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Entrevistas 25. 3. 2020

Alba Baptista: “Chegar acaba por ser mais fácil do que permanecer.”

by Sara Andrade

 

“Eu lembro-me sempre de querer ser artista, quis ser pintora, pianista... representação nunca foi um objetivo, um departamento que eu soubesse que me fascinasse”, conta Alba Baptista à Vogue. 

Fotografia de Branislav Simoncik. Styling de Larissa Marinho..

“Sempre tive o apelo [pelos filmes], mas não sabia que era aquilo que queria até ser chamada para um casting, o Miami. E eu não sabia sequer o que era um casting, como é que funcionava, e tive sorte porque o realizador estava à procura de uma mentalidade específica, que fosse ao encontro do papel, e eu casei bem com aquilo que ele procurava.” Miami é uma curta-metragem, de 2014, de Simão Cayatte, que fez quando tinha apenas 15 anos. Não foi a primeira: antes, em 2012, já tinha estreado o CV da representação com Amanhã é um novo dia, de Raquel Pinheiro. Mas Miami foi o game changer: “na verdade, foi por causa do Miami que eu percebi que amo isto e que quero explorar e aprender e crescer”, confessa- -nos, naquele final de tarde de domingo, depois de ter partilhado um dia inteiro de set com as colegas de profissão, Joana Ribeiro e Victoria Guerra. 

Hoje, do topo dos seus grandes, mas jovens, 22 anos, com mais de uma dezena de películas no cinema (Leviano, Linhas de Sangue e, quase a estrear, Patrick e Fátima, para mencionar apenas algumas), quase tantas na televisão – incluindo uma série da Netflix que aí vem, Warrior Nun – e até prémios e nomeações pela sua arte (foi a vencedora do NICO Atriz Revelação, pela Academia Portuguesa de Cinema, e arrecadou o prémio Revelação Subtitle, no Festival de Cinema Europeu Subtitle, por exemplo), Baptista partilha como é iniciar-se em castings tão nova: “No início, eu era chamada com uma longa fila de outras concorrentes, de outras atrizes, ou aspirantes a atrizes. E acho que como também éramos muito mais novas, a maioria das miúdas não sabia muito bem como lidar com aquilo de ver a concorrência à frente”. Mas dificilmente deixou que a afetasse: “Eu trazia sempre o meu livrinho e gostava de apagar um pouco... também era muito ingénua em relação ao processo todo, não ligava muito ao que se passava. Com os anos, fui ficando mais consciente, mais insegura, e sempre tentei trazer aquela ingenuidade que tinha ao início e tento carregar isso comigo, sempre.” 

Agora, vai fazendo castings, mas “menos do que os que fazia há dois anos. Hoje em dia, já há referências do meu trabalho, então as pessoas convidam-me, mas não é sempre o caso”, o que não quer dizer que não seja menos desafiante: “A coisa mais inesperada que me pediram para fazer? Eu sinto que é sempre diferente, principalmente em Cinema, porque como costuma ser obra de autor, é sempre muito do que vai dentro do train of thought do realizador, ou seja, do que é que ele procura especificamente. Portanto, nunca tive assim um padrão muito parecido... com o Simão Cayatte, por exemplo, para o Miami, lembro-me que a primeira pergunta foi: ‘Como é que processas a culpa?’ E isto assim aos quinze anos foi superinteressante. Ele só estava à procura de perceber qual era o meu raciocínio em relação a isso.” E a resposta? “Lembro-me que disse que lidava muito bem... eu a tentar parecer assim muito adulta... que lidava super bem e que aguentava e que permanecia sempre calma, mas que com o tempo a culpa ia-me consumindo viva e... na verdade, não lidava muito bem com isso.”, termina, entre risos. 

"Com os anos, fui ficando mais consciente, mais insegura, e sempre tentei trazer aquela ingenuidade que tinha ao início e tento carregar isso comigo, sempre.”

Entretanto, a par dos castings, a era da Internet e tecnologia trouxe um novo fôlego, com lados bons e maus, aumentando visibilidades em redes sociais e afins e democratizando o acesso à sétima arte ao permitir que se aproximassem fronteiras. Nomeadamente, com formatos como o self-tape: “Eu adoro. É um casting que tu podes filmar em casa. Ou seja, na verdade, és tu que realizas o teu próprio casting, tu analisas a tua própria cena, a contracena e... tu podes escolher o rumo. Isso dá oportunidade aos realizadores e aos produtores, onde quer que eles estejam, de perceberem como é que tu funcionas e que escolhas é que tu fizeste e, por mais que tu estejas fantástica na self-tape, eles sabem que tu podes melhorar, porque não tiveste direção nenhuma”, explica-nos. 

“Acho que estamos a viver numa ótima era para atuar. E para internacionalizar a carreira, acho que é a melhor era até agora, nomeadamente pelas self-tapes. É uma oportunidade que abriu imenso caminho para tantos atores que estão à espera ‘daquela’ chance. Atores, aspirantes a atores, atores que já têm muita experiência, mas que nunca conseguiram mostrar o valor lá fora....” Mas não menospreza o poder do casting presencial: “Se perguntares a muitos atores, vai haver sempre divisão de opiniões porque vai haver sempre os que gostam e os que não gostam. Eu, pessoalmente, também gosto da pressão de ter alguém à minha frente e ter de acertar. Também pode funcionar melhor.” 

É possível que os castings diminuam e as self-tapes aumentem, assim que estrear Warrior Nun na Netflix, onde interpreta uma das personagens principais e cuja oportunidade surgiu a partir de – sim, adivinhou – uma self-tape: “Fui convidada para ir a um festival de Cinema europeu que se chama Subtitle, onde anualmente vários casting directors internacionais se reúnem e, durante uma semana, a elite dos atores europeus encontra-se lá. Têm constantes reuniões e encontros e é uma oportunidade para os dois lados. E um agente desse festival viu o meu showreel e convidou-me para ir”, relata Alba. “[Isso] foi o que me abriu todas as portas, porque (...) num dos dias, uma das casting directors disse-me: ‘Olha, vais receber um e-mail hoje à noite’. E quando eu recebi, fui logo ver as cenas e depois estava a ler e pensei ‘wow, esta personagem é fixe, é mazona... depois li a informação no e-mail e dizia ‘Netflix Production, lead character’, e eu fiquei... pfff, ok...”, a onomatopeia e o olhar denunciaram a expectativa baixa de conseguir tão cobiçado papel, mas não foi dissuasor de o perseguir: “Vou fazer na mesma, vou-me divertir imenso, porque eu nunca vou ficar...e a Joana [Ribeiro] e o Nuno Lopes, que também estavam nesse festival, ajudaram-me com a self-tape, porque eu nunca tinha feito uma, não sabia em que consistia... e disse-lhes: ‘Pessoal, eu não vou conseguir isto, mas ‘bora divertirmo-nos’, ‘bora fazer uma cena assim um bocado maluca...’ e fizemos, filmámos, e correu bem”. 

“Acho que estamos a viver numa ótima era para atuar. E para internacionalizar a carreira, acho que é a melhor era até agora, nomeadamente pelas self-tapes."

Tão bem que a história chega em breve à plataforma e gira “em torno de uma mulher que acorda numa morgue com poderes inexplicáveis e se vê envolvida numa batalha entre o Bem e o Mal.”, diz a sinopse. Pouco mais se sabe. Mas sabe-se algo dos bastidores: “Acho que a maior diferença é ter sido uma equipa muito maior do que o costume. Os americanos são muito straight to the point, não há necessidade de haver algum tipo de ligação pessoal para correr bem, gostei muito disso. É muito pragmático. E identifiquei-me.” 

A internacionalização é importante para um ator, questionamos. “Depende do que cada ator quer, é muito subjetivo. Para mim sempre foi, eu sempre quis explorar o facto de falar outras línguas e ter essa oportunidade, porque acho que a forma de representação também muda ligeiramente, a partir do dialeto que falamos, pelo menos senti muito isso com o americano. Mas sem dúvida que é igualmente válido permaneceres no teu país e criares reconhecimento e uma pegada importante também no sítio de onde vens.” E se a internacionalização trouxesse um Óscar? Ri-se. Todo o trio de talento nacional se riu com a perspetiva. Nunca pensaram muito nisso e as respostas comprovam-no: “Não vejo isso como uma realidade próxima... [risos]. Acho que reconhecimento é importante, para a nossa indústria, sem dúvida. Porque nós damos a nossa emoção, por isso, quando sentimos que há uma validação, é como se fosse um alívio. No entanto, não acho que seja necessário para continuar a ter garra e amor pela profissão. Seria um bónus”, remata. Que, se chegasse, provavelmente ficaria “em casa da minha mãe, ou do meu pai... provavelmente ficava com eles.” 

"Os americanos são muito straight to the point, não há necessidade de haver algum tipo de ligação pessoal para correr bem, gostei muito disso."

Esteja a Academia de olhos abertos o suficiente ou não para atribuir galardões aos nossos e às nossas, a época que corre é pródiga em criar essas oportunidades – ou pelo menos, uma exposição que a torna mais tangível. Será mais fácil fazer Cinema na altura do social media? “Eu não apoio, mas acho que sim, por vezes. Por vezes. Não sou adepta [da fórmula], mas tens mais visibilidade, sim. Lembro-me que um produtor me disse: ‘the problem isn’t to get cast, is to get recast [o problema não é conseguires um casting, é voltares a ser chamada]’. E isso é muito verdade, porque chegar acaba por ser mais fácil do que permanecer.” 

Permanecer, a nosso ver, para Alba, já parece uma realidade e não um objetivo, se os projetos do passado, presente e futuro servirem de argumento: “o Patrick, do Gonçalo Waddington, que filmámos o ano passado, já estreou em San Sebastian, vai estrear também este ano nos cinemas. E este filme que estive a filmar do Gonçalo Galvão Teles, que se chama Nunca Nada Aconteceu e é um filme muito bonito, muito trágico, vai estrear também, imagino que mais no verão”, conta-nos, sobre o que está a chegar (além de Warrior Nun). “E mais umas coisinhas...”, deixa no ar, mas que adivinhamos que serão rastilho para mais coisinhas e mais coisinhas e mais coisinhas... E nós acompanharemos – não da primeira fila, porque as primeiras filas nos cinemas são lugares terríveis para uma boa experiência de visualização, mas de meio da sala, vá, dos lugares centrais. Como pede o grande ecrã.


Alba Baptista protagonizou o editorial As Três Mosqueteiras com Victoria Guerra e Joana Ribeiro que pode ver, na íntegra, aqui. Para ler a entrevista a Joana Ribeiro clique, aqui, e para ler a entrevista a Victoria Guerra clique, aqui.

Artigo originalmente publicado na edição de fevereiro de 2020 da Vogue Portugal.

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