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Sophia Roe, um pilar de esperança, otimismo e amor.

13 Oct 2020
By Mónica Bozinoski

Nas suas próprias palavras, Sophia Roe é chef, food and feelings lady, trauma-informed e welfare advocate. Nas nossas próprias palavras, Sophia Roe é tudo isto e muito mais. Um muito mais que inclui ser um pilar de esperança, otimismo e amor. Dentro e fora da cozinha.

Nas suas próprias palavras, Sophia Roe é chef, food and feelings lady, trauma-informed e welfare advocate. Nas nossas próprias palavras, Sophia Roe é tudo isto e muito mais. Um muito mais que inclui ser um pilar de esperança, otimismo e amor. Dentro e fora da cozinha. 

Fotografia de Wini Lao
Fotografia de Wini Lao

Quais são as suas primeiras memórias na cozinha?

Provavelmente, fazer tostas de queijo para a minha mãe, e panquecas. Lembro-me de haver uma espécie de banco e eu subia para cima dele. Tinha começado a aprender a ler, e lembro-me de existir um livro de cozinha, Joy Of Cooking, em minha casa. Toda a gente tinha um desses livros naquela altura. A minha mãe teve-me muito nova e quando ela tinha amigos em casa, eu ficava colada à televisão a ver episódios aleatórios do Great Chefs Of The World, e fiquei fascinada com a culinária e a alquimia de cozinhar. Achava que era mesmo cool começares com farinha e acabares com um bolo. E depois descobri que tinha um livro de cozinha quando estava a começar a ler, folheava-o e tentava perceber as receitas. Lembro-me de ir para a escola e perguntar à minha professora o que é que uma chávena de alguma coisa significava, porque eu não percebia. Por isso, as minhas primeiras memórias são de muito nova, diria aos seis ou sete anos. 

É chef há mais de 12 anos e já trabalhou em restaurantes, como chef privada e em catering. Essas experiências moldaram o trabalho que faz hoje?

Sem dúvida. Todas elas, apesar de serem facetas diferentes de uma indústria, são sobre cuidar de outras pessoas e alimentar outras pessoas. É uma coisa de serviço. Penso que é assim porque tive uma infância difícil, e esta ideia de cuidar, sempre quis fazer isso. Existem milhares de razões para ser chef, certo? Não posso falar por ninguém, mas aquilo que posso dizer é que, para mim, o maior elemento é aquele prato vazio. Se eu cozinhar alguma coisa e houver um prato vazio, um estômago cheio e boa conversa, isso significa que eu fiz o meu trabalho. Para mim, a margem de sucesso é bastante grande. Se os pratos estiverem vazios, os estômagos cheios e as pessoas felizes, então eu alcancei o sucesso hoje, e acho que isso é algo que se aplica a todos os aspetos da minha vida. As coisas pequenas são grandes vitórias para mim.

Há algum ingrediente ou receita que lhe seja particularmente especial? 

Tenho centenas dessas. Adoro conservar coisas em vinagre. Adoro pickling. É uma forma incrível de pegar num ingrediente que ia deitar fora, em alguma coisa que estava prestes a estragar, e criar um sabor totalmente novo. É a minha coisa favorita. Sou a rainha de comprar coisas a mais só para as poder conservar. As pessoas conservam pepinos ou cenouras, mas eu conservo tudo. É uma das minhas formas favoritas de elevar a comida e dar-lhe um sabor mais palatável. Mas é algo que fica esquecido, porque nós queremos o cremoso, o corpulento, a boca cheia. Esquecemo-nos da acidez, e daquilo que o ácido pode fazer pelo nosso palato e pelo sabor. Por isso, adoro vinagres, alcaparras, pickles, mostardas, todas estas coisas salgadas e amargas.  

 

Partilhou recentemente com uma publicação que passou quase um mês em Portugal. Como foi o seu tempo aqui?

Foi incrível. Comi mais pastéis de nata do que alguém deve comer. Em Lisboa, a coisa que mais gostei foi este condimento, este molho piripiri em todo o lado. Toda a gente o tem, mas alguns têm mais álcool, outros são mais picantes, outros mais apurados. Achei a coisa mais cool, este condimento que conseguia encontrar em todo o lado. Outra coisa foi o café. Nunca bebi um café que fosse tão bom na minha vida. Lembro-me de ter ido a um restaurante de fine dining, penso que se chamava Alma. Foi ótimo mas, honestamente, transparência total, um dos meus sítios favoritos onde comi foi este restaurante de frango. E eu não sou uma pessoa de frango, mas este sítio – não me lembro do nome, mas podias comer frango mais ou menos picante – era delicioso. E era só frango. Frango e batatas fritas. Adorei esta simplicidade da comida, o conceito de poderes comer ao balcão e os tremoços. São tão bons, podia comê-los para sempre. E depois a lagosta, o marisco, adoro. Sou uma seafood person. Para ser honesta, não sei porque é que voltei. Foi uma das experiências culinárias mais maravilhosas que já tive. 

As conversas que tem sobre comida, e também sobre wellness e bem-estar, vão muito além da superfície. O que a inspira a ter esses diálogos mais profundos?

Para mim é sobre conversação, e não sobre confrontação. Não há motivo para as coisas serem um confronto. Não falar de algo não faz com que isso desapareça, e não podemos falar sobre justiça alimentar ou supremacia branca sem falar sobre o porquê de ser um problema. É ótimo conversar sobre o ambiente, mas vamos falar sobre como é que chegámos até aqui. Nas redes sociais, quando tenho estas conversas, se 300 pessoas estiverem a ver, as hipóteses de depois irem conversar com os seus familiares e amigos são elevadas, e isso é espalhar informação. Esta ideia de que as redes sociais são só redes sociais... não são. Tu consegues mudar o mundo com elas. Eu já vi isso. Acontece tanto para o bem como para o mal. Mas quando politizamos as coisas, criamos divisão e discórdia. Por outro lado, quando fazemos disto uma coisa humana... somos humanos. Michael Pollan disse-o lindamente, somos a única espécie que cozinha. A comida é notícia. Isto não é só um post sobre mim a fazer limões preservados, é muito mais do que isso. Quando ensinas uma pessoa a fazer limões cristalizados, é ótimo. Mas quando ensinas centenas, elas vão ensinar os seus filhos, e aí já estás a falar sobre uma apreciação pela comida que elas não tinham. Não é só sobre expandir o palato. É por isso que faço o que faço. Não é só sobre fazer uma receita, é sobre ter um diálogo: agora que fizeste esta receita e tens esse conhecimento, vamos falar sobre o trabalho e os recursos necessários, de forma a sermos mais gratos e termos mais gratidão em relação à comida que comemos.  

Fale-nos um pouco sobre a sua abordagem ao wellness e ao bem-estar.

Para mim, o wellness é muito simples. Comida, ar, água, luz solar, movimento, propósito. Penso que existe o básico do wellness, e depois existe a otimização pessoal. Se estás a tentar otimizar o teu corpo, isso é uma conversa completamente diferente. A otimização é um tónico, uma tintura, um pó, uma cápsula, um número de suplementos. Se queres comprar um smoothie de 58 dólares e podes fazê-lo, compra-o e otimiza-te. No entanto, isso não é um produto de wellness. Se és uma profissional de wellness e aquilo que ensinas ou aconselhas não é acessível, então tens de dar um passo atrás e reavaliar o teu protocolo, porque todos merecemos comida, ar, água, luz solar, movimento e propósito. Coisas simples. Assim que removemos o desnecessário e olhamos para todas aquelas coisas como são, conseguimos fazer com que esta conversa sobre wellness pareça muito menos assustadora e confusa. É por isso que muitos dos temas que abordo, no core, são sobre descobrires quem tu és, aquilo que o teu palato gosta, aquilo que o teu corpo gosta. O wellness é uma conversa contigo mesma, e muita gente não a tem. Às vezes são conversas difíceis, mas isso faz parte. O wellness não é um cume, não é assim que funciona. É um trabalho que tens de fazer contínua e consistentemente.

 

A Sophia é muito honesta sobre o seu trauma pessoal e as suas experiências. Como é que chegou ao ponto de se sentir confortável para partilhar a sua história?

Sabes, acho que ainda há esta ideia errada de que falar sobre isso é a coisa mais simples do mundo. Eu tenho uma terapeuta, uma ótima terapeuta. E fora da terapia, eu sei que a minha comunidade me trata como um ser humano porque eu trato as pessoas da minha comunidade como seres humanos. A minha comunidade é um espaço seguro e eu criei-a para ser assim. Eu sei que quando partilho uma história as pessoas vão ouvir. E se vais julgar alguém ou pensar menos de alguém porque essa pessoa esteve no acolhimento familiar ou sofreu de abuso, então és uma pessoa horrível e eu não te quero no meu programa. Percebes o que quero dizer? Para mim, eu sei que estou a falar para um grupo de pares, de pessoas que também são informadas sobre o trauma e que também já passaram por isso. No início foi muito complicado, mas a primeira vez que partilhei sobre a minha dor ou as minhas experiências traumáticas, foi impressionante ver a quantidade de pessoas que se chegaram à frente. “Soph, eu também, uau, eu tive essa experiência.” Não te sentes tão sozinha. Se é difícil? Sem dúvida. Se é gratificante? Sem dúvida. É a coisa mais gratificante do mundo dar às pessoas, e particularmente às mulheres, espaços onde possam sentir que também podem ser sobreviventes, de alguma forma, de algum tipo de trauma. 

Estava a ler que se vê a si mesma como um recurso para a sua comunidade. Sente que a sua comunidade também é um recurso para si, e que as pessoas que a integram são um recurso umas para as outras?

Oh meu deus, claro. Estás a brincar? Esta comunidade não é minha, não pertence à Soph. É um conglomerado de muitas pessoas que estão ali umas para as outras. Eu faço estas Pillow Talks e estas coisas fora do Instagram, porque acho que é importante deixar o Instagram estar um bocado sozinho [risos], e é incrível. É este grupo consistente de 100 a 300 pessoas que se juntam para ter conversas que não são só sobre mim. Elas estão ali para se verem umas às outras, para se visitarem, para fazerem amigos. Também vês pessoas a conversar nos comentários. Por isso, não é a minha comunidade. Eu sou responsável por ela, o que significa que me sinto responsável por garantir que este espaço é seguro. E por causa disso, sou ride or die. Se alguém entra no meu Instagram e começa a atacar outra pessoa, acabou. 

De onde surgiu a ideia de criar essas Pillow Talk Sessions?

Andava a fazer múltiplos painéis por semana, constantemente, e comecei a perceber que as conversas mais bonitas aconteciam quando o painel terminava. Era casual, estava apenas a conversar com as pessoas que tinham decidido ir e apoiar. Senti que era ali que as conversas mais sumarentas aconteciam, e resolvei começar as minhas. No início, a ideia era que tinhas de estar em pessoa. Não queria que fosse digital, queria que largasses o teu telemóvel. Fazíamos tudo, desde aulas de culinária a conversas sobre stress, body neutrality, menstruação, tudo. E depois a COVID-19 aconteceu e tive de revisitar a forma como fazia isto e a forma como manifestava esta experiência para as pessoas. Mas, no fim de tudo, estou muito feliz porque agora é um tipo de comunidade diferente. Agora, no momento mais difícil do ano, durante a pandemia, estar no Zoom e falar com centenas de pessoas em todo o mundo, da África do Sul ao Vietname, Londres, Paris, Escandinávia, estarmos ali em contacto, é a melhor coisa que existe. É um espaço aberto e seguro para falares sobre aquilo que quiseres. Podes discordar comigo, não há nenhuma agenda, não organizamos por questões. É um fórum aberto para conviver e conversar. E é muito bonito.

Não há muito tempo, organizou a primeira Black Story Share Session. Como foi essa experiência?

Para mim, era muito importante criar um espaço seguro para pessoas negras. Eu sei o que é ser uma pessoa negra e contar a minha experiência numa sala cheia de mulheres brancas. É um sentimento estranho porque, depois, pode haver lágrimas ou emoções. Não que haja nada de errado com isso, a empatia é poderosa, nós encorajamos a empatia. Mas é especial estar num sítio onde sentes que estás a falar com os teus pares. É algo que implementei mensalmente. Até agora fizemos duas e é simplesmente lindo. Estás a ouvir de pessoas negras que vivem um pouco por todo o mundo, o que significa que estás a ouvir sobre colorismo global, racismo global. A minha experiência é muito americana porque isso é quem eu sou. Mas o racismo está em todo o lado e é muito sorrateiro e um tanto oculto. Poderes ouvir essas experiências, poderes ser validada na tua dor... Às vezes é isso que queremos, que alguém nos reconheça. “Eu ouço o que estás a dizer, eu vejo aquilo que estás a passar, eu percebo.” É muito poderoso. Certamente um dos meus momentos favoritos do mês.  

Para além de todos estes projetos, está a escrever o seu primeiro livro.

Estou, sim, e tem sido um desafio. Muitas vezes, quando há um livro de cozinha, há toda uma equipa envolvida, e eu estou a fazer isto sozinha. Por isso, com o testing, a escrita, até o shooting do livro, eu sou a pessoa que está com as mãos na massa. Neste momento, estou na fase de adicionar receitas, e é preciso diferentes tempos para testar uma receita. Há muitas formas de chegar a um bom livro de cozinha. Para mim, penso que o processo de escrita criativa é a parte divertida. A parte difícil é a direção criativa. Quero ter a certeza de que o livro tem a imagem que eu quero. Quero que seja uma peça de arte zen, que as pessoas possam folhear e que seja simplesmente cool. É algo que leva tempo, mas estou aqui para isso. Não estou a tentar apressar nada. Estamos no meio de uma pandemia, não estou a tentar lançar um livro amanhã.

 

Li numa entrevista que o seu sítio favorito para escrever é o metro de Nova Iorque e que está a trabalhar numa compilação de histórias do metro. Há alguma que lhe seja particularmente querida?

Tenho milhares. É o sítio mais fabuloso. Enquanto chef privada, estava a trabalhar para famílias bilionárias, e havia dias em que o trânsito estava caótico e o meu chefe ia de metro para o trabalho. É um sítio onde podes ter um homem bilionário ao lado de um homem que está a experienciar uma situação de sem-abrigo. É um equalizador. Confiamos que entramos nele e ele leva-nos onde precisamos de ir. E toda a gente tem uma vida diferente, mas toda a gente está naquele sítio, durante aquele período de tempo especial. Por isso, sim, decidi que ia passar 24 horas no metro e escrever um livro sobre isso. Estou grata por ter feito a primeira metade antes da pandemia porque, agora, a experiência do metro não é a mesma, e provavelmente não será por muito tempo. Mas um dos meus momentos favoritos aconteceu num dia em que o metro estava cheio, completamente cheio. Tantas pessoas que nem te conseguias mexer. Do nada, um miúdo que estava com a sua mãe gritou, “Mamã, preciso de fazer cocó”, e toda a gente que estava no metro soltou esta gargalhada incrível e apreciou o momento. Estamos todos chateados e rabugentos. Cheira mal. Está calor. Mas, naquele momento, encontrámos uma coisa que nos fez sorrir. 

O que é que a esperança significa para si?

Não sei o que faria sem ela. O que é a aspiração sem esperança? Sinto que a esperança está entrelaçada em todos os nossos desejos e sonhos. Para mim, é sobre ter a coragem de acreditar que eu mereço aquilo que quero. Quando penso para mim mesma que tenho um sonho e que espero que ele se realize, paro e penso: “Espera lá. Como é que não se poderia realizar?” Essa afirmação, todos os dias, é aquilo que a esperança é para mim. A esperança é: “Soph. Tu és fantástica. Tu mereces coisas extraordinárias. Tu não mereces dor. Tu não mereces tristeza. Tu não mereces sofrimento.” É esse reminder, e eu volto sempre à ideia consistentemente. Eu acredito na afirmação verbal, mas também acredito que, espiritualmente, é algo que convocas a ti mesma. Ouve. Eu não planeio morrer amanhã. Eu tenho planos. Todos nós temos planos. E as coisas estão muito más, neste momento, para muitas pessoas. Mas estamos aqui. Por isso, se não a esperança, então o quê? Eu digo sempre isto: as pessoas andam na Internet e odeiam coisas que não compreendem, e isso é totalmente normalizado. Por isso, para mim, vamos normalizar o ato de amar um estranho. Vamos normalizar o ato de amar aquilo que não compreendemos. O que é que temos a perder? As coisas estão más. O que é que perdemos em ser boas pessoas, esperançosas, otimistas? 

Quais são as suas esperanças futuras, não só para o mundo da cozinha e do wellness, mas para o planeta em geral?

Mais. Mais inclusividade, mais diversidade. Muito mais. A comida é notícia. Isto não é só sobre: “Hoje vamos fazer uma caçarola.” Não. Precisamos de falar sobre cadeias de fornecimento. Precisamos de falar com os nossos agricultores. Precisamos de falar sobre ingredientes indígenas. Precisamos de falar do vegan enquanto cultura e falar do privilégio de viver esse estilo de vida. Precisamos de ter estas conversas difíceis e precisamos que não seja só um tipo de pessoa a fazê-lo. Quero ver mais mulheres. Quero ver mais pessoas negras. Quero ver mais diversidade no geral. E também quero ver uma faixa etária mais jovem. Com os programas de culinária, há sempre esta imagem de uma avó na cozinha, ou de uma mulher muito elevada. Eu quero ver miúdas cool numa cozinha, a conviverem, a cozinharem e a falarem sobre coisas que importam. Se alguém quiser fazer um programa assim, call me, porque esse é o tipo de programa que precisamos. Precisamos de ver pessoas como nós, precisamos de ver pessoas que falam línguas diferentes e dialetos diferentes. A comida precisa de muito mais imaginação. Quer dizer, não está mau, existem coisas boas. Temos o Chef’s Table, temos o Dave Chang, he’s killing it. Mas precisamos de mais. Mais mulheres, mulheres mais jovens, mulheres mais diversas. 

Mónica Bozinoski By Mónica Bozinoski

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