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Entrevistas 4. 12. 2018

Sonhar Acordado

by Catarina Parkinson

 

Há três anos fomos oficialmente convidados a descobrir um novo mundo idealizado por Alejandro Gómez Palomo, onde o romance intoxica o ar, todos os pormenores merecem ser adorados de forma eterna e a beleza é uma verdade universal. Conversámos com o designer na sala de um palácio em Lisboa como se estivéssemos em casa dele.

© Rui Palma

Se nunca ouviu falar do designer Alejandro Gómez Palomo já viu de certeza as suas peças – ou pelo menos uma. Beyoncé escolheu um vestido do designer espanhol para usar na primeira fotografia que publicou no seu Instagram depois de ter dado à luz os gémeos Rumi e Carter. Que a artista estava uma visão divina (com 10 milhões de likes foi a fotografia mais popular do Instagram até há pouco tempo) não foi nenhuma surpresa. Que o vestido floral fazia parte da terceira coleção de menswear de Palomo Spain (a marca do designer), isso sim, surpreendeu. Mas esta não foi a primeira vez que as peças de Alejandro provocaram comoção. Quando se estreou na semana de Moda de Nova Iorque em 2017, com Objeto Sexual, o espanhol foi responsável por um dos momentos mais emocionantes da temporada.

Com os seus coordenados trabalhados em tecidos opulentos e desenhados em silhuetas de inspiração feminina, que desfilaram em homens maquilhados, as suas coleções rapidamente ultrapassaram a barreira do género e foram imediatamente descritas como gender‐fluid. Para Palomo, sempre foi mais do que isso. Alejandro nasceu no sul de Espanha, em Córdova e o momento em que percebeu que queria ser fashion designer foi quando aos sete anos de idade viu o último desfile de Yves Saint Laurent. Logo depois descobriu Galliano, num desfile que o designer fez ainda para a Dior inspirado na arte do flamenco. Como se fosse destino, ou tivesse descoberto um novo melhor amigo (a Moda), esta ligação foi crescendo com Alejandro, que aos 15 anos decide ir para Londres estudar e, com a revelação da adolescência, encontrou também o seu caminho na área.

 
 
 
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“Todas as ideias que tinha na cabeça começaram a fazer sentido e foram fáceis de executar aplicadas ao menswear. Antes, sabia que queria seguir fashion design mas sentia que me estava a faltar alguma coisa, não me sentia tão perto da Moda ou percebia a mulher assim tanto. Foi em Londres que descobri que existia toda uma 'cena' em menswear, comecei a sair à noite e a ver como os homens se vestiam. Percebi do que se tratava e foi aí que comecei a estudar menswear e acabei por desenvolver a minha estética, com todas as referências que me marcaram ao longo da vida”, diz à Vogue Portugal.

Enquanto estudava e descobria uma nova forma de expressão, também trabalhava no departamento vintage da Liberty’s, um dos armazéns de luxo mais famosos da capital inglesa. Todos os dias lhe passavam pelas mãos peças de grandes couturiers como Chanel, Lacroix e Dior, que cresceu a admirar e que só em sonhos tinha imaginado algum dia tocar. Esta foi a fórmula mágica para o mundo Palomo Spain, que nasceu no projeto de fim de curso, batizado como Je t’aime moi non plus. O nome da marca explica tudo: “Na altura estava em Londres mas voltei para Espanha para fazer as peças e queria que a marca tivesse qualquer ligação com Espanha e refletisse o facto de haver um rapaz espanhol na turma. Comecei a pôr o nome Palomo nas etiquetas e por baixo Spain, como a Prada faz com Milão ou a Hermès com Paris”, explica.

O mundo digital transformou oficialmente o nome quando o designer criou a conta de Instagram da marca e teve que juntar Palomo a Spain. Em Je t’aime moin on plus nasceu o primeiro esboço do Palomo boy, um rapaz coberto de renda que captou a atenção de todos e cuja história Palomo sabia que tinha que explorar. Apesar de não saber bem como lá chegar, tinha a certeza do quadro que vivia na sua cabeça e decidiu desenhar a sua primeira coleção. “Quando estava quase na altura de apresentar a coleção e vimos tudo criado, todos os rapazes vestidos e a sentirem-se tão confortáveis, glamorosos e divertidos, percebemos que era uma nova forma de olhar para os homens.” Alejandro fala de Orlando, a sua primeira coleção inspirada na obra homónima de Virginia Woolf.

© Rui Palma

 

Cresceu em Posadas, uma pequena vila espanhola imersa em tradições ricas em folclore, com acesso a uma espécie de portal mágico que o transportava para o mundo das grandes Casas de Alta-Costura, onde a Moda sempre caminhou numa linha ténue entre fantasia e realidade. Essa dualidade foi o ponto de partida para construir o seu próprio mundo, onde ambos os espectros coexistem em harmonia – a ingenuidade e o romance bucólico de uma vila, onde tudo é mais simples, andam de mãos dadas com o desejo e a luxúria de tecidos que pedem para ser tocados e de peças que têm o dom de falar por nós; a tradição espanhola é reinterpretada pelos códigos da Alta-Costura e vice-versa. Hoje, é na pequena vila que continua a criar, tendo estabelecido lá o seu ateliê, mas viaja constantemente tanto a trabalho, tendo já apresentado as suas coleções em Madrid, Nova Iorque e Paris, como para se inspirar, porque a cada coleção que apresenta o Palomo boy continua a crescer. Conta-nos que estão a crescer juntos, que já sabe o que quer numa coleção, mas a história é sempre o mais difícil de desenhar porque é preciso perceber para onde é que ele vai e o que está a sentir. De alguma forma, a personagem criada por Palomo reflete aquilo em se está a transformar e acompanha o seu amadurecimento.

"Às vezes podemos usar um simples fato, eu tenho um tuxedo que uso constantemente, mas há outros dias em que me apetece um top bordado a missangas." Alejandro Gómez Palomo

Depois de Orlando, seguiu-se Boy walks in a Exotic Forest (primeravera/verão 2017), inspirado no quadro Woman Walking in an Exotic Forest de Henri Rousseau e que pretende espelhar a incursão de Palomo no mundo da Moda, com um misto de coisas igualmente fantásticas e estranhas; Objeto Sexual (outono/inverno 2018) explora a sexualidade em todas as suas expressões, desde o ato de seduzir e a vontade de ser desejado, ao lado mais lascivo ou virginal do sexo; Hotel Palomo (primavera/verão 2018) conta a história de todas as personagens que se cruzam num hotel, desde os bell boys, ao traficante ou à herdeira de um império metalúrgico, pintando todo o elenco com a excentricidade que lhe é característica. Foi também a primeira vez que mulheres desfilaram, com Rossy de Palma a ser uma das convidadas a participar no episódio idealizado pelo designer. Esta escolha de incluir mulheres no desfile pode ter reforçado a ideia de que Palomo Spain pretende ser uma marca sem género mas o designer é o primeiro a recusar este tipo de rótulos.

Faz questão de expressar que o seu objeto de estudo preferido é o homem, que é do homem que se sente mais próximo e que sente compreender melhor. “Começámos com a ideia de menswear e era nesse sentido que queria construir a marca. De certa forma as minhas coleções estão a ficar cada vez mais masculinas porque no início diverti-me muito a fazer vestidos de renda, mas o meu objetivo no mundo da Moda continua a ser dar aos homens uma alternativa e oferecer algo diferente” e com isto Palomo quer dizer aos homens que podem ir a uma festa sem terem de vestir uma simples camisa branca e um blazer. “Sim, às vezes podemos usar um simples fato, eu tenho um tuxedo que uso constantemente, mas há outros dias em que me apetece um top bordado a missangas. Houve agora uma festa da Vogue Espanha em Madrid e vesti um ator espanhol (que não era gay) e quis usar um longo kaftan transparente bordado a missangas. Estava lindo, elegante e glamoroso sem ter de estar igual a toda a gente.” Isto é claro desde o primeiro dia que Alejandro mostrou o seu trabalho – tem uma estética (muito) própria, admitindo mesmo que o seu objetivo não é criar tendências, estar muito “na moda” e muito menos seguir os calendários pré-estabelecidos pela indústria. “Gosto de Beleza que dure para sempre, como um edifício, uma boa peça de mobiliário ou uma peça de roupa que tem um grande valor ao longo da sua vida”, conta à Vogue Portugal.

Construiu uma realidade alternativa e o melhor de tudo é que não tem que viver nela sozinho. Eterno romântico e habituado a cultivar relações genuínas, estar rodeado de pessoas que percebam e partilhem do seu conceito de Beleza é fundamental. O seu namorado, Pol Ruig, modelo, tem um papel-chave, interpretando o derradeiro papel de musa. É a primeira pessoa com quem Palomo fala e discute um novo conceito para a coleção seguinte e é também o primeiro a experimentar as suas peças, ajudando-o a dar vida às suas criações. Kito Muñoz e Filip Custic são outros elementos importantes do universo Palomo. Sobre a dupla de fotógrafos espanhóis que assina as provocantes campanhas da marca, o designer diz que tem muita sorte por ter amigos que não só compreendem a sua visão como são grandes profissionais nas suas áreas de trabalho. A campanha para a última coleção de Palomo Spain, The Hunting, fotografada por Kito Muñoz, é o exemplo perfeito. Todo o imaginário da caça é subvertido e elevado a algo mais provocador quando o cenário deixa de ser o campo e passa a ser a cidade. Em vez de caçar animais, o Palomo boy procura caçar novas aventuras e, claro, outros rapazes. Tudo isto vestido em peças de construção elaborada e tecidos sumptuosos, com os acessórios a serem a chave de sucesso para o look final completo.

 

 
 
 
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Alejandro Gómez Palomo não está só a desenhar para um mercado com uma necessidade que não estava a ser preenchida, não quer vestir homens com roupa de mulher ou diluir as linhas do código de vestuário para cada género. “Apercebi-me que o que fiz foi criar um universo, uma nova realidade que não é exatamente real à minha volta. Essa é a minha necessidade como designer porque a vida normal é demasiado mundana, demasiado normal para mim e para eu ser criativo. Sonhei com um mundo em que as pessoas à minha volta se vestem desta forma e veem a Beleza de igual maneira. É criar uma energia e atrair uma energia em que gostamos de estar rodeados de Beleza.” Está a sonhar acordado e nós sonhamos com ele.

 

* Artigo originalmente publicado na edição de setembro de 2018 da Vogue Portugal.

 

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