Editorial | The Naif Issue, fevereiro 2026

03 Feb 2026
By Sofia Lucas

© Barbara Brasil

"Whoever blushes is already guilty. True innocence is ashamed of nothing” - Jean-Jacques Rousseau

Há quem diga que a ingenuidade é uma falha de caráter, mas a ciência, sempre menos dramática, descreve-a com outro cuidado. Fala de otimismo disposicional, de confiança como ponto de partida, de cérebros que preferem a abertura à suspeita, a curiosidade ao fechamento. Diz-nos que quem acredita tende a persistir mais, a recuperar melhor, a criar laços mais fortes. Que a desconfiança constante cansa o corpo, inflama a mente, encurta a vida. A ciência não usa a palavra naif, mas quando a contorna, fá-lo com respeito.

Maren Tschinkel
Ellen Von Unwerth

Confiar não é ser cego; é ser eficiente. Cooperar é mais produtivo do que competir. Esperar algo bom não é negar o risco, é aceitá-lo. O curioso é que, mesmo com gráficos e estudos, continuamos a tratar a ingenuidade como um erro pueril, uma coisa a corrigir com a idade, como se crescer fosse sinónimo de endurecer. Talvez porque o mundo moderno tenha decidido que lucidez rima com frieza. Que inteligência exige distância. Que sentir demais é falta de cálculo. A ingenuidade, nesse cenário, parece um corpo estranho: acredita, aproxima-se, tenta outra vez. Não porque desconheça a queda, mas porque não quer viver de joelhos.

A ingenuidade vê. Vê tudo. A violência subtil, o ego inflamado, a pressa disfarçada de ambição. Vê as promessas falhadas e os gestos pequenos que não deram em nada e ainda assim escolhe não se blindar. Há nisso uma decisão silenciosa, quase científica também: não deixar que a experiência apague a possibilidade. 

Tida Rosvall
Jasa Muller

Ser naif é confiar sabendo que pode doer. É continuar disponível num mundo que se especializou em ausências. É aceitar que o amor não vem completo, mas vem. Às vezes torto, às vezes tarde, às vezes só por um instante. É rir-se com facilidade, não por distração, mas por recusa em fazer da ironia um estado permanente.

Chama-se ingénuo a quem não percebeu, mas talvez seja exatamente o contrário. Talvez tenha percebido cedo demais que a esperteza sem ternura não constrói nada que dure. Que vencer debates é fácil, mas sustentar vínculos exige coragem. Que proteger-se de tudo é uma forma lenta de desaparecer. Ser naif é acreditar num futuro quando o presente insiste em ser um mau rascunho. É confiar quando o algoritmo manda desconfiar. É rir-se de coisas simples, como quem não recebeu o memorando geral a avisar que já não é permitido achar graça.

Daniela Melchior
Branislav Simoncik

E há humor nisso, claro. O humor ingénuo não é ácido; é meio tosco, meio distraído. Ri-se de si próprio. O naif não precisa vencer o debate, prefere manter a amizade. Não quer ter razão, quer continuar a conversar. Talvez por isso incomode tanto. Num mundo obcecado por performance, o naif falha com elegância. Num mundo que valoriza a esperteza, ele insiste na bondade. E isso soa quase ofensivo, como alguém que aparece feliz demais numa fotografia de grupo.

A ingenuidade sabe que ainda há beleza onde ninguém está a olhar. Que a gentileza não é perda de tempo. Que o mundo, apesar de tudo, pode surpreender, nem que seja só um bocadinho. E talvez esse bocadinho baste.

Egshig Enkhbold
Caterina Gili

No fim, ser naif talvez seja isto: manter o coração habitável. Deixar uma luz acesa mesmo quando ninguém promete voltar. Regar a planta mesmo depois de tantas não terem florido. Continuar a esperar, não porque o mundo mereça, mas porque nós merecemos não nos tornarmos pedra.

E se isso é ingenuidade, então talvez seja a forma mais bonita, e mais humana, de inteligência que ainda nos resta.

Publicado originalmente na edição The Naif Issue, de fevereiro de 2026. For the english version, click here. 

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