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Tendências 11. 1. 2019

E depois do adeus?

by Beatriz Silva

 

Não estamos a ignorar a revolução sexual que ela nos ajudou a construir, mas os anos de ouro da pílula já lá vão. De livres e seguras, passámos a irritadas, mal-humoradas, depressivas e, em alguns casos, mais pesadas. Vamos parar de dourar a pílula?

Quando Eva trincou a maçã estava longe de imaginar o que seriam métodos contracetivos, mas eles são quase tão antigos com o primeiro Homem. Chamem-nos pecadores, mas já dizia o jornalista norte-americano Jonathan Eig, no seu livro The Birth of the Pill: How Four Crusaders Reinvented Sex and Launched a Revolution, “homens e mulheres têm feito bebés há tanto tempo quanto têm tentado não os ter”. Just google it: em 1500 a.C., por exemplo, era comum as mulheres do Antigo Egito usarem uma mistura com mel e fezes de crocodilo para bloquear a passagem do esperma; na Grécia Antiga, havia quem acreditasse que provocar o espirro depois do sexo poderia expulsar convidados indesejados e evitar a fecundação e, na China, todas as apostas recaíam num chá com mercúrio. Hoje, deixámos as fezes, os espirros e os chás, e a maioria de nós (pelo menos 62% das portuguesas, segundo a Sociedade Portuguesa da Contraceção) deposita as suas esperanças numa embalagem de comprimidos, tão pequenos mas tão poderosos. A pílula dispensa apresentações e surgiu como a salvadora das mulheres fartas de ser donas de casa (e não só) na década de 60 e até hoje. Marcou uma era, mudou a sociedade para todo o sempre, tornando‑a um pouco menos desigual e, mais importante, deu às mulheres, mais poder de escolha – e uma vida sexual renovada, claro. “Creio que a [criação da] pílula foi tão importante como a descoberta do fogo”, dizia a antropologista Ashley Montagu, em 1969. Mais de 50 anos depois, continuamos a celebrar as barreiras que a pílula ajudou a derrubar, mas começamos também a descobrir as suas falhas.

Quando em 2016, os dinamarqueses – donos do título de povo mais feliz do mundo, ainda que tendo menos horas de sol do que nós, e inventores do hygge, a filosofia que é a chave para toda essa felicidade e que andamos a tentar copiar com mil e um livros de cabeceira – disseram que a pílula pode estar associada à depressão, o assunto, mesmo não sendo novo, foi notícia do dia... Durante vários dias, leia-se meses. A fonte de todo o burburinho foi um estudo da Universidade de Copenhaga que teve a participação de mais de um milhão (repito um milhão) de mulheres, dos 15 aos 34 anos, entre 2000 e 2013, um total de 16 anos no forno até ser libertado, qual bomba caseira. Bomba, porque não conseguimos evitar receber a notícia com um misto de surpresa, preocupação e impulsividade. Houve mesmo quem soltasse a drama queen que há em si, tenha esquecido os possíveis benefícios da pílula e deitado todas as embalagens ao caixote do lixo, ainda que os especialistas tenham alertado, na altura, para não sermos precipitadas – até porque a depressão pode existir pelos mais variados motivos e a investigação não prova que a pílula seja a única causa. Ainda assim, a verdade é que o estudo serviu de ombro amigo para muitas mulheres que há muito se sentiam incompreendidas ao partilhar as suas suspeitas de uma possível relação entre a pílula e uma série de efeitos secundários, que tantas vezes são impressos em letras miudinhas – mudanças de humor, na libido e no peso, náuseas e risco de trombose estão entre eles. Como Teresa, que em conversa com a Vogue conta que o seu primeiro médico se ria sempre que lhe falava das alterações de humor e dos números na balança. “Eu nunca fui uma pessoa com grandes oscilações de humor, tendências depressivas, isolamento. Com a toma regular da pílula estes sintomas passaram a ser frequentes. Os dias antes de ter a menstruação transformaram-se em semanas [em que andava] constantemente depressiva, sensível, irritável e com desejos, dos chocolates aos bolos. Existe muita insensibilidade para com estes problemas femininos, as dores menstruais, as alterações hormonais, nem todos os médicos os compreendem.” A solução? Teresa mudou de médico e trocou a pílula por um implante sem produção de hormonas.

Hormonas. Afinal, são elas as culpadas de (quase) tudo. E, tal como acontece com o mais comum dos problemas, a solução é, muitas vezes, cortar o mal pela raiz, que é como quem diz, ver-se livre dos contracetivos hormonais. Só que isto levanta outro problema, o de que somos mulheres desinformadas, não necessariamente por iniciativa própria. Pelo menos é o que nos diz Patrícia Lemos, educadora para a saúde menstrual e para a fertilidade. “Há uns tempos, falava com uma ginecologista sobre o diafragma e ela dizia-me que, com muita pena, não os têm disponíveis há uns 20 anos no centro de saúde onde trabalha. Construiu-se esta ideia de que é muito trabalhoso educar as mulheres para o corpo e para a gestão da fertilidade e entrámos num modelo de praticidade onde o que se procura é um ‘não pensar mais nisso’.” Inevitavelmente, a pílula aparece como a primeira opção, seja porque é mais fácil – não gostamos de lugares-comuns, mas apostamos que tomar um comprimido exige menos explicação do que a colocação de um DIU – ou porque, convenhamos, ela é simplesmente a mais popular do grupo. Lembrando os ensinamentos do liceu, ser popular nem sempre significa ser mais bem-sucedida, não é verdade? Não vamos recapitular as aulas de Educação Sexual, mas a par dos bons e velhinhos métodos contracetivos, que existem em forma de anéis, implantes ou injeções, há algumas alternativas hormonas-free que estão a pedir para serem testadas. Ou descarregadas. Como a aplicação para smartphone Natural Cycles, que nos diz se estamos em período fértil ou não, com base na temperatura corporal. Duvidoso? Mais de 150 mil pessoas em todo o mundo acham que não e a app até já recebeu aprovação médica enquanto método contracetivo na Europa. O procedimento é simples: medida a temperatura com um termómetro, a luz verde é dada todas as manhãs, à exceção dos seis dias de período fértil, que recebem luz vermelha – quase tão fácil como tomar um comprimido. E como esta há outras, como a aplicação Kindara, que não funciona de forma muito diferente e que, apesar de não ter um selo de aprovação, é usada por mais de 1,5 milhões de mulheres pelo mundo. “Acredito que para muitas mulheres seja necessária alguma educação prévia, para potenciar a legitimidade da app e o grau de confiança com que a encaram”, diz Patrícia Lemos. “Acho fantástico que se utilize a tecnologia a favor da simplificação da vida. Se isso vem em formato de app, monitor de fertilidade ou de um simples termómetro, fica ao critério de cada uma. Gosto de acreditar que as mulheres têm opções.” Nós também.

E os homens, também têm? Certo é que até aplicações de fertilidade já desenvolvemos, mas em pleno século XXI, continua a não haver sinal de uma pílula masculina, ainda que os primeiros estudos tenham quase 100 anos. Ausência de avanços científicos à parte (é mais fácil “combater” um óvulo do que milhões de espermatozoides), e, apesar de este não ser um texto feminista, a questão não deixa de ser de género. A batata quente está nas nossas mãos, na maioria dos casos, e o estigma de que este assunto é coisa de mulheres ainda não desapareceu. Afinal, a lista de métodos contracetivos femininos leva larga vantagem sobre os masculinos e, no fim de contas, se nem tudo correr como planeado, é o corpo da mulher o mais lesado – e talvez por isso prefiramos ser nós a estar no comando. Por outro lado, também é preciso reconhecer que os homens depositam uma confiança cega no sexo feminino, especialmente quando o método contracetivo escolhido é a pílula – que atire a primeira pedra quem nunca falhou um ou dois dias da embalagem mensal. Isso ou uma preguiça inconfessável de procurar outras possibilidades, que não são muitas, mas existem, como o preservativo e a vasectomia, que há muito deixou de ser irreversível. Não será tempo de uma nova revolução, uma que traga mais igualdade de género e, quem sabe, uma contraceção a duas frentes? Afinal, Adão trincou a maçã que Eva lhe deu a provar... 

*Artigo originalmente publicado na Vogue Portugal de janeiro 2018.

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