Moda   Coleções  

Semana de Moda de Paris: entre a herança e a reinvenção

18 Mar 2026
By Pedro Vasconcelos

Dior FW26

Para as suas propostas de outono/inverno 2026, os designers das maiores maisons da indústria negociam o peso do passado e as pressões do presente.

A Semana de Moda de Paris são os 10 dias mais antecipados de qualquer amante de Moda. Mas, para além do entusiasmo de todos aqueles que apreciam a indústria, existe a pressão latente dos idolatrados designers. É um trabalho difícil de se ter: implica prever o futuro, entender o que o cliente quer, criar algo novo num mundo em que tudo já foi inventado. E, talvez ainda mais importante, respeitar as maisons para as quais criam. É um jogo de constante equilíbrio entre herança e reinvenção. Mais do que apresentar coleções, os designers têm de ser capazes de carregar o peso das marcas que lideram, tornando o passado em algo contemporâneo. 

Na Chanel, Matthieu Blazy torna esse gesto literal. O Grand Palais foi transformado numa obra de construção colorida. É uma metáfora inteligente, ainda que literal. Herdar uma casa como a Chanel implica inevitavelmente remodelação, mas nunca destruição. Outono/inverno 2026 prova que Blazy compreender isso melhor que qualquer outro designer. Em apenas quatro coleções, provou que honrar Gabrielle Chanel não passa por replicar o seu trabalho, mas por lhe responder. Este diálogo é estabelecido em peças que evocam os anos 30, mas que não se prendem à sua filosofia. Vestidos de seda bordada acompanham a linha do corpo antes de se fragmentarem em tiras cortadas em viés ao nível da anca. A silhueta de cintura descaída evolui: cintos posicionam-se mais próximos da bainha, enquanto novas “cinturas” surgem na parte superior da coxa. São tanto referências históricas como propostas que desafiam a leitura tradicional do corpo. Ainda que a forma como manipula a silhueta seja incrível, não há nada que supere o trabalho têxtil de Blazy. Um conjunto de algodão com padrão de rosas brilha como couro, resultado de uma técnica de Alta-Costura recuperada dos arquivos da própria Chanel. Tweeds translúcidos, sobreposições em silicone, malhas com fios de lantejoulas e chainmail em tons pastel revelam uma inteligência material rara. Mesmo nos momentos mais experimentais, existe uma preocupação clara com as suas futuras clientes. Casacos revelam forros tão elaborados quanto os exteriores, enquanto os clássicos conjuntos de tweed ganham novas proporções: ombros mais largos, cinturas mais soltas. 

Chanel FW26

Se na Chanel se constrói, na Dior seduz-se. Jonathan Anderson, ainda numa fase inicial do seu percurso na maison, demonstra uma confiança crescente. A sua coleção de outono/inverno 2026 mergulha numa visão assumidamente romântica de Paris. Como estrangeiro na capital francesa, o designer irlandês deixa-se seduzir pelo charme da cidade. O convite, pequenas réplicas das cadeiras verdes do Jardin des Tuileries, revela o conceito do desfile: um passeio entre os nenúfares imaginários de um lago hipotético. Se a sua coleção de estreia propôs um diálogo entre o seu universo visual e o da maison, esta estação marca a fusão dos dois. As flores, símbolo incontornável da casa, tornam-se estruturais. Folhos ganham volume escultural, enquanto casacos assimétricos evocam bouquets em plena floração. Vestidos de tule afastam-se do corpo, com bustos arredondados e saias que explodem em formas inesperadas. A obsessão de Anderson pela silhueta encontra terreno fértil no legado da Dior. O icónico bar jacket surge reinterpretado em malha, suavizando a sua rigidez sem a erradicar. Por baixo, camadas de folhos evocam construções históricas da maison, sugerindo continuidade sem nostalgia.

O que emerge é uma elegância interrompida por um certo humor. Há algo ligeiramente desconcertante nas proporções, um desvio subtil que impede qualquer leitura demasiado literal. É uma abordagem que recorda o seu trabalho na Loewe, mas que aqui ganha precisão dentro de um sistema de códigos mais rígido. Essa dimensão mais lúdica revela-se sobretudo nos acessórios. Sapatos em forma de nenúfar replicam os elementos do cenário, fundindo espaço e roupa numa mesma fantasia parisiense. Na Dior, Paris não é apenas um lugar, é uma ideia em constante reinterpretação e inspiração.

Dior FW26

Se algumas maisons olham para o passado como matéria maleável, outras afirmam-se precisamente na recusa de o distorcer. Na Hermès, Nadège Vanhée continua a construir uma visão de luxo que não cede à tentação do espetáculo. Num calendário cada vez mais marcado por gestos grandiosos, a maison opta por um rigor quase disciplinar. A coleção outono/inverno 2026 foi um estudo de contenção e precisão. Silhuetas alongadas, cinturas marcadas sem rigidez, sobreposições pensadas ao milímetro. O couro — inevitável na Hermès — surge trabalhado com uma leveza quase paradoxal: casacos que se movem como tecido, calças que desafiam a sua própria estrutura. A paleta, dominada por castanhos profundos, negros e tons neutros, é sedutora. Mas reduzir a Hermès à simplicidade seria um erro. Há uma complexidade subtil no corte, na construção, na forma como cada peça se relaciona com o corpo. É quase sensual, a forma como o material desliza à medida que as modelos andam.

Hermès FW26

Já na Louis Vuitton, Nicolas Ghesquière continua a operar num registo completamente distinto. A coleção apresentada no último dia da semana de Moda de Paris foi mais um capítulo na exploração contínua do tempo e da memória. Desta vez, a narrativa construiu-se através de silhuetas que pareciam deslocadas de diferentes épocas, mas nunca presas a nenhuma. Vestidos estruturados conviviam com peças de inspiração quase futurista, enquanto texturas contrastantes — metálicos, lãs densas, superfícies técnicas — criavam uma sensação de fricção constante. Ghesquière não procura coerência linear, mas sim tensão. Há, no seu trabalho, uma recusa deliberada da facilidade. As proporções desafiam, os volumes expandem-se de forma inesperada, os detalhes acumulam-se. E, ainda assim, tudo faz sentido no seu universo. A Louis Vuitton torna-se, assim, um espaço de experimentação onde o arquivo não é reinventado com cada look. É uma estratégia bem-sucedida num jogo quase impossível de ganhar. 

Louis Vuitton FW26

Felizmente, com o fim do fashion month, a estação alta acaba. Ou melhor, tem uma pausa. Em breve teremos as coleções Cruise para analisar. A indústria nunca para. 

Pedro Vasconcelos By Pedro Vasconcelos
All articles

Relacionados


Moda  

PFW outono/inverno 2026 | Models Off-Duty IV

09 Mar 2026

Moda  

PFW Backstage | Lacoste outono/inverno 2026

09 Mar 2026

Compras   Moda  

PFW outono/inverno 2026 | Models Off-Duty V

10 Mar 2026

Moda  

PFW Backstage | Uma Wang outono/inverno 2026

10 Mar 2026