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Tendências 25. 8. 2022

Porque usamos tantos emojis?

by Ana Murcho

 

Nunca um emoticon sonhou ser capaz de se transformar em algo tão valioso e desejado como um emoji: da coleção permanente do MoMa ao prémio de palavra (?) do ano, há poucas coisas que estes bonecos amarelos ainda não tenham conquistado.

Artwork de Joe Suzuki.

Detalhe aparentemente pouco relevante, mas só aparentemente, tendo em conta todos os dados que sustentam o texto que se segue: o meu pai não usa emojis. Percorri onze anos das nossas conversas (WhatsApp e SMS) e nunca, nem por uma vez, ele se serviu de uma bola de futebol, um gatinho, uma fatia de pizza, um relógio, o que fosse, para (me) transmitir uma mensagem, um recado, uma dica. Nunca. Devem estar ali milhares de caracteres, uma mini Bíblia dos diálogos familiares, igual a tantas outras, mas com uma nuance — a única pessoa que gosta de emojis sou eu. No meio de frases, a rematar uma ideia, a propósito de coisa nenhuma, faz de conta que o meu discurso é alienígena, colorido, um pouco doido, em contraste com o dele, que é certinho e polido, como os quadros de giz da escola primária. Estarei a falar sozinha num dialeto que ele desconhece — já mencionei que nem por uma vez mandou um mísero smile? Pois. Freud explicaria tudo isto, com certeza. Sendo impossível analisar estas ações com a sua ajuda, lancemo-nos às possibilidades: a relação com os emojis é uma coisa geracional. Talvez. Assim de repente lembro-me de mais algumas pessoas que também não morrem de amores por emojis e que apenas arriscam o seu parente pobre (e apesar de tudo mais requintado, sugerem muitos detratores), o emoticon — para os mais  esquecidos, o emoticon (junção, em inglês, das palavras “emotional” e “icon”) é um pictograma simples que revela expressões e sentimentos através de sinais de pontuação, números e outros símbolos especiais. Não, o meu pai também não curte emoticons. Não percebo como é que ainda nenhuma cadeia de televisão o veio entrevistar sobre um tema tão pertinente como a revolução operada pelos bonecos amarelos — e demais colegas — no nosso dia a dia.

Um boneco amarelo a chorar baba e ranho. Um boneco amarelo a rir às gargalhadas. Um boneco amarelo a revirar os olhos. Um boneco amarelo coberto de corações. Um boneco amarelo com ar surpreendido. Um boneco amarelo com ar de quem está a mandar alguém dar uma curva. Um boneco amarelo com corações no lugar dos olhos. Um boneco amarelo que lança um coração da boca, muito usado para quem pretende enviar um ou mais beijos, embora outros o entendam como símbolo de súbita paralisia facial. Um boneco amarelo a derreter. Um boneco amarelo de óculos de sol. Um coração cor-de-rosa. Um sinal de paz. Um coração verde. Um par de olhos que parecem dizer “estou-te a ver.” Um croissant. Uma estrela. Um sol. Uma rapariga com as mãos na cara, reflexo de frustração e deceção. Um polegar estendido, em sinal de concordância com alguma coisa. Um coração branco. Duas mãos unidas, em forma de coração, que também podem aludir a um pretzel, se a nossa imaginação estiver em dia. Um coração vermelho. Em meados de junho, fiz um inquérito não científico numa rede social sobre a utilização de emojis. Os acima mencionados foram os mais populares, alguns deles várias vezes, pelos utilizadores que perderam tempo em aceder à minha curiosidade — o meu pai não tem redes sociais, por isso não respondeu, nem era preciso, por esta altura todos sabemos o que iria dizer, não é? Não, não seria “não uso emojis”, antes “o que é um emoji?” Quase nenhum dos envolvidos no “estudo” soube/quis explicar porque é que prefere um emoji em detrimento dos outros três mil e tal (dados de 2021). Nem eu sei. O “meu” é o morcego. Porque os senhores responsáveis por aprovar emojis ainda não deram o aval ao emoji do Red Bull, que tanta falta me faz. Ninguém me disse “não gosto disso, de emojis”, mas é possível que quem não goste nem sequer tenha dado importância ao meu apelo, o que é justo. Não se gerou nenhum debate, nem sobre a existência de uma Wikipédia de emojis nem sobre os significados subliminares que esta ou aquela imagem podem ter. Case in point: há uns anos estava prestes a perder a paciência com um “amigo” e, antes que isso acontecesse, respirei fundo e pedi ajuda ao Google. Em menos de nada fiquei a saber que o camarão é o emoji perfeito para enviar quando a intenção é deixar o destinatário numa pilha de nervos. Quem é que está à espera de receber um camarão, assim do nada? Ninguém. É precisamente esse o objetivo. Eu mantive a minha paciência e ele ganhou uma noite de insónias (inserir diabo sorridente).

(...) os emojis são o escape perfeito para o “mas eu não disse nada disso”, o “percebeste tudo mal”, ou o rebuscado “foi tudo uma falha de comunicação” 

Como é que nos tornámos tão dependentes dos emojis? É esta a pergunta que lançamos a Bernardo Coelho, sociólogo, investigador e professor universitário: “Não sei se nós nos teremos tornado dependentes dos emojis. Talvez o termo não seja dependência. Mas percebo perfeitamente o fenómeno a que te referes. Talvez isso aconteça por diferentes razões. Os emojis permitem transmitir (ou pelo menos tentar) transmitir emoções para as quais seria necessário um domínio da linguagem relativamente, ou bastante, sofisticado. Pelo menos, para uma boa expressão das emoções, com pouco espaço para dúvidas e ambivalências. Tendo em conta que o território das mensagens escritas se popularizou, não será expectável que todas as pessoas tenham essas capacidades de domínio da linguagem. Nesse sentido, os emojis tornaram-se bengalas comunicativas importantes. Mas, ao mesmo tempo, podem implicar a perda de força da mensagem. Porque quem escreve não está necessariamente comprometido com as palavras — não há palavras, há bonecos, e isso desresponsabiliza quem escreve. A palavra implica compromisso da parte de quem escreve.” Este é um ponto fundamental, porque os emojis são o escape perfeito para o “mas eu não disse nada disso”, o “percebeste tudo mal”, ou o rebuscado “foi tudo uma falha de comunicação.” São apenas bonecos, revestem-se de uma inocência que não é concedida às palavras, que são pesadas e definitivas. Bernardo Coelho continua a enumerar possíveis motivos que fazem com que capitulemos perante os emojis. “Segunda razão, talvez relacionada com a desresponsabilização: é um artifício preguiçoso. Torna-se útil e inultrapassável, porque permite com menor esforço dizermos o que queremos. Terceira razão. Por motivos lúdicos, isto é, a utilização de emojis torna as conversas por texto menos aborrecidas. Não é apenas ler e escrever, há uma dimensão lúdica na comunicação, há bonecos que podem tornar a conversa mais leve e divertida.” Nem tudo são rosas. Diferentes emojis podem ter diferentes significados em diferentes culturas, e diferentes contextos no seio de uma  mesma cultura. Veja-se o caso do (controverso) emoji em forma de beringela, que tanto pode fazer alusão ao fruto propriamente dito como a um orgão sexual. 

Nada disto parece travar a ascensão dos emojis. Nas últimas semanas de 2015, a revista Time publicou um artigo intitulado Oxford's 2015 Word of the Year Is This Emoji, onde se podia ler: “Os Dicionários Oxford fizeram história na segunda-feira, anunciando que a sua ‘Palavra do Ano' não seria uma daquelas coisas antiquadas, tipo sequência de letras. O sinal que os seus editores estão a usar para resumir quem fomos em 2015 é este pictograma, um reconhecimento do quão populares estas imagens se tornaram na nossa vida quotidiana (digital).” De seguida víamos a imagem do emojiface with tears of joy” (à letra, “cara com lágrimas de alegria”) e, posteriormente, uma justificação para a honra concedida ao boneco amarelo. Apesar de, a nível global, os emojis se terem tornado famosos no início dos anos 2000, altura das primeiras conversas em chats, de acordo com o comunicado divulgado pela Oxford University Press a cultura emoji explodiu “no último ano” e, por isso mesmo, “os emojis passaram a encarnar um aspeto fulcral da vida num mundo digital que é visualmente orientado, emocionalmente expressivo, e obsessivamente imediato.” A decisão foi altamente contestada porque, segundo os mais céticos, um emoji pode ser muitas coisas, mas não será nunca uma palavra. Em sua defesa, pelo menos ficámos a saber que 2015 foi um ano feliz — ao contrário de outros anos mais recentes em que, apostamos, qualquer investigação mostraria que os caracteres enviados nas nossas mensagens de texto são o espelho de uma sociedade desorientada e sem rumo.

 

E se tudo isto parece incrível, digno de nota, afinal falamos de pequenos bonecos cujo tamanho compete com o de uma formiga, o melhor ainda estava para vir. Em outubro de 2016, o Museu de Arte Moderna de Nova Iorque (MoMA) anunciou a aquisição do conjunto original de 176 emojis para a sua coleção permanente. Concebidos pelo artista japonês Shigetaka Kurita, estes hieróglifos futuristas em constante mutação foram inicialmente lançados para os pagers em 1999, a pedido da maior companhia telefónica do Japão, a NTT DoCoMo. Foram os primeiros gatafunhos a fazer parte da comunicação móvel, que então parecia saída do filme Regresso ao Futuro. Parecia. Nessa altura, cada um desses 176 emojis era reproduzido numa de apenas seis cores — vermelho, laranja, lilás, verde, azul e preto. Em 2007, uma equipa de internacionalização de software da Google solicitou o reconhecimento dos emojis pelo Unicode Consortium, uma organização sem fins lucrativos que tem como objetivo assegurar os padrões de texto em todos os computadores. Porém, foi apenas quando a Apple integrou o primeiro conjunto de emojis no iPhone, em 2011, que se deu o boom. Isto permitiu que as pessoas acedessem aos emojis diretamente a partir do teclado dos seus smartphones. Os símbolos iniciais (carro, sol, avião, nuvem) evoluíram para milhares de ícones ilustrados (canecas de cerveja, sereias, bolas de sabão, tacos, lâmpadas, comprimidos) em múltiplas declinações, que remetem para sentimentos e estados de espírito (inquieto, curioso, triste, alegre). E conseguiram fazê-lo de forma revolucionária, pois permitiram adicionar um subtexto emocional a uma mensagem de outra forma cinzenta: “Ok, por mim tudo bem” pode soar passivo-agressivo, mas se o interlocutor acrescentar algo tão simples como um coração (é livre de escolher a cor, claro, ainda assim sugerimos branco, que nunca compromete) a frase passa a ter um novo sentido. Serão os emojis uma espécie de nova linguagem universal? Provavelmente. Paola Antonelli, senior curator de arquitetura e design do MoMa, explicou ao The New York Times a relevância da nova “peça” do museu: “De certo modo, o que realmente adquirimos é uma nova plataforma de comunicação. Mas, ao mesmo tempo, os próprios emojis são ideógrafos, uma das formas mais antigas de comunicar. Adoro a forma como os séculos estão ligados dessa forma.” De um pager para as salas do MoMa: era uma vez um gatafunho que se deu muito bem. Ainda não há emojis para explicar isto. Se o meu pai soubesse que tem uma coleção de arte dentro do telefone… 

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