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Palavra da Vogue 28. 10. 2020

Out of the blue

by Ana Murcho

 

Chegam não se sabe como, não se sabe porquê, não se sabe de onde. Simplesmente acontecem. Assim, do nada. Puff. São coisas tão inesperadas que nem dão tempo para perguntar “o que é que se está a passar?” Muitas vezes, dão belas histórias. Outras, belas memórias. Nos piores casos, são apenas coincidências, menos boas, que queremos deixar enterradas, para sempre, no mais profundo azul.

English version here.

© Getty Images

Amesterdão, maio de 2015. Era um daqueles fins de semana de raparigas, programado ao ínfimo detalhe para ser recordado até aos primeiros dias de velhice, quando as bengalas começarem a substituir os saltos com mais de cinco centímetros e os phones derem lugar aos pouco sexy aparelhos auditivos. Adenda: não era um fim de semana de borga, note-se, mas um fim de semana especial (não que esses não sejam especiais), já que era o meu presente de casamento para a minha amiga de infância, que daí a um mês e pouco subiria ao altar.

O tempo estava quente, demasiado quente, até, e lembro-me de, no domingo, ao sairmos do hotel, ficarmos felizes com todas as horas que ainda tínhamos pela frente. Estava um daqueles dias de primavera em que todos os adjetivos são parcos, que nos fazem querer acreditar na existência de algo superior. “Ainda bem que vamos no último voo”, pensámos. E saímos à descoberta. Depois do almoço decidimos ir ao famoso Bloemenmarkt, ou Mercado das Flores, um local que ambas queríamos conhecer. Quando estávamos quase a chegar, cruzámo-nos com uma rapariga loura que carregava uma baguette dentro de uma cesta de verga e vestia uma t-shirt branca onde se lia "Je Ne Regrette Rien".

Se na altura comentámos alguma coisa, terá sido algo tão prosaico como “agora parecia que estávamos em Paris”, mas a conversa não foi além disso. Nem teria ido, não tivéssemos começado a ouvir, minutos depois – alto e bom som, e, no entanto, vindo do nada, como se fosse um sino de uma igreja – a voz de Édith Piaf, que “cantava”, em plena Amesterdão, Non, Je Ne Regrette Rien. Lembro-me de olhar para a minha amiga como se estivesse a ver um ouriço a pilotar um foguetão da NASA e de pensar: “Não pode ser. Estou maluca. Estou a ouvir coisas.” Senti-me mais reconfortada quando me respondeu, com um ar de quem já se tinha deixado levar pelo poder daquela estranha coincidência: “Então se estás maluca eu também estou, porque a Piaf está a cantar, eu estou a ouvir, e bem.”

E estava. No meio de Amesterdão. Ou melhor, em nenhum lugar de Amesterdão, porque tão rápido como veio, foi-se, isto é, calou-se, e em minutos a consagrada cantora francesa perdeu a voz. Não era um rádio. Não era um carro que passava com altifalantes que anunciavam um concerto de tributo à musa da chanson française. Não era a banda sonora do Mercado das Flores. Não era um apartamento com uma festa em ácidos, onde alguém perdeu o controlo do gira-discos. Era apenas Piaf, dos céus. Ou assim pareceu. E foi estranho o suficiente para, estivesse eu sozinha, acreditar piamente que estava a alucinar.

Mas o destino ainda não tinha cumprido todo o seu papel nesta partitura de acasos. Depois de uma pausa para café numa conhecida multinacional cujo logo verde atrai qualquer turista em qualquer parte do mundo, entrámos numa loja com o intuito de comprar luzes para decorar um “jardim noturno” que a minha amiga tinha em mente para o seu grande dia. Aqui passou-se tudo muito rapidamente. Ela subiu ao primeiro andar, eu fiquei no rés-do-chão, perdida no meio de bugigangas, e a certa altura pousei o meu copo de café inadvertidamente em cima de algo, enquanto esperava e me distraía com o telefone. “Estou pronta, é só pagar”, atirou, decidida, à medida que descia as escadas. “Então vamos, respondi-lhe”, e peguei no copo de café, no maldito copo de café, deixando a descoberto o objeto que estava a tapar. Por esta altura a minha memória entrou em modo negação total, por isso não sei qual de nós exclamou, mais alto do que seria razoável: “Isto não pode ser verdade. Isto não pode ser verdade.” Porque o objeto era, nem mais nem menos, que uma gigantesca borracha rosa-choque, onde se podia ler "Je Ne Regrette Rien".

“One day, out of the blue, he announced that he was leaving”. Este é um clássico, podia ser uma frase tirada do diálogo de um filme: “Um dia, do nada, ele anunciou que se ia embora.” Nota de rodapé – já me aconteceu. A mim e, provavelmente, a metade dos leitores deste texto.

E que eu, pressionada pelo encadeamento de ocorrências, me vi na obrigação de adquirir porque, sejamos sinceros, passamos boa parte da vida à espera que o universo nos envie sinais e, convenhamos, este tinha (e ainda tem) todos os condimentos para ser um deles. À pergunta “o que é que o universo me queria dizer?”, a resposta é desoladora: não sei. Suspeito, e isto é apenas uma suspeição baratucha, que talvez fosse qualquer coisa como “continua, estás no bom caminho, não te arrependas de nada.” Naturalmente, nunca mais vi a rapariga com a baguette dentro da cesta de verga. Nem soube de onde é que veio o som (igual aos sinos de uma igreja, insisto) da Piaf. A borracha, essa, ainda está na minha sala. Pelo sim, pelo não. Nunca ninguém me conseguiu explicar “isto”. Nenhuma terapeuta, nenhuma crente em cenas shanti, nenhuma religiosa que tenha assistido a milagres. Ninguém. Foi qualquer coisa que aconteceu "out of the blue", e para essas coisas não há justificação possível.

Do nada. Abruptamente. Sem motivo aparente. Caído do céu. Repentinamente. De forma imprevisível. Sem aviso prévio. Ou, então, out of the blue, que como resume o Cambridge English Dictionary, é somente isto: “If something happens out of the blue, it is completely unexpected” (é impossível traduzir a frase à letra, mas o sentido subentende-se; “se algo acontece ‘do nada’ [esse algo] é completamente inesperado”).

A origem da expressão 'Out of the blue'

Na sua origem, a expressão está associada a qualquer coisa tão improvável que se assemelha a um raio que, subitamente, surge de um céu totalmente limpo e azul. O jornal inglês The Standard escrevia, a 26 de agosto de 1863: “Murder now rises up before us, gaunt and unmitigated, in a circle where all seemed lovely, virtuous, and peaceful. This is verily ‘a bolt out of the blue’ - the lightning flash in a sunny sky.” Em português será algo como: “O homicídio aumenta agora diante de nós, tortuoso e absoluto, num círculo onde tudo parecia adorável, virtuoso e pacífico. Este é realmente um ‘raio inesperado’ – um relâmpago num céu cheio de sol.”

Já o londrino The Spectator, reportava, a 22 de fevereiro de 1879: “What is the Times at? Twice this week, the organ of her Majesty’s Government has fired off articles so completely ‘out of the blue’ that it is difficult to believe they are uninspired, which point [sic] to some impending coup d’état or coup de théâtre to be immediately struck in India.” A tradução para português aponta para um uso, já consciente, desse nonsense que está por detrás da expressão: “O que pretende o Times? O orgão do governo de Sua Majestade publicou artigos tão inesperados que é difícil acreditar que não tenham inspiração, que apontam [sic] para algum golpe de Estado iminente ou golpe de teatro que ataque imediatamente a Índia.” E assim continuou, até aos dias de hoje, em que todos os nativos (e não só) da língua inglesa se servem dessa expressão para desabafar sobre algo que lhes escapa à razão: “One day, out of the blue, he announced that he was leaving”. Este é um clássico, podia ser uma frase tirada do diálogo de um filme: “Um dia, do nada, ele anunciou que se ia embora.” Nota de rodapé – já me aconteceu. A mim e, provavelmente, a metade dos leitores deste texto.

Quando tudo pode acontecer

Já que falamos em coisas que ocorrem “out of the blue”, que exemplos encontramos no dia a dia, perto ou longe de nós? Há cerca de oito meses, o site Bored Panda (um guilty pleasure quando não temos nada para fazer, um perigo fatal quando estamos à beira de um deadline) partilhou algumas das histórias mais insólitas e “sem explicação racional” que surgiram num fórum da plataforma Reddit, a propósito de sensações que roçam aquele “glitch in the matrix” (falha na matriz). Um internauta desabafou o seguinte: “A minha amiga Sarah estava numa discoteca, completamente bêbada, quando sentiu uma necessidade irresistível de dizer a uma pessoa que não conhecia de lado nenhum que a sua perna lhe doía (nota: não doía). Tudo um bocado estranho, mas ela ignorou, foi ter com ele e disse-lhe: ‘Sei que é uma loucura, mas sinto uma necessidade enorme de te dizer que estou com dores na minha perna. Sei que é uma loucura, novamente! Desculpa!’ Só que ele começou a chorar. Ao que parece, o pai tinha acabado de morrer, e eles fizeram um pacto antes para que, se houvesse vida após a morte, ele enviar uma mensagem totalmente aleatória, para que não pudesse haver erros, que decidiram ser ‘Magoei-me na perna.’”

Este testemunho tem tanto de sobrenatural como de inexplicável, mas, acreditamos, tanto para um como para outro dos intervenientes, os acontecimentos daquela noite surgiram do nada, completamente "out of the blue". Nenhum deles, acreditamos, estava à espera que aquilo sucedesse, já que nem se conheciam. E porque a noite é propícia a encontros inesperados, recordo quando uma amiga esteve quase-quase a cancelar uma saída – o rapaz com quem saía na altura, um bon vivant que dava notícias once in a blue moon, resolveu mudar de planos à última hora – e de repente, sem saber porquê, aperaltou-se toda, maquilhagem e cabelos incluídos, e foi porta fora, ter com os amigos – e em vez de ouvir o tal DJ über cool com o idiota que a ignorou, como era seu apanágio, esbarrou (literalmente) com o homem dos seus sonhos (não é um exagero), com quem está até hoje. Foi há mais de dois anos. 

O tempo marca o compasso destas histórias, e imprime-lhes o significado possível. "Out of the blue", dizem os ingleses, quando algo lhes provoca uma surpresa inexplicável – que tanto pode ser boa ou má. Não há palavras que deem sentido à desolação, e ao desespero, de entrar em casa e encontrar alguém que nos é querido sem vida. Sei de várias pessoas que passaram por esse trauma, que pensaram estar apenas a rodar a chave para um fim de tarde normal e, afinal de contas, estavam a abrir a porta para um novo, e trágico, capítulo das suas existências. “Cheguei e ela estava morta. Assim, do nada.” Ninguém mo contou ipsis verbis, não é algo que se conte ipsis verbis, mas terá sido algo do género, porque a susto de uma morte inesperada, de um suicídio, é a pior definição de "out of the blue". Nada se compara a isso. Nada.

E depois há coisas que não matam mas moem, como o marido que sai de casa para comprar cigarros e nunca regressa, o chefe que numa manhã solarenga nos despede sem motivo aparente, o desconhecido estranhamente simpático que se mete connosco no café e, no fim de contas, nos rouba uma nota de 20 euros, só que nada disso se compara a um desencontro sem retorno, a alguém que foi embora por decisão própria, para um lugar onde não temos acesso. O mundo está cheio de histórias assim. O tempo marca-lhes o compasso. É como encontrar uma cabine telefónica no meio do deserto, ou como tropeçar num bife com ovo a cavalo num restaurante vegano. Pode acontecer. "Out of the blue", pode acontecer.

Como diriam as nossas avós, “é quando menos se espera.” O quê? Tudo. Dois anos depois da minha viagem a Amesterdão, saí do elevador para o hall que dá acesso a casa quando os meus olhos se depararam com um gigantesco livro que, muito tempo antes, tinha deixado num outro país, muito longe daqui. A acompanhá-lo estava um papel onde se lia “Estou em Lisboa, num hotel perto do aeroporto, gostava de falar contigo.” Fiquei sem ar. Não me mexi durante uns bons dois minutos. Aquilo era totalmente "out of the blue". Para aqui não interessam os detalhes que ligam a capital holandesa, o coffee table book, e aquela nota, apenas isto: o universo estava certo quando me fez repetir, de forma meio tosca, "Je Ne Regrette Rien".