Artigo Anterior

Out of the blue

Próximo Artigo

No Christmas, no drama: será possível dizer basta aos dramas familiares na época festiva?

Palavra da Vogue 9. 11. 2020

To be continued | Vai mesmo fazer essa desfeita?

by Sara Andrade

 

E se pudesse “desfazer” alguma coisa? Se a vida tivesse um atalho ao género do Ctrl-Z? Se pudesse fazer undo a um “erro” do passado? Se pudesse voltar atrás e mudar alguma coisa que preferia não ter feito ou ter feito de outra forma? Fá-lo-ia? Mesmo sob pena de não ser a pessoa que é agora, ou estar no sítio onde está agora? Se tivéssemos um botão de undo, teríamos vidas perfeitas? Talvez. Mas seriam elas assim tão interessantes?

Não sei quantas vezes pensei o quão gostaria de voltar atrás. Na verdade, sei: nenhuma. Bom, mais ou menos: fugazmente, é comum que me passe pela cabeça pensar que preferia ter escolhido outras palavras ou ter tido outra atitude, mas rapidamente esse sentimento dá azo a uma sensação de análise e solução. O passado é o passado, mesmo que tenha acontecido há cerca de 30 segundos, e o importante agora é saná-lo ou retirar dele o melhor.

Talvez porque nunca me arrependi profundamente de nada. Quem já fez algo verdadeiramente irremediável, pode ter uma perspetiva diferente. Mas até a essas pessoas, seguramente, a vida tratou de mostrar que o tempo traz uma nova luz sobre o assunto. De resto, todos os erros que fizemos foram uma espécie de aprendizagem que contribuiram para construir o caráter de cada um - se assim não fosse, seriamos todos iguais, sempre com a capacidade de voltar atrás e remediar o que quer fosse para regressar a um caminho incólume, muito provavelmente ditado pela sociedade e as nossas próprias condicionantes pessoais.

Se todos pudessemos voltar atrás e refazer escolhas, caminhos, mudar trilhos, estaríamos todos a viver vidas perfeitas - mais: seriamos muito menos diligentes a tomar decisões, porque poderíamos sempre clicar no undo, vivendo a vida de forma inconsequente. E sem consequências, não há lições. Adeus, raciocínio. Adeus, evolução. Adeus, adrenalina. Adeus, histórias para contar aos netos. Adeus conselhos para passar aos filhos. Adeus, biografias interessantes. Adeus, desbloqueadores de conversa. Adeus, humanidade que há em nós. 

Talvez a pergunta ideal seja não o que faria com ele, mas se seria interessante tê-lo (o tal botão de undo): fazer um Ctrl-Z a qualquer situação implica não criar anti-corpos para uma próxima similar que se possa apresentar. "E então? Isso era o ideal, nunca mais ficaríamos tristes, arrependidos, sisudos...". Mas para isso já há um botão de undo: é escolher ser feliz. Remediar as coisas e seguir em frente. A felicidade é uma escolha. E o melhor botão de undo que temos. 

English version, here.