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Inspiring Women 5. 7. 2018

Mulheres e elogios. Estado da relação: é complicado

by Patrícia Domingues

 

Quando Mark Twain disse “consigo viver dois meses de um bom elogio” ficou provado que era homem. Para uma mulher, um elogio dura apenas o tempo que demora a esboçar qualquer coisa como “estás só a ser simpática”.

Está numa festa e uma amiga vem ter consigo para lhe dizer que adora o seu vestido. Imediatamente diz que custou 20 euros em saldos. A meio de um jantar alguém decide elogiar a sua recente promoção no trabalho. Dois segundos depois já está a fazer uma lista do que essa pessoa já atingiu na vida. “A tua pele está perfeita.” “Ah não, é tudo maquilhagem.” Que raio se passa com as mulheres e os elogios?

Não importa quão confiantes sejamos, parece quase impossível aceitar um sem nos menosprezarmos, explicarmos ou ignorá-lo. Quando Amy Schumer filmou um sketch hilariante sobre os elogios num grupo de amigas, tornou-se viral: todas as mulheres se relacionavam com a história. Gastamos rios de dinheiro em roupa, bebemos sumos detox como se não nos apetecesse devorar o mundo, estudamos, trabalhamos e tentamos dar o nosso melhor e depois, parece que no minuto em que alguém repara, nos esforçamos o triplo para o negar. Estudos provam que todos os tipos de mulheres são culpados de o fazer, quer se sintam confiantes ou não.

“De uma forma geral, temos dificuldade em aceitar um elogio. Não é confortável, ficamos sem jeito, nem sabemos como agradecer, por vezes até o tentamos justificar. Alguns por modéstia e humildade, outros por não sabermos lidar com eles, por não estarmos habituados a recebê‑los ou porque efetivamente não nos conseguimos ver assim. Por outro lado, não nos podemos esquecer que culturalmente é mais bem aceite a negação/desvalorização do elogio do que a segurança e o reconhecimento pelas próprias realizações e pontos fortes”, diz a psicóloga Joana de São João Rodrigues. Queremos pertencer, ser como as nossas amigas, e se todas o fazem mais vale alinhar na corrente derrotista. Quem secretamente concorda com os elogios, tenta disfarçar. Quem tem baixa autoestima, está só a ser sincero. É uma no-win situation, uma batalha por ser o macho alfa – só que ao contrário. Como se o nosso objetivo fosse competir para ver quem é a mais feia. Quão pré-Beyoncé é isso?  

Sorrir e acenar

Um elogio pode dar-nos conforto, alento, um sorriso, e puff, toda uma série de substâncias do prazer e alegria se espalham pela corrente sanguínea. Watson, Skinner, os pais da Psicologia do Comportamento, provaram, mostraram e voltaram a provar que para conseguir uma modificação do comportamento de homens e animais é preciso dar recompensas – e há melhor biscoito do que um elogio?

Há 2.000 anos, quando Jesus Cristo elegeu os 12 apóstolos, estava não só a marcar mesa para 13, como a pôr em prática um dos maiores elogios tácitos. “Vocês são os escolhidos para o maior projeto espiritual da humanidade” é o tipo de coisa que faz qualquer um sentir-se especial. Nem precisamos de ir tão longe: conhece alguém que não goste de ser elogiado? Bom, alguém além de si própria? Exemplo: alguém elogia o trabalho que anda há seis meses a matar-se para terminar. A resposta instantânea é um “podia estar melhor”. Já para não falar da desvalorização da opinião alheia, a sério que é esta a imagem que quer passar de si?

“A grande maioria das minhas clientes apresenta bastantes dificuldades relativamente à forma como lida com a imagem que tem de si mesma”, diz a life coach Mafalda Almeida. “Em coaching, dizemos que a forma como nos vemos se transmite ao exterior e ao mundo. A forma como nos vemos passa a ser a forma como os outros nos veem também. E toda a atitude tem início na nossa mente. Se nos habituarmos a desenvolver um diálogo interno construtivo e positivo, mais rapidamente vamos colher os frutos de uma energia vibrante e carismática. Ganhamos respeito por nós, confiança, e isso nota-se, sente-se. Ganha forma nos nossos gestos e atitudes. Um bom par de Louboutin não serve de nada nos pés de uma mulher que pensa que não os merece estar a calçar.”

O problema não é não pensarmos que os merecemos (oh, se não merecemos!) – o problema é se o mundo percebe que pensamos que os merecemos. Get it? Para as mulheres, não há nada mais terrível do que serem vistas como convencidas por outras mulheres, diz um estudo (o mesmo que apurou que apenas 22% dos elogios feitos entre mulheres foram aceites). Já para não falar de que desconfiamos sempre da natureza do elogio. A não ser que a pessoa que diz “OMG, adoro a tua saia” seja Regina George, porque é que alguém gastaria tempo a falar bem de si na sua cara? Só se for qualquer coisa como o recém-apelidado complisult, um mix de elogio e insulto, que pode vir de qualquer coisa como “ficas linda maquilhada” (quer dizer que desmaquilhada não fico?) ou “estás ótima para a tua idade” (como assim?) ou até mesmo aqueles elogios ensanduichados em críticas, que nem precisamos de ser boas a matemática para perceber que valem zero. “Muitas mulheres precisam de ouvir elogios e reforços positivos vindos de terceiros para começarem lentamente a acreditar que isso até pode ser verdade”, confirma Mafalda. “Ouvir um elogio é bom, mas a nossa autoestima não pode depender disso. Um autoelogio deverá ser muito mais valioso. E já agora, quando alguém lhe fizer um elogio, por favor aceite-o e agradeça.” 

Gap entre géneros

“Irrite um homem hoje: diga-lhe que concorda com o elogio que lhe fez”, incitou a autora e ativista Feminista Jones num tweet do ano passado. Alguém respondeu com um screen shot de uma conversa com um homem que, primeiro elogiou, e depois retirou o elogio quando ela concordou com ele. Bom, escusado será dizer que este foi o primeiro de muitos screen shots. “Não se espera que uma mulher seja autoconsciente quando se fala do seu aspeto e socializa em busca de validação através da representação feminina de um homem. Assim sendo, se um homem nos elogia, é suposto sermos recatadas ou fingir que não temos noção da nossa estética. É suposto estarmos gratas que os homens reconheçam e deem aos nossos looks os seus selos de aprovação”, responde Feminista (sim, o nome não é um acaso) por email à Vogue.

Andarmos um verão inteiro a cantar You don’t know you’re beautiful/ That’s what makes you beautiful é só parte do problema. “Porque é que as mulheres confiantes são vistas como mal-educadas? E aqui reside um gap entre géneros – aos homens é-lhes permitido serem confiantes e orgulhosos e recolher as recompensas dessas demonstrações de orgulho, enquanto as mulheres são muitas vezes penalizadas por declararem abertamente o seu valor.” Lembrei-me de um hot topic de 2013, quando Barack Obama emitiu um pedido de desculpas a Kamala Harris depois de a apresentar como brilhante, dedicada, atenciosa e “de longe, uma das mais bonitas procuradoras gerais do país”. Feminista: “Não havia necessidade de ele mencionar o aspeto dela ou compará-la fisicamente com outras pessoas”, responde. “Os homens são ensinados a conquistar as mulheres através de elogios e palavras floreadas como parte do status quo, e essas palavras devem focar-se na sua aparência em vez de naquilo que ela pensa ou no que ela diz. Temos de mudar a cultura de assumir que a coisa mais valiosa numa mulher é a estética.” OK, e se nos chamarem burras? “Quanto mais consciente a pessoa estiver sobre si mesma, quanto mais segura a pessoa estiver das suas competências, habilidades, beleza e inteligência, mais esses comentários deixam de ter qualquer tipo de impacto. E não há uma resposta mais forte do que uma boa gestão emocional”, garante a psicóloga.

Você é incrível. Agora aprenda a lidar com isso. 

 

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