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That’s just showbiz: o fascínio pelas it-girls

07 Jan 2026
By Rita Petrone

Kate Moss, Carolyn Bessette-Kennedy, Grace Jones, Iman e Jane Birkin. Fotografia: Getty Images; Istock; D.R. Artwork de Miguel Canhoto.

Entre feitos e feitios, há mulheres cujo legado perdura vincado entre gerações. Com uma personalidade única, magnética e fascinante, a linha que une as mais diversas it girls rege-se pela totalidade e nulidade do que as separa. Afinal, o ato de it girl-ing é cobiçado por muitas e reservado a poucas, e o seu estatuto define-se pela qualidade inefável que as distingue das demais.

Há algo de estranhamente apetecível em elevar figuras a um estatuto quase mítico; a um patamar tão indescritível quanto inalcançável, regido por uma lista de qualidades que existe para lá dos parâmetros do que é conhecido num determinado tempo ou contexto. É neste paradigma linguístico que nasce o conceito magnético de it girl. É um sinal de girlhood reconhecer que este não é um estatuto conferido de ânimo leve, e que está apenas reservado a quem, no seu cerne, tem uma qualidade inata e effortless, tão difícil de definir que não pode ser emulada ou repetida de forma alguma. É uma fórmula única à singularidade de cada mulher a quem é concedido este rótulo, e que, acima de tudo, vive e sobrevive sob uma filosofia de if you know, you know.

O ato de it girl-ing é ambíguo e opera numa economia de bom gosto, mas as suas representantes, apesar de distintas, tendem a seguir as mesmas máximas. Uma it girl é sempre uma mulher não só atraente mas também uma hot property mediática: alguém que, devido ao seu estilo de vida e carisma, se tornou uma figura influente e uma representação pura do zeitgeist. Futilidades à parte, o (bom) gosto é uma moeda valiosa quando se trata da realidade feminina. Digo-o não de uma forma supérflua ou frívola, mas sim de um ponto de vista identitário. As escolhas e desejos que acumulamos são um reflexo de quem somos, tão importante e válido como as opções que descartamos ou, quiçá, nunca chegamos a cobiçar ou considerar. É deste mindset que nascem as mais inesquecíveis it girls. Assumir este papel é dar vida a um loop de escolhas que vai (muito) além da curadoria detalhada de uma estética visual: ser uma it girl significa influenciar tendências e incorporar os valores que definem e regem o panorama social ao seu redor, mantendo sempre o equilíbrio entre o atemporal e o atual. Afinal, as it girls são a síntese perfeita da sua determinada época — uma combinação eclética e inefável de beleza, inteligência e wittiness que, inevitavelmente, capta e segura a nossa atenção, ao mesmo tempo que redefine o que significa (ou não) ser cool.

John John Kennedy e Carolyn Bessette
Lawrence Schwartzwald/Sygma via Getty Images

O conceito de it girl serpenteia pelo século passado e permeia os principais elementos das diferentes décadas. Aliás, a essência de cada época pode ser resumida pelas suas it girls de eleição. Dos diferentes movimentos estéticos aos escândalos mediáticos e ao petty gossip que seguem o percurso destas mulheres, as it girls são mais do que meras celebridades reconhecidas pelo seu talento profissional, são pioneiras de tendências e musas dos mais variados génios artísticos. Com origens vincadas no ritmo de vida nova-iorquino, ao longo de décadas, o conceito evoluiu e tornou-se mainstream o suficiente para incluir nomes que vão além da cidade que nunca dorme e abrange agora modelos, atrizes, artistas musicais e socialites. Ainda assim, foi através da literatura que o conceito de it girls conquistou a sua primeira pitada de mediatismo. Em 1927, Elinor Glyn popularizou o termo no seu romance It, definindo-o como “uma qualidade que algumas pessoas possuem e que atrai todas as outras com uma força magnética. (...) Pode ser uma qualidade da mente, bem como uma atração física”. É destas páginas que nasce o primeiro exemplo tangível de uma it girl: Clara Bow, a atriz que protagonizou a adaptação cinematográfica do livro de Glyn, estabelecendo uma associação permanente entre o termo e este tipo de personalidades aos olhos do público. De geração em geração, o conceito tornou-se um símbolo em constante metamorfose, e os avanços tecnológicos que moldaram a forma como criamos e consumimos conteúdo acabou por solidificar a ideia de que uma it girl é, acima de tudo, alguém a ser admirado, seguido e, se possível, imitado.

Antes de chamarmos as coisas pelos nomes, já existiam mulheres cujo encanto e fascínio era absolutamente hipnotizante; aliás, a lista do que chamamos it girls remonta até aos primórdios do século XX e está repleta de figuras com um legado que ultrapassa qualquer marco temporal. Entre a Era Vitoriana e os míticos Roaring Twenties, o início do século XX foi marcado pela inovação e uma constante procura pelo progresso. E ninguém melhor para espelhar essa confiança do que Evelyn Nesbit, a primeira it girl (ainda que o seu prime preceda o termo). Com apenas 15 anos, iniciou a sua carreira em Nova Iorque como modelo e rapidamente se tornou proeminente na alta sociedade da altura. Eventualmente, casou com o milionário Harry K. Thaw, mas não sem antes ter um relacionamento com o arquiteto Stanford White, que financiava grande parte do seu estilo de vida. Quando Thaw descobriu o caso, teve uma crise de ciúmes que o levou a matar White com um único tiro no Madison Square Garden. O público exacerbou a situação e o escândalo atingiu proporções até então nunca antes vistas, o que resultou na necessidade de, pela primeira vez, isolar o júri durante um julgamento, de modo a garantir que os membros não eram influenciados pela cobertura mediática. Já durante a década de 1920, a cultura à volta das it girls evoluiu devido ao pós-guerra e o termo tornou-se símbolo de uma era durante a qual as mulheres lutaram contra as normas tradicionais em nome de mais liberdade e independência. Por sua vez, à medida que o calendário avançou para os anos 30 e 40, as principais it girls passaram a personificar o glamour e a sofisticação da época dourada de Hollywood.

Jane Birkin
REPORTERS ASSOCIES/Gamma-Rapho via Getty Images

O final da Segunda Guerra Mundial voltou a exigir uma renovação de hábitos e mentalidades, e o conceito de it girl passou a espelhar a preferência social por modelos e atrizes dotadas de uma exuberância jovial. Mas é nos anos 60 que encontramos alguns dos nomes cuja memória se mantém intocável. Entre as incontornáveis Brigitte Bardot, Audrey Hepburn e Marilyn Monroe, Edie Sedgwick assumiu-se como uma das estrelas da vida boémia de Nova Iorque. Com um estilo ousado e uma rotina que subsistia pela procura da festa mais próxima, a modelo, atriz e socialite foi uma das principais musas de Andy Warhol, tendo participado em 18 dos seus filmes. Como residente do Chelsea Hotel, Sedgwick vivia rodeada do uso (e abuso) de drogas, o que, para o bem ou para o mal, contribuiu para que se tornasse uma das mais notáveis party girls da época. A sua história é manchada pelo lado negro dos excessos cometidos sob a pressão de uma lente mediática que implora por atenção constante, e a modelo acabou por morrer com apenas 28 anos. A década de 1970 trouxe-nos uma versão mais edgy e experimental do que significava ser uma it girl. Com ícones como Farrah Fawcett e Bianca Jagger ao leme do movimento, foi também nesta altura que Jane Birkin se estabeleceu como uma das figuras mais emblemáticas da Moda francesa — com o seu estilo intemporal a dar nome a uma das carteiras mais cobiçadas e difíceis de obter da história, a Birkin da Hermès.

Numa diferente face do espectro, a ousadia de Grace Jones convidou-nos a olhar para os clássicos atributos de uma it girl por uma nova perspetiva. Apesar de ter começado como modelo, o seu legado visa-a como cantora e atriz, e através de uma carreira marcada por performances cativantes, Jones atraiu a atenção de designers de Moda vanguardistas, o que exponenciou o seu magnetismo e a cimentou como uma das figuras cujo impacto ultrapassa os limites temporais definidos por décadas. Já Iman provou que, contra o senso comum, a beleza e a inteligência andam a par e passo. Quando Peter Beard a levou para Nova Iorque sob a missão de fomentar a sua carreira como modelo, Iman revelou ser mais experiente e instruída do que grande parte das pessoas à sua volta supunham. A modelo fala cinco idiomas, que usou para se tornar musa de nomes como Halston, Yves Saint Laurent, Gianni Versace e Calvin Klein, e a sua carreira potenciou a era das supermodels que marcou a cultura de Moda dos anos 90 e início dos anos 2000. Este movimento foi liderado pelo grupo frequentemente referido como as Big Five — constituído por Christy Turlington, Cindy Crawford, Linda Evangelista, Naomi Campbell e Claudia Schiffer. A elas, juntaram-se nomes como Kate Moss, Tyra Banks, Carla Bruni e Alek Wek, tornando as supermodels uma das mais fortes (e constantes) fontes de inspiração no que à Moda diz respeito.

Kate Moss
Ron Galella, Ltd./Ron Galella Collection via Getty Images

Mas é impossível falar de it girls dos anos 90 sem mencionar Carolyn Bessette-Kennedy, que se tornou um ícone da sofisticação que nasce do minimalismo intencional. A assessora de imprensa da Calvin Klein e esposa de John Kennedy Jr. conquistou este estatuto quase de forma involuntária. O seu estilo autêntico, pontuado por uma seleção de peças com silhuetas elegantes e uma consciente falta de acessórios, elevou-a a um patamar de inspiração intemporal, e o seu guarda-roupa mantém-se um ponto de referência quase três décadas após a sua morte num acidente de avião.

O século XXI voltou a reimaginar o conceito de it girl. Os anos 2000 trouxeram-nos Alexa Chung, que faz jus ao termo na sua plenitude e contemporaneidade. Modelo, musa, designer, autora e apresentadora (porque, se as décadas avançam, também a lista de job titles de qualquer it girl aumenta), Chung conquistou um grupo de fãs ao redor do mundo devido à sua personalidade contagiante e estilo impossível de replicar. A sua lista de sucessos vai do reino profissional ao pessoal, não fosse ela a protagonista de uma das cartas de amor mais citadas da geração Tumblr (obrigada, Alex Turner) e a inspiração por detrás do nome de uma das carteiras chave da marca britânica Mulberry. Mas os avanços tecnológicos que se sentiram nesta década prenunciaram também a expansão do universo das it girls. Diretamente dos mais variados formatos de reality TV, começaram a surgir uma espécie de spoilers para o culto de celebridades que hoje vinca a sociedade. Nomes como Paris Hilton e Kim Kardashian envergaram pela arte (pouco) subtil que advém do loop de ser famoso por ser famoso. A sua mera existência é fascinante. Por detrás do luxo e ostentação, estas mulheres traduziram a sua essência em modelos de negócio que não são apenas sustentáveis, mas de um sucesso incontestável.

Alexa Chung
Ricky Vigil M / Justin E Palmer/GC Images

Quando chegámos à década de 2010, as redes sociais decidiram que estava na altura de voltar a rescrever as regras. Atualmente, o playing field de acesso às regalias previamente associadas a it girls cujo estilo e lifestyle era considerado um jogo duplo entre inspiração e aspiração encontra-se muito mais nivelado. Agora, toda essa realidade está apenas à distância de um algoritmo. Lentes turvas e nostálgicas à parte, hoje, os degraus até à fama fazem-se de forma calculada e digital, com menos consideração pela autenticidade e mais atenção aos benefícios que o ato (ou tentativa) de it girl-ing representa. Ainda assim, há nomes e figuras que falam mais alto, como Bella Hadid, Zendaya ou Julia Fox. No seu talento inigualável para o estrelato, encontramos uma réstia do mítico fascínio das it girls que formaram gerações e das quais o legado como guardiãs de estilo e culturas perdura década após década. Porque os valores mudam, e as porta-vozes dos mesmos também, mas o magnetismo indescritível que só as verdadeiras it girls possuem mantém-se — e, nesse departamento, mesmo se tudo o resto falhar, os loucos anos 20 do novo milénio parecem estar em boas mãos.

Originalmente publicado no Dare To Be Bold Issue, a edição de dezembro de 2025 da Vogue Portugal, disponível aqui.

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