Lifestyle  

Os padrões nas relações: Temos, de facto, um tipo?

01 Oct 2026
By Esteban G. Villanueva

Editorial Uma história de amor, da edição Love da Vogue Portugal, publicada em dezembro de 2020.

Ou estamos simplesmente a repetir o que nos parece familiar?

Todos acreditamos ter um tipo ideal. Talvez seja o protagonista melancólico de todos os filmes sobre a adolescência que vimos quando éramos mais novos. O amor da época do liceu que nunca superamos completamente. A celebridade cujos posters, um dia, cobriram as paredes do nosso quarto. Ou o perfil da aplicação de encontros para a qual deslizamos instintivamente antes mesmo de termos tempo para pensar. Descrevemos as nossas preferências com uma certeza surpreendente — alto ou baixo, loiro ou moreno, engraçado ou misterioso — como se a atração fosse simplesmente uma questão de gosto. O amor, dizemos a nós próprios, é uma questão de preferência pessoal.

Mas a vida tem o hábito de complicar essa certeza. A maioria de nós conhece alguém cujo "tipo" cuidadosamente definido desapareceu no momento em que encontrou a pessoa certa. A amiga que jurou que só namoraria com músicos e apaixonou-se por um contabilista. A mulher convencida de que preferia intelectuais quietos até conhecer alguém tão extrovertido que preenchia todos os ambientes. O homem que passou anos a descrever a sua parceira ideal com detalhes minuciosos, apenas para construir uma vida com alguém que não se parecia em nada com a imagem que ele tinha imaginado. De repente, o que antes parecia uma regra começa a parecer mais uma sugestão.

O que levanta uma questão incómoda: se o nosso tipo pode mudar tão completamente, será que algum dia tivemos realmente um? 

A psicologia passou décadas a tentar responder exatamente a esta questão. Embora a cultura popular trate frequentemente a atração como química ou destino, muitos psicólogos defendem que o amor começa muito antes — muito antes do nosso primeiro beijo, da nossa primeira desilusão amorosa ou do nosso primeiro perfil num site de encontros. De acordo com a teoria da vinculação, pioneira do psiquiatra britânico John Bowlby e posteriormente expandida pelo trabalho da psicóloga do desenvolvimento Mary Ainsworth, as nossas primeiras relações tornam-se o modelo através do qual aprendemos o que é o amor. Os psicólogos referem-se a estas expectativas inconscientes como modelos internos de funcionamento: mapas emocionais que moldam silenciosamente a forma como procuramos a proximidade, reagimos a conflitos e interpretamos a intimidade ao longo da nossa vida.

Se isto for verdade, talvez tenhamos feito a pergunta errada, o tempo todo. Talvez a atração não esteja no encontro de alguém que corresponda ao nosso ideal. Talvez esteja no conhecimento de um sentimento que já experimentámos antes.   

A familiaridade tem uma forma curiosa de se disfarçar de química. Por vezes, confundimos borboletas no estômago com compatibilidade quando, na verdade, o que estamos a sentir é reconhecimento. A pessoa que está à nossa frente pode ser completamente nova, mas algo na sua dinâmica — a sua distância emocional, calor, imprevisibilidade ou estabilidade — parece estranhamente familiar. Não porque já a tenhamos encontrado antes, mas porque já experimentámos este ritmo emocional antes.

Sigmund Freud, o neurologista austríaco considerado o pai da psicanálise, tentou explicar as nossas primeiras experiências de amor através do complexo de Édipo. Mais tarde, Carl Jung propôs aquela que considerava a sua contraparte feminina, o complexo de Electra. Em conjunto, estas teorias ficaram associadas à infame ideia de que nos apaixonamos pelos nossos pais — ou, mais precisamente, por ecos das suas personalidades, padrões e comportamentos.

A psicologia moderna afastou-se em grande parte destas teorias nas suas formas originais. O que sobreviveu não foi a noção literal de que procuramos réplicas das nossas mães ou pais, mas a compreensão mais ampla de que as nossas primeiras relações influenciam o modelo através do qual experienciamos a intimidade. As pessoas que encontramos no presente são inevitavelmente filtradas pelas experiências do passado, moldando silenciosamente quem nos parece seguro, excitante, familiar ou digno de atenção. O que vivemos torna-se a lente através da qual interpretamos o que poderemos amar no futuro.

Na teoria, parece quase óbvio. As nossas experiências influenciam o que desejamos e a forma como reagimos a isso. Ainda assim, insistimos que a atração começa com "ter um tipo", raramente parando para considerar que o próprio tipo pode ter sido moldado muito antes de nos tornarmos conscientes de o ter. Talvez as nossas preferências não sejam inteiramente nossas. Talvez sejam memórias, experiências e padrões emocionais disfarçados de instinto.

Mas se os nossos modelos emocionais são tão influentes, como explicamos os momentos em que parecem desmoronar-se por completo? Será que não se desmoronam, mas são, sim, revistos?

Um modelo interno de funcionamento não é uma profecia, nem a infância é uma sentença proferida antes de termos idade suficiente para a contestar. Os nossos primeiros relacionamentos podem fornecer o primeiro esboço da intimidade, mas não escrevem necessariamente a versão final. Cada amizade, desilusão amorosa e encontro subsequente acrescenta algo à página. Algumas experiências reforçam aquilo em que já acreditamos. Outras, silenciosamente, desafiam. 

Talvez seja por isso que um relacionamento saudável pode parecer inicialmente menos inebriante do que um relacionamento familiar. A estabilidade nem sempre é acompanhada de fogo de artifício. Para alguém habituado à incerteza, a consistência pode parecer suspeita. Para alguém que aprendeu a associar o afeto à conquista, ser escolhido livremente pode parecer quase anticlimático. A ausência de ansiedade pode ser erradamente interpretada como ausência de química, simplesmente porque a calma ainda não se tornou reconhecível como amor. Mas a familiaridade pode ser aprendida. Com o tempo, uma relação que oferece estabilidade onde antes havia imprevisibilidade, abertura onde havia distância ou segurança onde havia dúvida pode começar a redesenhar o mapa emocional. O que antes parecia estranho torna-se seguro. O que antes parecia aborrecido torna-se tranquilo. O que antes parecia química pode eventualmente revelar-se como vigilância com um nome mais romântico.

Por vezes, os psicólogos utilizam o termo "segurança conquistada" para descrever a possibilidade de uma pessoa desenvolver uma forma mais segura de se relacionar, apesar de ter experienciado instabilidade no início da vida. Isto sugere que o apego não é total- mente fixo na infância, mas pode mudar através da autoconsciência, de relações fiáveis e de experiências que contradizem as nossas expectativas mais antigas. Podemos começar por repetir o que nos parece familiar, mas a repetição não é a única força que nos molda. Somos também capazes de reconhecimento, reflexão e reparação. Talvez, então, a pessoa que não se enquadra no nosso tipo ideal não tenha desmantelado o modelo. Talvez ela simplesmente nos tenha mostrado que ele nunca esteve completo.

O tempo transforma-nos. Crescemos, amadurecemos e o que precisamos nem sempre será o que desejávamos. Inevitavelmente, isto muda aquilo que procuramos — e talvez até aquilo que somos capazes de reconhecer quando isso acontece. O(a) namorado(a) do liceu com quem jurámos passar o resto da vida pode simplesmente ter sido a companhia certa durante os turbulentos e sempre mutáveis anos da adolescência. O amor de verão que encontrámos durante o intercâmbio pode ter sido exatamente o que precisávamos ao longo de uma época de descobertas, mesmo que nunca tenha sido para durar. Cada pessoa pode ser a certa para uma versão específica de nós, sem ser necessariamente a certa para todas as versões que virão depois. Talvez partilhassem certos traços: o mesmo sentido de humor, uma suavidade familiar à volta dos olhos ou uma semelhança na forma como sorriam. Mas determinar se estas semelhanças revelam um tipo, um padrão ou apenas o instinto da mente para criar continuidade entre as suas experiências é muito mais difícil.

Afinal, a psique não organiza o amor tão perfeitamente como nós. Não separa a atração em categorias fixas nem preserva as nossas preferências intocadas pelo tempo. Ela absorve, revê e reinterpreta. O que antes parecia irresistível pode mais tarde parecer exaustivo. O que antes parecia demasiado quieto pode eventualmente tornar-se paz. E o que antes ignorávamos por completo pode tornar-se exatamente aquilo que estamos prontos para amar. O amor, para ter algum significado, precisa de ser algo duradouro — algo capaz não só de perdurar, mas também de crescer connosco. E o crescimento, pela sua própria natureza, implica mudança. Se mudarmos, então certamente as pessoas por quem nos sentimos atraídos e as qualidades que procuramos nelas também mudarão connosco.   

Podemos sempre manter uma preferência por olhos azuis, cabelos escuros ou pele bronzeada. Mas o que acontece quando a companhia emocional que procuramos chega de uma forma completamente diferente? E se a pessoa que nos oferece estabilidade, intimidade, humor ou compreensão não se parecer em nada com a imagem que um dia imaginámos que conteria essas qualidades? Eu sei bem disso. Sou, em quase todos os sentidos visíveis, o oposto do suposto tipo ideal do meu parceiro. E, no entanto, aqui estamos nós, anos depois, ainda a escolhermo-nos. Talvez seja esta a limitação final da ideia de um tipo: pressupõe que sabemos de antemão como será o amor. Muitas vezes, o amor chega antes de termos as palavras para o categorizar. Isto pede-nos para reconhecermos não a pessoa que esperávamos, mas o sentimento que ainda não sabíamos que precisávamos.

Então, voltando ao início: temos um tipo específico ou estamos simplesmente a repetir o que nos parece familiar? A resposta depende do que entendemos por tipo. Temos características que consideramos atraentes, sinais emocionais que reconhecemos e necessidades que esperamos que um parceiro satisfaça. Por vezes, encontramos estes sinais repetidamente em rostos familiares, em corpos semelhantes, no mesmo sorriso que aparece sob nomes diferentes. Mas, com a mesma frequência, surgem na pessoa que menos esperávamos. O que importa é sermos capazes de os reconhecer quando isso acontece. Não porque a preferência seja superficial, nem porque o desejo deva ser descartado, mas porque qualquer coisa que valha a pena procurar para além de um período passageiro precisa, eventualmente, de se tornar algo mais do que a embalagem em que se apresentou. Um rosto pode atrair-nos. Um corpo pode chamar a nossa atenção. Mas o que nos faz ficar raramente é tão fácil de descrever. Talvez, então, não tenhamos um tipo específico, mas antes uma linguagem da atração — moldada pela memória, pelo instinto, pela experiência e pela necessidade. E o amor, na sua melhor forma, é a pessoa que o expressa fluentemente, mesmo quando não se parece em nada com a pessoa que imaginávamos.  

Originalmente publicado no We are the Pattern Issue, a edição de setembro de 2026 da Vogue Portugal, disponível aqui.

Esteban G. Villanueva By Esteban G. Villanueva

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