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Entrevistas 8. 5. 2019

Sharon Stone fala sobre Hollywood, #MeToo e Instinto Fatal

by Sara Andrade

 

Esqueça todos os rótulos que alguma vez imaginou para Sharon Stone. O melhor da atriz que imortalizou o cruzar de pernas mais emblemático do Cinema é que ela está acima de qualquer rótulo. Incluindo esse momento histórico cinematográfico de Instinto Fatal.

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 © Fotografia de Branislav Simoncik. Realização de Paris Libby

"Quando comecei nesta indústria, o termo fuckable era usado para ver se tinhas perfil para conseguir um papel. Os executivos do estúdio sentavam-se à volta de uma mesa enorme e discutiam se cada uma de nós era de facto fuckable. Eles achavam que eu não era”, conta a atriz à Vogue Portugal. “Eu pensei sobre isto seriamente, porque queria muito trabalhar, por isso, fiz uma sessão semidespida, estrategicamente planeada, para a Playboy. Encaixava-me nesse papel? Obviamente que não. Se usei o cérebro para perceber como podia parecer mais fuckable? Podes apostar que sim. (...) Por isso, não, não me identifico como sex symbol. Não o sentia na altura e não o sinto agora.” Porquê perder tempo a imaginar um pontapé de saída forte para um texto sobre Sharon Stone quando temos Sharon Stone a fazê-lo em discurso direto? 

Antes do movimento #MeToo, do hipermediatismo em torno da luta pela igualdade de género em Hollywood, antes de as vozes femininas se insurgirem como nunca antes, já a atriz, agora com 61 anos, jogava o jogo de acordo com as suas próprias regras. É por isso que desdenha a palavra sex symbol. Quando lhe perguntamos o que significa para ela, retorna um despreocupado “Pouca coisa”, o que deixa no ar a questão do porquê desprezar algo que foi responsável por grande parte do seu sucesso. A resposta é que não foi: Sharon Stone não assumiu ser símbolo sexual, usou a inteligência para dar ao público – e à indústria – o que queriam dela, para depois mostrar que era muito mais do que o que se esperava. “Tenho a certeza que a Marilyn Monroe também não falava daquela maneira na vida real”, refere a título de exemplo. “Mas ela aprendeu as regras do jogo.”

O CV viria a provar que, de facto, Stone era mais do que a menina seminua na Playboy, mais que um cruzar de pernas, mais que a típica loura de olhos claros californiana – até porque Sharon nem sequer nascera em La La Land. Oriunda de Meadville, na Pensilvânia, EUA, é a small-town girl sobre a qual se escrevem canções e que se mudou para Nova Iorque, aos 19 anos, para ser modelo (acabou por assinar pela Ford). Mas não sem antes entrar em Escrita Criativa e Belas Artes, na Edinboro State University of Pennsylvania, com uma bolsa de estudo – tinha apenas 15 anos (afinal, foi a criança prodígio que passou para a 2.a classe com 5 anos, universidade aos 15 era uma consequência expectável) – e até lhe diziam que, com um cérebro daqueles, deveria considerar a advocacia como carreira. Stone acabou por interromper os estudos, mas retomou-os em 2016, inspirada pela candidatura eleitoral de Hilary Clinton e a noção de que podia fazer tudo o que quisesse – tinha 56 anos. 

A paixão pelo Cinema fê-la interromper as campanhas e os anúncios que começara em 1977 e a construção gradual de uma bagagem de representação invejável, incluindo fazer a estreia na  indústria num filme de Woody Allen, confirmou a decisão. Foi na Europa, para onde se mudou pelas alturas em que se movimentava na Moda, que decidiu preterir essa carreira a favor de uma como atriz. O regresso a Nova Iorque aconteceu para ser figurante em Stardust Memories (1980), de Woody, mas película a película foi conquistando o seu lugar de primeiro plano, colecionando experiências no grande e no pequeno ecrã. 

“Adorei fazer a maioria dos meus filmes. Odiado [um papel]? Bem, trabalhei com um realizador no Instinto Fatal 2 (2006) que me pediu para me sentar ao colo dele todos os dias para me dar a sua orientação e quando recusei, ele não me quis filmar."

Talvez seja em Desafio Total (1990) a minha primeira memória de Sharon Stone na televisão. Talvez seja também a sua (ainda que lhe possamos dizer que, antes disso, em 1987, já a teria visto em Academia de Polícia 4: A Patrulha do Cidadão): o filme com Arnold Schwarzenegger foi responsável pelo primeiro grande impulso na sua jornada cinematográfica, ainda que tenha sido Instinto Fatal (1992) a colocá-la no imaginário do público – masculino e feminino – e que tenha sido Casino (1995) a galardoá-la com um Golden Globe de Melhor Atriz (Drama). Não foi o seu único prémio, nem os filmes escassearam com a idade. Aliás, Stone tem trocado o Cinema pela televisão e tem angariado aplausos pela sua participação em séries: “Filmes, bons filmes é uma arte moribunda. A televisão tem mais oportunidades de qualidade, hoje em dia”, conta-nos, depois de nos explicar o seu mais recente projeto, Ratched, uma série televisiva “de Ryan Murphy (American Horror Story, Glee, Eat Pray Love) passada em 1947. Eu interpreto uma mulher de posses com um filho deficiente. Como de costume, é ao mesmo tempo terrorífico e engraçado.”

Sabe do que fala quando opina sobre o audiovisual. Já tem experiência suficiente no meio para poder caracterizar a indústria a que se dedicou, sempre em papéis que a apaixonavam – ou quase sempre: “Adorei fazer a maioria dos meus filmes. Odiado [um papel]? Bem, trabalhei com um realizador no Instinto Fatal 2 (2006) que me pediu para me sentar ao colo dele todos os dias para me dar a sua orientação e quando recusei, ele não me quis filmar. Isto durou semanas. Eu tinha um bebé de duas semanas quando isto começou. Posso dizer que todos detestamos isso e acho que o filme reflete a qualidade do ambiente em que trabalhávamos todos”, confessa, com uma honestidade acutilante que se faz sentir a cada palavra, da resposta mais mundana à mais reveladora. É por isso que, mais uma vez, não nos surpreendemos quando fala do modo como Hollywood negligencia as mulheres – e como sempre o fez, justificando a sua escolha de personagens pelo meio: “Negligenciar mulheres?”, repete a nossa pergunta. “Sim, sem dúvida. E as mulheres não estão, francamente, a ser representadas como são na realidade. A maioria dos filmes são escritos por homens, realizados por homens, criados por homens, com a mentalidade masculina. Nunca considerando como é que as mulheres são na verdade, como pensamos e sentimos. É por isso que muitas das minhas personagens são bêbadas ou drogadas ou loucas, é a única maneira que tenho de tolerar o seu comportamento, honestamente.” 

A força da sua inteligência é ainda mais manifesta nos momentos em que é brutalmente honesta. Cada resposta parece sair com um único filtro, o da verdade sem papas na língua. É talvez por isso que, quando lhe perguntamos o que diria à Sharon Stone de 21 anos, sabendo o que sabe agora, não recebemos uma qualquer expressão-cliché do género de “Sê tu própria” ou “Nunca desistas” – todas elas verdadeiras, todas elas frases feitas; antes, ouvimos um ponderado “arranja um manager investidor, mas NUNCA lhe dês o poder para assinar O QUE QUER QUE SEJA por ti. E garante que sabes onde está o teu dinheiro a toda a hora. Investe em negócios sólidos, como imobiliário, barras de ouro e arte que sabes não desvalorizará mesmo em tempos de recessão. Assim, tens o teu dinheiro onde consegues vê-lo e não em algo flutuante e abstrato”. Pragmática, sábia e ativista, como se espera de Stone – principalmente se a seguir em aparições públicas e nas redes sociais, onde demonstra de forma recorrente esta personalidade de mulher em prol da justiça, reivindicativa, que sabe o que quer, que aprendeu muito em lições de vida e deixou pouco por fazer, incluindo a maternidade. Adotou três rapazes, Roan Joseph Bronstein, Laird Vonne e Quinn Kelly Stone, em 2000, 2005 e 2006, respetivamente, que são obviamente a sua vida: “Tê-los. Estar com eles. Amá-los. Pô-los acima de tudo o resto”, assume que foi o que mudou mais em si desde que entraram na sua história. Numa entrevista à AARP, em 2012, Stone confessou que adotar foi algo que sempre quis – mesmo em nova pesquisava sobre isso. Depois de dois abortos espontâneos – engravidou do segundo marido, Phil Bronstein –, o processo de adoção do primeiro filho, que decorria ao mesmo tempo que tentava ser mãe pela via convencional, foi aprovado. Agora, os três filhos, a cada filme que veem da mãe, “acham que sou uma durona”, conta Stone à Vogue – com um orgulho notório, acrescente-se. 

“Arranja um manager investidor, mas NUNCA lhe dês o poder para assinar O QUE QUER QUE SEJA por ti. E garante que sabes onde está o teu dinheiro a toda a hora."

O que a maternidade não mudou foi a sua capacidade de se sentir sexy. É que sexy, explica-nos, é muito diferente de sex symbol, o tal conceito que descredibiliza: “Sexy é outra coisa completamente diferente. E sim, eu sei que ainda sou sexy”, diz, com o tal filtro da sinceridade crua. Até porque, como poderia mentir se a resposta está à vista: aos 61 anos, Sharon Stone está a colocar o sexy em sexagenário, ainda que o processo de envelhecimento seja inevitavelmente isso mesmo – um processo. Em 2015, disse numa entrevista que “tens de te sentar e olhar bem para ti, principalmente à medida que vais envelhecendo e o teu rosto vai mudando. As pessoas têm medo de mudar, como se estivessem a perder algo. Não entendem que estão também a ganhar algo. (...) Acho que na arte de envelhecer bem há uma sexualidade inerente a essas imperfeições. É sensual.” À Shape, com 55 anos, confessou que “houve uma altura nos meus 40 em que fui para a casa de banho com uma garrafa de vinho, tranquei a porta e disse: ‘Não vou sair daqui até aceitar por completo o modo como sou agora.’ E examinei o meu rosto com um espelho de aumento, e olhei para o meu corpo e chorei e chorei e chorei. Depois, disse a mim mesma: ‘Vais envelhecer agora. Como é que queres fazê-lo?’” É óbvio que ultrapassou essa fase e ainda acredita em cada letra de encorajamento, mas foi sempre assim? “Bem, envelhecer é um processo. Como sabemos, acontece lentamente ao longo do tempo, se tiveres sorte. E eu tenho sorte”, admite à Vogue. 

 

"É uma cena que fiz num filme há mais de 25 anos. As outras pessoas têm a sua própria perspetiva.”

Nós também: por termos podido retratar essa sorte numa produção que acumulará com as suas capas da Vogue às quais já “perdeu a conta”. “Costumava tê-las todas  nos meus escritórios, mas são tantas que começou a parecer pretensioso, por isso agora estão guardadas”, conta-nos. Esta não será de certeza: permitam-nos avançar com alguma falta de modéstia que é a sua melhor até à data. Não porque tem 61 e está irrepreensível – em imagem e em confiança avassaladora. Não porque o amor-próprio parece ter incrementado com os anos e isso é sintomático do seu à-vontade. Não porque é um sex symbol e nunca deixou de o ser, mesmo que o termo lhe seja indiferente. Mas porque é honesta, porque é inclusiva, porque quebra tabus, porque faz história.

“O fotógrafo é um génio. Encontrou a luz ideal mesmo quando eu nem a via. E eu conseguiria encontrar um fósforo num estádio”, conta sobre o nosso Branislav Simoncik. Aqui, nestas páginas, onde descruza as pernas para mostrar que um número sobre sexo (e sexy) pode – deve – ter uma sexagenária a dar a cara por ele, Sharon deita por terra qualquer pré-conceito sobre o envelhecimento, preterindo a irrelevância da idade a favor da sensualidade da inteligência.

Apeteceu-me pedir-lhe que a próxima sessão fotográfica fosse em Portugal, em vez de Los Angeles, para que me ensinasse aquele cruzar de pernas fantástico (aquele cruzar de pernas que não é “nem uma bênção, nem uma maldição, é uma cena que fiz num filme há mais de 25 anos. As outras pessoas têm a sua própria perspetiva”). Mas a pergunta que mais abomina que lhe façam são aquelas relacionada com a película: “Estou cansada que me perguntem sobre o Instinto Fatal. Tenho tantas outras conquistas, parece-me preguiçoso. Há tantas outras coisas valiosas para discutir. Por exemplo: podemos simplesmente escolher não ter medo desta nova mentalidade ditadora e lembrarmo-nos de quem somos e porque estamos aqui?” 

Ok, esqueçamos o cruzar de pernas. Ensina-me só a ser esta Sharon Stone. 

 

Artigo originalmente publicado na edição de maio de 2019 da Vogue Portugal.

Cabelos: Giannandrea @ Forward Artist. Maquilhagem: Jo Baker @ Forward Artist.
Assistente de realização: Rebecca Ostrom. Assistente de produção: Richard Lima.
Editorial realizado em exclusivo para a Vogue Portugal 

 

 

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