee Hutson aconteceu a 14 de fevereiro deste ano) e a experiência de se entregar a uma relação real atravessam o disco, refletindo não apenas o encontro com outra pessoa, mas a capacidade de permanecer e de se aprofundar nesse amor. “Acho que realmente aprendi muito sobre o amor. Quis que este disco fosse sobre aquilo que senti que precisava de crescer e desenvolver em mim para poder aceder ao tipo de amor que sinto estar a experienciar agora, e sobre as formas em que tive de me conhecer para realmente conhecer outra pessoa. Esperava que este disco retratasse uma viagem em que, começando com a música Love Of My Life, estás a sonhar e a querer estar com esta pessoa e a questionar o que aconteceria se realmente estivesses. Serias capaz de desfrutar disso? E se realmente obtivesses o que querias e estivesses completamente apaixonado pela pessoa que também estava apaixonada por ti? Serias capaz de permanecer nesse estado? Serias capaz de continuar a aprofundar essa experiência, a enriquecer a relação, ou fugirias assim que chegasses ao lugar a que tentavas chegar?” A partir desse ponto, o disco acompanha a descoberta da estabilidade emocional, da consciência do presente e da maturidade para manter o amor sem se acomodar. Mais do que canções, cada faixa surge como um espelho da sua própria evolução, mostrando que o amor, tal como a carreira ou a arte, exige presença, esforço e coragem para se manter vivo e verdadeiro.

Camisola e saia, DRIES VAN NOTEN. Pulseira, JOANNA LAURA CONSTANTINE. Pulseira, SPINELLI KILCOLLIN. Anel, STATEMENT PARIS.
Para além do crescimento artístico, há ainda uma reflexão inesperadamente política sobre o presente. Enquanto rosto da capa da Vogue Portugal, Maya fala da importância da imprensa física num mundo saturado pelo digital: “Acredito que estamos a perceber, coletivamente, que estamos a ser envenenados pelos média digitais — que há algo na imediaticidade e na relação com os dispositivos que torna impossível não acreditarmos em tudo o que lemos. Parece verdadeiro, parece notícia e é um fluxo constante de informação diretamente no bolso ou na mão. (...) Hoje em dia, cada pessoa tem o seu algoritmo, ajustado às suas próprias inseguranças. É por isso que a imprensa em papel é essencial neste momento: quando todos compramos a mesma Vogue, temos a oportunidade de concordar ou discordar com o que lemos, sabendo que são pessoas reais a escrever, e não uma consciência coletiva suprema que sabe tudo. Nunca foi tão importante ter espaços partilhados para obter informação.” O tema da edição — o sono — abre outra frente mais íntima. Para a cantora, dormir foi sempre muito difícil, contudo, hoje em dia, é visto mais como um território em negociação. Entre a necessidade e o prazer, entre a disciplina desejada e a realidade de uma vida fragmentada: “Dormir pode ser defensivo, mas também é um ato de entrega. É o momento em que se permite simplesmente existir.” A ansiedade, admite, continua presente, não tanto no que muda, mas na forma como se manifesta. Pensamentos que se substituem uns aos outros, independentemente da sua lógica. Ainda assim, há uma tentativa clara de recuperar o descanso como espaço de vulnerabilidade e não apenas de fuga. Dormir, no seu ideal, implica confiança: no espaço, nas pessoas, em si própria. Mas também reconhece que essa vulnerabilidade não é igual para todos, depende das condições, do contexto e da segurança. Talvez por isso a cama, esse eixo central da narrativa visual do editorial que protagoniza, surja como um lugar quase simbólico. Não um santuário perfeito, mas um espaço vivido: onde se lê, trabalha, conversa, onde objetos se acumulam. Um caos habitado que, de alguma forma, faz sentido.

Camisola e, DRIES VAN NOTEN. Pulseira, JOANNA LAURA CONSTANTINE. Pulseira, SPINELLI KILCOLLIN. Anel, STATEMENT PARIS.
Quanto ao próximo capítulo da sua vida, a artista olha para o futuro com uma ambição equilibrada, que combina criação artística com bem-estar pessoal. “Sem recorrer a termos clichês da Internet, work-life balance. Existe um certo tipo de ambição que não me permite esse equilíbrio, e agora estou a tentar sonhar com uma relação diferente com a minha casa, com uma base estável, porque esta carreira leva-nos a tantos lugares diferentes (infelizmente ainda não Portugal, mas espero que isso mude em breve), o que é um privilégio maravilhoso, mas também muito disruptivo para conseguir manter amizades consistentes, cuidar de um animal de estimação ou até manter uma planta viva. E eu realmente quero ser alguém que consegue manter uma planta viva.” O sonho que Maya projeta no futuro é simples e humano: criar trabalhos que a entusiasmem e que a façam sentir-se orgulhosa, enquanto cultiva um lar real, com amor, presença e pequenos gestos de cuidado — um cão feliz, plantas que crescem e uma sensação de pertença. É essa harmonia entre criação, vida pessoal e raízes que define o próximo capítulo que já começa a escrever.
Originalmente publicado no The Sleeping Issue, a edição de abril de 2026 da Vogue Portugal, disponível aqui.
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