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Virar a página: um debate sobre os diferenças entre os livros físicos e digitais

19 Jun 2026
By Rita Petrone

Artwork de João Oliveira.

É de livraria em livraria e de estante em estante que se formam inúmeras listas de leitura ao redor do mundo. Mas quando se trata do ato de ler, pegar num livro físico há muito que deixou de ser a única opção.

Imagine-se o seguinte cenário: é domingo, são quatro da tarde e estou no sofá, mid-scroll. Só que, ao invés de estar doomscrolling, existe um objetivo: encontrar a minha próxima leitura. Não é surpresa para ninguém que, em plena era digital, o ato de ler se desdobre numa diversidade de facetas e que os livros tenham passado a estar à mera distância de um clique. À primeira vista, esta acessibilidade representa nada mais, nada menos, do que um conjunto de benefícios que visam garantir que o mercado literário continua de boa saúde e em constante ascensão. Num olhar mais detalhado — analítico, até —, este fenómeno desafia-nos a pensar na forma como a experiência de leitura tem vindo a evoluir ao longo das décadas. Como leitora ávida, grande parte do meu tempo livre divide-se entre fazer progresso nas minhas listas de leitura (o plural é intencional) e adicionar livros a carrinhos e prateleiras digitais, na esperança de os conseguir devorar a todos o mais rapidamente possível. O passo seguinte é decidir o formato no qual quero ler determinado livro: será que terei uma melhor experiência no meu e-reader ou com o livro físico? Para dificultar ainda mais a tarefa, por vezes, ainda me questiono se deveria optar pela versão áudio da obra. No meu caso, a decisão final assenta nos diferentes prós e contras que variam consoante o livro e o cenário. Para os mais puristas, o dilema é um mero grito de ajuda em prol de ressuscitar o significado do ato (e experiência) de ler.

No seu sentido mais amplo, “ler” é um termo relativamente vago que descreve um vasto leque de práticas de literacia; afinal, a leitura não se confina apenas aos livros — lemos tudo e mais alguma coisa, desde clássicos a listas de compras e manuais de instruções. Pense-se no conceito de ler como um diamante em bruto, que aumenta exponencialmente de valor quando refinado. Se trocarmos pedras preciosas por palavras, frases e até parágrafos, aplica-se exatamente a mesma lógica. Quando lemos algo e o interpretamos, assimilando informação que nos permite olhar para o mundo sob uma nova perspetiva, a leitura atinge o seu verdadeiro auge. Era após era, os livros tornaram-se o veículo predileto para o poder da palavra e da literacia, e a sua história é carregada de momentos fulcrais à sociedade como hoje a conhecemos. Ainda assim, quando comparado com a evolução tecnológica, o livro, no seu formato tradicional (descrito como a compilação de palavras impressas em páginas e reunidas entre capas) permaneceu, em grande parte, inalterado. Fast-forward até ao boom da era digital, demos as boas-vindas aos primeiros livros digitais, os chamados ebooks. Em 1971, Michael S. Hart, um estudante da Universidade de Illinois, digitalizou a Declaração de Independência dos Estados Unidos da América e lançou o Projeto Gutenberg com o objetivo de democratizar o acesso a textos e documentos. Em 1993, Peter James publicou o seu thriller Host em duas disquetes, tendo sido alvo de críticas que diziam que o autor estava a promover o apocalipse. Em 1998, foi registado o primeiro ISBN para um livro digital. Em 2004, a Sony lançou o Sony Librie, o primeiro e-reader com capacidade para ler e-ink. E, em 2007, a Amazon revolucionou para sempre a leitura ao lançar o seu primeiro Kindle. O resto é, literalmente, história.

Definir o que a experiência de ler exige e implica — tal como o que a torna agradável ou não — depende de leitor para leitor. Mas há dados invariáveis. O primeiro é que vivemos num mundo em que, quer queiramos, quer não, estamos constantemente rodeados de tecnologia. Raros são os casos em que alguém não passa a maior parte do seu tempo focado numa variedade de ecrãs — e é precisamente aí que reside um dos pontos fortes dos livros físicos. Perante um mundo cada vez mais digital, os livros físicos são uma espécie de fuga analógica. No seu cerne, a experiência sensorial representa um refúgio tangível, um portal com rumo direto à paz de espírito. Há também uma certa imersão que ocorre quando nos sentamos com um livro físico na mão: o peso, o cheiro das páginas, a vontade de sublinhar passagens — tudo isto são experiências vividas pelo corpo. Mas mais do que portadores de uma magia difícil de replicar, os livros impressos garantem também uma variedade de benefícios reais e comprovados. Segundo a investigação científica, comparativamente aos seus equivalentes digitais, os livros físicos permitem ao nosso cérebro uma maior retenção de memória, uma melhor compreensão de textos complexos e uma capacidade mais elevada de concentração. Além disso, talvez por entrarmos mais facilmente num estado de flow profundo, optar por um livro físico significa menos distrações e, por sua vez, menos interrupções por sessão de leitura. Esta diferença deriva do facto das funções hápticas e táteis dos e-readers não proporcionarem o mesmo apoio à reconstrução mental do que um livro impresso, na medida em que virar (literalmente) a página cria um índice no cérebro, formando uma associação visual entre a informação lida e uma página específica. Mas nem tudo é um mar de rosas e, quiçá em parte por passarmos tanto tempo com os olhos postos em ecrãs, benefícios comprovados à parte, há também estudos que ditam que determinadas pessoas conseguem ler mais rápido quando o fazem num e-reader do que num exemplar de capa mole ou dura.

Comparativamente aos seus equivalentes digitais, os livros físicos permitem ao nosso cérebro uma maior retenção de memória, uma melhor compreensão de textos complexos e uma capacidade mais elevada de concentração.

Ler tem o poder de nos transportar entre mundos e realidades, mas, dependendo do número de páginas necessárias à execução de uma narrativa, tem também o poder de se tornar extremamente desconfortável após um tempo. Seja pelo peso de um livro, pela dificuldade em garantir condições de luz adequadas ou até pelo tamanho da letra escolhido pelas editoras para dar vida aos parágrafos, ler um livro físico é também um ato de resistência física. Manter a mesma posição durante as horas a fio que terminar um livro requer não é apenas difícil, é, por vezes, simplesmente impossível. Em nome de uma experiência literária cada vez mais prática e conveniente, optar por e-readers soluciona muitos destes obstáculos. Atualmente, o mercado de e-readers divide-se, em grande parte, entre o Kindle (da Amazon) e o Kobo (comprado pelo grupo Rakuten em 2012), mas, independentemente do modelo, ter um e-reader na mão significa ter acesso a uma biblioteca praticamente ilimitada na ponta dos dedos. Quase como entrar numa livraria a qualquer hora do dia, em qualquer parte do mundo. Esta variedade cria um sistema de gratificação imediata que não ocorre no formato tradicional, mas que se prova útil quando se evita que andemos com uma pilha de livros interminável atrás — especialmente em situações de viagem, onde o peso da mala é algo a ter em (bastante) consideração. Além disso, este tipo de dispositivos permite também um nível elevado de personalização — do tipo e tamanho de letra ao brilho e cor do ecrã. Para os mais fieis à arte de ler, há também e-readers que permitem simular o efeito de virar a página, criando uma experiência de leitura mais imersiva. Acima de tudo, pondo bem os pontos nos is, o fascínio dos e-readers resume-se a isto: ler num e-reader é tão fácil quanto scrollar nas mais diversas redes sociais, o que resulta numa democratização da leitura e a torna mais acessível a todos, ainda que de um modo ligeiramente diferente.

Ao contrário dos livros físicos, que se rasgam, mancham e dobram, os livros digitais resistem até às mais adversas condições meteorológicas sem quaisquer danos visíveis. Os mais recentes modelos de e-readers contam com tecnologia à prova de água e uma bateria que pode durar semanas a fio, mesmo com uso constante. Torna-se difícil de resistir, especialmente num mundo que valoriza cada vez mais a comodidade, e estes benefícios práticos estabelecem os e-readers como os novos motores da experiência literária. O mercado livreiro comprova-o. Em 2019, os livros digitais representavam menos de 1% do mercado de livros nacional, que, por sua vez, em 2025, apresentou um crescimento de 6,9% em unidades, segundo os dados divulgados pela consultora GfK. Nesse mesmo ano, comparativamente às quedas que se fizeram sentir no resto da Europa, o setor livreiro atingiu 217,5 milhões de euros em vendas e cerca de 14,8 milhões de exemplares vendidos. Sabe-se que, em parte, este crescimento se deve às gerações mais jovens, e talvez seja por isso que são cada vez mais as iniciativas que visam promover o consumo dos livros digitais. Em Portugal, a subscrição Kobo Plus traduz-se numa parceria entre a Kobo e a Leya que permite a leitura ilimitada de livros em português e noutras línguas — em formato de audiobook, ebook ou ambos, mediante o nível de subscrição. Recentemente, o grupo editorial lançou também uma plataforma onde é possível encontrar todo o catálogo do grupo e aceder ao mesmo através da aplicação disponível para iOS e Android. Por sua vez, no início do ano passado, a iniciativa BiblioLED deu os seus primeiros passos, numa missão de tornar a leitura uma prática cada vez mais acessível e adaptável às circunstâncias que caraterizam a vida moderna. O projeto presta um serviço de empréstimo público e gratuito de livros digitais e audiolivros, integrando um catálogo de títulos constituído por uma coleção nacional (disponibilizada a todas as bibliotecas aderentes da Rede Nacional de Bibliotecas Públicas) e por 25 coleções regionais (apenas acessíveis em cada Rede Intermunicipal e Rede Metropolitana). O objetivo é simples: fomentar os hábitos de leitura, incentivar a literacia digital e facilitar o acesso gratuito a obras literárias — democratizando a literatura e tornando-a, mais do que nunca, um ponto comum entre gerações e classes económicas.

Estabelecidos os factos e feitas as contas, o dilema entre formatos no que toca a consumir literatura rema contra a maré do seu próprio propósito. Ler é ler: é uma porta de entrada para realidades paralelas e universos distantes ou imaginados. Nesta era digital, rodeados de tecnologias e opções que transformam o analógico em digital, o mercado literário continua a apresentar números que provam que as pessoas querem, mais do que nunca, descobrir narrativas e renderem-se ao poder da palavra. O consumo de livros digitais pouco altera o estado das prateleiras e estantes espalhadas pelas casas — por experiência própria o digo, continuo a comprar livros físicos como se a minha vida dependesse disso. Hoje, a leitura adaptou-se ao frenesim da vida contemporânea, e isso, tal como tem vindo a acontecer em todas as outras áreas, era absolutamente inevitável. E não é por isso que tem de ser considerado inerentemente mau. Às vezes, ceder às novidades sem fugir à tradição compensa. 

Originalmente publicado no The Words Issue, a edição de junho de 2026 da Vogue Portugal, disponível aqui.

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