Editorial The prefect sunday, da edição Beauty of imperfection da Vogue Portugal, publicada em novembro de 2020.
Rir de temas considerados pesados pode causar desconforto — mas a psicologia mostra que este fenómeno vai muito além de simplesmente "fazer piada com coisas sérias".
Rir faz parte da nossa vida, desde sempre. A palavra surgiu a partir do latim ridere, que significa mostrar-se alegre, e a partir daí nasceu o processo pelo qual uma pessoa gargalha — quase como um reflexo do corpo perante algo que o espírito reconhece como absurdo, inesperado ou libertador. Mas nem todo o riso nasce do mesmo lugar. Há o riso fácil, o da piada inofensiva, e há o riso que hesita antes de sair, aquele que se solta e logo se pergunta "posso rir disto?".
O humor negro é uma manifestação de humor desconcertante, de caráter libertário, em que elementos macabros, absurdos e violentos se associam ao cómico. Não é uma invenção recente: foi introduzido, enquanto conceito formal, pelo surrealista André Breton em 1940, na sua obra Anthologie de l'humour noir. No prefácio, inspirado pelas conceções de humor formuladas por Hegel e Freud, Breton descreve-o como uma "revolta superior de espírito", definindo-o como algo limitado pela estupidez, pela ironia cética ou pela brincadeira vazia de gravidade, mas que se afirma, acima de tudo, como o inimigo mortal da sentimentalidade — essa fantasia de curto prazo que tantas vezes se disfarça de poesia. Associado ao movimento surrealista, o humor negro é, portanto, um humor que liberta: não pretende agradar, pretende revoltar-se contra aquilo que nos é imposto como sério, sagrado ou intocável.
Na prática, este tipo de humor aborda temas sensíveis — a morte, a doença, o sofrimento — utilizando o riso como forma de aliviar a tensão emocional que esses temas naturalmente provocam. Funciona através do contraste: pega-se num assunto grave e "pesado" e trata-se de forma inesperada, quase leviana. É um humor que aborda temas tabu, que se apoia na ironia e no contraste emocional, e que, por tudo isto, exige uma interpretação mais complexa do que a piada comum. Perante a mesma piada de humor negro, há quem sinta criatividade e inteligência, e há quem sinta apenas desrespeito e desconforto. Esta divergência não é aleatória: o cérebro interpreta a piada de formas diferentes consoante a sensibilidade de cada um, as experiências pessoais que carrega e o contexto social em que está inserido. As diferenças na sensibilidade emocional, as vivências pessoais relacionadas com os temas abordados e a capacidade — ou incapacidade — de criar distanciamento emocional perante o assunto explicam, em grande parte, porque é que a mesma piada pode provocar gargalhada numa pessoa e desconforto genuíno noutra.
Usado sem sensibilidade, o humor negro pode causar desconforto real ou até ferir quem o ouve. A diferença entre humor libertador e humor cruel está, muitas vezes, simplesmente nesse detalhe de contexto.
E gostar de humor negro não é, ao contrário do que muitas vezes se assume, sinónimo de algo de macabro. Pelo contrário: as pessoas que apreciam humor negro tendem a apresentar boa compreensão verbal, pensamento rápido e maior capacidade de interpretar contextos complexos. Este tipo de humor exige que o cérebro processe ideias contraditórias em simultâneo — rir e, ao mesmo tempo, reconhecer a gravidade do que está a ser dito —, o que indica habilidades cognitivas mais desenvolvidas, e não, como muitas vezes se assume, falta de empatia. Entre as características associadas a quem aprecia este género de humor contam-se uma alta capacidade de interpretação, um pensamento flexível e criativo e uma boa leitura do contexto social.
Há ainda outra camada a considerar: o humor negro pode funcionar como uma forma de lidar com as próprias emoções, ou até de as esconder. A psicologia aponta que este tipo de humor pode atuar como uma verdadeira estratégia de confronto emocional, ajudando a reduzir a ansiedade e o medo, facilitando a gestão de situações difíceis e permitindo ressignificar experiências negativas — transformar, por instantes, o que dói em algo que se pode encarar de frente. Nem por isso o humor negro é isento de responsabilidade. Existe sempre um momento em que é preciso avaliar se a piada, de facto, funciona. É necessário um certo cuidado: analisar o contexto, o momento e as pessoas envolvidas, porque isso muda completamente a forma como a piada é recebida. Usado sem sensibilidade, o humor negro pode causar desconforto real ou até ferir quem o ouve. A diferença entre humor libertador e humor cruel está, muitas vezes, simplesmente nesse detalhe de contexto.
Por outras palavras: o humor negro nasce livre, mas é recebido por um público que carrega consigo todas as regras sociais que esse humor tenta, precisamente, desafiar.
Um dos conceitos mais úteis para compreender porque é que o humor negro tantas vezes falha junto do público é o de framing — a forma como uma ideia, mensagem ou problema é apresentado, e que acaba por influenciar diretamente a maneira como é interpretado e recebido. Uma das razões para esse fracasso está no facto de o público não se rever na transformação de um assunto sério numa perspetiva humorística; cria-se, assim, uma espécie de barreira entre a audiência e o humorista, como acontece tipicamente com assuntos tabu. Isto acontece porque o humor negro é, antes de mais, percecionado de um ponto de vista moral, e só depois — se é que chega a acontecer — de um ponto de vista humorístico. Esta ordem dificulta o processo de descodificação da piada, apesar de a sua génese assentar em total liberdade linguística, livre de restrições socioculturais e de inibições mundanas. Por outras palavras: o humor negro nasce livre, mas é recebido por um público que carrega consigo todas as regras sociais que esse humor tenta, precisamente, desafiar.
O riso e o humor acompanham a humanidade desde sempre, em todas as culturas, evoluindo a par das mudanças sociais de cada sociedade. Apesar de universal, nem sempre é apreciado da mesma forma. Aristóteles distinguia o drama da comédia precisamente pelo facto de um retratar heróis e o outro retratar cidadãos comuns — uma distinção que continua a fazer sentido quando pensamos em quem o humor negro escolhe como "personagens" das suas piadas: não os heróis, mas os problemas do quotidiano, aqueles que preferimos evitar. Por isso, há um laivo muito pertinente: a inteligência emocional, competência essencial em praticamente todas as áreas da vida, ganha particular valência no humor. Desenvolvê-la traz benefícios claros — melhor gestão dos sentimentos, comunicação mais eficaz e maior empatia — sendo o próprio humor negro, curiosamente, um dos seus pilares. É esta inteligência que permite raciocinar sobre as emoções e utilizá-las para melhorar o pensamento, seja ele geral ou crítico. Voltaire, já no século XVIII, escrevia: "Discordo do que dizes, mas defenderei até à morte o direito de o dizeres" — uma ideia que, aplicada ao humor, defende o espaço para rir, mesmo quando esse riso incomoda.
Há ainda uma vertente do humor negro que toca em algo muito humano: quase todas as pessoas se riem, nem que seja discretamente, das desgraças alheias — das pequenas situações do dia a dia, como uma queda inesperada. É um comportamento comum, mas que continua a ser alvo de reprovação por parte de algumas pessoas, sobretudo daquelas que são o motivo da "piada". Este prazer perante o infortúnio de outra pessoa revela que, muitas vezes, "sentimo-nos bem" com os percalços de terceiros devido a um mecanismo de projeção inconsciente, que nos permite colocar os nossos próprios medos na falha ou no mal de outra pessoa. É, no fundo, uma questão de feitio, de personalidade e da forma como cada um encara o mundo à sua volta — mas associa-se também, muitas vezes, a pessoas mais imaturas, com baixa autoestima e tendência para se inferiorizarem. Esta sensação de prazer perante a infelicidade alheia está ainda ligada à competitividade, seja no futebol, quando o rival perde, seja no trabalho, quando se leva a melhor ou quando aquele colega insuportável escorrega junto ao frigorífico do refeitório.
Entre as características associadas a quem aprecia humor negro contam-se uma alta capacidade de interpretação, um pensamento flexível e criativo e uma boa leitura do contexto social.
Curiosamente, muito antes de o humor negro ser nomeado enquanto conceito, já havia quem o praticasse sem precisar de uma só palavra. O cinema mudo nasceu em salas escuras, com pianistas ao lado da tela e multidões silenciosas, hipnotizadas por imagens em movimento — uma forma de viajar no tempo e de construir, em conjunto, a memória coletiva da humanidade. Sem diálogos, os atores recorriam a expressões e gestos exagerados para criar uma comunicação inteiramente visual, apoiada em bandas sonoras tocadas ao vivo, em narrativas diretas e numa extraordinária capacidade de emocionar sem uma única palavra dita. E é aqui que a ligação ao humor negro se torna evidente: se este humor precisa de contexto, de leitura social e de inteligência emocional para ser descodificado, o cinema mudo levava essa exigência ao limite, obrigando o espectador a interpretar tudo — dor, ironia, tragédia, comédia — apenas através do olhar e do gesto.
Ninguém encarna melhor esta interseção do que Charlie Chaplin, mestre da comédia e da crítica social. Chaplin construiu praticamente toda a sua obra sobre esse mesmo contraste que define o humor negro: pegar na pobreza, na fome, no desemprego, na solidão — temas profundamente sérios e desconfortáveis — e transformá-los em cenas que fazem rir sem nunca deixar de doer. O seu humor não ignorava a tragédia; usava-a como matéria-prima, tal como o humor negro faz com a morte ou a doença. Rir de alguém a tropeçar, a passar fome, a ser explorado pelo sistema, era também rir de nós próprios, das nossas fragilidades e das injustiças que preferimos não olhar de frente — exatamente o mecanismo de projeção inconsciente que explica porque é que nos rimos, tantas vezes, das desgraças alheias.
O humor negro não pede desculpa por rir do que dói — pede apenas contexto, sensibilidade e a inteligência de saber até onde ir.
A experiência de assistir a um filme mudo vai, por isso, muito além da tela: é preciso prestar atenção à banda sonora, muitas vezes composta precisamente para complementar a emoção da cena, observar os detalhes do figurino, do cenário e da maquilhagem — tudo pensado para compensar a ausência de som e, de certa forma, para obrigar o espectador ao mesmo esforço de descodificação que hoje exigimos de uma boa piada de humor negro. O cinema mudo não é ultrapassado; é atemporal. Continua a oferecer, mesmo em tempos de streaming e de efeitos especiais digitais, algo que o humor negro também oferece: a prova de que é possível olhar de frente para o que é difícil, e ainda assim encontrar ali qualquer coisa que nos faça sorrir.
No fundo, rir de coisas sérias não é sinal de frieza nem de falta de coração. É, muitas vezes, o contrário: uma forma sofisticada — e afinal bastante antiga — de lidar com aquilo que nos assusta, nos ultrapassa ou é simplesmente demasiado pesado para encarar de frente. O humor negro não pede desculpa por rir do que dói — pede apenas contexto, sensibilidade e a inteligência de saber até onde ir. E se, no fim, rir do humor negro resulta em ir para o Inferno, talvez valha a pena, porque irá bem acompanhado.
Originalmente publicado no The Humor Issue, na edição de outubro de 2026 da Vogue Portugal, disponível aqui.
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