Nos lábios, o tempo sente-se de forma tangível. As memórias deixam traços de uma vida bem vivida, e a sabedoria convida-nos a zelar por rotinas que priorizam a saúde e o bem-estar. Agulhas à parte, a equação da juventude faz-se com peso e medida, num cocktail de ingredientes que visam apagar os danos do tempo sob o mote regente da naturalidade.
Diz-se que os olhos são o espelho da alma; que, neles, encontramos a verdadeira essência de alguém. Mas são os lábios que contam histórias, que beijam promessas e que vincam memórias de uma vida bem vivida. Na zona da boca, refletem-se sorrisos, sonhos e uma série de expressões que definem a face na sua plenitude. Com o avançar do tempo, é também aqui que se começam, aos poucos, a notar os primeiros sinais de envelhecimento. Entre linhas finas que se vão acumulando e uma perda de firmeza que é (quase) impossível de travar, a zona da boca e dos lábios é uma das mais sensíveis da cara.
Hoje, sabe-se que é na prevenção que encontramos a receita de milagres que promete deixar-nos perto da fonte da juventude, mas o avançar da tecnologia e da ciência tem vindo a desbravar caminhos que oferecem soluções que conjugam a saúde e a estética em nome de uma pele perfeita. “Hoje em dia, há uma premissa que temos de ter em conta, que é a seguinte: cada vez mais se procura a naturalidade, e é isso que também me move, é desta forma que trabalho”, conta-nos a Dra. Ana Silva Guerra, médica de cirurgia plástica reconstrutiva e estética. O seu trabalho rege-se por uma fórmula de pensamento onde a estética é integrada no processo de envelhecimento de forma natural, e tornou-se um ponto de referência para quem quer unir as áreas da cirurgia plástica e da medicina estética numa só abordagem.
“Essencialmente, nós temos dois caminhos: o médico — sobretudo com injeções — e o tratamento cirúrgico. Há as duas vertentes. E isto ao longo do tempo”, explica. Inês Rebelo, facialista e um dos principais nomes na área de procedimentos cosméticos não-invasivos no panorama nacional, concorda: “ambas as abordagens, cosmética e médica, podem e devem coexistir. A frequência dos tratamentos depende muito do que está a acentuar essas alterações cutâneas, do tipo de pele, particularidades e limitações clínicas”. O universo dos tratamentos e técnicas estéticas é vasto, mantendo-se em constante evolução e expansão.
Num mundo sobrelotado de informação, tendências e estímulos, torna-se essencial desmistificar as diferentes tipologias de procedimentos. “O tratamento preventivo deverá sempre acompanhar os cuidados mais específicos, pois é a prevenção que vai permitir que os resultados sejam melhores, mais eficazes e que durem mais tempo”, diz-nos Rebelo. Mas quando a vontade que prima é a de pegar numa borracha e apagar os danos que o tempo deixou — ou apenas evitar que estes se tornem uma realidade — quais são as opções mais adequadas a cada tipo de preocupações e necessidades?
Uma sessão de rest and relaxation
Imagine-se o seguinte cenário: um dia de spa dedicado especialmente à zona da boca e dos lábios. Admita-se que parece verdadeiramente idílico. É desta filosofia de bem-estar e resultados que surgem as técnicas de yoga e massagens faciais. Segundo a facialista Inês Rebelo, “as massagens faciais aumentam a circulação sanguínea — aportando oxigénio às células e aos tecidos — melhoram o sistema linfático e relaxam os músculos, atenuando, no momento, os sinais de envelhecimento”. Por sua vez, o yoga facial assume-se como o aliado perfeito no que toca a fortalecer o tónus muscular. Rebelo explica que este tipo de exercícios melhoram a flacidez muscular, além de igualarem os benefícios das massagens faciais. “No entanto, para o envelhecimento, não é uma técnica que tenha sido estudada a longo prazo, e, para as rugas profundas e flacidez cutânea, tem resultados muito limitados”.
Fora dos consultórios médicos e gabinetes estéticos, uma boa rotina de cuidados de pele é, inevitavelmente, meio caminho andado para prevenir os primeiros sinais de envelhecimento ou prolongar os resultados dos procedimentos já aplicados. “O cuidado principal é, sem dúvida, a proteção solar”, diz-nos a facia- lista. “Adicionalmente, procurar por ingredientes antioxidantes, como a vitamina C e E, ingredientes que estimulam a produção de colagénio, como os peptídos, e ingredientes calmantes, como o pantenol”. A especialista acrescenta que, “numa segunda fase, com a pele bem cuidada e a barreira cutânea equilibrada, podemos adicionar ingredientes como o retinol ou os AHA”.
Agora sim. Para começar, um cocktail de ácido hialurónico e colagénio
No que toca a procedimentos na zona dos lábios, a estética e a prevenção tendem a andar a par e passo. A título preventivo, o contorno de lábios com ácido hialurónico é uma das opções mais comuns para as mulheres na casa dos 20 anos. “As mulheres mais jovens procuram muito [este] tratamento dos lábios para os tornar mais sexy. E isso faz-se à custa do ácido hialurónico, sempre com suavidade, respeitando a anatomia do lábio”, diz a Dra. Ana Silva Guerra. “Já houve fases em que se criavam lábios completamente desproporcionais e disformes. (...) Isto era comum antes, e nós tínhamos de explicar que não dá, porque cada um nasce com as características que nasce, e se, de repente, transformarmos essas características, parece que não se enquadra bem no rosto. Não fica harmonioso. Mas isso não invalida que alguém com lábios finos, que queira tornar o lábio mais hidratado e mais pulposo, não possa fazer um bocadinho de ácido hialurónico”, acrescenta.
Já à medida que vamos envelhecendo, é normal que se comecem a notar os primeiros sinais, como as típicas rugas finas e verticais — o chamado código de barras — ou os sulcos que vão do nariz ao canto da boca — apelidados de bigode chinês. A facialista Inês Rebelo explica que, regra geral, apesar destas alterações se tornarem visíveis apenas a partir dos 30 anos, internamente, começam a partir dos 20. “Apesar de serem alterações muito ligadas à estrutura anatómica de cada indivíduo, a genética [que dita quando o nível de degradação de colagénio se torna superior ao de produção do mesmo], a exposição solar prolongada e os fatores que aumentam a oxidação cutânea (como o stress, por exemplo) contribuem para a sua intensificação”, diz- -nos. Nesta altura, o ácido hialurónico e o volume que este confere continuam a ser uma opção viável; afinal, esta é uma substância que existe naturalmente no nosso corpo e, por isso, apesar de não poder ser usada em demasia, mantém-se compatível no que diz respeito a atenuar diversas preocupações.
Eis que entram em cena os bioestimuladores. “Esta é uma substância que pode, ou não, existir no nosso corpo, mas que basicamente não acarreta volume. Simplesmente existe para que o nosso corpo seja obrigado a produzir mais colagénio e a tonificar a pele”, conta-nos a Dra. Ana Silva Guerra. “Os bioestimuladores, integrados na fase dos 40, funcionam muito bem porque evitam que as rugas se instalem com mais força e fiquem mais vincadas, ao mesmo tempo que não nos trazem o volume desagradável do ácido hialurónico”. Este é uma ótima opção para quem quer prevenir o avanço dos primeiros sinais de envelhecimento. Ainda assim, esta substância demora cerca de um mês a atuar de forma visível, ao contrário do que acontece com o ácido hialurónico, cujos resultados são imediatos. Além disso, os tratamentos com bioestimuladores requerem também alguma cadência (a Dra. Guerra recomenda duas vezes por ano), de modo a garantir o estímulo contínuo de produção de colagénio.
Na regeneração está a virtude
No nível seguinte de procedimentos, encontramos armas como os peelings e os tratamentos de radiofrequência microagulhada no arsenal da medicina estética. Os peelings são uma excelente opção para quem sofre de hiperpigmentação da face, já que forçam a pele a entrar num processo de cicatrização e regeneração. “Este é um tratamento químico da superfície”, como nos explica a Dra. Ana Silva Guerra. “Na pessoa certa, com a pele certa, com a pigmentação certa, [o peeling] pode ajudar a aclarar um bocadinho a região [da boca]. É preciso muito cuidado e tem de estar bem indicado”. Em termos práticos, este tratamento elimina as camadas superficiais da pele, mas funciona também como um estímulo para a síntese de colagénio, o que faz com que as rugas mais finas desapareçam ou se atenuem.
Por sua vez, a radiofrequência microagulhada pode ser usada tanto a título preventivo como corretivo. Como o nome indica, este procedimento combina duas técnicas: a radiofrequência e o microagulhamento. “As pessoas desvalorizam muito esta técnica, mas não é para ser desvalorizada”, diz a Dra. Guerra. “O microagulhamento cria microcanais na pele que fazem duas coisas muito importantes. Primeiro, obrigam-nos a cicatrizar — e sempre que há um proces- so de cicatrização, estamos a produzir colagénio e a melhorar a pele. Por outro lado, ao abrirmos os microcanais, permitimos que outras substâncias que nós queiramos penetrem mais facilmente na pele. Temos um período transitório de uns minutos, não muito mais, para impregnar a pele com fatores de crescimento, vitaminas ou fatores que nos ajudem a regenerar e a nutrir a pele”. Já a radiofrequência converte ondas de espectro eletromagnético em energia térmica, o que contribui para a contração das proteínas da derme e para a produção de colagénio. Assim, aliam-se dois estímulos num só tratamento: “enquanto estamos a picar com as agulhas, estamos também a disparar energia. Isto torna-se altamente poderoso para a remodelação da pele em redor da boca, e é útil em todas as idades”, conclui a médica.
Virar do avesso
À medida que avançamos nas décadas, não colecionamos apenas memórias ou sabedoria. Quando envelhecemos, a nossa estrutura óssea também começa um processo de remodelação. Parece que tudo se altera, já que o osso fica mais fraco e desgastado. Nestes casos, a Dra. Ana Silva Guerra recomenda considerar o procedi- mento de lip lift. “Imagine-se a zona das narinas, na transição entre as narinas e o lábio cutâneo. Nesta zona, podemos fazer um corte e remover um bocadinho de pele. Estamos a falar de milímetros, com um formato que até se assemelha muito a uma gaivota — por- que parece que tem umas asinhas a terminar nas narinas e é mais grosso no corpo, na zona do filtro labial”, explica. A ideia é tirar um bocadinho de pele e, de forma harmoniosa, levantar um bocadinho do lábio para que este deixe de ser tão comprido e pareça mais carnudo. “Claro que a cicatriz tem de ficar perfeitíssima, para que depois não se perceba, mas a cicatrização também é diferente nas mulheres mais velhas, é mais suave”, conclui a Dra. Guerra.
Ainda no departamento das cirurgias, derivado da tendência de perda de peso extrema que se tem vindo a sentir nos últimos tempos, começou a surgir a necessidade de trazer para cima da mesa um procedimento chamado Dermalift. “Agora, há muita gente que perde 20 quilos. A vida muda, ficam mais felizes, tudo parece que melhora; mas essa perda reflete-se em vários sítios, incluindo a face. O que acontece nesses casos é que, à volta dos lábios, parece que, de repente, ficam com uns sulcos enormes”, diz a Dra. Guerra. Neste tratamento, resolve-se o excesso de pele. “É um procedimento pequenino, que se consegue fazer com anestesia local. É igual à pequena cirurgia que se faz para remover um sinal: anestesia local na zona onde vamos tirar a pele e depois remoção da pele, fechar e pronto. É uma coisa simples e rápida”. Desta forma, consegue-se reposicionar, sem exagero, a pele que caiu e continuar a trabalhar com as outras armas que temos à nossa disposição — mas, desta vez, com uma nova base.
A combinação é essencial
Com uma diversidade cada vez maior de produtos, técnicas e tratamentos disponíveis, escolher os que melhor se adequam a cada necessidade pode parecer uma tarefa hercúlea. “Só o profissional que escolheu para cuidar de si [saberá qual o tipo de tratamento mais apropriado às suas preocupações],” diz-nos a facialista Inês Rebelo. “O profissional, médico ou não médico, deverá ser capaz de avaliar o que preocupa cada cliente ou paciente: avaliar o seu estilo de vida, o seu historial clínico, realizar uma avaliação visual e tátil da flacidez e, mais importante, gerir as expectativas quanto aos seus resultados, definindo objetivos concretos e até encaminhar para outro profissional, caso seja necessário”. De forma resumida, como a Dra. Ana Silva Guerra defende, o essencial a ter em mente é: “mantendo a naturalidade, devemos dispor de várias técnicas, não de uma só”. A verdade é que existem inúmeras técnicas que apresentam resultados fortes e consistentes, por isso, aliá-las permite resultados ainda melhores, assim como um aspeto mais natural. “É sempre uma combinação, é sempre um tratamento em conjunto. Assim, conseguimos ter os benefícios do ácido hialurónico, dos bioestimuladores, da radiofrequência microagulhada e do peeling. Obtemos um maior resultado, com menos efeitos adversos”, conclui.
Originalmente publicado no The Kiss Issue, a edição de março de 2026 da Vogue Portugal, disponível aqui.
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