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No Comments Issue | To be continued: Efeito Borboleta

12 Nov 2021
By Sara Andrade

A parte é maior que o todo quando uma única pessoa é capaz de fazer a diferença, alterar mentalidades, liderar a mudança.

A parte é maior que o todo quando uma única pessoa é capaz de fazer a diferença, alterar mentalidades, liderar a mudança. É assim que a sustentabilidade também funciona: a união faz a força, é um facto, mas na unidade também existe poder. O poder de acreditar e de se ser resiliente, mesmo quando todas as vozes se unem em negação.

Há uma velha expressão que diz "se se acha demasiado pequeno para fazer a diferença, imagine tentar dormir com um mosquito no quarto". A analogia parece simplista, mas começa a delinear a imagem do quão impactante se pode ser enquanto indivíduo. Se ainda assim se sente impotente ou pouco motivado para mudar comportamentos porque acha que serão uma gota num oceano, lembre-se de nomes como Nelson Mandela ou Martin Luther King, que não pensaram no impacto que poderiam vir a ter, apenas seguiram os seus princípios, o que consideraram ser correto, fizeram o melhor que puderam e o resto é História. Talvez nem todos chegaremos aos arquivos com o mesmo gabarito destas referências, mas isso não nos impedirá de tentar - seja por um momento extraordinário, seja por tentarmos sempre ser extraordinários (leia-se, o melhor que pudermos e fiéis aos nossos princípios, mesmo contra todas as adversidades), mesmo que isso signifique apenas ser impactante para uma pessoa ou por uma causa, a recompensa, com maior ou menor magnitude, maior ou menor visibilidade, há-de chegar. 

Por exemplo, as referências que se seguem podem soar-lhe menos do que um Mahatma Gandhi, mas foram indivíduos cruciais em diferentes áreas para mudar o modo como vivemos e comportamos hoje em dia. Outros terão feito a diferença porque, num milésimo de segundo, tomaram decisões que salvaram um sem-número de pessoas. Às vezes é uma questão de oportunidade. Às vezes, é uma questão de decisão. Muitas vezes, quase sempre, é uma questão de acreditarmos que não somos só mais um.

Como é o caso de Irena Sendler (1910-2008) que, durante o Holocausto, salvou 2.500 crianças do gueto de Varsóvia: Sendler, uma administradora na Segurança Social da Polónia, usou o estatuto para disponibilizar comida, roupa e medicamentos para as famílias do gueto, conseguiu passaportes com nomes cristãos fictícios para as crianças e persuadiu famílias a acolhê-las para salvá-las de morte certa. Os registos foram enterrados em frascos debaixo de uma macieira, num quintal de um vizinho. Foram 2.500 nomes que ali se listavam, quando Irena os desenterrou - depois da Guerra, depois de ser torturada pela Gestapo, depois de ter sido salva da sentença de morte no último minuto quando um membro da Zegota (o Conselho Polaco de Ajuda aos Judeus, do qual fazia parte) subornou um dos agentes para soltá-la. Em 2007, foi nomeada para o Prémio Nobel da Paz.

Como é o caso de Gabriela Mistral (aka Lucilia Godoy Alcayaga, 1889-1957), poeta chilena que aproveitou o reconhecimento internacional para impulsionar o direito à educação para todas as classes sociais. Diplomata e humanitária, foi a primeira escritora latino-americana a ganhar o Prémio Nobel da Literatura (1945).

Como é o caso de Martha Gellhorn (1908-1998), uma jornalista e escritora considerada uma das maiores correspondentes de guerra de todos os tempos. Num dos diversos conflitos que cobriu, forjou documentos para entrar na zona de guerra do conflito civil espanhol e focou as suas histórias no impacto no ser humano ao invés das estratégias bélicas, como era comum, ajudando a expor o pior do sofrimento humano e os horrores da guerra para o público. 

Como é o caso de Kelly Passek, da Virginia, EUA, uma bibliotecária que, em 2020, se lembrou de fazer com que as crianças recebessem livros entregues por drones à sua porta, durante a quarentena. Ou o caso de Omari Anthony Nyaega que, em 2012, com apenas 24 anos, salvou 35 órfãos de um violento ataque com facas do mato no Orfanato da mãe, no Quénia. O jovem foi inclusivamente atingido no rosto, mas impediu que dezenas de crianças perecessem às mãos dos invasores.

Como é o caso do sueco Nils Bohlin (1920-2002), um engenheiro mecânico que inventou o cinto de segurança de três pontas, salvando milhares de vidas ao longo dos anos depois de ter partilhado a invenção, com os seus colegas da Volvo, em 1959.

Como é o caso de Nellie Bly (ou Elizabeth Cochran Seaman, 1864-1922), uma profissional multidisciplinar com provas dadas no jornalismo e filantropia. O seu trabalho jornalístico contribuiu para mostrar as horríveis condições nos sanatórios dos Estados Unidos no final do séc. XIX, ao fingir-se debilitada mentalmente para poder ser institucionalizada no infame Blackwell's Island Asylum e escrever sobre as inenarráveis condições da sua experiência - e que publicou numa reportagem intitulada Ten Days in a Mad-House, desencadeando uma cadeira revolucionária na melhoria das práticas a tratamentos no que diz respeito à saúde mental. O processo foi moroso, mas o seu contributo como rastilho foi imperativo para tal. 

Como é o caso de Tank Man, a alcunha de um homem chinês não identificado, imortalizado numa fotografia que o mostra em frente a uma fila de tanques, na Praça de Tiananmen, em Pequim, a 5 de junho de 1989, forçando este comboio armado a parar e impedindo consecutivamente os tanques de continuarem caminho. O ato heróico ocorreu um dia depois do governo chinês reprimir violentamente os protestos pacíficos naquela praça (intitulado o Massacre de 4 de junho, vários civis foram assassinados nesta manifestação cujo propósito era chamar a atenção para o desemprego e dificuldades da população, bem como a corrupção do Governo), sendo que o indivíduo chegou mesmo a subir o tanque e conversar com o seu condutor. 

Como é o caso de muitos outros que mudaram o mundo e o modo como hoje vivemos melhor pela sua intervenção mais ou menos visível. Se quiser lembrar-se de um nome mais recente, pode talvez vir à sua mente o de Greta Thunberg, que lançou o mote para as Fridays for Future. Mas o seu contributo não precisa de contribuir para uma hashtag: basta não deixar-se demover pela sensação de ser a única. Tal como um voto pode fazer a diferença, o seu esforço pode salvar o planeta. É que na sustentabilidade, como em quase tudo, cada gesto conta. 

"Uma pessoa pode fazer a diferença e toda a gente devia tentá-lo", afirmou John F. Kennedy. Barack Obama assegurou que "a mudança não virá se esperarmos por outra pessoa ou outra altura. Nós somos aqueles que esperamos. Nós somos a mudança que procuramos". Jane Goodall também o defendeu: "O que fazes faz a diferença e tens qu decidir que tipo de diferença queres ter". E quem se poderia esquecer da icónica frase de Steve Jobs, "os que são loucos o suficiente para acreditar que podem mudar o mundo serão aqueles que vão fazê-lo"? Edward Everett Hale também via poder na unidade: "eu sou apenas um, mas sou um. Não posso fazer tudo, mas posso fazer algo. E não vou deixar o que não posso fazer interferir com o que posso".

"Eu sozinha não consigo mudar o mundo, mas posso atirar uma pedra à água para criar um efeito em cadeia", disse Madre Teresa de Calcutá. É este o cerne do efeito borboleta. O meu, o seu, o de cada um. O nosso, o de todos. 

Artigo parte da edição No Comments da Vogue Portugal, publicada em novembro 2021.For the english version, click here. 

Sara Andrade By Sara Andrade

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