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Tem graça: Uma junção de Arte e Moda na Longchamp Art Festival

09 Oct 2026
By Sara Andrade

A primeira edição do Longchamp Art Festival é uma materialização natural da relação da marca francesa com a Arte. Da aquisição de obras de arte para os seus espaços (com a curadoria da diretora criativa Sophie Delafontaine e do CEO Jean Cassegrain, os irmãos ao leme deste negócio de família) às parcerias com artistas em coleções-cápsula — a mais recente com Caroline Hélain —, esta estreita conexão entre Moda e Artes é uma que a maison soube e sabe sempre fazer com graça.

E aqui graça não é de ter piada, ainda que o bom humor seja transversal aos elementos da família Longchamp; é sinónimo da graciosidade oh la la com que a casa francesa sempre pautou as suas linhas, a sua filosofia, o seu savoir-faire. Nuances indissociáveis da ligação da família por detrás da casa às vertentes artísticas, um gosto que se desenvolveu naturalmente no seio familiar: “A nossa avó, o nosso pai, o nosso tio, toda a família sempre foi muito ligada à arte. Apaixonados por artistas”, começa por justificar Sophie Delafontaine, diretora criativa da Longchamp. “E a minha avó tinha um grande sentido estético. Era muito sensível às qualidades, às proporções, aos detalhes. O meu pai era muito criativo e incentivou-nos a sermos curiosos, a termos uma mente aberta e a conhecer novas pessoas, explorar novas paisagens, países, culturas. Ele tinha essa mentalidade. Fomos educados assim e, claro, em casa, na empresa, brincamos com a arte de diversas formas. Por vezes, colaboramos com artistas em produtos e encomendamos instalações ou obras de arte para uma loja específica. Mas o que talvez nos motive a realizar o festival de arte é que sentimos, enquanto empresa, que a nossa missão é apoiar a criatividade”, admite, sobre o evento de três dias que decorreu em Paris no início de setembro.

Com a ajuda de Olivier Bassuet, curador de artes performativas do Musée National Picasso-Paris, um edifício na zona do Marais, Paris, tornou-se palco e testemunho palpável deste gosto da família em colecionar e apoiar as artes — da pintura à dança. Sobre o móbil por detrás da iniciativa, tendo em conta que as suas lojas já atuam como pequenas galerias de arte, Delafontaine explica “que algumas pessoas nunca entrariam num museu ou galeria de arte, porque às vezes é muita pressão, o ambiente é muito frio, a atmosfera silenciosa. Por isso, quisemos fazer este festival para reunir obras de arte e artistas que admiramos e para que as pessoas os descubram de uma forma fácil e acolhedora [como acontece nas lojas].” Totalmente gratuito, de 4 a 6 de setembro, podia visitar-se e testemunhar ao vivo não só instalações como atuações artísticas, tanto de nomes consagrados como emergentes. Para o irmão, Jean Cassegrain, CEO da maison, esta é simplesmente uma extensão orgânica dos valores da casa que herdaram, ao lado do irmão Olivier, naquela que é a terceira geração da família à frente da Longchamp: “Acreditamos que a nossa missão é apoiar os jovens artistas e dar-lhes uma plataforma para que possam obter mais visibilidade. E mesmo os artistas mais consagrados gostam de mostrar o seu trabalho a um público diferente e mais vasto”, refere sobre o que os moveu a estabelecer este festival de arte. “Acho que o importante é que esteja alinhado com a casa e expresse bem a identidade e os valores da marca. A Lonchamp expressa-se através dos seus produtos, da sua comunicação, das suas lojas. Aqui, estamos a criar uma nova forma de expressar a marca. E é isso que a Sophie e eu apreciamos: é divertido encontrar novas expressões para esta marca”. “Como empresa, um dos nossos compromissos é apoiar a criatividade”, acrescenta Delafontaine. 

“A razão pela qual temos este compromisso tão forte, é porque somos uma empresa familiar. A Juliette, a minha filha, e os filhos do Jean, são a quarta geração. Não estamos a pensar no resultado daqui a seis meses, mas sim a construir algo para o futuro. Para mim, a criatividade é projetar o futuro. Na Longchamp, estamos sempre em constante evolução. Não estou a falar de revolução, estou a falar de evolução, de procurar sempre um pouco mais. Manter as raízes, manter a essência, manter-se fiel à sua identidade, mas tentando sempre desenvolver-se. Foi por isso que escolhemos o tema do movimento para esta edição [do Art Festival]. Porque a Longchamp sempre esteve em movimento. Os nossos avós começaram a empresa com uma loja de tabaco em Paris. Hoje, quase 80 anos depois, somos uma empresa global. Isso demonstra que desenvolvemos novas categorias de produtos. Desbravámos novos territórios. Não aconteceu da noite para o dia. É uma evolução perpétua”.

Esse modus operandi de nunca estagnar não é novo, nomeadamente no que diz respeito a arte — não só literalmente, na aquisição de obras para as suas lojas (que adequam consoante o ambiente e contexto geográfico do espaço), mas também em colaborações e novidades de produtos que nunca esquecem o passado da casa, mas que o atualizam para o presente de olhos postos no futuro. De iterações surpreendentes de clássicos icónicos como a carteira Le Pliage a novidades que esgotam assim que são lançadas, como o mais recente saco Le Cadence, a maison nunca se coibiu de partilhar a sua criatividade com os demais e vice-versa, celebrando parcerias com outros designers, como Jeremy Scott, e artistas, como Sarah Morris.

O mais recente nome a juntar-se a este rol de referências é o de Caroline Hélain, artista consagrada conhecida pela sua arte em tecido, mas que ainda assim carecia da visibilidade oferecida pela marca francesa. Um dos nomes presentes na exposição, assina ainda uma coleção-cápsula para a marca que coloca as suas paisagens abstratas em acessórios e ready-to-wear: “O tema da coleção era ‘seja curioso, seja criativo’.”, começa por contextualizar Sophie Delafontaine sobre a escolha da artista radicada em Bruxelas. “E queria expressar esta ideia de o ser curioso é abrir a mente. Algo que quando se viaja se descobre. Para mim é uma enorme fonte de inspiração para a criatividade. E Caroline desenvolveu o seu trabalho em torno da paisagem e o conceito abstrato dela permite a descoberta. Não o está a levar a um lugar específico, antes faz imaginar. E não vamos pensar todos no mesmo. Está em aberto. É uma boa artista para expressar curiosidade. Conhece a ideia de viajar, de descobrir.” O que tem graça — e, aqui, graça no sentido de piada —, porque quando abordamos Caroline para uma entrevista a propósito da colaboração, antes de tudo faz-nos uma ressalva sobre uma viagem em particular: “É com muito gosto que respondo a esta entrevista. Portugal ocupa um lugar especial no meu coração. Vivi em Cascais durante dois anos quando era criança e, desde então, continuo a ter um carinho especial por Portugal”. 

Talvez essa memória esteja impregnada numa das nove paisagens que emprestou à Longchamp não só para expor no festival, mas para pautar t-shirts, malas e um colete que parece ser o ex-líbris da gama Longchamp x Caroline Hélain, explorando não só a cor, mas diferentes texturas. O que incita a pergunta: como foi o diálogo criativo com Sophie Delafontaine ao unir a sua arte têxtil ao conhecimento da marca em artigos em pele? “Partilhamos a mesma apreciação pelas criações artesanais e a mesma atenção aos detalhes”, admite Hélain. “Um dos aspetos mais entusiasmantes da colaboração foi explorar as amostras. Foi neste contexto que as discussões criativas tiveram lugar, garantindo que nos mantínhamos o mais fiéis possível à obra original. O desafio”, acrescenta, “residia na forma de posicionar a paisagem em cada peça.

Os posicionamentos foram testados em esboço diretamente numa maqueta tridimensional da bolsa, de forma a compreender as proporções e fazer ajustes. Quanto à execução técnica, foi a expertise da Longchamp que permitiu reproduzir fielmente estas paisagens originais numa variedade de materiais, como a malha, o algodão e o cabedal”, aplaude a artista. Não é a única nuance que enaltece: admite que foi-lhe dada carte-blanche para o processo criativo, “senti-me realmente livre. O ponto de partida das nove paisagens criadas para a colaboração foi a paleta fornecida pela Longchamp, não muito diferente da minha, à qual acrescentei um tom néon que surge frequentemente no meu trabalho. Estas paisagens são uma combinação das que observei e das minhas próprias memórias. Passei grande parte da minha infância ao pé das falésias da Normandia, em França, e também alguns verões nos Açores. Estes lugares ainda ocupam um lugar especial no meu coração. Além disso, tenho velejado nos últimos 12 anos. A linha de costa, vista do mar, continua a ser a paisagem mais vívida de que há memória”, garante. 

A abstração das sua linhas significa que cada uma delas pode representar a Normandia e os Açores, para Hélain, mas quiçá o Sul de França ou o Norte de Portugal para outros — uma curiosidade mencionada por Delafontaine, quando previamente falámos com a diretora criativa sobre o trabalho de Caroline. “Não era essa a minha intenção original, mas suponho que se deve ao facto de estas paisagens derivarem de memórias, impressões e sensações. De facto, a sua natureza abstrata permite que cada um as faça suas”, concorda. Diz que o horizonte é a sua referência primordial para as ilustrações que constrói em têxtil, “a fronteira entre o céu e a terra. É aí que a paisagem ganha forma e se materializam as vibrações da luz, uma forma de representar, em pequena escala, a imensidão”, verbaliza Caroline, que antes de se dedicar ao tecido, ilustrava em papel. O que a fez trocar o lápis pela agulha? “O desenho sempre fez parte da minha vida. A certa altura, comecei a desenhar em tecidos para uma série de bonecas artesanais, e foi assim que comecei a costurar. O uso de linha e agulha levou-me ao bordado. Mais tarde, em vez de criar a forma com a linha, comecei a recortar a forma diretamente no tecido, e foi assim que surgiu a minha prática têxtil.” Uma arte que desenvolve instintivamente e cujo resultado pode ser visto nas suas obras a solo ou nesta gama criada com a mestria do saber-fazer que é apanágio da Longchamp.

Talvez essa busca incessante pela qualidade de topo também tenha precipitado esta vontade recorrente de ir buscar à arte mais uma forma de expressão da marca, permitindo mostrar ao público o quão especial são as linhas com que se cosem os ex-líbris da casa, ao estreitar a relação da audiência com obras de arte, seja através das colaborações, das obras nas lojas e a exposição deste Art Festival. Jean Cassegrain ressalva que todas estas iniciativas nascem do amor às artes. “Em primeiro lugar, gostamos de o fazer. Como empresa privada e independente, podemos dar-nos ao luxo de fazer coisas simplesmente porque achamos cool. Não existe um plano de negócios por detrás deste projeto. É prazeroso para nós. Penso que o benefício é que talvez as pessoas que por ali passam tenham uma melhor compreensão de quem somos e do que defendemos. Esta seria a definição de sucesso do ponto de vista da marca”, destaca. E o que são como marca é indissociável do que são enquanto família: a independência traz desafios, mas muitos pontos positivos, avança Cassegrain: “A vantagem é que não estamos sob o escrutínio do mercado financeiro. Os CEO das marcas que operam no mundo financeiro precisam de passar muito tempo a justificar as suas ações. Há uma vantagem na liberdade que temos para fazer aquilo que consideramos melhor para a marca. E, por vezes, é muito intuitivo. Por vezes, não é totalmente racional. E isso é ok. Por outro lado, claro, a dificuldade é que temos de lutar sozinhos. Não temos um ‘irmão mais velho’ para nos apoiar. As nossas decisões são responsabilizadas. Somos só nós.”

Mas isso também lhes dá liberdade para sonhar, não só para continuarem as collabs, mas nomeadamente imaginar o futuro deste Art Festival: “Queremos manter as nossas opções em aberto”, opina o CEO. “Talvez pudéssemos fazer um festival de arte, não sei, em Lisboa”, imagina Delafontaine, conjeturas possibilitadas pela liberdade da empresa familiar. “A nossa família é realmente o coração da marca. Somos a garantia de que se mantém autêntica.”, aponta Cassegrain. Família parece estar no cerne das inspirações. Quando comentamos que humor é o tema desta edição, Caroline Hélain também partilha: “Não sei o que me faz rir em particular, mas é com as pessoas que amo que mais me rio”. Tem graça. A família é fulcral para a liberdade criativa — seja uma artista a solo ou uma marca global. 

Originalmente publicado no The Humor Issue, a edição de outubro de 2026 da Vogue Portugal, disponível aqui.

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