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Erro de julgamento

16 Nov 2020
By Sara Andrade

Neste caso, achar que se errou e afinal se acertou. Case in point, a Moda de autor: por norma, não há arrependimentos na falha, apenas lições. Quando o design dá para o torto, cose-se, por vezes (muitas vezes) com linhas direitas.

Neste caso, achar que se errou e afinal se acertou. Case in point, a Moda de autor: por norma, não há arrependimentos na falha, apenas lições. Quando o design dá para o torto, cose-se, por vezes (muitas vezes) com linhas direitas.

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O método de tentativa e erro é um procedimento fundamental na resolução de problemas e consiste em repetir vezes sem conta diferentes hipóteses até acertar numa com sucesso – ou até desistir. Ou ainda, no caso da Moda de autor, até aceitar. É que este termo do behaviorismo, ou seja, do comportamento observável enquanto caso de estudo para a psicologia, mostra que esta forma de um organismo aprender através de uma série de tentativas falhadas até uma solução aceitável ou até esgotar soluções é um modo de obtenção de conhecimento. E no caso da sua aplicação em ateliers de corte e costura, a dimensão é claramente notória. Certo dia, há muitos anos, naquela rua do Príncipe Real que toda a gente conhece e por onde toda a gente passa, à porta da loja de Alexandra Moura, que já não existe (quem sabe um produto de tentativa e erro – a criadora mudou- se para um atelier maior e vende online), falava com a designer nacional sobre o papel da experimentação no processo criativo.

Hoje, recuperámos essa conversa. Já não estávamos naquela rua do Príncipe Real que toda a gente conhece e por onde toda a gente passa; mas também não estávamos, de acordo com os ditames modernos, numa zoom call. Por acaso, estávamos só ao telefone, esse aparelho quase old school onde só se ouve a voz e nem se vê imagem. Não foi tentativa e erro: acertámos à primeira, na conversa. “A Moda de autor tem como princípio isso mesmo, a tentativa e erro, a experimentação como base”, ratifica a criadora lisboeta. “Esta fase de experimentação, especialmente quando se trabalha manipulação, quando se trabalha alteração de modelagem base, quando se trabalha uma série de processos enquanto se está a criar e a tentar montar a ideia, seja em papel, seja em busto, ou seja, já com tecido, essa tentativa e erro é essencial, porque muitas das vezes o que nós projetamos na nossa mente fica melhor – ou pior – quando começamos a experimentar, quando começamos a errar e quando começamos a ser surpreendidos com o próprio materializar da peça ou do processo que estamos a desenvolver, no momento. Portanto, é essencial”, explica Moura, cujas silhuetas não obedecem a padrões expectáveis, pelo que é notório o seu compromisso em constantemente inovar, explorar, superar-se, implicando, de forma subjacente, uma fase de tentativa e erro.

Algo que a colega de profissão, Constança Entrudo, também conhece bem. Renomada pela irrelevância dos preconceitos associados ao seu trabalho, a sua abordagem à criação passa pela liberdade da imaginação, sem constrangimentos relativos a regras pré-existentes ou enquadramentos comuns, optando consistentemente por criar novas realidades através de um processo de pesquisa e experimentação. Não é por isso, de estranhar, que este seja o seu primeiro comentário sobre este tema: “Eu diria que a base de todo o meu processo criativo, ou até da minha marca, no geral, é a experimentação”, corrobora Entrudo. “Posso até dizer que a experimentação para mim nem é uma fase, mas sim um mood constante porque, na maioria das vezes, mesmo depois de acabada e ‘apresentada’, a peça continua a ser apenas uma experiência para um projeto futuro.” No processo criativo – de um modo geral, mas na Moda de autor em particular – errar significa avançar. Seja para perceber os limites de uma ideia que quebra barreiras, seja para, numa próxima peça/ coleção, esse processo estar dominado para dar azo a uma nova experimentação, ou simplesmente para o elevar a outro nível. O que significa que erro é sinónimo de aprendizagem, confirma Constança, tal como Moura: “Eu aprendo muito mais quando erro”, confessa Alexandra. “Mas isso em várias coisas na vida, nós aprendemos com os nossos erros, como se costuma dizer. Parece um clichê mas, de facto, aqui dentro, nós muitas vezes aprendemos muito mais técnica da própria peça quando existe o erro. Ou porque o vais assumir assim e ficou incrível, ou porque vais ter de lhe dar a volta para que ele se torne exequível. Portanto, há aqui uma grande reflexão sobre o erro e o erro acaba por ser sempre positivo. É sem dúvida uma aprendizagem.”

E também pode ser sinónimo de sucesso: nem sempre um erro tem de ser corrigido; por vezes, muitas vezes, ele garante a inovação da peça final. “Muitas vezes, aliás, na maioria das vezes”, garante Entrudo. “Apesar das minhas coleções serem resultado de um longo trabalho de pesquisa, não tenho por hábito desenhar peças de roupa ou usar manequins. O meu processo passa por trabalhar durante meses em têxteis e materiais que depois de alguma forma se tornarão vestíveis/usáveis. Um exemplo de um ‘erro’ tornado peça final é o Threads Top, uma das peças mais procuradas da minha marca, que surge da junção de dois testes de tecido que tinham sido ‘mal impressos’ por mim em fábrica. Sou um pouco scruffy, como dizem os ingleses, e entusiasmo-me muito quando estou na fábrica com o Paulo (especialista em impressão têxtil com quem trabalho desde a faculdade). Esses dois fatores levam-me a cometer muitos ‘pequenos erros’, tais como introduzir os tecidos na máquina demasiado cedo, do avesso ou com a temperatura errada. Os resultados desses ‘pequenos erros’ acabam sempre por fazer parte das minhas coleções.” “Não sei se aconteceu mais vezes o erro ter dado uma peça final, ou se correu tudo bem à primeira, até porque há peças e há técnicas que são bastante claras na nossa cabeça”, começa por explicar Alexandra Moura. “Outras, que tu consegues ter um vislumbre do detalhe, da volumetria, do caimento, mas muitas das vezes na sua construção, a coisa não é tão simples como  é o processo mecânico de a idealizares. Então, posso-te dizer que se calhar é 50/50. Porque há aquelas muito mais assertivas, que já sabemos por experiência da própria modelação porque já faz parte da marca, mas a outra metade são aquelas muito mais experimentais, essas sim, muitas vezes é por tentativa e erro no próprio busto, ou no tecido ou no próprio molde, e somos surpreendidos pelo erro.” E continua: “Estas últimas coleções nas quais trabalho muito com a desconstrução do próprio molde, e junto peças que à partida não estariam juntas, só isso já é um ‘provocar do erro’. E depois só tens é que ter a consciência de o provocar de forma a que ele seja exequível de se vestir. Há as peças que estão propositadamente juntas, criando uma só, mas posso-te dizer que, por exemplo, esta última foi derivada em layers, em camadas, e nós fomos deformar determinadas peças porque tinham outras por cima que as deformavam e criavam erros.” Então, errar não é só humano, é criativo? “Sem dúvida. O ato de errar segue-se sempre de uma nova perspectiva. E novas perspectivas são fundamentais para todos nós, especialmente para os criativos”, assegura Constança, corroborada por Moura: “Errar é completamente criativo. Ainda bem que nós criativos erramos no nosso processo criativo porque, lá está, muitas vezes sobre a base de um erro, surge uma coisa nova e, por vezes, muito mais genial do que aquilo que achávamos que era quando [parecia] perfeito aos nossos olhos. Para mim, é claramente uma evolução e uma inovação. Quando ele é posto desta forma”, ressalva. “Não quando algo tem que ser reto e saiu às curvas. É o erro quando ele funciona, quando é orgânico, não enquanto erro de má qualidade ou pobre produção. Aí, eu sou muito perfecionista, aí já não admito esse erro. Não admito erros de desleixo.”

Mais do que criativo, o erro assume muitas vezes, na Moda de autor, uma dimensão consciente. Ele é propositado, em prol do design, do inesperado, de fazer acontecer algo novo, explica Alexandra Moura. “Na Moda de autor, abraçar o erro é muito consciente. E muitas das vezes há o querer provocar o erro e querer assumir o erro. Porque, lá está, o próprio erro e a própria perfeição são conceitos que se podem tornar abstratos na criatividade e para quem olha. Muitas vezes, surgem erros, ou acontece estar a mexer numa peça que, sem querer, se alfinetou mal e aquele alfinetar mal foi criar uma coisa nova. Portanto, eu acho que ao assumir, muitas vezes, esses erros acabam por ser, para mim, coisas que ficam perfeitas. Isto acaba por ser tudo um bocadinho abstrato, o que é que é o erro e o que é que é o perfeito. Enquanto que outra pessoa pode olhar e achar que aquilo é um erro, para mim a peça é perfeita por isso mesmo: por ter o erro. É perfeita por ser imperfeita. Até porque gosto sempre de fugir um bocadinho ao que são os estereótipos. Mesmo até ao nível de quando se escolhem modelos, quando alguém tem de dar a cara, eu gosto sempre de ir para os manequins ‘menos perfeitos’ naquele idealismo do estereótipo da beleza. Gosto do menos expectável. Quando tem alguma característica diferente aqui e ali, isso para mim é a minha perfeição, sobre o erro ou a imperfeição de alguém que é estereotipado de uma outra forma”, explica, acrescentando que “é também um bocadinho ir contra a maré para poder inovar… erro é inovação.”

Uma filosofia largamente partilhada por Constança Entrudo: “Apesar de ter um forte sentido de organização, sou uma pessoa pouco perfecionista e com muita facilidade em adaptar-me às circunstâncias, sejam elas boas ou más. A Mariuccia Mandelli [designer de Moda italiana, 1925-2015] dizia que ‘a Moda é uma questão de humor’ e eu concordo. Levo a minha marca muito a sério, claro, mas acrescento-lhe sempre um certo sentido de humor. Não gosto de me levar demasiado a sério, acho uma seca. Tento que a minha equipa também não o faça, que assumam os erros quando os fazem e que isso os ajude a serem melhores. Já trabalhei em marcas onde errar era quase proibido e nunca senti que isso fosse bom, aliás, aprendi, mas senti até que era um obstáculo à criatividade. E é por isso que se torna tão difícil para mim categorizar algo como um ‘erro’. O meu processo criativo é uma longa conversa entre mim e o material. A relação que tenho com os meus tecidos é algo muito pessoal, é uma constante resposta dos materiais à maneira como os manipulo. Ao longo desse processo, passo por momentos de frustração, de euforia ou de satisfação. No entanto, em momento algum interpreto essas frustrações como um erro. Sempre uma aprendizagem.” Julgámos mal. Achámos que íamos falar de tentativa e erro e acabámos por falar de tentativa e inovação. E de tentativa e lição: “Nenhum de nós é perfeito quando fazemos as coisas. Eu tenho uma capacidade de olhar para as coisas e ter uma autocrítica e uma autoanálise e ‘O que é que eu faria agora de novo?’”, remata Alexandra Moura. “Eu acho que um criativo deve olhar para as suas coisas não como ‘fiz nascer esta obra-prima e já não lhe tocava em mais nada’. Eu acho que é uma insatisfação um bocadinho constante e sempre na busca do que é que tu podes fazer de diferente, que te traga algo de diferente, nem que seja aquela peça que tens várias vezes numa coleção. Acho que até nisso somos imperfeitos, porque nunca estamos satisfeitos. O próprio criativo vive num estado constante de tentativa e erro.” Proponho que se mude então a expressão de “errar é humano” para “aprender é humano”. E a primeira aprendizagem é que, nesta tentativa de evolução, há sempre espaço para o erro, perdão, conhecimento.

Publicado originalmente na edição The Beauty of Imperfection da Vogue Portugal, de novembro 2020.

Sara Andrade By Sara Andrade

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