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Diário de Prata: Bolívia

by Sara Prata

 

O tempo tem passado a voar, estou a um mês de voltar para casa. Num exercício rápido de memória brinco com o tempo, pareceu pouco mas vivi tanto, já fiz tanta coisa, já fui a tanto lugar. Esta vai ser uma viagem especial.

Ontem eu dizia em conversa, “não quero voltar diferente, nunca foi esse o objectivo. Quero apenas não ser egoísta, egocêntrica, nem sentir que o meu mundo é o único que existe. Eu só nasci naquele lugar do mapa, por isso posso ser quem sou, mas quero preencher-me de lugares, de ver as tantas pessoas que o mundo tem, tão lindas. O mundo cada vez me apaixona mais”, ao que me responderam: “é o melhor sentimento... ter encanto pelos outros, pelo mundo, numa altura de retrocesso civilizacional.”

E é isto. As escolhas que fui fazendo permitiram que fizesse esta viagem e, desta forma, sem expectativas ou planos de mudança. Só quero ver tudo.

Esta, mais uma vez, será a minha história:

Bolívia

Para trás ficou o Peru, arranquei de Puno, de autocarro, e assim faria a passagem da fronteira. Deixava o Peru Hop e entrava no Bolivia Hop para seguir viagem. Foi numa lancha, já de noite, que cruzei as margens do rio para chegar a La Paz. Não havia um sinal de luz, o barulho do motor mantinha viva a certeza que ele sabia o caminho certo. Mais um pouco de autocarro (acho que já perdi conta às horas que fiz de estrada), e chego!

Em segundos, sem exagerar, apaixonei-me por esta cidade. O caos cheio de vida, era o que sentia. As carrinhas gigantes velhas e coloridas para cima e para baixo, as praças cheias de vendedoras com tudo, desde comida a chinelos, mais os carros loucos que parecem jogar ao “quem passa muito muito perto, mas não bate”. Só queria que o dia amanhecesse para me perder nestas ruas - sim, porque agora preciso de descansar e voltar a uma cama. 

Às vezes, “acordar” em novos lugares é tão simples, há cidades que descomplicam. Para mim, resumo estes dias dizendo que percorri tantas ruas de cima abaixo, olhando a rotina, encantada com a loja gigante que esta cidade é, tudo se compra, tudo se vende, nestas ruas que se dividem por temas, a rua das camisolas de futebol, a rua das peluquerias, a rua das oferendas, das flores, dos frangos, um mundo comandado por um povo que me deixa feliz. As senhoras, ou as vestes das senhoras.. não, não, as senhoras, é mesmo disso que quero falar. Nunca achei que, burrice minha talvez, nos dias que correm ainda se vestissem assim. Quando via imagens achava, injustamente, que talvez fosse a pontaria do fotógrafo, que tinha encontrado um traje envergado por uma senhora especial, mas não é assim. Este que para mim era um “traje” é mesmo o dia-a-dia delas.

Tão lindas, tão fortes, intensas. São mães, são avós. Passo a ser o fotógrafo da minha história, pois quero registar este carinho que sinto.

Muitos me perguntam como faço para organizar uma viagem tão grande e a verdade é que marquei primeiro países e lugares que não queria perder; depois os planos diários vou decidindo conforme vou chegando aos destinos. Em La Paz percebi que não podia perder “La Estrada de La Muerte”, considerada a mais perigosa do Mundo, por no passado (não muito passado) terem lá morrido muitas pessoas. A proposta é fazer de bicicleta. Acham que hesitei? Nem por um segundo. Tudo o que eu só posso ver ou fazer naquele lugar do Mundo, eu faço. Neste caso, se der medo, vou com medo.

Escolhi a Altitude Biking, onde têm boas bicicletas, equipamento, alimentação e uns líderes de grupo muito radicais e profissionais. Foram 64km de downhill imersos numa paisagem idílica… mas assustadora. E nem queria olhar muito para o lado, o abismo estava bem juntinho a mim. Não desci em modo radical, porque prefiro a vista e a experiência à velocidade, mas garanto-vos que nunca vou esquecer este dia. Quando a neblina ou a chuva passavam e os vales imensos apareciam, era de ficar sem respiração. Tentava aproveitar as partes largas da estrada para olhar e ir gritando de pulmões abertos o que estava a sentir, lindo! Resumindo, não podem mesmo perder.

Regresso direto para as salteñas (da familia das empanadas) no restaurante Paceña La Salteña, o manjar dos guerreiros por 2 euros. São deliciosas e já sei que em Lisboa vou sonhar com isto.
Terceiro dia e aproveito para passear nos mercados de rua. Mais uma vez fico perdida nas cores dos frutos, na simplicidade dos molhes de flores feitos por senhoras de rostos calmos, marcados pelos anos. Acreditem que fico a pensar se, até agora, esta não será a capital eleita como a minha favorita. Num táxi, chego até Valle da La Luna, um lugar que em tempos foi descrito por Neil Armstrong como sendo igual ao piso da Lua, e assim ficou batizado. Uns montes entre a civilização que me fazem lembrar os tempos de criança a construir castelos de areia, onde aproveitava a água para fazer os montinhos dos telhados.

Chegada a noite, tempo de apanhar mais um night bus em direção a Uyuni. Escolhi a Todo Turismo, um serviço de excelência durante as 9 horas que se seguiam. O mais importante desta viagem? É a minha última de autocarro. Esperei tanto por este momento. E só para ficar bem na memória, não consegui adormecer por um minuto. Resta-me o pano de estrelas que vejo lá fora e as aldeias escuras por onde vamos passando. Que lugares incríveis. Estou tão feliz por ter decidido pôr tudo, por um tempo, em pause e vir.

Aqui, os planos acabam por se ir construindo sozinhos, e lá vou eu de direta começar a aventura: Salar de Uyuni até San Pedro de Atacama. São 3 dias e 2 noites, num Jeep 4X4, a percorrer mais de 400 kms. Depois de atravessar algumas aldeias rústicas, entramos no enorme, gigante, de perder de vista, Salar do Uyuni. O maior Salar do Mundo! Sei que estou sempre a dizer que é o maior ou o melhor do mundo sobre várias coisas, mas lá está, são eles que dizem, não sou eu, que estou num lugar especial isso vos garanto eu. 

Podes marcar a tour com antecedência, ou mesmo no próprio dia ainda terás hipótese, pois são muitas as agências a prestar este serviço e sempre podes negociar o valor mediante o teu budget. Aconselho a escolherem bem, tentem procurar referências de qualidade, há casos menos bons, e ninguém quer isso nas suas férias. Eu tive uma grande sorte com a que escolhi e com o meu grupo. Sim, vão 6 pessoas em cada jipe e é uma verdadeira lotaria nestes dias em que terão de partilhar tudo, até quarto. Três amigos coreanos nos seus 70 anos, um suíço e nós. Equipa feita, vamos começar. 

O sol batia forte e esse foi o primeiro impacto: chegar àquela grande camada branca de sal é como se iluminassem diretamente os teus olhos. E esta maravilha que tenho à minha frente estende-se por muitos e muitos quilómetros. É, de facto, de outro mundo quando nos confrontamos com a capacidade da natureza e lhe vemos a verdadeira beleza.  Nenhuma obra se assemelha à brutalidade e especificidade única da natureza em cada lugar do Mundo. E assim foi, por horas e horas, entre saltos e paragens, eu tentei observar tudo. São 3 dias dedicados a olhar e amar cada pedaço deste troço. Vês ilhas de cactos (Isla Incahuasi) no meio do mar de sal, vulcões que trazem uma dimensão a esta vista, montes onde a neve ainda espreita no topo, lagoas repletas de flamingos rosas de asas negras, lagoas coloridas que eu tanto queria conhecer (Lagoa Colorada), geyseres, estradas de pó onde o deserto surge quase como uma visão que nos dá a sensação de estarmos noutro planeta. Tantas são as coisas únicas que vês nestes dias. 

Mas não posso terminar sem falar das pessoas e alojamentos por onde passei. Aqui não há nada, ou muito pouca coisa. Cruzei-me com alguns conjuntos de casas, de tijolo e “lama” (não sei como se chama na verdade), até pararmos no local da 1ª noite. Do lado de fora parecia um barracão mas, por dentro, todas as paredes eram revestidas a sal. Impressionante. No centro ficavam as mesas onde todos os grupos que ali iam dormir podiam jantar. Ainda tive direito a banho quente e a um jantar tão simples e tão saboroso. Quando há pouco, a importância passa a ser o alimento em si. Eu fiquei só deliciada a devorar as batatas fritas, caseiras, feitas no lume. Esta noite faz frio, mas mesmo assim, pego na manta e vou espreitar as estrelas.

Na segunda noite, ficámos em mais um alojamento familiar. Desta vez, perdia-se a conta às camas num quarto só. Ficaríamos todos juntos. Os banhos, aquecidos numa caldeira antiga onde o combustível eram Llaretas (uma planta que existe nas rochas), seriam das 16h as 17:30h, e electricidade só existia das 19h às 22h, quando o sol já não podia fazer mais e os parcos recursos teriam de ser activados. Mas nada disto me incomoda, nem um pouco. Vou até à cozinha espreitar a família a preparar o nosso jantar, naqueles fogões muito antigos, em panelas que mais uma vez me lembram a minha avó e os seus petiscos maravilhosos. Sei que vai ser feito com o coração. Entre acordes de guitarras que se ouviam de outros quartos e o copo de vinho que o meu guia nos ofereceu, pego em 2 mantas e vou ver as estrelas. Hoje a noite está mais fria, mas o céu aqui parece maior, mais escuro, porque todas as luzes se apagaram. 

E no mesmo céu escuro acordei, são 3:30h da manhã e os jipes estão prontos a arrancar às 04h. Ainda tento aquecer com o café que preparo entre luzes de telemóveis e vou. Já faltam muito poucos quilómetros para deixar a Bolívia. 

Eu gostei tanto deste país… e foi o que tinha programado ficar menos tempo. Ainda ficou tanto por conhecer. Falhar Huayna Potosí.. não me perdoo. Mas desta vez já tenho a saída marcada e lá vou eu em direcção à fronteira com o Chile. 

Aqui aconselho muita paciência, ou muita sorte. Assim que os jipes pararam, tínhamos de trocar para um transfer que nos levaria até San Pedro de Atacama. Antes temos de carimbar a saída, mas não sei como nem porquê, já no transfer, a responsável pedia 15 bolivianos e o passaporte, e em 5 minutos voltou com tudo pronto e prontíssima para arrancar. A fila nem a vi. E só depois uns metros à frente é que percebi. Para entrares no Chile, tens de esperar que todos os carros passem de Chile-Bolívia, depois de terem sido cuidadosamente inspeccionados, e só depois começa a passar a fila de transfers que estão atrás de mim. Aquele “truque” (ainda hoje continuo sem perceber) fez com que a minha carrinha fosse a primeira. E mesmo assim, esperei 1h e 15m até conseguir o ok e... sejam bem-vindos ao Chile.

Este será o meu próximo destino, a minha próxima história. 

Mas antes quero dizer que estou feliz e calma. Estou cansada e cheia de pó e noites mal dormidas. Este percurso que escolhi fazer é duro, intenso, entranha-se em nós. Os quilómetros de paisagens áridas dão-me uma saudade e uma vontade louca de mergulhar no mar, limpar o pó.

Mas não sei explicar como tem sido bom descomplicar a vida, perceber que tudo para além do necessário é tão relativo, que a competição desnecessária e não construtiva apenas faz parte de uma sociedade e não de um ser individual, e todas as exigências são ajustadas ao meio em que vives, e por estes lados viver... viver tem mesmo outro significado.

Duro, intenso, que se entranha, e que te faz feliz. 

Até já,

Kisses from HappyPrata

[Acompanhe as viagens de Sara Prata aqui no Vogue.pt]

*O texto reflete ipsis verbis as entradas de Sara Prata no diário ao longo da viagem e a atriz escreve ao abrigo do antigo acordo ortográfico.

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