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Toda a gente pode usar vestidos

17 Jun 2021
By Joana Rodrigues

“Ninguém nasce mulher, torna-se mulher." A citação de Simone de Beauvoir foi publicada pela primeira vez em 1949. Mais de sete décadas depois, ainda muito há para discorrer sobre o assunto.

“Ninguém nasce mulher, torna-se mulher." A citação de Simone de Beauvoir foi publicada pela primeira vez em 1949. Mais de sete décadas depois, ainda muito há para discorrer sobre o assunto.

Billy Porter © Instagram
Billy Porter © Instagram

Os primeiros sapatos de salto alto de que há registo eram utilizados por soldados da cavalaria Persa, no século XVI, para manter os pés presos nos estribos dos cavalos. Mais tarde, o salto alto passou a ser um objeto do homem no dia a dia, como um símbolo de riqueza. Durante a Idade Média na Europa, a altura do sapato era um reflexo da autoridade do homem: quanto mais alto o salto, mais alto o status. O rei, o derradeiro autoritário, era o detentor do sapato mais alto, tome como exemplo o Rei Luís XIV de França.

Já a saia teve a sua origem no Antigo Egito. A peça original era um pedaço de tecido que se enrolava à volta da cintura e era presa com um cinto, tinha o nome de shendyt. Normalmente feita de linho, a saia era utilizada por homens e, quanto mais alta era a classe social, mais fino e delicado era o tecido. Mais tarde, o corte foi adotado pelas mulheres. Mas ainda hoje existem determinadas culturas em que a saia é característica do guarda-roupa masculino, como o kilt escocês.

No entanto, nos dias de hoje associamos ambas as peças, e muitas outras, exclusivamente à mulher. Mas a verdade é que não há nada na fisionomia do homem que tenha evoluído para o impedir de usar uma saia ou um par de sapatos de salto alto. It’s all in our heads. Este condicionamento é-nos imposto desde cedo: pelos pais, avós, pelos media. Aliás, foi ainda em 1996 que Ross Geller, de Friends, entrou em pânico por saber que o seu filho (ainda bebé) brincava com uma Barbie. No entanto os objetos são, por natureza, coisas neutras, são um it, não um he ou she – não têm sexualidade.

Estamos em 2021 e cada vez mais vimos a perceber que o género não é uma coisa biológica que nos define à nascença. É, pelo contrário, uma caixinha (ou, neste caso, duas) man made com todas as características e expectativas específicas do homem e da mulher, uma conclusão da filósofa Judith Butler em 1990. A autora norte-americana diz que o género é um rótulo que cada um de nós constrói ao longo das nossas experiências sociais. Como? Ao tentar integrarmo-nos na sociedade, estamos a reproduzir os estereótipos que já existem, para que sejamos melhor aceites.

Kristen Stewart © Getty images
Kristen Stewart © Getty images

Cada vez mais vamos assistindo à lenta introdução do andrógeno e ao desafiar dos estereótipos – nesse sentido, um sincero obrigada a Billy Porter e Kristen Stewart. Talvez seja seguro dizer que a Geração Z está a tomar conta da missão de contestar os preconceitos impostos por gerações anteriores. Os mais jovens parecem não estar interessados em perpetuar o género de objetos que são naturalmente neutros. São só 45% as mulheres da Geração Z que dizem vestir roupas destinadas a mulheres. Num estudo feito em fevereiro de 2021, pela agência de marketing Bigeye, revelou-se que esta geração considera que atribuir género a produtos como perfumes, vitaminas e cuidados de pele não é vantajoso. Os rótulos binários estão desatualizados, segundo 50% destes jovens mas são os Millennials que mais concordam com esta afirmação, precisamente 56%. Daqui a dez anos vamos associar muito menos o género a características, produtos e profissões - 51% da amostra total, que inclui pessoas dos 18 aos 75 anos, concorda com esta ideia.

O desafiar dos estereótipos está a levar à ascensão de marcas de roupa genderless – destinadas a todas as identidades de género. A Telfar é uma marca de roupa e acessórios fundada em 2005 em Nova Iorque, cujos produtos não são comercializados exclusivamente para homens ou mulheres - it’s for everyone, diz o slogan. Também a Urban Outfitters tem uma coleção unissexo, com 34 peças de roupa e óculos de sol.

Talvez os rótulos binários estejam mesmo desatualizados, a emergência de identidades fora dos pólos homem-mulher é a prova disso. Então, porque continuamos a associar género a um pedaço de tecido? Se calhar a sociedade não vai descambar se deixarmos de o fazer.

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