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Entrevistas 20. 7. 2018

Too good to be true

by Irina Chitas

 

Falar com Karlie Kloss tem dois efeitos consecutivos. Primeiro, sentimo-nos pequenos (pun intended) por termos feito tão pouco das nossas vidas. Segundo, sentimo-nos gigantes porque esta mulher embrulha-nos num abraço de confiança com cheiro a bolachas e mostra-nos que podemos ser o que quisermos. 

© ImaxTree

Vivemos numa sociedade cínica e com sérios problemas de autoestima. Esta é uma péssima maneira de começar um texto, especialmente um texto sobre Kloss, mas a verdade é que parecemos ter um instinto inato de insolência – chamemos-lhe um desprezível reflexo defensivo – que nos causa resistência a tudo o que parece demasiado bom. Voltemos a 2013, quando a Internet se incendiou contra Anne Hathaway por parecer demasiado perfeita – não é, #hathahaters? E depois existem os mandamentos universais de “não há almoços grátis” ou “quando a esmola é grande, o pobre desconfia”. Há demasiadas variáveis em jogo para sermos sãos logo à partida. Somos programados pela regra do par ação-reação. Estamos tão sedentos de sentir alguma coisa que a bondade pura nos soa a aborrecido – ou a esturro. Somos tão egoístas que lidamos para lá de mal com a perfeição dos outros, porque a perfeição tem uma luz tão forte que serve também para contrastar com as nossas sombras. 

É com tudo isto que somos confrontados antes de conhecer Karlie Kloss. Tontos, claro, antes de aceitarmos que existem, de facto, super-heróis, escarafunchamos até ao núcleo terrestre à procura de defeitos. Óbvio que Kloss não ajuda à conversão dos mais céticos. Sim, pode ter tido problemas de confiança ao crescer com um corpo magro e tão alto que a cara tocava nos céus onde os anjos tocavam harpa enquanto andava – ok, vamos parar – mas logo aos 13 anos foi descoberta num desfile na sua terra-natal, aos 16 assinava com a Elite Model Management e fazia 31 desfiles na sua primeira semana de Moda de Nova Iorque (o resto é pura história da Moda, por muito cliché que isto possa parecer).

 

"As mulheres são resilientes, e são capazes de tudo."

 

 Às passerelles precederam-se carreiras brilhantes em ballet, ténis, futebol americano e natação. Antes disto, já havia nascido numa família de amor, em Chicago, mudando-se depois para St. Louis, onde cresceu (muito). O pai, Kurt, médico. A mãe, Tracy, artista gráfica. A irmã mais velha, Kristine, trabalha em Moda e na indústria de tecnologia. Tem duas irmãs mais novas, gémeas: Kimberly e Kariann. E, de repente, esta é a única família com “K” à qual queremos pertencer. A sério. Ah, mas continua. Kloss é assumidamente boa amiga, boa ouvinte. Adora cães, odeia desperdiçar comida, adora estudar. Queria ser médica. Correu, o ano passado, a maratona de Nova Iorque e enquanto faz jogging gosta mesmo de ouvir audiobooks. Para aprender mais um bocadinho. Foi modelo da Victoria’s Secret; deixou de ser modelo da Victoria’s Secret porque não se identificava com passar a maior parte do tempo em lingerie. É vlogger – o seu canal de Youtube, Klossy, é dos poucos que vale mesmo a pena seguir. Mais? Claro. Karlie’s Kookies, cujos lucros vão para instituições de caridade que protegem crianças com fome. Kode With Klossy, a bolsa de estudo que ensina programação a jovens mulheres. A sério? Isto é for real? Isto é, sequer, justo para todos os outros comuns seres humanos? Há assim tanta fraqueza em nós por tentarmos encontrar uma falha no código binário da perfeição? Há. Shame on us. 

© Getty Images

Todo este tempo andou Karlie Kloss a ensinar-nos pelo exemplo que todos podemos ser melhores. E aqui estamos, a duvidar. Até nos sentarmos com ela, recebermos um abraço que lhe saiu do coração e ouvir “antes de mais, feliz Dia Internacional da Mulher!” com um sorriso tão grandioso que se torna proporcional à nossa vergonha. Sim, era dia oito de março quando nos sentámos num sofá branco, em Nova Iorque, para o lançamento do Good Girl Eau Légère, da Carolina Herrera, e uma conversa de peito cheio com a luz em pessoa. 

Vimo-la primeiro na noite anterior, quando pensávamos que a tempestade de neve que lavava a cidade a impediria de voltar a casa. Kloss estava em Paris, no desfecho da Semana de Moda, e o voo, a acontecer, aterraria quase em cima do evento. Mas já dissemos que Karlie tem uma cunha com anjinhos que tocam harpa e chegou, airosa, brilhante, fresca, elegante, sem um pingo de jet lag na pele, num perfeito fato negro e elogios para entregar de bandeja a quem quer que lhe apertasse a mão. “Adoro a tua maquilhagem.” “Esse vestido fica-te incrível.” “Não, tu és incrível.” Vá lá, como é que pode ser real? Como é que pode não ter revirado os olhos depois de lhe ter dito “Meu Deus, és alta”, como todos os outros seis biliões de habitantes da Terra já devem ter feito. Depois de um voo transatlântico há uma percentagem ínfima de pessoas que conseguissem, de facto, interessar-se por outros seres humanos, sorrir genuinamente, conversar com curiosidade pura. Na verdade, achamos que só Karlie.

 

 

É esse o mesmo efeito que está lá, no dia a seguir, durante a entrevista. O efeito Kloss. Carolina Herrera de Baez dir-nos-ia, horas mais tarde, que “a Karlie é alguém que está ligada à casa há muito tempo. Começou a desfilar connosco aos 15 anos. E ainda é muito nova, tem 25 anos, mas considero-a uma mulher incrível, tem os pés assentes na terra, é empreendedora, tem carisma, tem mistério, é sensual, é claro que é bonita, mas esse é o menor de todos estes motivos. Eu queria [que o rosto do Good Girl fosse] uma mulher independente, uma mulher forte, uma mulher poderosa que empodere outras mulheres com o que faz – e ela fá-lo através da tecnologia e das bolachas, sabes? Eu gosto dela. O que ela representa é incrível, e só tem 25 anos. Imagina quando tiver 45”. Sim, incrível é a palavra certa.  

No dia em que estávamos, era impossível não começar a conversa pelas mulheres, pela conversa constante por e sobre as mulheres, e Kloss, que nunca deixa de realçar o que tantas outras feministas fizeram para hoje podermos fazer o que fazemos e estarmos aqui a conversar, diz-nos que este poder sempre existiu, as mulheres sempre fizeram tudo, e sempre tentaram fazê-lo bem, “mas não era dito. As ações falavam mais alto que as palavras. Mas agora sim, é uma conversa que, hoje, é muito importante. Por isso acho que são tempos muito entusiasmantes. (...) É importante continuar a desafiar o status quo para que a cultura possa continuar a evoluir. As mulheres são resilientes, e são capazes de tudo, e agora isso tornou-se uma conversa constante”.

Senta-se de pernas cruzadas, numa T-shirt de malha e uma saia‑lápis e uns olhos curiosos, sedentos, atentos, afiados, bondosos. Por trás deles está a Moda, o empreendedorismo, a filantropia, a caridade, a tecnologia. Os dias continuam a ter 24 horas e os nossos parece-nos que mal dão para apenas uma destas coisas, por isso como é que se faz este puzzle? “Enquanto mulheres, hoje, e durante toda a história, há tantas facetas do que somos, há tantas partes diferentes da nossa vida, pessoais, profissionais, somos tão multifacetadas”, diz-nos. “Seguir todas essas paixões, é isso que tento fazer na minha vida. Não é um caminho linear, adoro a minha carreira em Moda, mas também adoro aprender, e tecnologia, e ciência, e tomar bem conta de mim, e também adoro viajar… Nós, mulheres, temos tantos aspetos do que somos e acho isso tão importante, porque te torna mais equilibrada. E a vida é mais interessante assim.” 

 

 “Como cultura e como sociedade vamos ter de perceber como equilibrar onde, como e quanto é que a tecnologia deve ter impacto nas nossas vidas."

 

 

Falamos sobre tempo para estar sozinhas – Karlie é uma ninja das máscaras faciais em aviões – e do quanto a irmandade entre as mulheres ajuda a relembrar que, embora a luta seja árdua, ser mulher é, ou pode ser, a coisa mais alegre, libertadora e fascinante que existe. Falamos também da quantidade de vezes que nos esquecemos disto. “Sentir-me poderosa é sentir-me no meu melhor. A dança e o movimento, ou até a Moda e coisas que possas pensar que são triviais, são partes muito importantes para mudar a forma como te sentes no teu corpo, na tua vida. Sinto que empowered é uma palavra sobre-utilizada, às vezes, e que tem tomado conotações tão diferentes que muitas delas já se tornaram negativas – o mesmo com o feminismo. Mas sentir-me no meu melhor tem tudo a ver com amor próprio. E pode ter a ver com exercício, ou com comer coisas que me preencham e me façam sentir forte e com energia. Mas também pode ter a ver com investir na minha educação, nas minhas relações, na abertura da minha mente a coisas que me desafiem, a lugares que eu não conheça. Tudo isto pode afetar como te sentes no teu corpo e na tua vida. Mas acho que a conversa que existe agora é muito interessante, é um tempo muito entusiasmante para se ser mulher, para se ser uma jovem mulher, porque continuamos a quebrar barreiras.” 

Não é um pouco assustador também? As redes sociais assombram-nos cada vez mais – ah, olá Mark – e não raras vezes parecemos baratas tontas que gritam nos feeds e cruzam os braços no sofá. Karlie acrescenta ainda que o facto de todos termos uma voz só nos dá cada vez mais responsabilidade. “Além do que está a acontecer nas redes sociais, e da voz que projetas para o mundo, o que é muito importante é a forma como vives a tua vida e as ações que tomas todos os dias, e as pessoas em que causas impacto. Como vives a tua vida, a forma como influencias outras meninas e mulheres, acho que essa é uma responsabilidade que todas as mulheres têm.” Mas o que é que esta tech guru, esta autêntica força da natureza que luta para que a estatística de apenas 18% dos licenciados em ciências informáticas sejam mulheres seja algo arcaico, pensa em relação à forma como a tecnologia está a transformar a forma como nos vemos enquanto humanos? “Como cultura e como sociedade vamos ter de perceber como equilibrar onde, como e quanto é que a tecnologia deve ter impacto nas nossas vidas. Mas enquanto meio criativo, enquanto meio de criar e expor uma ideia, há tanto que me inspira no poder da tecnologia. É isso que me apaixona. É isso que acho entusiasmante. É pensar em todas as formas de poderes inovar e repensar a forma como o mundo opera, e criar tecnologia ou negócios, ideias, apps, plataformas, coisas que não existem, e que podem tocar muita gente, muito depressa. É isso que me entusiasma.” Criar, criar, criar, para o infinito e mais além – ah, é verdade, Kloss também quer ir ao espaço, apesar de já ter conquistado o universo. 

 

"Sinto-me sortuda por viver numa parte do mundo e numa era em que sou livre de usar o que quero.”

 

Não é exagero chamar-lhe supermodelo. E nós temos muito cuidado a quem entregamos este rótulo. Há 10 anos que Kloss faz parte da indústria e, consequentemente, é também parte de nós. Conquistou tanto com brandura e doçura que nem sequer importa que tenha 7,2 milhões de seguidores no Instagram. De quantas modelos é que podemos dizer isto? Assim de repente, lembramo-nos de muito poucas. Continua, uma década depois, a defender que a confiança é a qualidade mais sensual numa mulher. Rege-se piamente pelo mantra de que, se o corpo está são, a mente está sã e, por isso, a beleza atinge o seu pleno. Consegue-o com meditação – yap, também usa a Headspace, o que a aproxima perigosamente de um ser humano normal. E continua, acima de tudo, a deixar-se fascinar. É isso que a põe nas estrelas, o deslumbre constante, o coração aberto a aprender todos os dias, a genuinidade do carinho com que olha os outros. E até com que olha para a Moda. “Acho que a Moda pode ser um meio muito poderoso para expressar o que estás a pensar ou a sentir.

Olhando para os anos 50, 60, 70, 80, 90, a Moda ajudou, de facto [a definir o papel da mulher no mundo]. Olha para o power suit que foi uma autêntica reflexão do que se passava na cultura e na sociedade. Acho que a evolução é constante. Tanto mudou. A tecnologia mudou totalmente a forma como interagimos, como nos inspiramos, não é só o que está na passerelle; é o que está na rua, o que as pessoas usam no dia a dia. A Moda é uma ferramenta muito poderosa para a forma como uma mulher se expressa”, e hoje, mais do que nunca talvez, porque “existe muito mais individualismo. E outra coisa: em vez de se seguir cegamente o que é suposto uma mulher usar, usa-se o que se quer. Eu tanto gosto de me vestir de forma muito feminina como de forma muito masculina no dia a seguir, opostos completos. Saltos, rasos, ténis… é algo que realmente aprecio, porque não somos só uma coisa. Sinto-me sortuda por viver numa parte do mundo e numa era em que sou livre de usar o que quero”. E nós, que vivemos numa era em que existe Karlie Kloss?

 

* Artigo originalmente publicado na edição de maio da Vogue Portugal

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