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Entrevistas 11. 1. 2019

Jeanne Damas | Quelqu’un ma dit

by Irina Chitas

 

O Instagram diz-nos que sabemos tudo sobre quem seguimos e adoramos à distância. O bom senso e Jeanne Damas dizem-nos que não.

Jeanne Damas em Mango. © Gonçalo F. Santos

Damas foi das primeiras miúdas que comecei a seguir na rede social que nos ilude e apaixona todos os dias. Foram tempos idos, esses, em que o termo influencer não entrava nos léxicos diários e não íamos a correr comprar um cesto de verga porque aquela parisiense gira vai ao mercado e o enche de flores secas e baguetes. Seguíamos pessoas por seguir, porque nos animavam o feed, porque nos faziam sonhar com pequenos-almoços na cama, mas, mal fazíamos scroll, esse universo idílico dava lugar a outro e já nem nos lembrávamos de que, segundos antes, estávamos a chorar por dentro por um croissant de dimensões pornográficas. É verdade que o mundo onde nos movemos mudou e tornou num acontecimento raro encontrarmos uma fotografia que não tenha o tag de uma marca, que não seja conteúdo patrocinado, que não tenha aquele hashtag maroto que desmascara a ausência da autenticidade que damos por nós, desesperados, a tentar encontrar. Jeanne Damas dá-nos essa genuinidade (ou, então, disfarça muito bem) e talvez seja por isso que se tornou um porto seguro de inspiração. Há uma consistência tremenda desde os tempos em que era só aquela rapariga cool do Tumblr até hoje, colecionadora nata de seguidores no Instagram, modelo, fundadora de uma marca e criadora de um culto de fãs que deixou de ter estilo pessoal para lhe copiar cada novo par de alpercatas.

A primeira vez que tivemos um vislumbre do seu habitat natural percebemos porquê. Era março e as temperaturas em Madrid não tinham qualquer respeito pela decência humana. Resolveram descer aos dois graus negativos mesmo sabendo que it girls do mundo inteiro se reuniam na capital espanhola para celebrar a abertura da nova loja da Mango, na Calle Serrano. O jantar de celebração fez-se a média luz e, no fim, Jeanne dançava descalça ao som de uma guitarra, de cabelo apanhado sem cerimónias e um copo de vinho que ameaçava verter a cada desajeitado movimento de anca. Foi a primeira a despir-se da timidez e a deixar que os floreados do flamenco lhe abanassem o corpo. Movia-se hipnoticamente, meio desarranjada, meio sensual, com uma alegria quase infantil.

Foi esta a imagem que guardámos até voltarmos a encontrá-la, já em Lisboa, para mais um marco na história do gigante de fast fashion. A flagship da Mango, na Praça dos Restauradores, encheu Lisboa com os ídolos de estilo da geração mais nova e trouxe Jeanne até à nossa redação na manhã gelada do primeiro de dezembro. “Vou voltar a Portugal. Nunca tinha estado cá, quero voltar com o meu namorado e fazer uma tour pelo País, porque as pessoas… Tudo, na verdade, é tão cool aqui. Quero ir ao Porto e à Comporta… Talvez seja um cliché ir à Comporta, non?” É, sim. Tal como é um cliché deixarmo-nos enfeitiçar por aquele “non” absolutamente retórico. Damas acaba de ser fotografada na nova loja da Ladurée e já trocou o casaco de pelo cor de petróleo pelo seu uniforme nas últimas semanas: calças de ganga brancas, de cintura subida e bainha desgarrada, blazer cinzento, lábios maiores do que a vida que ainda aninham pedaços de uma memória de batom vermelho. Bebe chá enquanto falamos e percebemos que está expectante quanto ao tom da entrevista. Damas gosta de conversar, sim, mas nota-se que está cansada de perguntas de estilo, aquelas perguntas que são totalmente desnecessárias porque nos dá as respostas todos os dias no seu Instagram e no Tumblr, que continua a alimentar. Não usa maquilhagem a não ser o batom escarlate que, na verdade, é uma mistura de vários tons que aplica primeiro nos dedos e só depois nos lábios, para parecer que acabou de comer frutos vermelhos. Prefere vinho tinto a qualquer cocktail. Não gosta de ser demasiado sofisticada e esforça-se para parecer que não se esforçou (como qualquer parisiense digna do seu código postal). Mistura peças femininas – vestidos em seda, tops que parecem saídos de um filme dos anos 40 – com casacos masculinos. É apaixonada por wrap dresses. Nunca a encontraríamos de chinelos na rua. Mas, a sério, não sabíamos já isto tudo?

Já. O que não sabíamos, por exemplo, era que Jeanne queria ser psicóloga quando era pequenina. “Não sei porquê… Talvez porque fui muito a psicólogos e o meu era muito cool, fiquei com esta ideia. Sempre gostei de ouvir as outras pessoas, mais velhas, mais novas... Ainda gosto muito de ouvir, para algumas amigas, funciono como psicóloga.” [Risos] Só que a vida trocou-lhe as voltas – ou Damas trocou-as ela própria – e, hoje, senta-se à nossa frente como alguém que é muito mais do que o clímax da allure francesa. Talvez fosse previsível. A mãe foi costureira durante muitos anos, até ter deixado as agulhas para ajudar na gestão do bistrot do pai de Jeanne. Enquanto estava no restaurante, usava sempre vestidos florais, que lhe abraçavam o corpo, e saltos altos. A irmã mais velha de Damas, Louise, tem uma marca de joalharia e é a coproprietária da concept store Atelier Couronnes, que ocupa uma antiga gráfica, e onde podemos encontrar joias inspiradas em ícones literários. E Jeanne, como qualquer millennial, acabou por criar um skyblog e, depois, um Tumblr quando andava no liceu, onde publicava fotografias suas e das amigas. O Tumblr começou a ganhar relevo em Paris, “mas não estava, de todo, na indústria de Moda. A Yasmine Eslami queria raparigas normais, não queria modelos para a campanha, queria algumas cool girls next door. Eu era amiga da enteada dela e foi assim que chegou a mim”, conta-nos. “Nunca tinha pensado fazer nada do género, nada como modelo, não sou alta nem nada. Foi acontecendo através de pessoas que eu fui conhecendo, na verdade, quase sempre por acidente.” [Risos] E continua a ser uma pessoa que se move por instinto ou tornou-se alguém que planeia tudo? “Adivinha. [Risos]

Jeanne Damas em Mango. © Gonçalo F. Santos

Eu nunca planeio nada. As coisas vão acontecendo e talvez eu faça alguma coisa para as fazer acontecer, mas, às vezes, nem é de propósito. É inato. Talvez seja por isso que eu tenho sucesso, porque foi tudo orgânico. Mesmo com a Rouje, gosto de fazer o que estou a sentir no momento, as coisas surgem assim. Como magia.” A Rouje “também foi quase por acaso. Não foi um sonho de sempre. Quando eu tinha 5 anos não pensava que queria trabalhar em Moda, ser designer e assim, mas foi acontecendo. Fui conhecendo pessoas, fui construindo relações fortes com amigos criativos. Vou aprendendo assim, à medida que vai acontecendo. E é incrível porque só trabalho com amigas, boas amigas, às vezes, parece que estou de férias. É divertido. Temos as mesmas ideias, a mesma criatividade – ou criatividades diferentes que se complementam – e é tudo muito orgânico. É muito criativo poder passear pelas ruas e discutir ideias, estamos sempre a mandar mensagens umas às outras, mesmo quando estamos de férias ou de fim de semana. Faz parte de um estilo de vida. É uma nova maneira de trabalhar. Queremos que as clientes da Rouje consigam sentir essa energia. Somos todas mulheres no escritório, todas amigas, queremos que isso se sinta.”

No entanto, a Rouje parece tudo menos magia. Na verdade, a marca de roupa que lançou é o exemplo ideal de aposta ganha à partida. E Jeanne sabia disso. “Quando criei a Rouje, tinha esta ideia… Eu queria criar alguma coisa. E eu vi que o que eu criava no meu Instagram, aquela história sobre o meu universo, sobre mim, as pessoas gostavam. Por isso, resolvi criar uma marca de roupa de que eu gosto; todas as peças da coleção, eu tenho de gostar e tenho de querer usar. Quando fazemos uma campanha, vamos todas de fim de semana e cozinhamos, e dançamos, e tiramos algumas fotos.” É orgânico, sim. E pode, até, ser natural, mas a Rouje é aquela marca de roupa (que sim, todas queremos ter) que tinha seguidores confessos ainda antes de existir. O que também pode ser um problema. “A questão, agora, para mim – como me ponho no centro dos holofotes, como sou a cara da marca, como estou a dirigir-me a mim própria, se eu não usar uma peça da Rouje, nós não vendemos –, é como é que posso não aparecer tanto, não dar a cara a todas as horas. Quero manter as coisas reais, mas não vou fazer isto durante 10 anos, quero mesmo que as pessoas pensem na marca como algo maior do que eu.”

Até porque Jeanne não quer ser uma miúda de dimensão única. Não é porque algo resulta que tem de ser espremido até ao tutano e não é porque uma carreira se constrói com base no sonho de uma imagem que tem de se ficar por aí. É por isso que se lança em novos projetos, como o livro À Paris, com a amiga Lauren Bastide, que, muito à semelhança de Seja Parisiense Onde Quer Que Esteja, de Caroline de Maigret e do seu grupo de amigas, é uma ode à Cidade das Luzes e à mulher independente, à mulher livre, à mulher que pode ser tudo aquilo que quiser. “A Rouje, para mim, é mais lifestyle. É onde crio, mas não são coisas que ficam, porque estamos sempre a pensar no futuro. Claro que é roupa, e a roupa permanece, mas este livro é mais um objeto. Trabalhámos nele durante dois anos e, quando ficou terminado, ficámos tão felizes por, finalmente, vê-lo. E é uma coisa que fica para sempre. (...) Gosto muito de trabalhar em coisas diferentes porque tudo se alimenta simultaneamente. Para mim, a história é sempre a mesma, estou é a contá-la de maneira diferente. É por isso que também fotografo. Até o cinema, mesmo que não seja o meu caminho a tempo inteiro, quando faço um filme, conheço pessoas completamente diferentes e, para as ideias e para a criatividade, é mesmo bom.” Chegámos ao cerne da questão: as histórias. A autobiografia que Jeanne nos vai contando todos os dias só resulta porque é real. Quando terminamos o texto, vemos as suas stories da noite passada. Está em casa de amigos, numa noite regada a vinho e a música em altos berros, a dançar até cair. Não precisa de embelezamentos porque é por aí, pela autenticidade, pela beleza sem artifícios. “Descobri, agora, que todos estes anos foram quase como um passeio fotográfico”, por onde nos leva, de mão dada, sem pudor. “Acho que a minha característica principal é a espontaneidade. Sem filtros. É bom e consegue ser mau, também. Não crio uma personagem em lado nenhum.” Só nos resta dizer merci.

*Artigo originalmente publicado na edição de janeiro 2018 da Vogue Portugal.

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