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Curiosidades 10. 6. 2022

Nem tudo é bom no mau e no vilão

by Diego Armés

 

© Mustafa Sabbagh

Ou os princípios gerais da vilania e da malvadeza. Num mundo encantado repleto de príncipes e princesas, é preciso olhar com atenção para os antagonistas, porque sem vilões estas histórias não existiam, não faziam sentido. Mas os vilões não são todos iguais, não há um padrão que lhes defina a personalidade e os comportamentos. Alguns, se calhar, até nem são tão maus quanto os pintam. Às vezes, depende da perspetiva de quem conta a história.

Quando Daniel Larusso desfere aquele pontapé esquisito no nariz de Johnny Lawrence, no final épico de Karate Kid - O Momento da Verdade, a audiência rende-se àocorrência banal e embelezada daquilo a que se costuma chamar “a vitória do Bem sobre o Mal.” Ai, os bonzinhos ganharam aos mauzões, os fracos e oprimidos bateram nos poderosos e opres- sores. Em suma, os heróis improváveis sovaram e humilharam os vilões opulentos. O gáudio da multidão distraída, e o regozijo desta alimentado pelo combustível mais populista que existe - o mito de que “o Bem triunfará”, como se os bons fossem os eleitos de um deus qualquer e, só por isso, só por serem bonzinhos, pudessem esmagar e humilhar os que o não são - impede que vejamos o que é evidente a partir da reunião dos elementos mais básicos, que estavam à vista de todos mas que, como num truque de ilusionismo, nos escaparam à perceção: Daniel-san partiu o nariz a pontapé ao tipo a quem, cerca de um hora antes, no filme, roubara descaradamente a namorada. E mesmo assim o Johnny é que era o vilão, é isso? Ah, a moral é tão bonita quando a aplicamos aos outros. Aqui entre nós, concluo que somos, em geral, más pessoas. Condenámos visceralmente as maldades e humilhações que Johnny e os seus amigos rufias impuseram a Daniel, mas esfregámos vitoriosamente as mãos com as humilhações que Daniel infligiu a Johnny - daqui se conclui que não temos problemas com a humilhação a que são sujeitos alguns seres humanos: somos antes sentimentais moralistas muito seletivos. Karate Kid não é um conto de fadas, mas até podia ser, uma vez que contém uma série de ingredientes que fazem com que certos contos sejam, lá está, de fadas. À falta de magia, temos as lições espirituais de Mr. Myiagi enquanto põe Daniel-san a lavar-lhe a viatura - e que lhe ensina o pontapé final, uma espécie de truque de feitiçaria que deve ser usado só em situações extremas, tal como acabou por acontecer. Na ausência de dragões, há os kimonos do Cobra Kai, o dojo de onde saem indivíduos maus como as cobras, o que bate certo. Não havendo princesa, temos Ali Mills, interpretada por uma Elisabeth Shue plena de doçura no esplendor da adolescência, que acaba por sucumbir aos encantos do bonzinho do Daniel, essa espécie de príncipe irresistível.

Nos contos de fadas, as histórias não diferem muito daquilo que encontramos em Karate Kid. A identificação dos bons e dos maus faz-se com recurso a técnicas faceizinhas, aplicando-se características estereotipadas que simbolizem automaticamente os perfis antagónicos. Um mauzão não deve ser bonito; um bonzinho até pode ser feio, mas de certeza que debaixo dessa fealdade haverá beleza por revelar. A beleza é sempre do Bem. Pessoas com bom coração, animem-se: mais cedo ou mais tarde, essas verrugas no nariz, essa celulite nas coxas e essas rugas no pescoço, isso vai tudo desaparecer e vocês vão resplandecer de beleza. Se não suceder, levem a mão à consciência: provavelmente, a culpa é vossa. Lembrem-se, só os maus é que são feios. Mesmo quando não são exatamente feios, como acontece com a Rainha Má de Branca de Neve - desculpem, mas aquele look meio sexy-gótico é muito mais atraente do que o ar deslavado e bonzinho da Branca - estão envoltos numa aura de infelicidade e de rancor: incapazes de sorrir ou de vestir roupas em tons claros, os vilões apresentam-se ao mundo de uma maneira inequivocamente má pelo seu ar desagradável, causando desconforto entre o público infantil, exceto talvez nos casos em que a inclinação para o gótico desponte precocemente. A definição a priori dos vilões de contos de fadas não se resume à imagem e chega a começar logo pelo nome. A Rainha Má, por exemplo, não se chama realmente Má. Há quem afirme que se chamou Grimilde - que é, sob qualquer prisma, um mau nome - e há quem defenda que também se chamou Ingrid - que, sendo mais suave ao nível da maldade latente, não é propriamente um espanto de designação. Porém, o mundo prefere chamar-lhe Rainha Má, ou, numa variação mais sofisticada, Rainha Malvada. Já no conto do Capuchinho Vermelho, o vilão não tem direito a outro nome que não seja Lobo Mau e não se fala mais no assunto.

Detenhamo-nos nesta personagem, porém, para lhe analisar o perfil e a personalidade. Note-se que se trata de um lobo, um bicho selvagem, um predador carnívoro que passa a maior parte do tempo esfomeado. Não, a vida dos lobos não é fácil. E, no entanto, Lobo Mau mostra astúcia (ainda que meio tosca e beneficiária da ingenuidade extrema da protagonista), propriedade que é sobejamente associada a outro tipo de canídeo, a raposa. Mas este lobo não é nada mau na arte de pensar. É calculista - mas calculista ao ponto de não se incomodar com o roer de carnes duras e ossos cheios de osteoporose da Avozinha só para mais tarde se deleitar com a frescura rosada da carne tenra de Capuchinho, essa que nem diante de tão grandes olhos, mãos, nariz, orelhas e dentes conseguiu antecipar que aquele que ali estava não era a Avozinha em metamorfose, mas antes um animal selvagem e astuto que se enfiou na cama para a comer (não fui eu que escrevi a história, não olhem assim para mim). Já a Rainha Má, madrasta de Branca de Neve, é uma mulher sem escrúpulos nem sentido do ridículo, cujo motivo para ser insuportavelmente cruel é do mais superficial que os contadores de histórias algumas vez conseguiram inventar. Acostumada a ser a mais bela de todas, confia no seu espelho encantado 

para que este confirme frequentemente a sua expectativa. No dia em que Branca de Neve faz 17 anos e se torna, aos olhos do espelho, elegível para ser bela, a madrasta recebe com maus fígados a notícia de que foi superada em termos de beleza. Então decide, roída pela mais profunda inveja, que isto assim não pode continuar. Tenta de tudo para acabar com a vida de Branca, começando por contratar um caçador para a matar, exigindo que o pobre homem lhe traga o coração da jovem. O caçador, humano e escrupuloso, não consegue matar Branca de Neve: mata antes um veado e leva o coração do animal à malvada Rainha Má. Esta, não satisfeita com a atrocidade de ter mandado matar a enteada, assa o coração e come-o, julgando tratar-se do verdadeiro órgão de Branca. Temos, portanto, uma vilã que, por motivos tão superficiais como não ser “a mais bela”, manda matar uma adolescente e decide abraçar o canibalismo por causa do que lhe dizia um espelho que tinha na parede. Tudo super normal aqui. Certamente, o pai de Branca de Neve terá visto naquela senhora aquilo que mais ninguém viu.

Muito semelhante à Rainha Má de Branca de Neve é a fada má de Bela Adormecida. No caso desta, porém, o motivo da sua vingança é menos frívolo do que o outro que levou a Rainha Má a perder a cabeça e a lançar-se sem medos nos braços da antropofagia. Esta ex-fada perdeu as asas e o bom senso quando, em jovem, o amor da sua vida a trocou por outra - como tão bem é explicado na versão atualizada de A Bela Adormecida, o filme Maléfica, da  Disney, protagonizado por Angelina Jolie, em que se mostra a origem da maldade desta feiticeira do mal. Foi um desgosto de amor muito profundo que despertou nela os instintos mais maléficos - a mulher por quem foi trocada em jovem era precisamente a mãe de Aurora, a bela adormecida, e então decidiu vingar-se. Quem é que consegue ser racional diante de um grande desgosto amoroso? Maléfica é até muito humana para quem foi fada - “há maldade, e ódio, e vingança neste mundo”, diz calmamente Angelina Jolie na sua versão mais malvada enquanto explica a Aurora porque é que tudo vai correr mal (antes de correr bem, segundo os parâmetros de quem puxa pelos bonzinhos). A fada Maléfica apresenta ainda características que vão muito além dos expedientes rudimentares de outros vilões que visam enganar, desencaminhar ou simplesmente aniquilar os seus alvos. Esta feiticeira das trevas é dotada de grande paciência e de maior crueldade. Por ter sido mal recebida no palácio do Rei (lembremo-nos que o rei já foi o amor da sua vida), por não terem encontrado nas instalações reais mais um prato de ouro para a sentar à mesa com as outras sete fadas, Maléfica engendrou um plano tão engenhoso e genial quanto insidioso. Lançou um feitiço que faria com que Aurora morresse quando fizesse 16 anos depois de se picar num fuso. Dezasseis anos: um intervalo de tempo suficientemente grande para que todos se esquecessem do feitiço, uma quantidade de dias bastante para que os pais da bebé desenvolvessem um amor capaz de os dilacerar no dia em que ela morresse.

Se a vingança é um prato que se serve frio, a de Maléfica talvez seja o expoente máximo dessa arte. Falamos agora de planos insidiosos depois de termos falado há pouco de canibalismo, o que torna apenas justo que nos detenhamos a contem- plar a magnífica bruxa de Hansel e Gretel, ávida sedutora e comedora de crianças. Abreviando, os irmãos Hansel e Gretel perdem-se na floresta durante algum tempo e ficam esfomeados. Encontram uma cabana cheia de doces e são atraídos para lá por uma velhinha que é, na verdade, uma bruxa. Esta bruxa vai prendê-los e vai alimentá-los com grande abundância. Para quê? Para os engordar. Para quê? Para depois os assar e comer. Ao pé da bruxa deste conto de fadas, a madrasta da Cinderela é só uma senhora com mau feitio. É curioso notar que os traços que definem as vilãs tendem a ser diferentes daqueles que sobressaem nos vilões. A maldade feminina é, nos contos de fadas, quase sempre dotada de ardil e de engenho, a vilã é na maioria das vezes insidiosa e calculista, ao passo que as figuras malvadas masculinas tendem a ser brutas e não particularmente espertas - veja-se o gigante de João e o Pé de Feijão, por exemplo, ou o Lobo Mau de Os Três Porquinhos, ou, num registo um pouco diferente, Shere Khan de O Livro da Selva: todos são brutos e nenhum é brilhante, ainda que o tigre criado por Rudyard Kipling tenha pretensões a dominar a astúcia. Fica a impressão de que, nos contos de fadas, a figura masculina é má porque lhe falta inteligência, ao passo que com a figura feminina ocorre o contrário: a maldade nasce-lhe precisamente do poder do intelecto. Talvez Karate Kid merecesse um spin-off que explorasse a personagem de Ali Mill. Essa sonsa.

Texto originalmente publicado no The Fairytale Issue da Vogue Portugal, disponível aqui.

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