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Entrevistas 25. 3. 2020

Victoria Guerra: "Acho que para qualquer ator a internacionalização é importante."

by Sara Andrade

 

V for Victoria. As in Guerra. Victoria Guerra. 

Fotografia de Branislav Simoncik. Styling de Larissa Marinho..

Que também podia ser uma agente secreta, porque na questão da exposição, o ponto de vista da atriz é muito similar ao de Ribeiro (aliás, o discurso de ambas toca-se em muitos pontos, até na coincidência do primeiro filme que foram ver ao cinema – que foi O Rei Leão, fyi): “(...) Eu lido bem com a exposição... eu nunca me expus, isto vem de mim desde miúda, ou seja, não é defeito, é feitio, não sou uma pessoa de me expor muito, nem com os meus amigos. Portanto, também não o faria com o público. (...) E eu gosto de me expor nas minhas personagens. E gosto que as pessoas vão ao cinema, e liguem a televisão, e vejam aquela personagem, e quero que acreditem na personagem, não quero que saibam tanto sobre a minha vida privada, porque isso se calhar pode [influenciar a personagem]. Eu gosto de guardar algumas coisas para que o meu trabalho depois seja também mais verosímil. E, nesse sentido, gosto do meu lado privado.”

Expor-se nas personagens prende-se também com a liberdade que a profissão lhe dá e que adora, confessa à Vogue, apesar de nunca ter previsto esta ingressão pela representação: “Bem, nunca pensei em ser atriz, porque para mim, não fazia sentido, não era uma ideia na minha cabeça que se pudesse ser atriz. Mas entrei para os Morangos com Açúcar, quando tinha 17 anos, em... 2006”, faz as contas de cabeça, num esforço para se lembrar das datas. Guerra tem agora 30. “E, na verdade, nem nessa altura pensei em ser atriz. Eu aceitei o desafio, porque para mim era uma experiência nova. E aquilo que eu mais gostei foi a liberdade que aquilo me deu, a liberdade de ser aquilo que
eu quisesse, ou seja, tudo aquilo que nós temos algum receio de fazer na nossa vida pessoal, algum pudor, sei lá, em gritar... ou exprimir-nos, de certa maneira, eu ali sentia-me superconfortável e livre. Só mais tarde, quando comecei a fazer outras novelas, é que pensei: ‘ok, se calhar isto é uma possibilidade...’ (...) Demorei a perceber se era capaz, se ia conseguir, e quando percebi o tipo de trabalho que envolvia, e interessou-me muito, ok, vamos lá olhar para isto como uma coisa séria, e comecei a ver as coisas de outra forma e a trabalhar nesse sentido.”

"Demorei a perceber se era capaz, se ia conseguir, e quando percebi o tipo de trabalho que envolvia, e interessou-me muito."

E esse trabalho não foi coisa pouca: em pouco mais de uma década de carreira, tem sido livre em mais de uma dezena de séries, telefilmes, novelas (incluindo o Dancin’ Days, com Joana Ribeiro, mas também os mais recentes 3 Mulheres, Alma e Coração e o próximo Auga Seca, só para mencionar alguns dos cerca de 15 projetos televisivos até agora); tem sido livre no Cinema – nacional e internacional, acumulando outros tantos títulos aclamados, como Variações, Aparição, Linhas de Wellington, Pedro e A Herdade, que esteve na corrida para os Óscares de 2020; foi livre até no Teatro... e essa liberdade bem aplicada foi reconhecida com uma série de galardões, desde o Globo de Ouro em 2013 como Revelação do Ano e do prémio Sophia (2016) para Melhor Atriz, pelo Amor Impossível – filme pelo qual arrecadou o segundo Globo de Ouro nesse mesmo ano, enquanto Melhor Atriz de Cinema – ao European Shooting Stars, em 2017: “ Eu fiquei super contente, porque eles escolhem acho que são dez atores, na Europa, e não é por um projeto específico, é pelos vários projetos e pelo caminho que tens feito. E eu acho que é sempre bom quando te sentes valorizada nesse sentido. E isso foi muito importante para mim, porque pensei: ‘ok, alguma coisa estou a fazer bem’.” 

Ri-se, tal como Alba e Joana, quando mencionamos, em matéria de prémios, os Óscares: “Se acontecer, não o poria de parte, seria só ridículo, claro que não. Se algum dia ganhasse um Óscar, seria absolutamente espetacular. Mas acho que quando estamos a trabalhar não podemos estar a pensar nesse sentido”, opina. “Temos de pensar, ‘ok, eu quero fazer este projeto o melhor possível, enquanto atriz, porque é o meu trabalho neste momento’, não trabalhamos a pensar nos prémios. Creio. Os prémios são sempre a cereja no topo do bolo. [A Herdade esteve na corrida para os Óscares e foi um momento de adrenalina], claro que foi, e estávamos todos muito contentes e muito excitados por essa possibilidade. Não só pelo filme, mas por Portugal, por podermos ter um filme português a representar o país nos Óscares, isso seria incrível.” 

Sinais da internacionalização, não só da indústria cinematográfica, mas de todas as áreas, só que nesta é particularmente compensador pela visibilidade e para chegar a novos projetos: “Acho que para qualquer ator a internacionalização é importante. Não só para nós, mas também para o país, e definitivamente há cada vez mais trabalho [internacional]. Estamos cada vez mais conectados... e isso faz com que seja mais fácil mostrar o teu trabalho. E tens oportunidade de trabalhar noutros projetos, com outras pessoas, com mais financiamento, projetos com outro tipo de produção, e isso também é importante, não só pela internacionalização, como falas, mas também para ti, enquanto atriz, para crescer”, afirma Guerra.

"Acho que para qualquer ator a internacionalização é importante. Não só para nós, mas também para o país."

E um dos seus veículos mais fortes serão as tais self-tapes: “Eu acho que as self-tapes são fabulosas”, defende, “porque hoje em dia, podes estar a fazer um casting, em casa, para o outro lado do mundo. Não tens de viajar, podes estar no teu próprio país, a fazer um trabalho e a representar, mas estar ao mesmo tempo a fazer self-tapes para outros projetos pelo mundo fora, e isso é muito bom, obviamente. O que significa que não despendes tempo nem dinheiro em algo que até pode não dar em nada. E não só: também não tens que estar a recusar trabalho no teu país para tentares algo que não é garantido. E é superimportante continuares a trabalhar porque também estar parado [não é aconselhável]. Outra coisa boa das self-tapes é que também estás a trabalhar. E isso é uma coisa que eu gosto muito, porque cada self-tape é uma personagem diferente e... dá-te estaleca, e dá-te que pensar, estás a usar a cabeça e estás a trabalhar e estás a pensar, não exatamente numa personagem ou num projeto, mas normalmente enviam-te um texto ou três textos com variações para ver o que é que podes fazer, e isso é um trabalho, na mesma.” 

Talvez um dia venha a fazer uma self- tape para ser escolhida como Princesa Diana, que é um papel que gostaria que tivesse sido seu (e quem sabe será): “Porque era uma mulher fascinante e muito parecida fisicamente com a minha mãe. Cresci com uma mãe, que admiro muito, e que tinha uma forma de pensar e de ver o mundo parecido com o dela, portanto, era um papel que eu adoraria ter feito e achava ‘um dia vou fazê-lo’”, confessa, entre risos. Já a retrataram em imensos filmes,
um dia ainda pode ser com a Victoria Guerra, encorajamos. 

A atriz pode não ser fácil de decifrar, mas é fácil de perceber que, venha ou não venha essa personagem de Lady Di, Victoria quer é a experiência da representação na maior multiplicidade de papéis que conseguir: “Acho que naquela altura não havia escolhas, até porque não tinha tantas ofertas em cima da mesa que o permitissem”, explica-nos, quando questionamos se é muito seleta nas escolhas de trabalho. “Ia fazendo novelas, e na verdade ia tendo personagens bastante diferentes, e divertia-me muito em trabalhar nesse sentido, ou seja, em entrar no universo de outra pessoa (...) E como te disse, a liberdade que isso me dava era gigante, divertia-me muito, todos os dias era uma pessoa diferente. E como nunca sabia muito bem o que é que queria ser, quando era miúda, pensei, ‘ok, eu posso ser todos os dias, ou vá, todos os meses, ou todos os anos, uma pessoa diferente. E isso interessou-me muito. A escolha veio muitos anos depois, obviamente; se calhar hoje faço escolhas nesse sentido (este projeto ou aquele projeto), mas naquela altura não era assim.” 

“As plataformas de streaming em Portugal, não ajudam em nada o Cinema português.”

E as opções chegam de todo o lado, até porque os tempos modernos têm permitido mais visibilidade e, consequentemente, mais acesso: “com as plataformas de streaming, acho que é mais fácil ter acesso a castings e a self-tapes, para séries. Para cinema, acho mais difícil. Em Portugal, eu acho que o cinema continua a ter pouco financiamento, por isso não posso dizer que seja mais fácil.”, lamenta. “Acho que as coproduções entre países, ajudam o cinema português. As plataformas de streaming em Portugal, não ajudam em nada o Cinema português. Porque acho que ainda somos um dos países em que uma quota parte do dinheiro não vai para o cinema. [Para] Quase todos os países, as plataformas de streaming têm uma quota parte de subsídios para Cinema. [...] A Netflix em Espanha, por exemplo, é obrigada a ter xis por cento de produção nacional, espanhola. A Netflix em Portugal não é obrigada. E isso eu acho que é um problema. Não ajuda o mercado, não nos ajuda a nós, e nós também não temos um mercado enorme, não temos um mercado com muitas séries, por isso era porreiro se facilitassem esse lado. Se tivéssemos esses incentivos, havia mais financiamento, haveria mais dinheiro para fazer séries.” 

Acérrima defensora da indústria por cá, é também um dos nomes líder a levá-la a bom porto, acumulando projetos em português dignos de aplausos em todas as línguas. Sobre os próximos, “não posso adiantar nada, mas posso dizer que o último filme que fiz foi O Ano da Morte de Ricardo Reis, com realização de João Botelho, que não tem data prevista de estreia... Outros filmes ainda vão sair: o Pedro, da Laís Bodanzky, que é uma coprodução entre Portugal e Brasil, lá está... e agora estreou uma série em que eu entro, Auga Seca, na RTP.”  

Vitória é pouco para falar das conquistas de Guerra no Cinema. E a batalha ainda agora começou. 

Victoria Guerra protagonizou o editorial As Três Mosqueteiras com Joana Ribeiro e Alba Baptista que pode ver, na íntegra, aqui. Para ler a entrevista a Alba Baptista clique, aqui, e para ler a entrevista a Joana Ribeiro clique, aqui.

Artigo originalmente publicado na edição de fevereiro de 2020 da Vogue Portugal.

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