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Palavra da Vogue 3. 2. 2021

Testemunho: Não existem amores doentios

by Mathilde Misciagna, 25 anos

 

Plataformas de encontros online podem dizer-nos bastante sobre potenciais parceiros românticos, mas as pessoas não se medem por algoritmos e o amor está longe de significar apenas interesses em comum.

©Getty Images

Nós, humanos, nem sempre somos bons a prever como reagiríamos em certas situações. Na verdade, somos notoriamente péssimos nessa previsão. Por isso é que a violência no namoro, a violência doméstica, a violência sexual e de género são tão complexas. A frio, quando nos sentimos calmos e racionais e não em perigo, é muito difícil imaginar o que faríamos em situações de elevada energia e stress. Muitas pessoas, eu incluída, gostam de pensar que nunca permitiriam, que ripostariam, que rapidamente terminariam a relação. Afinal de contas, quantas vezes é que eu já ouvi e li: “Mas porque é que ela não denunciou? Porque é que não reagiu?”. Pensamos: “Eu teria denunciado.” Eu teria isto ou aquilo. É difícil compreender que não reagir ou denunciar alguém que nos ataca física ou psicologicamente não é uma indicação de consentimento. Para além disso, existe uma enorme vergonha associada ao rótulo de vítima quando se trata de violência no namoro. Acontece a tantas adolescentes, a tantas mulheres. Quando acontece entre nós e alguém que pensamos amar, o caso muda de figura. 

Entre 2012 e 2013 sofri de violência no namoro e é a primeira vez que estou a colocar tal coisa por escrito. Quando temos 17 anos não fazemos a mais pequena ideia dos desafios que implicam amar e ser amado. A descoberta do primeiro amor é de tal forma intensa que tudo nos parece relativamente legítimo. Controlar o vestuário, os amigos, as mensagens de telemóvel são comportamentos violentos que a maioria dos jovens considera normais. Insultar, ameaçar, mandar mensagens e ligar constantemente também são legitimados. A agressão física é precedida de agressão mental, verbal, emocional e psicológica. Uma das memórias mais vívidas que tenho, e que infelizmente ainda não consegui eliminar apesar da passagem do tempo, é a de um dia em que estive horas escondida entre os prédios da minha zona residencial à espera de ouvir o barulho da mota a afastar-se.

A perseguição. A sensação de que não podia entrar na minha casa, que devia ser um lugar seguro. O entrar num café e ficar a tarde inteira lá dentro porque sabia que se houvesse mais pessoas ele não me abordaria, por vergonha de si mesmo, e acabaria por desistir e ir-se embora. “A menina precisa de alguma coisa?”, “Um chá por favor.” Precisava que alguém me ajudasse a chamar a polícia. “Tudo bem, tudo controlado”, repetido várias vezes como se fosse um mantra, para que eu própria pudesse convencer-me. O medo de dizer ou fazer alguma coisa que o fizesse zangar-se comigo, que incitasse a violência, como uma vez em que arrancou à força os atacadores dos seus ténis e de seguida arranhou a sua própria cara até sangrar. O pânico no meu rosto, o medo real de que pudesse exercer a mesma força em mim. Cuspir-me na cara. Empurrar-me e eu bater com o cóccix num vaso. 100 chamadas não atendidas. 200 mensagens com insultos, asneiras cujo significado eu desconhecia.

"Será que podia ter impedido tudo isto? (...) A sociedade diz-nos que sim. A mesma sociedade que nos mantém em silêncio e não nos dá espaço para que levantemos a voz e nos defendamos."

A ansiedade em relação ao barulho de motas. Penso nestas coisas e mordo o lábio para me impedir de chorar, porque recordar é viver. Mentir e ostracizar amigos e família, para conseguir esconder o abuso. Sabia que estava tudo mal, mas pensava que as consequências que ele sofreria se eu expusesse o seu comportamento causar-me-iam ainda mais sofrimento. Acreditava num amor que não existia. Sentia-me traumatizada, petrificada por dentro e por fora, incapaz, enraivecida, envergonhada e fraca, tudo ao mesmo tempo. Será que podia ter impedido tudo isto? A pergunta que nos martela o cérebro. A sociedade diz-nos que sim. A mesma sociedade que nos mantém em silêncio e não nos dá espaço para que levantemos a voz e nos defendamos.

Porque é que é importante partilhar este meu testemunho tão pessoal, numa revista como a Vogue, que será lida por tantas pessoas? Porque os dados recolhidos pela UMAR através do Estudo Nacional sobre Violência no Namoro 2020 – e no âmbito do Projeto nacional ART’THEMIS+ Jovens Protagonistas na Prevenção e na Igualdade de Género – mostram que 58% de jovens que namoram ou já namoraram reportam já ter sofrido pelo menos uma forma de violência por parte do atual ou ex-companheiro/a; e 67% de jovens consideram como natural algum dos comportamentos de violência, nomeadamente controlo, perseguição, violência sexual, violência psicológica, violência através das redes sociais e violência física. Neste estudo, realizado anualmente desde 2017, participam jovens do 7º ao 12º anos de escolaridade, do ensino regular ou profissional e de várias escolas distribuídas a nível nacional. Até onde pode o não-amor ser cego? É uma realidade muito preocupante e se a minha experiência serviu de alguma coisa, que seja para a consciencialização de que o não-amor pode tomar contornos perigosos e comprometer a nossa intimidade para sempre (na melhor das hipóteses). É preciso recordar que a violência no namoro é um crime público e não uma brincadeira de adolescentes e, por isso, qualquer pessoa pode apresentar queixa contra o agressor. Não existem amores doentios. Existem crimes misóginos. E eu hoje já não me calo.

"Não existem amores doentios. Existem crimes misóginos. E eu hoje já não me calo."

Tudo está bem quando acaba. Para mim acabou, pode dizer-se, bem. Ultrapassei. Outras histórias, algumas bem públicas, não tiveram um final tão feliz. Na cultura popular o amor é muitas vezes retratado como um drama complexo, um desconforto permanente, um jogo eletrizante. O amor é uma história que nos dá insónias, sufocante e intoxicante. O amor é uma mixórdia de análises excessivas e mal-entendidos, tal como no romance Normal People – um dos grandes sucessos literários de 2018. Mesmo o tal “final feliz” é só um momento precário, no meio de uma série de altos e baixos que acabam por definir as características de uma relação tida como “normal.” Na minha adolescência esta era a definição de amor comum.

Hoje, com 25 anos, para mim o amor é paz, é calma, é gentileza, é um silêncio confortável. São conversas corriqueiras em que se fala com o coração, em que se partilham ideias e ideais. É entreajuda, tolerância, é rir até doer a barriga. É chegar a casa e ter uma bolha saudável onde nos podemos aconchegar – longe do stress e dos problemas exteriores. O amor não deve ser outra fonte de problemas, já há muitos – oh, se há – com os quais temos de lidar no dia a dia. Amor é paciência. São discussõezitas sem nexo que acabam em beijinhos. Contrariamente aos estereótipos populares e literários, não há nada para analisar excessivamente, nada para reportar ou lançar palpites. Amor é isto, na sua forma mais compensadora. O que não significa que não seja emocionante, mas é uma emoção que nos faz flutuar e não um daqueles jogos de confiança em que não sabemos se a pessoa nos vai apanhar a cinco centímetros do chão ou deixar cair.

Todas as relações são diferentes, não há um guia universal ou uma chave para o sucesso. Há histórias. Histórias felizes ou divertidas, histórias honestas e histórias tristes. Pedaços de vida que constroem a nossa narrativa. Sempre que me sinto muito feliz ou muito triste, é bom poder partilhar esse sentimento com alguém – um privilégio. A vida seria vazia sem ele. O meu namorado é o meu companheiro em tudo o que realmente importa, a minha força estabilizadora. E pensar que tudo começou com um “swipe right” numa aplicação, um momento que agora me parece longínquo. Coisas de outra vida. Passaram-se quase cinco anos. Uma casa alugada e uma casa comprada depois, se algum dia existiu um estigma sobre a forma como nos conhecemos, hoje esse estigma já não existe.

Para tanta gente em todo o mundo, estes “cupidos virtuais” proporcionam não só uma oportunidade de conhecer alguém que talvez de outra forma nunca se tivesse cruzado no nosso caminho, como também a possibilidade de personalizar essa procura. Nada que já não fizéssemos pessoalmente, num bar por exemplo – quando existiam e eram locais frequentados por muitas pessoas desconhecidas. Mais de 57 milhões de pessoas não podem estar assim tão erradas sobre o papel da Internet nas suas potenciais aventuras e desventuras amorosas. Pessoalmente, não tinha qualquer expectativa em relação à app – encarei-a como um brinquedo novo e a minha abordagem foi a de uma viciada em slot machines. O entretenimento suficiente, digamos. Tinha regressado de uma experiência de Erasmus na Hungria, queria distrair-me e resgatar à força um pouco da animação dos últimos seis meses. Erasmus blues, talvez?

"Sou muito grata por este meu amor."

Foi o primeiro e único encontro a que fui. Entrei no carro do então desconhecido e deixei que me guiasse, livre de impedimentos ou preconceitos. Nunca houve silêncios estranhos e o facto de sermos os dois comunicadores provavelmente ajudou. Pareceu-me a situação mais natural do mundo. Eu estava à procura de um flirt, de uma conexão e de uma boa conversa, mas será que não estamos todos? Terá sido um misto de sorte e timing? Com o tempo, apaixonei-me. Senti que podia ser eu própria, sem edição, com alguém cujos “disparates” estavam ao nível dos meus. Não tinha de provar nada, nem estava sempre sob pressão. Era possível revelar os meus traços de caráter mais absurdos, confissões bizarras, chorar livremente e ser amada nos momentos menos charmosos. Ouvimos atentamente um do outro todas as histórias que nos fizeram ser quem somos, mesmo as que são como um nó na garganta, até ao momento em que fizemos “swipe right” naquela aplicação. Sou muito grata por este meu amor.

Todas as partes de mim, mais frágeis ou mais fortes, estão seguras com ele. Não temos a obrigação de amar alguém, escolhemos fazê-lo. Quando entendemos que o amor que é genuíno é simples em igual medida, esse reconhecimento transforma-nos. E torna-se claro que abuso e amor são dois conceitos que não podem coexistir. E isto leva-me a uma citação de Brené Brown, autora americana que conheci através do blog de uma ex-colega de faculdade chamado The Lauren Edit: “Assumir a nossa história pode ser difícil, mas não tão difícil quanto passar a vida a fugir dela. Abraçar as nossas vulnerabilidades é arriscado, mas não tão perigoso quanto desistir do amor, da sensação de pertença e da felicidade – as experiências que nos tornam mais vulneráveis. Só quando somos corajosos o suficiente para explorar a escuridão é que descobrimos o poder infinito da nossa luz.” E, como eu costumo dizer, “and there’s more truth than poetry to that.

 

Testemunho retirado da edição Love da Vogue Portugal, publicada em dezembro de 2020.