Coleções  

Viagem ao centro da Terra: o poder da semana da Moda de Paris

12 Oct 2023
By Pedro Vasconcelos

Chegámos ao destino final do fashion month e a semana de Moda parisiense não desiludiu. Mais uma vez a capital francesa tornou-se o centro do mundo.

O momento chegou. Atingimos a semana mais importante da Moda, onde os titãs da indústria mostram as suas propostas para a estação quente. Não se trata apenas de roupas e acessórios (ainda que estes sejam excecionais), as coleções apresentadas são interpretações do presente que vivemos e dos futuros que se aproximam. Documentar a semana, que de facto são dez dias, não é tarefa fácil. Diríamos mesmo desafiante. Estas são as nossas Olimpíadas. De forma a evitar acusações de favoritismo, salvaguardamo-nos ao abordar a nossa análise de forma cronológica.

A nossa ordem é imediatamente interrompida e saltamos para o segundo dia da semana da Moda de Paris para discutir uma das marcas mais emblemáticas da cidade: Christian Dior. Esta estação Maria Grazia Chiuri, diretora criativa da linha feminina da marca, manteve-se verdadeira a si mesma, com uma coleção que ambiciona intersectar feminismo com o feminino. Com uma clara inspiração em bruxas como inimigas do patriarcado, Chiuri apresentou 78 looks que combinaram a obscuridade desta estética com a elegância Dior. Um conjunto de uma saia e um casaco oversized tinham as bainhas queimadas, como que para replicar as mulheres acusadas de bruxaria. Vestidos maxi em renda preta possuíam um je ne sais quoi aterrador. Esta estação a designer italiana desconstruiu a clássica camisa branca, alterando-lhe a silhueta, retirando o colarinho e aumentando os punhos. A paleta neutra da coleção foi contrastada com o cenário do desfile. Uma instalação da artista Elena Bellantoni composta por milhares de ecrãs brilharam com frases coloridas como “I am not a space between your pages” (não sou um espaço entre as tuas páginas).

Christian Dior
Imax Tree

Se Dior é dia, Saint Laurent é noite e, como forma de encerrar o segundo dia da semana, Anthony Vaccarello apresentou a coleção no local do costume, sobre a luz da torre Eiffel. As suas propostas para primavera/verão 2024 focaram-se na história da marca através do icónico casaco safari. A peça foi criada em 1968 por Yves Saint Laurent, imortalizada como uma das peças mais reconhecíveis da Moda do século XX. Vaccarello reinterpretou o casaco, aumentando-lhe as proporções e cintando-o ousadamente. A opulência da última coleção da Saint Laurent, que esteve repleta de powersuits e ombreiras à la anos 80, foi significativamente reduzida. O designer italiano inspirou-se em mulheres com carreiras em indústrias dominadas por homens para criar uma estética utilitária. A pompa e circunstância concentrou-se nos acessórios, particularmente num par de brincos dourados e prateados que provam que maior é sempre melhor.

Saint Laurent by Anthony Vaccarello
Imax Tree

No dia seguinte, logo pela manhã, Rabanne apresentou uma coleção merecedora do sofrimento matinal. As propostas de Julien Dossena, diretor criativo da marca desde 2013, foram opulentas, exageradas ao ponto do ridículo (da melhor forma possível, clarifique-se). A característica chainmail da marca foi a estrela do desfile, com versões em prateado e dourado, as duas muitas vezes combinadas. A coleção primavera/verão 2024 foi Dossena a mergulhar diretamente na glória de Rabanne. Carolina Nunes, assistente de Moda na Vogue Portugal, descreve a coleção como “a minha versão do império romano.” Não é a única, o feedback da coleção foi predominantemente positivo. Com um novo nome, mas com a mesma estética, Rabanne provou que se consegue destacar, mesmo num calendário repleto de gigantes.

Rabanne
Imagem cortesia Rabanne

Na Schiaparelli, Daniel Roseberry adaptou a estética da Alta-Costura da marca a uma coleção de pronto-a-vestir. Não faltou a opulência do dourado e a riqueza do veludo, mas desta vez menos intimidantes. Sets de malha pautaram a coleção, proporcionando uma “simplicidade” refrescante. O principal ponto de inspiração foi a lagosta, um dos animais favoritos de Elsa Schiaparelli devido à sua afiliação com o movimento surrealista. Destaca-se o look que centra o animal numa saia creme, acompanhada de uma camisa branca oversized e sapatos do mesmo tom. O exagero de Schiaparelli é subvertido de uma forma deliciosamente elegante.

Schiaparelli
Imax Tree

Dia 29 começou com Loewe, onde Jonathan Anderson expandiu a simplicidade que apresentou em Londres na sua marca homónima. Focado em daywear, o designer irlandês reinterpretou a sua estética surrealista numa coleção que procurou ser usável. Faça-se a distinção, usável não significa aborrecido. As propostas da Loewe tiveram a diversão que lhes é característica. As peças Polly Pocket, feitas a partir de um material que replica o aspeto de borracha, estiveram presentes, ainda que em tons neutros. O foco da coleção foram as peças que distorcem a silhueta de quem as usa. Anderson criou peças como calças com cinturas absurdamente subidas como forma de brincar com proporções. O destaque (e o look mais partilhado do desfile) foi certamente um vestido com amarelo cuja parte superior imitava um post-it quadrado na perfeição.

Loewe
Imax Tree

O dia seguinte foi um dos mais emocionais do mês: o dia do último desfile de Alexander McQueen sobre a direção de Sarah Burton. A designer está na marca desde 1997 e, até à trágica morte de McQueen, foi o seu braço direito. No seguimento desta, em 2010, Burton assumiu o elmo da direção criativa. As suas propostas foram como uma retrospetiva dos temas que explorou ao longo da sua carreira, com um foco especial nas suas coleções mais recentes. Quando o desfile terminou, Heroes, de David Bowie, tocou à medida que a designer se despedia de alguns dos seus maiores apoiantes e amigos. Tal como Naomi Campbell, que chorou enquanto fechava o desfile, todos tinham uma lágrima nos olhos.

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Na Chanel, Virginie Viard apresentou uma coleção divertida e leve com uma forte inspiração no legado de Coco Chanel. icónica designer redefiniu o minimalismo feminino da sua época, Viard expande esta noção, adaptando-a ao século XXI. A coleção abriu com o característico tweed, apresentado em macacões e vestidos maxi. Não demorou muito até que fatos de banhos aparecessem, não fossem estas as propostas para a estação quente. Ainda que simples à primeira vista, estes encontravam-se adornados com o padrão das carteiras da marca, perfeitamente acolchoados. A designer francesa fez referências frequentes à década de 30, observáveis em longos vestidos leves que se assemelham a alguns dos designs da fundadora da marca nessa época. Mas Viard não sacrificou a jovialidade a favor do respeito à maison — o que defende é a mistura de ambas as estéticas, criando peças que são tão Chanel como são divertidas. Destaca-se um look feito a partir de tecido turco com uma saia assimétrica.

A semana fechou com Miu Miu e, como de costume, Miuccia Prada não desiludiu. A estética preppy da marca foi de férias ao invocar imagens de colégios à beira-mar. Blazers sobrepostos por cima de camisas e polos foram complementados com speedos coloridos. As saias com cinturas impossivelmente low rise retornaram, mais notavelmente em sets em pele com bandana tops. Para além da coleção, o destaque do desfile foram também alguns dos seus modelos, como Troye Sivan ou Cailee Spaeny. A designer italiana sabe que a sua cliente é a personagem principal.

Miu Miu
Imax Tree

E assim, tão rapidamente como começou, o fashion month acabou. O que fazer agora que a nossa rotina não estará repleta de novas coleções, novos looks e novos escândalos? Não é preciso ponderar muito, as coleções Cruise já estão à porta. Esqueça-se o fashion month, vivemos uma fashion life.

Pedro Vasconcelos By Pedro Vasconcelos
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