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Vídeos 22. 3. 2021

À conversa com Sónia Tavares e Nuno Gonçalves (The Gift)

by Rui Matos

 

De Alcobaça para o mundo. O caminho que os The Gift têm vindo a traçar já ultrapassou a meta dos 25 anos, uma jornada memorável que sem dúvida contribuiu para a evolução da música portuguesa e que agora acrescenta um novo marco: a banda acaba de lançar REV, uma aplicação que reune todo o portefólio dos The Gift e muitos conteúdos exclusivos. 

“I’m doing it for music/ I’m doing it for love/ I’m doing it for everyone around me”. É com a voz profunda, sensível e inquietante de Sónia Tavares, a frontwoman dos The Gift, que estes versos - acompanhados de sons ora atmosféricos ora grandiosos - ecoam repetidamente em Music, um dos grandes hits da era AM-FM. Esta canção é “o" manifesto do quarteto de Alcobaça, uma mensagem simples, mas intensa: os The Gift estão aqui pela música e pela música apenas.

REV(OLUÇÃO) 

Com 25 anos de carreira, queríamos ter obviamente qualquer coisa que compilasse toda a nossa história e a aplicação surge com o sinal dos tempos, o que é normal,” começa por nos contar Sónia Tavares sobre REV, a aplicação que a banda de Alcobaça lançou no início deste ano. Dos concertos mais emblemáticos do grupo a vídeos nunca antes publicados, de todos os videoclipes à discografia completa, de conteúdos exclusivos a uma rede social própria, tudo isto está na REV, uma espécie de Netflix meets Spotify meets Facebook - que já se encontra disponível para Android e iOS. “Nós sempre tivemos a ideia de organizar tudo aquilo que está para trás, não sendo da geração telemóvel no bolso, somos geração câmara na mão, na carrinha constantemente. (…) Tínhamos muita coisa gravada, mas estava tudo muito mal catalogado, e isto foi uma maneira também de termos tempo para catalogar esse passado,” completa Nuno Gonçalves. 

Assim como Vinyl, o primeiro disco editado pelos The Gift, em 1998, revolucionou o panorama musical português, esta app pode vir a revolucionar a forma como os músicos se relacionam com os seus seguidores, deixando assim de parte a ditadura do algoritmo. "O algoritmo é um dedo de muita inquisição, porque não sabemos quem é que chumba, por que razão é que os nossos posts não chegam aos 375 mil amigos no Facebook. O meio está muito controlado e isso é uma ditadura de gosto. Nós não podemos estar a trabalhar, enquanto artistas, dependendo de alguém que não conhecemos”, atira Nuno Gonçalves. “E acho que isso é o pior de tudo, na minha opinião, para quem cria. As pontes têm que ser abertas, não pode haver fronteiras. E é isso que nós fazemos. Controlamos o meio, obviamente controlamos a mensagem, e acho que no futuro isto pode ser uma maneira muito interessante de chegarmos com a nossa música diretamente.”  

Dos conteúdos exclusivos que a banda tem estado a preparar, na REV já podemos encontrar Na Pele De, onde Sónia Tavares veste a pele dos artistas que sempre fizeram parte da sua vida. Por lá, a frontwoman dos The Gift já interpretou David Bowie, Stevie Wonder, Ariana Grande e Peter Murphy. Ainda com Sónia Tavares, Driving You Slow é um programa de conversas feito na carrinha de digressão da banda (César Mourão e Carolina Loureiro já passaram por lá). Local, conduzido por Miguel Ribeiro, leva-nos a conhecer produtos locais que fazem parte da nossa vida, do queijo da serra à pesca da sardinha. Já John Gonçalves conversa com pessoas que vivem, viajam, trabalham e passeiam além-fronteiras. Track by Track, Cassetes Avulso, Post e Mesa Para Quatro são outros dos conteúdos exclusivos que estão disponíveis na REV. 

 
 
 
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Lado a lado com estes conteúdos exclusivos está o material de arquivo, como o emblemático concerto de 1999 na Aula Magna, o registo da digressão AM-FM, um concerto intimista em Fafe e ainda o concerto na Union Chapel, em Londres. Há ainda a oportunidade de descobrir aquilo que se passou no estúdio enquanto gravavam Explode ou Fácil de Entender. Ainda na secção de documentários, está o registo dos concertos nos Coliseus e os momentos de estrada entre 2002 e 2003.  

“Gavetas atrás de gavetas, cassetes atrás de cassetes, umas dão outras não,” explica Nuno Gonçalves sobre o processo de procura de todo o material que vemos na REV. “Mas tem sido muito terapêutico para mim. (…) É muito terapêutico, porque o processo criativo é quando pões muitas coisas em perspetiva: tenho valor, não tenho valor, sou capaz, não sou capaz. É assim. Nada é certo. E poder perceber o que nós já fizemos, dá-nos alguma tranquilidade. Rever e perceber a quantidade de coisas que já passamos, dá-nos tranquilidade. Já fizemos tantas coisas.”

Sobre a receção dos fãs, Sónia Tavares afirma: “Os fãs, admiradores, seguidores, mandam-me algumas mensagens a dizer: “vocês não têm a noção do que estes tesourinhos são para nós. Para nós isto é maravilhoso.”  

As origens

Nuno Gonçalves, Sónia Tavares, Miguel Ribeiro e John Gonçalves começaram a escrever o primeiro capítulo dos The Gift no Bar Ben, um espaço único na cidade Alcobaça, um palco alternativo para as gentes da cidade e para os de fora. Foi nesse mesmo palco que nasceram os The Gift, num concurso, em 1994. “Nós tínhamos ensaiado uma série de vezes e depois surgiu essa oportunidade,” conta Nuno Gonçalves. “Um concurso de música moderna nos anos 90 era um polo de criatividade, ou seja, nós, felizmente, em Alcobaça recebíamos seis banda, três na sexta e três no sábado, de todo o tipo de estilos, de todo o tipo de identidades, e depois as tribos que as acompanhavam. Ou seja, eram os punks das Caldas da Rainha, com os góticos de não sei de onde, os rockabillies de Coimbra. O meu pai não me deixava ir ao bar, eu ia sem ele saber. Ver aquilo, ver aquele fervilhar de cultura e de experiência de música era fundamental para nós. Enquanto banda era ali que tínhamos que começar, não fazia sentido ser de outra maneira. Correu-nos bem, fomos até à final e depois perdemos, mas foi o início de tudo.” 

Desde o pontapé de saída que a banda se manteve fiel a si mesma, fiel à sua arte, à música que lhes corria - e corre - nas veias. Mantiveram-se à margem de uma indústria que teima em ditar modas e regras e isso permitiu-lhes criar de forma livre. Antes de editarem o primeiro longa duração, foram rejeitados por todas as editoras, mas nem isso os impediu, decidiram avançar sozinhos. Trabalharam com afinco e criaram Vinyl (1998), um disco histórico para a banda e para o panorama musical português. Este début veio com uma proposta sonora estimulante, aliando os sintetizadores e as caixas de ritmo às cordas e metais, uma união de facto que correu tão bem que a música OK! Do You Want Something Simple? (o grande single desta era) invadiu as rádios. Fizeram uma digressão com mais de 80 espetáculos durante 1999, ano em que se estrearam na Aula Magna, em Lisboa, num concerto esgotado e memorável. Tinha-se dado a primeira apoteose da banda.  

Seguiu-se Film, o sucessor de um sucesso estrondoso. Diz-se que o segundo álbum é um momento desafiador para uma banda, mas o resultado não defraudou as expectativas. É neste disco que encontramos Front Of, o tema que define a essência da banda. Para Sónia Tavares esta é “a” música: "É a música dos The Gift que continuo a achar melhor, e maior, e é a música que eu me recuso sempre que tenho que cantar porque é uma das que mais me custa [cantar]. Custa-me imenso cantar essa música. É super aguda. E digo sempre ao Nuno quando temos três concertos seguidos para não a pôr no alinhamento, porque amanhã não consigo cantar. Mas quando a canto, dá-me um prazer tão grande. É uma canção tão forte e tão bonita.” 

A conquista 

“I will build my world/ I will sing my songs/ I will keep my helmet on”. Numa ou outra altura das nossas vidas, é muito provável que já tenha ouvido Driving You Slow, ou então já viu imagens do emblemático videoclipe, o grande êxito extraído de AM-FM, um álbum duplo divido em dois capítulos: AM, o lado mais introspetivo, e FM, um lado mais efusivo. Com este trabalho conseguiram chegar às massas e deixaram de ser olhados como uma banda alternativa. No fundo, um divisor de águas na trajetória da banda. Em 2005, um ano depois de terem editado este disco, recebem o prémio Best Portuguese Act da MTV. Depois de um tão bem recebido e bem sucedido AM-FM, em 2006, a banda desvenda Fácil de Entender, um sucesso avassalador. Trata-se de uma música escondida e que a banda decidiu resgatar para promover um CD + DVD ao vivo, um best of dos The Gift. Seguiu-se uma digressão, dentro e fora de Portugal, que durou dois anos. O cansaço levou a banda a fazer um hiato. 

Foi somente em 2011 que regressaram aos álbuns de originais, e voltaram com tudo. Frescos e com garra. Desta vez, cheios de cor e com uma sonoridade mais crua e mais rock. A verdade é que olhar para o repertório dos The Gift é perceber que há mais de duas décadas que não fazem nada parecido com aquilo que anteriormente fizeram e ainda assim continuam a soar a eles mesmos. Explode é um álbum colorido, contagiante, energético. Mas logo de seguida, deram-nos Primavera, um registo cinzento, o mais introspetivo da banda até à data, arriscamos a dizer. Um álbum gravado em dez dias no Centro Cultural de Belém. “Foi tão rápida que nem me lembro,” recorda Sónia sobre a experiência. “Lembro-me de pegar no carro, na altura vivia em Sintra, e vir para o CCB durante uma semana e chegar e gravar e estar um ambiente fantástico e as coisas serem completamente, apesar de estarem pensadas, serem super descompremetidas e acho que o Primavera foi um marco para nós até a fazer discos. Para mim, até à altura do Explode, eu enquanto cantora o que menos gosto, no processo todo, é precisamente ir para estúdio e gravar. Não é fazer as canções, é ir gravar. Deixar lá o testemunho para sempre. (…) Era um ambiente que não gostava até ao Primavera, que veio desconstruir a maneira como nós gravamos as coisas.” Este foi mais um divisor de águas na carreira da banda. A verdade, é que por meados da década passada, não havia palcos em que os The Gift não tocassem. Portugal estava rendido aos alcobacenses. 

Quando os The Gift encontraram Brian Eno 

Dá-se um nova era na vida da banda. Uma era mais descomprometida, ainda mais ligada à arte e à música. O encontro com o mestre Brian Eno, músico e produtor musical responsável pelos grandes êxitos dos U2, David Bowie, Talking Heads e Coldplay, deu-se de forma espontânea. Foi depois de Eno ter visto a banda em ação que começaram a falar mais de música. “Houve uma altura em que fomos a Londres e já estávamos a fazer as maquetes do Altar e almoçámos com ele e a Sónia perguntou-lhe: ‘Olha, já temos 20 anos de carreira e queremos trabalhar com alguém a séria e gostávamos que tu fosses o nosso produtor’ e a resposta dele foi: ‘Acho que nos vamos divertir imenso.’ Foi um sim redondo e foi fantástico,” lembra Nuno. “O que ele trouxe para a nossa música foi espontaneidade, capacidade de arriscar, não ter medo de arriscar, descolarmos um bocadinho do tudo garantido, nós somos uma banda consolidada e muitas das vezes poderia existir alguma preguiça de não ir mais além e ele levou-nos mais além.”

O resultado desta colaboração acabou no álbum Altar, de 2017, e em Verão, de 2019. Dois trabalhos que proporcionaram à banda uma nova era musical, que se mantém fiel às origens da banda. O último disco de originais, Verão, traz a brisa que o Primavera introduziu na banda. O verão dos The Gift não é de praia, de pele salgada, de paixões, de mar, ou de cores vivas. É um verão sereno, melancólico e azul escuro. Com mais de duas décadas debaixo do braço, ainda lhes falta fazer muito. Aliás, querem fazer mais e mais. O melhor está por vir e o próximo disco será o melhor, porque é para isso que trabalham. Se não for para fazer o melhor disco de sempre, qual é a motivação de uma banda? 

O repertório dos The Gift é essencialmente cantado em inglês, mas isso não faz deles menos portugueses do que uma banda que canta em português. Os The Gift soam a Portugal de Nowadays (a primeira faixa de Vinyl) a Verão (a música que encerra o último álbum de originais da banda). Long live The Gift. 

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