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To be Continued | Pink issue: On Wednesdays, we wear pink

10 May 2021
By Sara Andrade

Sim, mas este texto não tem nada a ver com vestuário, nem com o uso do rosa às quartas-feiras.

Sim, mas este texto não tem nada a ver com vestuário, nem com o uso do rosa às quartas-feiras. Nem sequer tem a ver com a cor – esta que domina a edição que agarra ou outra qualquer. Este texto tem a ver com hierarquias sociais, escolares, com a fêmea-alfa e com uma realidade que, por vezes – muitas vezes –, é tudo menos pretty in pink.

Escrevo este texto numa quarta-feira, mas não visto rosa. Normal, tendo em conta que o meu grupo de amigas não tem uma "fêmea-alfa", por assim dizer - ou até poderia dizer que seria eu, mas não é o caso. É que as hierarquias de amizade no meu ambiente não se assemelham ao que Regina George veiculava naquele liceu do filme Mean Girls, em que as Plastic - aquele trio popular feminino que aterrorizava e fascinava os restantes estudantes - preconizavam a popularidade da adolescência e quem quer que quisesse pertencer ou ser aceite teria de agradar a George, a abelha-mestra. E isso significava usar rosa às quartas-feiras.

Mas a ficção não anda longe da realidade, ainda que esta autora que vos escreve possa não ser um exemplo: as hierarquias femininas existem no plano do companherismo e, ainda que usualmente sejam mais patentes em tenra idade, porque ainda nos estamos a descobrir e em busca da nossa tribo, isso é válido para qualquer faixa etária. Pertencer é vontade inata ao ser humano enquanto ser social e batalhar por isso é instintivo, o que inevitavelmente resulta em aceitar (regras) para se ser aceite. Nas ligações mais saudáveis, a igualdade é mais manifesta; nas menos, a amizade é tudo menos cor-de-rosa.

Porque é que isto acontece? Porque a aceitação num grupo, principalmente num grupo no topo da cadeia social, que admiramos, é inebriante e tolda julgamentos. Não é só o golpe na auto-estima que nos torna submissas e nos faz anular a nós próprias em prol de um grupo (ou pessoa-alfa), mas o denegrirmos os restantes por não fazerem parte do mesmo grupo - o tal síndrome Mean Girls. Um que não é exclusivo do ambiente escolar: temos tendência a deitar abaixo outras mulheres porque por qualquer razão nos sentimos ameaçadas por elas ou simplemente porque sempre nos habituámos a coscuvilhar nas suas costas e hoje quase que o fazemos por instinto, sem perceber o erro no comportamento. Não é preciso falar com um psicólogo para perceber que muitas vezes vemos outras do nosso género como rivais, regozijando no seu fallanço como forma de incrementarmos o nosso sucesso. Mas nós não somos melhores porque outras estão no seu pior - na verdade, somos piores por sentirmos que a desgraça dos outros é o nosso sucesso. No livro Odd Girl Out: The Hidden Culture of Agression in Girls (2002), a autora Rachel Simmons vocaliza esta concorrência feminina: "o silêncio está profundamente entrelaçado no tecido da experiência feminina. Só nos últimos 30 anos é que começámos a falar sobre as verdades distintas na vida das mulheres, abordando de forma aberta a violação, o incesto, a violência doméstica, a saúde da mulher... é agora tempo de quebrarmos outro silêncio: há uma cultura escondida de agressão entre raparigas na qual o bullying é epidémico, aparente e destrutivo", acusa Simmons. E perpetuar isso torna-se mais fácil em idades cegas por uma relação social, por amizades que façam o nosso valor social singrar.

Numa pesquisa levada a cabo pela psicóloga americana Carol Gilligan, a feminista demonstra que as relações desempenham no desenvolvimento social das meninas, sendo que, segundo a autora, as adolescentes assumem que o isolamento é um fator de perigo nas suas vidas, isto é, "um medo de que se estiverem à parte, serão abandonadas" (no caso dos rapazes, o receio é de se sentirem encurralados ou sufocados). A ideia é corroborada por Simmons, que coloca a intimidade como algo central nas relações femininas, sublinhando que "muito antes de se apaixonarem por rapazes, apaixonam-se umas pelas outras". É por isso que a hierarquia se manifesta de forma fácil. E a obediência é quase cega. Daí que "a relação em si é frequentemente a arma com a qual as batalhas entre raparigas são travadas", explica Rachel Simmons, o que, aliado ao medo da solidão se torna manipuladora: "apesar das coisas cruéos que aconteceram - o rol de e-mails ordinários e bilhetes anónimos, os rumores em surdina, os escritos nefastos em secretárias e cacifos, o desdenhar e os nomes feios - o que mais abalou as adolescentes foi o estarem sozinhas. É como se a ausência de corpos por perto com quem sussurrar e partilhar espoletasse nas raparigas uma tristeza e medo de tal modo profundo que parecia quase extingui-las", rematou a escritora. E é neste limbo do medo que escolhem permanecer e fazer parte de amizades abusivas e pouco saudáveis. É neste limbo de receio que a existência de uma fêmea-alfa, aparentemente segura de si e, por isso, muitas vezes ditadora, ganha espaço. 

Mas por norma, nesta fase, nenhuma é segura de si: a falta de conhecimento - e aceitação - próprio faz com que cada elemento ceda à inveja e aos ciúmes, desprezando os seus pares por terem o cabelo, os olhos, os seios, o corpo que gostariam. E a partilha destas inseguranças e a ressonância das mesmas do outro lado gera uma intimidade que é facilmente arma de controlo, na qual a regra de usar cor-de-rosa às quartas-feiras é apenas o exemplo inofensivo de um comportamento muito mais nocivo e tóxico.

O que o sindrome Mean Girls nos mostra, também, é que numa fase da adolescência/juventude em que ainda nos estamos a descobrir, a necessidade de alguém que sirva de guia ou mentor(a) raia o desespero, ou melhor, a obsessão, e, por isso, a popularidade serve de barómetro para criar um role model que acaba por ser um exemplo nem sempre pelas melhores razões. A melhor maneira de contrapor isto é incutir nas jovens os melhores valores, princípios de igualdade, tolerância e respeito, para se sentirem com autoestima suficiente para serem assertivas quando a situação o pedir. E até podem continuar a usar rosa à quarta-feira: não porque (ou quando) é obrigatório, mas porque é manifesto de uma amizade onde reina o respeito e não uma abelha. Citando Madeleine Albright: "Há um lugar especial no inferno para mulheres que não ajudam outras mulheres". 

Artigo ligado ao Pink Issue da Vogue Portugal, publicado em maio 2021.For the english version, click here.

Sara Andrade By Sara Andrade

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