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Endometriose: quando a doença pode afetar a fertilidade

30 Sep 2026
By Carolina Raposo

Jessica e Oliver fotografados por Branislav Simoncik, com realização de Nelly Gonçalves, para a edição Family Affairs da Vogue Portugal, publicada em dezembro de 2019.

Estima-se que 1 em cada 10 mulheres em idade reprodutiva sofra com endometriose. Mas quando o assunto é a fertilidade, a doença parece afetar grande parte das mulheres que deseja engravidar mas não consegue. Estará a endometriose diretamente relacionada com a fertilidade?

O que é a endometriose?

Segundo a médica ginecologista Filipa Osório, a endometriose é uma doença inflamatória que afeta cerca de 1 em cada 10 mulheres em idade reprodutiva. Na endometriose, o tecido semelhante ao endométrio cresce fora do útero, provocando inflamação noutros órgãos — como os ovários, a bexiga, o intestino e o estômago.

A endometriose tem cura?

Atualmente, não existe uma cura definitiva para a endometriose. Existem, no entanto, diferentes formas de controlar a doença e os seus sintomas, nomeadamente através de medicação e, em vários casos, cirurgia. A abordagem deve ser individualizada, tendo em conta os sintomas, a extensão da doença e a qualidade de vida em causa de cada mulher.

A endometriose afeta a fertilidade?

A endometriose pode afetar a fertilidade, mas isso não significa que uma mulher com a doença não possa engravidar. Uma doente com endometriose pode conseguir engravidar naturalmente. A repercussão da doença na fertilidade, contudo, varia de mulher para mulher.

Segundo a Dra. Filipa Osório, a fertilidade pode ser influenciada pela endometriose porque se trata de uma doença inflamatória que atinge os órgãos reprodutores. A presença de marcadores inflamatórios pode ter uma repercussão na reserva ovárica — a quantidade de óvulos disponíveis nos ovários, que é finita.

Quando existem endometriomas nos ovários — quistos benignos associados à endometriose —, pode existir uma maior repercussão na reserva ovárica. A própria doença pode contribuir para que esta reserva seja desgastada mais rapidamente. Além disso, a endometriose pode provocar uma distorção da anatomia pélvica, criando alterações que podem dificultar o processo de engravidar. “A endometriose afeta a fertilidade, mas nem sempre”. Por isso, como explica a médica, “na fertilidade, individualizar decisões faz toda a diferença”.

A cirurgia pode ajudar na fertilidade?

A cirurgia pode influenciar positivamente a fertilidade em algumas mulheres. Ao remover os endometriomas e outras lesões provocadas pela doença, pode ser possível recuperar parte da anatomia pélvica e melhorar as condições para uma gravidez.

No entanto, a cirurgia também pode ter consequências para a reserva ovárica. Quando um endometrioma é removido, algumas células saudáveis do ovário podem ser retiradas juntamente com o quisto, o que pode diminuir ainda mais a reserva ovárica.

É precisamente por esta razão que, em determinadas situações, pode ser recomendada a preservação de óvulos antes de uma cirurgia. A decisão deve ser analisada individualmente, tendo em conta a idade da mulher, a extensão da endometriose e a possibilidade de ser necessária uma intervenção cirúrgica no futuro.

A ideia passa por preservar uma possibilidade: mesmo quando uma mulher ainda não sabe se quer ser mãe, pode querer manter essa opção disponível no futuro.

Porque é que a criopreservação de óvulos deve ser considerada?

Segundo a Dra. Catarina Godinho, médica ginecologista e especialista em medicina reprodutiva, existem várias razões para considerar a criopreservação de óvulos no contexto da endometriose.

Por um lado, não é possível prever exatamente como a doença vai evoluir. Por outro, também não é possível saber quando poderá ser necessária uma cirurgia. A própria endometriose pode contribuir para uma diminuição mais rápida da reserva ovárica e existem estudos que apontam para possíveis diferenças na qualidade dos óvulos de mulheres com endometriose, embora esta questão não permita prever o resultado individual de cada uma.

Assim, a preservação de óvulos pode ser uma forma de antecipar uma possível diminuição da fertilidade.

Como é feito o procedimento do congelamento de óvulos?

Segundo explica a Dra. Godinho, o procedimento de recolha e congelamento de óvulos dura, em termos gerais, cerca de 15 a 20 dias.

Durante esse período, é administrada uma medicação injetável, adaptada a cada mulher, que estimula o crescimento de vários folículos em simultâneo. Dentro de cada folículo desenvolve-se um óvulo. Ao longo destes dias, o crescimento dos folículos é acompanhado através de consultas e exames, até ser identificada a altura adequada para fazer a recolha. No caso de mulheres com endometriose, a medicação é particularmente adaptada, uma vez que a doença é sensível do ponto de vista hormonal.

A recolha dos óvulos é feita através de um procedimento cirúrgico realizado sob anestesia geral. Com o auxílio de uma ecografia, é feita a aspiração do líquido presente nos folículos, sendo os óvulos recolhidos juntamente com esse líquido. Posteriormente, os óvulos são congelados.

“Do ponto de vista médico, é um processo relativamente simples”, explica a médica. No entanto, o processo não começa nem termina nos dias de medicação e acompanhamento. Antes de iniciar o tratamento, existem decisões e conversas importantes a ter. Para muitas mulheres, esta pode ser uma decisão difícil, uma vez que, muitas das vezes, esta decisão tem de ser tomada ainda mesmo antes da mulher saber se deseja ou não ser mãe, ou até mesmo quando o deseja ser. No caso da endometriose, esta antecipação pode assumir particular importância. A doença pode evoluir de forma imprevisível e a reserva ovárica pode diminuir, pelo que preservar óvulos pode permitir manter uma possibilidade futura, mesmo que essa possibilidade nunca venha a ser utilizada.

Além disso, o processo pode ter impacto físico e psicológico. As injeções podem provocar dores, inchaço abdominal, cólicas e sensibilidade pélvica, enquanto as alterações hormonais podem também influenciar o estado emocional. No caso de mulheres com endometriose, existe ainda uma particularidade: se estiverem a tomar medicação para inibir a ovulação e controlar os sintomas da doença, essa medicação poderá ter de ser interrompida durante o processo. Como consequência, os sintomas da endometriose podem voltar ou intensificar-se. Depois da recolha e congelamento dos óvulos, a mulher pode retomar a medicação que tomava anteriormente. Por isso, apesar de ser um procedimento relativamente simples do ponto de vista médico, é um processo que exige tempo, paciência e acompanhamento — e muita resiliência.

O congelamento de óvulos garante uma gravidez?

Não. A criopreservação de óvulos não é uma garantia de que, no futuro, será possível engravidar.

A principal vantagem do procedimento é preservar a qualidade dos óvulos no momento em que são congelados. Ou seja, os óvulos mantêm as características que tinham no momento da criopreservação, em vez de acompanharem o envelhecimento reprodutivo natural da mulher.

Quando esses óvulos são utilizados no futuro, terão ainda de passar por várias etapas. Os óvulos descongelados têm de sobreviver ao processo, ser fecundados e dar origem a embriões que consigam desenvolver-se adequadamente. Só depois poderá ocorrer uma transferência embrionária.

Por isso, mesmo com óvulos congelados, existe a possibilidade de a gravidez não acontecer.

A probabilidade de sucesso também depende de vários fatores, nomeadamente da idade da mulher no momento da recolha, do número de óvulos congelados e da sua qualidade. Geralmente, a recomendação pode rondar os 15 óvulos congelados, embora o número adequado seja sempre individual e deva ser definido pela equipa médica.

Quando é que uma mulher com endometriose deve procurar um especialista em fertilidade?

O diagnóstico de endometriose pode levar muitas mulheres a questionarem-se sobre o seu futuro reprodutivo. Por essa razão, a possibilidade de a doença ter impacto na fertilidade deve ser discutida desde o momento do diagnóstico, sobretudo quando existem fatores que podem aumentar esse risco, como a presença de endometriomas ou uma reserva ovárica reduzida.

A decisão de procurar um especialista em medicina reprodutiva não significa necessariamente que a mulher queira engravidar naquele momento. Pode simplesmente significar que quer conhecer as suas opções e perceber como a doença poderá influenciar a sua fertilidade no futuro.

Nesse sentido, pode ser construído um verdadeiro “plano de fertilidade”, que poderá incluir acompanhamento da reserva ovárica, tratamentos de fertilidade ou a consideração da criopreservação de óvulos.

A questão central, segundo as especialistas, é precisamente essa: não existe uma decisão igual para todas as mulheres com endometriose. A doença pode afetar a fertilidade através da inflamação, da diminuição da reserva ovárica e das alterações anatómicas provocadas pela própria endometriose. Mas ter endometriose não significa, por si só, ser infértil.

Por isso, mais do que antecipar uma gravidez que pode ainda não fazer parte dos planos, a preservação da fertilidade pode representar uma forma de manter opções abertas para o futuro. É importante lembrar que, no que toca à fertilidade, individualizar decisões faz toda a diferença. Um processo que aos olhos de um médico pode parecer simples, aos olhos de uma mulher com endometriose consegue, por vezes, parecer a escalada de uma montanha sem topo, pelo que, mais uma vez, é um processo que requer, calma, cuidado e compreensão.

Carolina Raposo By Carolina Raposo

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