Há quem diga que a Moda é feita meramente de aparências, mas o segredo da sua genialidade esconde-se na dualidade dos atos de olhar e ver — ou de pensar e refletir. Numa batalha entre lentes que definem perceções, o guarda-roupa feminino vive na linha ténue que separa o empoderamento da tradição. Aqui, a Moda e a sensualidade andam a par e passo com uma feminilidade carismática, numa dança de silhuetas entre o justo e o oversized, o risqué e o seguro ou a ingenuidade e a ousadia desmedida.
Longe vão os dias em que o guarda-roupa escondia as notas de uma chamada de acasalamento. Ao contrário do panorama que se sentia antigamente, no qual a sociologia dita que as mulheres eram condicionadas a optar por peças que agradassem ao sexo oposto a partir do momento em que atnigem a puberdade, hoje em dia, essas limitações e estruturas perderam o seu estatuto de irrefutabilidade. Ao redor do mundo, vemos que a mulher contemporânea tem vindo a optar cada vez mais por peças e conjugações pensadas para agradar ao seu próprio gosto, ao invés de usar apenas o que os homens tendem a considerar sensual e apelativo.
Esta mudança convida uma diversidade de silhuetas, cores e padrões que até então eram consideradas quase tabu a integrar o guarda-roupa feminino, e transforma o ato de vestir numa reflexão plena da intimidade de cada mulher – tal e qual como ela é. Ainda assim, é quase impossível separar os conceitos de Moda, sensualidade e feminilidade. Não é por nada que Caroline Evans, professora e investigadora de história e teoria de Moda na Central Saint Martins, no seu livro Fashion at the Edge, explora a comodificação da feminilidade no mercado e na Arte. Segundo a autora, de acordo com as teorias de Walter Benjamin, as mulheres são a personificação da Modernidade de Charles Baudelaire, devido ao facto de serem o consumidor, o consumido, o objeto e o símbolo.
É um loop inescapável, na medida em que, mesmo quando o guarda-roupa feminino tenta escapar as máximas da sensualidade, estas estão inerentemente presentes na Moda e na forma como esta é feita. “[A Moda] tem fundamentalmente a ver com sensualidade – o toque do tecido, a sensação de uma peça de roupa no corpo, o efeito transformador do contacto físico entre nós e a peça”, diz Alexander Fury num artigo para a revista System. Afinal, se há uma crítica que é frequentemente atirada a este campo tão artístico quanto social é que a sua base é meramente superficial e dependente de aparências. O que é compreensível, já que é através da Moda que criamos uma cultura visual e moldamos as perceções exteriores do nosso corpo.
A verdade é que a forma como algo é percecionado depende da lente pela qual optamos refletir sobre o que nos rodeia. É deste raciocínio que surge o conceito de male gaze (termo que, de forma literal, se traduz para “olhar masculino”). Cunhado pela crítica de cinema Laura Mulvey na década de 1970, o conceito propõe que os meios de comunicação visual tendem a apressar as mulheres através de uma lente considerada mais atraente para os homens heterossexuais, privando-as de qualquer autonomia e reduzindo-as a meros objetos sexuais e a espetáculos passivos ou sem agência. Esta teoria sugere que a lente da câmara adota um ponto de vista masculino e prioriza a experiência masculina, que, por sua vez, reforça os desequilíbrios de poder que se fazem sentir na sociedade. Em termos simples, o male gaze dita que os homens decidem a forma como as mulheres são codificadas, e que esse fenómeno resulta numa objetificação feminina que reduz as mulheres à sua aparência exterior. A questão que se impõe é que não apenas os homens que estão expostos a este tipo de representações nos media, e a realidade feminina (e, por conseguinte, o seu olhar) acaba por ser modulada de forma passiva. Tal como John Berger afirma no seu livro Ways of Seeing, esta passividade do olhar feminino tem vindo a caraterizar a forma como consumimos imagens ao longo de séculos, já que “os homens agem e as mulheres aparecem” – pelo que, segundo o autor, as mulheres não olham, mas sim observam-se as ser observadas.

Kristen Stewart no Festival de Cinema de Cannes, em 2024.
Dominique Charriau/WireImage
Eis que surge o termo de female gaze, um conceito derivado da teoria feminista que contraria o tradicional olhar masculino e que se refere ao olhar da espectadora, personagem ou realizadora de um conteúdo visual. A partir desta lente, as mulheres são retratadas como sujeitos individuais, com os seus próprios desejos, experiências e agência, ao invés de objetos passivos para o consumo masculino. É a diferença entre objetificação e subjetividade, que, por sua vez, se traduz em empoderamento, já que o conceito dita que as mulheres não têm de abdicar da sua sensualidade para serem também reconhecidas pelos seus outros atributos. Ainda assim, é importante frisar que o conceito de female gaze não significa que seja necessário apagar todos os vestígios de sensualidade do guarda-roupa, pois vestir-se segundo este mote pode (e deve) variar de mulher para mulher. Basta olhar para a cultura pop: para celebridades como Diane Keaton ou Kristen Stewart, o female gaze traduz-se em optar por fatos ao invés de vestidos de gala nas red carpets, enquanto que para Julia Fox, por exemplo, o termo assume uma definição bastante mais ampla. O seu estilo recupera o conceito da sensualidade de uma forma empoderada, dando voz ao facto de que o female gaze permite que as mulheres saiam dos limites rígidos da Moda e se vistam intuitivamente de acordo com os seus próprios desejos.

Julia Fox na Vanity Fair Oscar Party, em 2025.
Cindy Ord/VF25/Getty Images for Vanity Fair
No que à Moda diz respeito, o conceito de female gaze está também a mudar a forma como nos expressamos, e as diferenças entre lentes começam a ser cada vez mais claras. No seu ensaio Fashion and the Homospectatorial Look, Diana Fuss, professora de literarura, cinema e estudos feministas, defende que “a indústria da Moda é um dos poucos espaços institucionalizados onde as mulheres podem olhar para outras mulheres com impunidade cultural”, o que acaba por proporcionar uma “estrutura socialmente sancionada na qual as mulheres são encorajadas a consumir”. Em termos práticos, este fenómeno torna-se fácil de compreender se olharmos para as passerelles e para a obra de dois dos designers mais emblemáticos da história: John Galliano e Alexander McQueen. Valerie Steele, historiadora de Moda, no seu livro Dress, Dreams, and Desire, compara os designs de ambos e reflete que Galliano, em particular com os seus vestidos com cortes enviesados que exaltam o corpo, “posicionam a mulher que os veste como objetos de desejo”. Por sua vez, McQueen preferia que os seus designs “provocassem medo” de forma a representar a mulher como uma figura de poder aterrador. Por esta ordem de ideias, é seguro assumir que o trabalho de McQueen nascia em função do olhar feminino, através da criação de peças para mulheres que desejam viver um dia a dia sensorial e não tão baseado no visual e na sua relação com os seus corpos.
De volta à cultura pop, se olharmos para o panorama musical, não existem melhores exemplos desta dualidade de lentes do que Britney Spears e Sabrina Carpenter. Durante décadas, os grandes ícones femininos da pop eram moldados a dedo para o male gaze: do guarda-roupa às letras das músicas que preenchiam as tracklists dos seus álbuns, tudo era pensado para agradar ao público masculino. Quando, nos anos 2000, Britney Spears atingiu o auge da sua carreira, a sua estética e identidade artística representava na perfeição algo criado para ser observado e consumido através de uma lente masculina. Aliás, ao longo dos anos, a artista tem vindo a referir o seu desconforto relativamente às sessões fotográficas em que participava e à forma como era obrigada a vestir-se.

Britney Spears no The Metropolitan Opera House, em Nova Iorque.
Kevin Mazur/WireImage
Fast-forward para a década de 2020, Sabrina Carpenter surge como o exemplo perfeito de que é possível uma dose de sugar, spice and everything nice andar a par e passo com o empoderamento feminino. A artista é o resultado do que acontece quando se cria sob o conceito de female gaze: a sua estética e performance são hipersexuais, mas de uma forma carismática e engraçada; os seus looks de palco consistem em peças de lingerie, mas têm um cunho pessoal incontestável. A sexualidade e sensualidade de Carpenter são evidentes, mas são construídas através de camadas subtis e inteligentes, perante as quais a artista se diverte com a sua própria ousadia e letras que falam tanto para as mulheres como para os homens.

Sabrina Carpenter nos GRAMMY Awards, em 2025
Emma McIntyre/Getty Images for The Recording Academy
Ainda assim, por mais que, após diversas ondas do movimento feminismo, seja comum dizer que as mulheres são totalmente emancipadas, as narrativas que se construíram durante décadas são impossíveis de escapar e, por isso mesmo, a prova em contrário dessa afirmação. A promiscuidade é ainda um tema tabu e o caminho em prol da prevalência do female gaze está longe de estar concluído. Passo a passo, a ideia é chegar a uma representação feminina empoderada criada por mulheres e para mulheres, no sentido de retratar a experiência da mulher como algo que não se concentra apenas no corpo – sem nunca descurar o facto de que o corpo é também, inevitavelmente, parte integrante da mesma.
Artigo integrado no âmbito da edição The Naif Issue, disponível na nossa e-shop.
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