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Tendências 26. 11. 2018

If the shoe fits

by Patrícia Domingues

 

Quem precisa de superpoderes quando pode ter um par de sapatos? A Vogue faz a retrospetiva ao calçado na literatura. Porque este acessório sempre fez parte das histórias de encantar, não só das nossas.

Branca de Neve e os Sete Anões

Ser atingida por um raio e cair num desfiladeiro parece final mau o suficiente para alguém que tenta assassinar uma pessoa só porque um espelho lhe disse que ela era mais bonita. Só que, caro leitor inocente que só viu a versão da Disney, esse é apenas o fim soft para a bruxa desta história. No conto original escrito pelos irmãos Grimm, os anões “apoderaram-se dela e, calçando‑lhe à força aqueles sapatos quentes como fogo, obrigaram-na a dançar, a dançar, a dançar, até cair morta no chão”. Horrorizado? Cá se fazem, cá se calçam.

Gato das Botas

Os gatos já são amorosos, mas um gato com umas botas calçadas consegue ser amoroso ao ponto de convencer um rei a dar a mão da sua filha ao seu pobre dono. Nos contos de fadas, apenas os necessitados e os maltratados não têm direito a sapatos. Os bons sapatos permitem mobilidade, proteção, autoridade e uma ascensão revolucionária para o topo da cadeia alimentar. Principalmente se forem umas botas de cano alto. É o que se chama fazer gato-sapato.

O sapateiro e os elfos

Mais uma personagem‑tipo fascinante dos contos de fadas: a que faz as coisas por nós. Long story short, um sapateiro apercebeu-se que uns pequenos e pobres elfos lhe construíam os sapatos durante a noite e, como recompensa, criou-lhes um guarda-roupa. Os elfos tiraram o sapateiro da pobreza e o sapateiro libertou-os da sua condição de escravos através de sapatos para pés muito, muito pequeninos. Amor com amor se paga.

Pipi das Meias Altas

Pipi das Meias Altas é a definição de carpe diem, antes de ser cool e depois de o deixar de ser também. Ela é a rapariga mais forte do mundo, vive sozinha numa casa na floresta e tem um macaco e um cavalo como animais de estimação. “Nunca experimentei isso antes, por isso acho que consigo perfeitamente fazê-lo”, é uma das suas melhores quotes. E o que é que também é o melhor de um look que toda a gente só se lembra pelas meias até ao joelho e cabelo ruivo entrançado? Os sapatos, uma botas grandes e rotas, pertencentes ao seu desaparecido pai. Esta é fácil: os sapatos são a personificação de daddy issues e do facto de Pipi ter de assumir o papel dos seus pais.

Cinderela

Não precisávamos desta história para saber que um par de sapatos tem o poder de mudar a nossa vida, mas qualquer argumento que dê para justificarmos mais umas mules no armério é bem‑vindo. Cinderela é a esperança para todos os injustiçados materializada nuns sapatinhos de cristal – belos sapatos por sinal, conclui, sem perceber que uns saltos que caem ao chão e se partem têm, em cada bocadinho, mais do que aparentam à primeira vista (e este não é um filme também sobre aparências?). Há quem diga que os sapatos são condicionantes da mobilidade feminina – porque mal o príncipe se apodera deles, a protagonista ficará ligada a ele. E depois, há o cristal, que simboliza a pureza e a recompensa que cada herói recebe no fim da história. Já reparou que o sapatinho é a única coisa que resiste ao bater da meia‑noite? Simboliza aquilo que não pode ser destruíido: a nossa identidade. No conto original as irmãs também chegam a mutilar os pés para caberem no sapato, o que quer que isso queira dizer.

Pequena Sereia

“O mundo humano é uma bagunça”, disse Ariel e, no entanto, vivia fascinada por ele ao ponto de trocar uma cauda de sereia e a sua voz por um par de pernas. Nós compreendemos: no fundo do oceano não há McDonald’s nem wi-fi e as escamas não dão jeito quando queremos calçar uns Louboutin. Claro que um príncipe moreno de olhos azuis não poderá ter nada a ver com isso. São tudo suposições. Como também o é o facto de a moral da história ser que para conseguirmos algo temos sempre de sacrificar uma outra coisa. Ou que esta é mais uma odisseia machista que põe a mulher sujeita ao poder de um homem. A fábula original, de Hans Christian Andersen, acrescenta a tudo isto uma dor lacerante, cortesia de Úrsula, a sensação de pisar facas afiadas cada vez que um dos seus pés toca no chão. E depois, é só conquistar o príncipe ou morre. Mas o final feliz compensa tudo. Pena que na história original ela acabe como espuma do mar. Não há homem nem sapato que valha tanto sofrimento.

Os Sapatinhos Vermelhos

Comecemos pelo fim: este é um conto sobre vaidade. E já sabemos que quando algo envolve um dos pecados capitais a coisa vai ficar feia. Feia ao ponto de alguém “com a idade de ser crismada” acabar a história com dois pés de madeira. Mesmo que Karen tenha maldito os sapatos que a velha sapateira da aldeia lhe fez. Mesmo que tenha pedido uns novos à mãe adotiva. Mesmo que tenha pisado a linha ao levá-los à igreja. Mesmo que tenha deixado a mãe em casa doente para ir dançar com eles. Mesmo que, já saibamos, a cor dos sapatos seja a do pecado. Mesmo que ela tivesse dado com um dos seus sapatinhos vermelhos na cabeça de alguém – não deu – ter de dançar sem parar e, como solução, pedir a um carrasco para lhe cortar os pés vai sempre parecer-me demasiado dramático. Ao menos aprendemos a lição?

O Maravilhoso Feiticeiro de Oz

Ah, não há lugar como a nossa casa – e sempre que ouvimos esta frase imaginamos Dorothy a bater três vezes os saltos dos seus encantadores sapatos vermelhos (no livro original eram prateados, mas para efeitos de uma análise já feita vamos ignorar esta parte). Com grande poder, ou, no caso, grandes sapatos, vem uma grande responsabilidade. É um coming of age, os sapatos são como a menstruação, imposta, assustadora, mas necessária. A história escuso de a repetir: depois de um longo percurso cheio desafios, atribulações, cantorias e saltos, numa batalha entre o bem e o mal, Dorothy e os amigos encontram o dito feiticeiro, só para ficarem a saber que o caminho de volta para casa esteve aos seus pés o tempo todo.

As 12 princesas bailarinas

Quem nunca saiu de casa às escondidas e dançou até estragar os sapatos? É mais ou menos esta a premissa desta história dos irmãos Grimm. Um rei que se indagava sobre onde as filhas gastavam os sapatos durante a noite abriu um desafio para alguém o descobrir e não tardou muito até um ex-soldado com a ajuda de uma bruxa ter descoberto que o álibi incluía 12 príncipes e um castelo subterrâneo. Freud sempre comparou os sapatos à vagina... E mais não dizemos porque podemos estar a ser lidos por crianças.

O Polegarzinho

Centenas de anos antes de um pequeno passo para o homem ser um grande passo para a humanidade, os contos de fadas já tinha inventado as botas de sete léguas, que ganharam nome pela distância que cada passo equivale. Então, o que é que fazes quando és deixado no meio da floresta com os teus sete irmãos? Roubas as botas encantadas a um ogre, ficas-lhe com o dinheiro e arranjas emprego na corte. Simples.

*Artigo originalmente publicado na edição de outubro 2018 da Vogue Portugal.

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sapatos história

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