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Tendências 30. 8. 2019

Pelo sim, pelo não

by Mónica Bozinoski

 

Pelo menos, pelo mais. Pelos menos, pelos mais. Pelos a menos, pelos a mais. Num mundo onde tudo está à mostra para toda a gente ver, fomos investigar se depilar – ou, melhor, não depilar – continua a ser uma questão.

©Getty Images

Tudo começou num dia quente. Algures, num quarto com uma ventoinha ligada no máximo, alguém tenta decidir o que vestir. Experimenta um vestido, troca para umas calças. Vira tudo do avesso e acaba por perceber que, afinal, é aquela saia vintage pelos joelhos. “Uh oh, estou com pelos nas pernas. Calma, não são assim tantos. Na verdade, mal se notam. Ok, notam-se um pouco. Mas who cares, certo? Ninguém vai estar a examinar as minhas pernas ao mais ínfimo pormenor para conseguir detetar estes pelinhos em fase de crescimento. E se virem, também... Qual é o pior que pode acontecer?”

Com os dois pés fora da porta, esta mesma pessoa comete o grave erro de olhar para baixo enquanto desce as escadas. Lembra-se daquele “qual é o pior que pode acontecer?” Nós respondemos: dar meia volta, enfiar a saia no armário e vestir algo que esconda os pequenos malvados. Porquê? Porque, quote, “não posso sair assim. Não posso mesmo. Na verdade, nem sei se quero, nem sei se me sinto confortável. E o que é que os outros vão pensar, ou dizer? E se ficarem a olhar para mim? A sério, que parva, o que é que me deu para sequer tentar sair assim?”

O cenário de querer usar alguma coisa, mas achar melhor não porque tem pelos nas pernas parece familiar, não parece? O de não vestir um top de alças porque não depilou as axilas também? Aposto uma daquelas giletes cor-de-rosa em como a resposta é “sim” – afinal de contas, à semelhança de todos os processos naturais do corpo feminino (sim, menstruação, estamos a falar de ti), falar sobre pelos, ter pelos ou, pior do que isso, exibir esses mesmos pelos, permanece um assunto tabu.

Ensinaram-nos, desde pequenas, quando mal os tínhamos, que depilá-los era a única opção. Condicionaram-nos a associar a ideia de não fazer a depilação ao desleixo, ao mau gosto, à preguiça, à falta de higiene. Disseram-nos que não é atraente, que não é bonito. E, ainda assim, segundo um estudo conduzido pela Mintel no Reino Unido, a percentagem de mulheres com idades entre os 18 e os 24 anos que depilam as suas axilas baixou de 95% em 2013 para 77% em 2016 – um decréscimo igualmente verificado quando se fala em depilar as pernas, com os números a descerem de 92% em 2012 para 85% em 2016. E, ainda assim, nomes como Miley Cyrus, Paris Jackson, Halsey e Amandla Stenberg levantam constantemente os braços contra os preconceitos de ter pelos debaixo dos mesmos. E, ainda assim, um pouco por todo o Instagram, os hashtags #bodyhair, #bodyhairdontcare ou #girlswithhairyarms começam a ser descrições tão frequentes como um #ootd.

 
 
 
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“Os tabus são uma força poderosa, capaz de silenciar e cultivar inseguranças, mas podem ser um ponto de partida muito interessante quando estás a criar uma marca – e, na altura em que demos os primeiros passos, era impossível negar que ainda existia um tabu em relação aos pelos”, explica Laura Schubert, cofundadora da Fur (uma linha de produtos naturais pensada para o cuidado dos pelos e da pele que os rodeia), à Vogue. “Em 2014, estávamos a discutir tendências entusiasmantes na indústria da Beleza, nomeadamente os produtos naturais e a ideia de definires a tua própria beleza, fugindo aos padrões prescritos. À medida que fomos falando, percebemos que os cuidados específicos para pelos não estavam em linha com este movimento – os ingredientes eram abrasivos, o packaging não era sofisticado e o foco era posto somente na ideia de remover, como se estes fossem um problema. Aquilo que a Fur defende é uma definição de beleza mais inclusiva, quer acredites que os pelos púbicos estão de volta ou que uma pele sem eles é a tendência a seguir.”

“Ainda existem muitas pessoas que têm noções preconcebidas em relação aos pelos.” - Laura Schubert, cofundadora da Fur

Uma visita rápida ao Instagram da marca (com o querido pun @fur_you) basta para perceber isso. Se, numas, vemos o já famoso Fur Oil a ser aplicado em axilas com pelos, sejam elas femininas ou masculinas, noutras, vemos o protagonismo posto no Ingrown Eliminator, a passar suavemente por umas virilhas perfeitamente depiladas. O objetivo é claro – abrir caminho para a reflexão, a discussão e a normalização da depilação, ou da não depilação, como uma escolha. “Temos muito orgulho no facto da Fur ter iniciado uma conversa segura e sem julgamentos sobre um tema que, antes, era discutido em segredo”, defende Laura. “Conseguimos criar um espaço amplamente inclusivo, porque estendemos a conversa dos pelos para além da ideia de os remover, e permitimos que as pessoas falem sobre estes temas sem se sentirem julgadas. A nossa mensagem é uma mensagem de celebração, de todos os tipos de pelos e rotinas de cuidado, enquanto uma expressão, não só pessoal, mas também criativa. Hoje, quando vemos que outras marcas começam a abraçar os pelos e a positividade do corpo enquanto mensagem, temos a prova de que conseguimos criar um movimento e uma tendência.”

 
 
 
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Dois anos depois do lançamento da Fur, que chegou oficialmente ao mercado em 2016, a mensagem de positividade e aceitação continuou a crescer com uma campanha tão groundbreaking quanto necessária. Cortesia da marca de lâmina de barbear e cuidados de corpo Billie, e fotografada por Ashley Armitage, a campanha mostrava, como nunca antes tinha acontecido neste tipo de anúncios, modelos femininas com pelos – nas axilas, nas pernas, nas sobrancelhas, na zona do umbigo. As imagens, que fazem parte do Billie Project Body Hair, eram incrivelmente poderosas. Mais do que isso, eram diferentes de todas as representações típicas de uma marca do género – isto porque, em todas as publicidades a lâminas, bandas ou ceras depilatórias, são raras as vezes em que, efetivamente, vemos algo que possa ser, no verdadeiro sentido da palavra, depilado. Se quisermos ir mais longe, eram um reflexo puro de feminilidade, também ela no seu estado mais puro, que transmitia a ideia de que não somos menos por termos mais (mais, entenda-se, pelos).

“A resposta foi impressionantemente positiva na minha conta de Instagram. Penso que, na maioria dos assuntos, os meus seguidores têm os mesmos ideais que eu”, explica Ashley, que usa o nome @ladyist na rede social, sobre o impacto das imagens captadas para a Billie. “No entanto, quando a campanha se tornou viral na Internet, existiram muitas reações negativas. A secção de comentários estava cheia de trolls – homens, na maioria – que se referiam aos pelos de uma mulher como ‘repugnantes’, ‘nojentos’ e ‘não higiénicos’. Acho que estas pessoas se sentem ameaçadas quando uma mulher reivindica o direito ao seu corpo. De que forma é que os pelos de uma mulher são diferentes dos pelos de um homem?” A pergunta de Ashley é em tudo pertinente, e é difícil não nos lembrarmos do movimento #freethenipple – não só pela necessidade de dizer que, tal como aquilo que os homens têm, aquilo que as mulheres têm não é ofensivo, mas também pela urgência de quebrar barreiras que foram levantadas há demasiado tempo.

 “De que forma é que os pelos de uma mulher são diferentes dos pelos de um homem?” - Ashley Armitage, fotógrafa

“Ainda existem muitas pessoas que têm noções preconcebidas em relação aos pelos, noções essas que são baseadas em anos e anos de condicionamento cultural”, defende Laura Schubert. “Durante muito tempo, os pelos foram vistos como irritantes e indesejados, ou como um assunto que precisa de ser sussurrado. A vergonha faz com que as pessoas sintam que não devem falar sobre isso e é esse silêncio que perpetua o tabu e que faz com que as pessoas achem que os pelos são de mau gosto quando, na verdade, são uma coisa natural que todos os seres humanos têm.”

Como defende Ashley Armitage, “os padrões de beleza foram usados contra as mulheres e contra as pessoas marginalizadas durante demasiado tempo, como forma de as controlar e de as manter ‘no seu lugar’.” Para a fotógrafa, “este tipo de imagens é importante”, porque “a visibilidade leva à normalização, à aceitação” – e as redes sociais podem ter um papel fundamental nisso mesmo. “Podemos usá-las como ferramentas para o progresso e para a mudança”, diz Ashley Armitage. “Recebo muitas mensagens privadas no Instagram que me tocam profundamente, mensagens de jovens raparigas que me dizem que, antes de terem visto o meu trabalho, não sabiam que tinham a escolha de deixar crescer os seus pelos. Ou pessoas que me dizem que as minhas fotografias as ajudaram a sentirem-se mais seguras e confortáveis nos seus próprios corpos. Estas mensagens mantêm-me motivada.”

 
 
 
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São mensagens que Laura Jackson, fundadora do projeto Januhairy, conhece igualmente bem. “Lembro-me desta rapariga, penso que era da Austrália”, conta à Vogue. “Ela tinha 13 anos e tinha muitos pelos, era uma rapariga naturalmente peluda. Sentia-se muito consciente disso, ficava muitas vezes em casa, odiava sair, e referia-se a si mesma como um ‘monstro’. Ela contou-me que quando descobriu a página do Januhairy chorou e sentiu-se aliviada, porque percebeu que não estava sozinha. Algo que ela odiava sobre si mesma estava a ser aceite e amado. Faz-te perceber que esta questão é importante. Isto não é só um grupo de mulheres a tentar começar uma luta só porque sim.”

A história que levou Laura Jackson a criar o Instagram @januhairy – que, nas palavras da própria, é “uma comunidade onde as pessoas se podem juntar e apoiar mutuamente, e desafiarem-se umas às outras a aprenderem mais sobre esta parte dos seus corpos (os pelos), uma parte que, talvez durante a vida toda, sentiram vergonha de ter” – começou com um one woman show, durante a faculdade, para o qual teve de deixar crescer, intencionalmente e pela primeira vez, os seus próprios pelos. “Nas primeiras semanas, senti-me mentalmente desconfortável e extremamente consciente de mim mesma”, partilha Laura Jackson. 

“Passado algum tempo, comecei a respeitar, a adorar e a aceitar essa parte de mim. Quando a produção terminou, voltei a deixar crescê-los, e a mantê-los assim. Isso fez-me pensar: ‘eu tinha um incentivo para fazer isto, e não o teria feito de outra forma. Porque não criar um projeto como o Januhairy, onde todas as pessoas podem ter esse mesmo incentivo, se precisarem dele?’ Às vezes, as mulheres precisam desse encorajamento. Existem influenciadoras incríveis que aceitam os seus pelos, e isso é fantástico. É tão bom ver que estas pessoas são acessíveis e que outras mulheres podem ver e aprender com elas.” Mas, como diz Laura Jackson, “uma coisa é ver e admirar outras pessoas que deixam crescer e aceitam os seus pelos, e outra é desafiares-te a ti mesma a fazê-lo – e foi por isso que criei o Januhairy.”

“Quando comecei o Januhairy, tive de explicar muitas vezes que não estamos aqui para dizer às mulheres que não se devem depilar. Seria completamente hipócrita.” - Laura Jackson, fundadora do projeto Januhairy

Enquanto converso com Laura Jackson, lembro-me daquilo que Ashley Armitage disse sobre os comentários negativos que são atirados ao ar quando se fala em pelos. Pergunto a Jackson se sentiu o mesmo quando começou o Januhairy. “Quando o projeto foi lançado, não tinha noção que ia ser algo tão grande”, diz a fundadora. “É incrível que as pessoas falem sobre ele, mas algumas pessoas foram muito negativas. Por exemplo, muitas mulheres – o que só por si é interessante – não percebiam e diziam coisas como ‘é nojento’, ‘é anormal’. Tive um comentário muito engraçado que dizia, ‘isto não é natural’. Ficas do tipo, ‘ok...’ [risos] Outras pessoas dizem coisas do género, ‘existem tantos problemas maiores no mundo, porque é que estás a falar sobre isto?’ Claro que existem muitos problemas maiores no mundo – mas porque é que este não pode ser um deles? Porque é que amarmos e aceitarmos quem somos não pode ser uma questão na qual nos focamos?”

Acabamos a conversar sobre alguns casos que mostram o quão importante é falar abertamente sobre estes assuntos – entre eles o caso de Arvida Byström, uma modelo que, em 2017, foi rosto de uma campanha para a Adidas. Para além dos comentários extremamente negativos, a imagem resultou em inúmeras ameaças de violação dirigidas à modelo – tudo porque, quando olhávamos para as suas pernas, via-se que não estavam depiladas. Recentemente, uma campanha da Nike com a modelo e cantora Annahstasia causou o mesmo tipo de reações – tudo porque, debaixo do braço da mesma, existiam pelos. “Muitas das pessoas que tecem este tipo de comentários e que são incrivelmente negativas, que te enviam ameaças de morte ou que são bullies, são pessoas inseguras em relação a si próprias, e pessoas que não conseguem compreender”, defende Laura Jackson. “E é precisamente por isso que o Januhairy é tão importante.”

 
 
 
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É impossível ouvir as palavras de Laura Jackson e ficar indiferente à irmandade que se vai criando. É como se estivéssemos a trocar impressões com uma amiga e, no meio de todas elas, falo-lhe daquele  dia de calor em que decidi voltar para trás e trocar a minha saia vintage por qualquer coisa que tapasse os meus pelos. “Todas nós já passámos por isso. Eu já passei por isso e, às vezes, ainda sinto isso”, diz-me. “É uma relação que muda todos os dias. Tens uns em que te sentes tão confiante, e depois tens outros em que nem tanto. Para mim, é difícil quando estás num sítio cheio de pessoas. No outro dia estava no metro, em Londres, e tive que me agarrar ao apoio superior - e, claro, fiquei com os pelos das axilas à mostra. Algumas pessoas olharam para mim de forma estranha, com um ar de choque. Senti-me muito consciente. Mas, por outro lado, estava a adorar aquilo. A minha atitude foi mesmo um, “yeah, olha para isto! Isto é ótimo! [Risos] Agora viste uma mulher com pelos e vais para casa dizer, ‘eu vi uma mulher com pelos, hoje.’ E, da próxima vez que vires outra mulher com pelos, não te vais sentir tão chocado, e vai ser normal.”

O assunto continua tão sério como no início, mas nem por isso nos impede de trocar algumas gargalhadas – afinal de contas, tal como a menstruação ou os mamilos, os pelos não estão aqui para ofender ninguém, nem para ditar aquilo que ninguém deve ou não deve fazer. “No fim do dia, isto é uma escolha, é aquilo que te faz sentir mais confortável – e é importante que percebas aquilo que queres, para o teu corpo, e tens de garantir que a decisão que tomas é por ti, e por mais ninguém”, diz Jackson. “Quando comecei o Januhairy, tive de explicar muitas vezes que não estamos aqui para dizer às mulheres que não se devem depilar. Seria completamente hipócrita se julgássemos as mulheres que se depilam! O objetivo é aceitarmo-nos uns aos outros, aceitarmos quem escolhemos ser, aquilo que decidimos fazer ou não fazer com os nossos pelos, e não nos condenarmos uns aos outros pelas decisões que tomamos.”

Laura faz uma pausa. “É tão estranho, sabes? Eu habituei-me de tal forma aos meus pelos... Quando compreendes e tens a experiência de perceber o quão normal isto é, esqueces-te que existem pessoas por aí que não percebem isto, de todo, e que envergonham quem o faz, e que são horríveis em relação a isso. Espero que estas mensagens continuem a ser propagadas, e que estas pessoas negativas se calem!” A dica fica – já os pelos, esses, podem ir ou não ir.

Artigo originalmente publicado na edição de agosto de 2019 da Vogue Portugal.

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