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Sónia Balacó: O poema é d(ela)

20 Jun 2026
By Sara Andrade

The Words Issue | Vestido, VALENTINO.

Sónia Balacó tem acumulado vários papéis ao longo da sua carreira, enquanto modelo, atriz, realizadora, mas aquele que melhor a define é o papel em que imprime a poesia que lhe é identidade.

A sua cara não lhe é estranha, seguramente e, hoje em dia, as suas palavras também não: falar em Sónia Balacó é reconhecer-lhe uma série de quadras e de frases que se tornaram porta-estandarte para datas emblemáticas e mantras pessoais. Mas nem sempre foi assim: começou a ser conhecida do grande público ao colecionar algumas passerelles de moda e muitas séries de televisão (demasiadas para listar, mas se for necessário avivar a memória, entrou na mítica sátira O Último a Sair, Filhos do Rock, Terra Brava e até teve uma participação no internacional Vikings: Valhalla), mas o círculo mais próximo já lhe conhecia a queda para a prosa — poética e mais além. A maturidade e a vontade crescente — e a mãe — fizeram-na trazer essa faceta para a exposição mediática com o lançamento do seu primeiro livro de poemas, Constelação, no final de 2015, um passo que deu reticente mas com entusiasmo, e a identidade de poeta não mais se descolou da artista. “Senti [que tinha de ser]. Senti também medo”, admite, sobre esta decisão de mostrar ao mundo as suas estrofes. “Porque é reclamar o direito a ter outra existência pública. E sabia que por eu ter uma vida e trabalho bastante públicos, que não ia ser uma coisa que passasse despercebida. Então sentia também a pressão de... 'as pessoas vão ver'. Houve aí um desafio e um medo tremendo. E, na verdade, enquanto estava no dilema de fazer ou não, a minha mãe disse-me uma coisa incrível... ‘Vais fazer o quê? Deixar cá uma pilha de textos para outras pessoas um dia terem que fazer por ti?’ E como eu sou uma control freak, não ia deixar ninguém a fazer isto por mim. [ri-se] Quem vai fazer sou eu. Sabendo, claro, o risco da exposição. Mas ainda bem que o fiz. Porque acho que o trabalho do poeta é receber as ideias que estão no plano das ideias e trazê-las para aqui. Os objetos artísticos querem existir. E o nosso trabalho, tal como o de Hermes, mensageiro dos deuses, é fazê-los existir. Se estás a escrever, a criar, a receber as coisas e não estás a enviar para o mundo, não estás a cumprir-te como mensageiro dos deuses. Não estás a fazer aquilo que tens para fazer. Os objetos artísticos não são para ficar na gaveta”, assegura.

Vestido e sandálias, MAISON MARGIELA.

Mas, às vezes, demora-se a abri-la, como neste caso. “Eu acho que foi a vida a fazer o que tinha de fazer”, admite Balacó para justificar este hiato na publicação do livro, tendo em conta que escrever era algo que fazia desde a infância. “Não me lembro do momento exato em que isso começa a acontecer, mas escrevia criativamente, a fazer poemas, algo que vinha de uma necessidade de escapismo, de criar outras realidades, invenção de outros mundos. As palavras, tanto as que eu escrevia como as palavras nos livros [que lia], eram os mundos para os quais podia escapar e também os amigos que eu sentia que não tinha, mas que estavam lá nas palavras, nas histórias”, recorda. “Na verdade, eu nunca pensei ser modelo, nem nunca foi uma coisa que eu quisesse fazer ou que sequer achasse que fosse possível. Não me via a ter as características para isso. Mas quando aconteceu, foi um presente tremendo que abriu mui- tas portas e me deu a possibilidade de começar a trabalhar como atriz, que era um grande sonho. Mas as palavras continuaram lá, sempre... Apesar de ser uma coisa que eu não fazia publicamente, todas as pessoas à minha volta tinham perfeita noção de que esse era o meu passatempo e um grande amor. Então, quando lancei um livro, se calhar para o público talvez tenha sido uma surpresa, mas para todas as pessoas à minha volta, a reação foi... ‘Finalmente’. Porque, mais do que uma profissão, era quem eu era”.

Blazer e saia, SCHIAPARELLI.

E quem é, está de facto nas palavras que imprimiu em dois livros (a caminho de serem três), admitindo que todos os poemas são autobiográficos. “O que não é sobre mim é sobre o que está a acontecer à minha volta. É um exercício profundo na página. Eu tenho um poema no Rosa que diz que tudo o que eu digo é verdade e que tudo o que eu digo é mentira e que ninguém sabe também o que é que é verdade na minha vida fictícia. Acho que na poesia em particular há uma curiosidade em saber o que é que ali é honesto, o que é que ali é da tua vida. Na poesia, o eu tem muito a força da nudez”. Talvez por causa dessa nudez metafórica, há ainda palavras que não consegue colocar em papel: “há um tema que ainda está a ser particularmente difícil para mim, mas que vou ter de ganhar coragem para ir lá, que é o luto e as perdas que eu vivi nos últimos anos a nível familiar e que foi uma coisa que, por ser tão dura, quase me afastou da escrita e da página, porque era tão duro de tratar e de enfrentar que eu não queria ir escrever, não conseguia ir enfrentar o que estava a sentir... agora está a ficar melhor. E eu arranjei estratégias de escrita também para isso, devices para me enganar, para fazer de conta que não estava a ir a coisas tão pesadas, mas que sinto que vou ter de enfrentar com o objetivo de fazer um objeto sobre isso”.

Vestido e botas, CHANEL.

O CV de Sónia Balacó é vasto e vai muito além da sua veia de poeta (poeta, e não poetisa, corrige sempre, porque “eu odeio a palavra poetisa. Sinto que é uma palavra que existe para desirmanar e separar o que é irmão, os poetas homens e as poetas mulheres. Parece-me uma palavra que é um diminutivo. ‘Aqui estão os homens sérios que fazem poesia, os poetas, e ali estão as poetisas que fazem bordados e que também escrevem umas coisas'. E não me reconheço nessa palavra.”), mas a sua pluralidade nunca se desliga completamente das palavras. Compôs canções, datilografou argumentos, realizou-os (Prisma, que correalizou com Zé Bernardino e que escreveu em conjunto com ele, mas também Maria de Sá e Rita Revez, é uma minissérie que estreou em 2024), provando que até o termo poeta é redutor para a definir enquanto escritora: “Todos [os objetos artísticos] são consequências de uma coisa que acontece antes, que é a minha necessidade de ir para a página, perceber o que é que eu estou a sentir, o que é que está a acontecer. A intenção primeira nunca é fazer coisas bonitas, nunca é escrever uma coisa que vai existir como poema ou como prosa poética ou um argumento. A ideia é mesmo agarrar e narrar esta vida interior que está constantemente a fugir. E depois, isso acontece como objeto numa forma artística. Essa transformação é um acontecimento posterior, que muitas vezes vem de um processo de edição. Foi uma coisa que eu tive de aprender depois do Constelaçãono meu processo de escrita. Porque até lá eu escrevia para mim, era livre na página. E, de repente, eu existo como poeta no mundo, as pessoas leem o que eu escrevo, há já um olhar de um leitor. E se nós vamos para qualquer objeto artístico a pensar o que é que alguém vai pensar sobre aquilo, já estamos a falhar. Então eu vou para a página ser absolutamente livre, não interessa o que é que vai ser. E depois o trabalho de recuperação desses textos será uma coisa no futuro. A escrita é catarse, é escape, e depois o formato é apenas um veículo. A escrita, para mim, é uma maneira de estar na vida. É quem eu sou. O objeto artístico é uma consequência disso.”

Da esquerda para a direita: blazer e calças, ZUHAIR MURAD. Blusa e calções, ZUHAIR MURAD.

Constelação foi a primeira consequência publicada dessa identidade. Depois, em 2025, lançou Rosa, admitindo que se apercebeu que tinha uma trilogia entre mãos: o terceiro da saga, Olhos-Ponte, será lançado em breve, confirma, e será “escrita epistolar, são cartas”. Porquê uma década entre a primeira obra de poemas e o segundo livro? “Várias coisas. Uma foi a consequência de ter feito um livro que correu muito bem e continua a correr. É sempre uma surpresa para mim ver como alguns poemas do Constelação continuam a tocar pessoas e a chegar a sítios que nunca pensei. Por outro lado, publicar um livro e assumir-me como poeta fez-me deixar de ter trabalho como atriz, levou a grandes mudanças na minha vida profissional e eu tive de redescobrir maneiras de me reaproximar da representação e de reconstruir a minha carreira depois desse embate inesperado. Vais fazer arte e ninguém espera que isso te- nha consequências negativas, mas teve. Sinto que fiquei um pouco escaldada com isso. E depois, o facto de a mim não me interessar fazer nada que eu já saiba fazer. Não queria fazer um livro como o Constelação porque correu bem e porque as pessoas gostaram. O que a mim me interessa na prática artística é a experimentação e o prazer de descobrir, ao fazer o objeto, como é que se faz. Houve projetos até parecidos com o Constelação que não avançaram nesse período de nove anos. E depois, quando surgiu a ideia para o Rosa, o facto de ser misterioso e de sentir que há qualquer coisa aqui a puxar-me que eu não sei como é que se faz, foi o que me fez avançar e sentir que ele tinha de existir.” As obras, são portanto e previsivelmente diferentes: “O Constelação é um livro que trata a busca do eu e, no fundo, o alcançar desse objetivo revela-se na transformação do eu num eu poético. Sou eu a transformar-me em poeta através da existência daquele livro. E é um livro que fala muito da relação com o divino e da dimensão etérea na vida, a relação com o invisível. E o Rosa é um livro em que eu estou a assumir a falha e a minha humanidade. Os textos são da mesma altura do Constelação, mas eu estou a publicar os textos que eu não tive coragem de publicar no Constelação. Há muita visceralidade, humanidade, escatologia. Até fala de sexo. Ou seja, estou a expor-me mesmo como humana. Eu tive um problema a fazer o Rosa: estou a trabalhar textos que vão até aos meus 30 anos, mas eu já tenho 40 e já não sou essa pessoa. Então, como é que eu me relaciono com estes textos e com esta pessoa que já não sou? E senti que, sempre que ia editar os textos para os tornar melhores, mais bonitos, mais visualmente o que fosse, estava a ser desonesta, que não era verdade, porque aqueles textos não são meus, não são da pessoa que eu sou hoje. Eu já não escrevo aquilo, já não penso assim. Tinha aqui este dilema de sentir que era uma mentira estar a trabalhá-los para os tornar bons ao meu olhar de hoje em dia. E não sabia como resolver. E tive um sonho que me deu a resposta: ‘não te podes esquecer que quem está a fazer este livro são duas pessoas’. Sou o eu de agora e o eu do passado, e essas duas pessoas têm de existir. E foi assim que eu cheguei a esta ideia de deixar o rasurado, tens no livro as duas propostas. A proposta da pessoa de 20/30 anos e a edição da pessoa de 40, que tem vergonha daquelas coisas que ali estão, que não as queria tanto assumir, mas que acha que aquela pessoa tem o direito a existir.” Do Rosa a Olhos-Ponte o intervalo é bem menor, porque, na verdade, ambos foram pensados, criados e imaginados quase em paralelo, explica: “Quando eu comecei a trabalhar o Rosa, descobri, dentro dos textos, que havia dois livros. Até pensei se não devia lançar dois livros ao mesmo tempo, mas houve quem dissesse que um livro iria comer o outro, por isso, deixei-o para sair este ano. Para mim, o Constelação, quando saiu, ia ser só um livro. Quando descobri o Rosa e este próximo, percebi que é uma trilogia. E que, no fundo, narra esta viagem entre os 18 e os 30, a relação com o divino, a relação com a minha própria humanidade e o que é que está no meio disso. E, para mim, o que eu acho que está no meio é o amor, o que nos liga ao divino e à nossa humanidade. O que faz as pazes entre esses dois extremos é o amor.”

Blazer, calças e sandálias, tudo GIVENCHY.

E o amor pela palavra é também móbil para que continue a publicar, mas não é o único. Acredita que a poesia não está a definhar, pelo contrário, está “de superboa saúde”, contrariando o estigma de que a poesia não vende. “Acho que está a haver até um movimento inesperado de aproximação ou reaproximação à poesia que é fruto de acontecimentos online, como a página de Raquel Marinho, O Poema Ensina a Cair, que pôs imensa gente a ler e a conhecer poesia e a descobrir poesia e que é incrível. Também movimentos no TikTok, ou seja, coisas que, à partida, até parecem que nos afastam do acontecimento literário, de certa maneira estão a ajudar”, acrescentando que, apesar de acreditar que o formato de poema está cada vez mais apelativo, emocional e comercialmente, também importa apontar que “a maneira como a poesia é ensinada, às vezes é um desserviço. Acho que perdemos muitos leitores no período escolar, porque o ensino se foca muito na passagem do que é que o poeta queria dizer. Eu acho que isso é importante, tal como o contexto cultural, a história de vida do poeta, a sua obra. Mas, antes disso tudo, está uma coisa que acontece primeiro, que é como é que este poema, este texto, esta frase, te toca. E isso, para mim, é o fator primeiro, antes de tudo o resto. E acho que seria importante o ensino focar-se também nessa relação que é individual. Eu acredito que os textos têm esta coisa linda de se continuarem a revelar no tempo. E, para os autores que têm sorte, continuarem a revelar-se muito depois da sua partida, da sua morte. Fechar o texto numa leitura que é do passado e não se deixar abrir a novos leitores que podem encontrar lá coisas que ainda ninguém viu, acho que é um desserviço para a poesia, para o texto e muito para os leitores de poesia.”

Vestido, SSANCHO.

A teoria pode aplicar-se à prática do seu próprio corpo de trabalho. Só o facto de ter lançado publicamente os seus poemas e prosas, eles já deixaram de ser simplesmente os seus pensamentos interiores, para passarem a ser os nossos, para passarem a ser experiência coletiva, ainda que não se lhes retire a identidade da autora (o poema é ela, mas somos todos Sónia Balacó, ao que parece, pela forma como o público se relaciona com a sua escrita que fala do seu coração para o âmago de todos os outros; portanto, o poema somos nós, a poeta incluída). A sua poesia deixou de ser um exercício individual para passar a ser diálogo, uma vez que as palavras saem da sua boca para as nossas, saem do papel e até se imprimem na pele dos demais: “há duas coisas muito lindas [que são elogios à sua escrita]. Uma é o movimento completamente inesperado de pessoas tatuarem um verso que eu escrevi, como O Poema Sou Eu. E para mim é muito lindo, não só por ser um verso meu, mas porque as pessoas estão a reclamar o direito de ter essa vida criativa. Perceberem que a maior obra de arte é a biografia, é a maneira como eu estou no mundo, e viverem com essa certeza, reclamarem aquilo para si, que é uma coisa que eu também faço. Então, emociona-me muito esse movimento espontâneo de tatuarem o verso” — a emoção é real, os olhos lacrimejam quando toca nesta matéria. “O segundo é o meu poema sobre a liberdade. Ter chegado a tantas pessoas e ter-se tornado um símbolo para o 25 de Abril, que é o dia que mais me faz chorar no ano, é algo que me emociona profundamente. Nós termos feito uma revolução quase sem sangue, sem violência, uma revolução feita pelo povo e que me dá esperança para o mundo e para a vida. E, de repente, uma coisa que eu escrevi ter-se tornado um símbolo para esse dia, é uma coisa que eu acho que não vou conseguir... abarcar sequer na minha consciência ao longo da vida”, limpa as lágrimas, pergunta se o rímel borrou, antes de continuar. “Acho que é o maior elogio que podem fazer aos teus poemas, é eles tornarem-se maiores no mundo. Não consigo sequer abarcar a grandeza disso. O poema não é meu, o poema veio de outro sítio, usou-me para vir para aqui e é nosso. Então estamos juntos aqui com esta vontade de ser livres, de construir uma vida em liberdade, de perpetuar a liberdade. E estamos em busca, também constantemente, da nossa liberdade. Eu que tenho palavras para tudo, não tenho palavras para descrever essa emoção. Não sei se algum dia terei. Acho que fiquei toda borrada agora. Eu não sabia que vinha para o Daniel Oliveira”, ri-se.

Top, SSANCHO.

Não veio, mas a intensidade é a mesma, por vários motivos: porque o tema da edição e, consequentemente, da entrevista, são as palavras e há pouca coisa mais impactante que o seu peso, principalmente para alguém que as usa como cartão de visita. “É através da palavra que nós criamos o mundo, construímos as histórias, construímos a nossa realidade. E acho que temos todos de ter consciência que as palavras têm esse poder.”, assegura. “E acho que ser poeta não é só escrever coisas bonitas na página, é antes de tudo uma maneira de estar no mundo, na vida, uma maneira de sentir, de ver, de pensar, de tratar os outros. Que vida é que tu estás a criar? Que mundo é que tu estás a inventar com a tua existência? Eu tenho muita consciência disso e escolho com cuidado, não só o que escrevo, nem só o que digo, mas o que faço, com essa consciência profunda de que a existência cria a realidade”. 

Originalmente publicado no The Words Issue, a edição de junho de 2026 da Vogue Portugal, disponível aqui.

Direção criativa e fotografiaÉlio Nogueira
StylingLoizos Sofokleous
EntrevistaSara Andrade
VideoIsmael Jesus e José Pedro Marques
Sara Andrade By Sara Andrade
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