Lifestyle  

O verão é obrigatório. A praia é opcional.

30 Jul 2026
By Pureza Fleming

Chiara Scelsi, Jonathan Sampaio e Kevin Sampaio fotografados por Branislav Simoncik, com realização de Cláudia Barros, para a edição Silly Season da Vogue Portugal, publicada em julho de 2018.

No verão, é comum que todos os caminhos vão dar à praia. Mas porque é que tem de ser necessariamente assim? E porque é que não ir à praia se tornou, afinal, um assunto? Falamos em nome de todos os que preferem o sossego de casa às toalhas empilhadas umas sobre as outras, o fresco de uma sala de cinema às filas na ponte, e a liberdade de não cumprir aquilo que uma estação parece exigir. Para isso já bastam os outros trezentos e tal dias do ano.

A obrigação de ir à praia. Li esta ideia numa newsletter do The New York Times e ficou comigo desde então — não pela novidade, mas pelo reconhecimento imediato. Essa sensação estranha de que o verão, em algum momento, deixou de ser apenas estação e passou a ser performance. Ir à praia, apanhar sol, “aproveitar”. Como se houvesse uma forma correta de descansar. Eu tive a sorte de viver na praia — literalmente. No Brasil, em plena pandemia, eu e o meu pé descalço descíamos todos os dias ao mar para dar um ou vários mergulhos. A praia vazia, a paisagem de sonho, a água numa temperatura que não corroía os ossos — não podia pedir mais nada. Havia ali uma espécie de suspensão do mundo, sem guião nem expectativa. E, nesse contexto, tudo faz sentido. A praia tem esta capacidade rara de abrandar o corpo antes mesmo de abrandar a mente. A luz, o sal, o calor: tudo parece alinhar-se num estado mais leve. O sol, em doses moderadas, estimula a produção de vitamina D — essencial para os ossos, para o sistema imunitário e até para o humor.

Depois há o que não se mede tão facilmente. O chamado efeito dos “blue spaces” descreve essa relação quase silenciosa entre água e regulação emocional: como se o sistema nervoso reconhecesse o mar e, instintivamente, baixasse o tom. O ar marítimo parece mais leve, em movimento constante, quase limpo por natureza. A água salgada deixa essa sensação dupla, de purificação e de secura, como tudo o que é excesso de natureza. E há o corpo. Sempre o corpo. Nadar no mar é um gesto simples, quase infantil, mas profundamente regulador: ativa a circulação, dissolve tensões, devolve uma leveza difícil de replicar noutros lugares. No conjunto, a praia continua a ser um dos ambientes naturais mais completos para descanso físico e mental. E é difícil argumentar contra isso. Mas talvez a questão não esteja aí. Talvez a pergunta não seja se a praia faz bem — isso já se sabe — mas porque é que, mesmo assim, se tornou quase uma obrigação.

Em cidades como Lisboa, basta o calor apertar para que o movimento se repita quase em automático: o tabuleiro da ponte preenchido de carros, a urgência silenciosa de chegar ao mar. A Costa da Caparica fica a pouco mais de 20 minutos — um detalhe geográfico que, no verão, deixa de ser detalhe. O próximo transforma-se em longe, quando é atravessado em fila. Essa proximidade, que poderia ser privilégio, transforma a praia numa extensão da cidade. Não um destino excecional, mas uma promessa sempre disponível. E talvez por isso mesmo, paradoxalmente, mais carregada de expectativa. Porque se está tão perto, porque não ir? E se formos, porque não aproveitar ao máximo? Um inquérito da OnePoll, encomendado pela Club Wyndham, sugere precisamente isso: dois em cada três inquiridos dizem sentir pressão para “aproveitar ao máximo” as férias. Mais de metade preocupa-se em não conseguir fazer tudo o que planeou, e uma maioria significativa acredita que um único elemento negativo pode comprometer toda a experiência.

Talvez o problema não seja a praia propriamente dita. Nem o verão. Nem sequer o sol. Talvez o desconforto esteja nesta ideia subtil de que até o descanso precisa de validação.

A verdade é que há sempre uma certa estranheza em relação a quem escolhe ficar em casa num dia de calor intenso — sobretudo se a casa for fresca, silenciosa, quase perfeita para não fazer nada. Ler um livro, ver uma série, arrumar o closet, ou simplesmente não preencher o tempo. O não fazer nada continua a ser uma forma de desconforto coletivo. O FOMOFear of Missing Out — não precisa de se anunciar para estar presente. Basta um dia de sol e 40 graus à sombra para que se instale a ideia de que estar fora é obrigatório, de que não aproveitar “ao máximo” é quase uma falha de caráter estival. Mesmo quando isso implica praias sobrelotadas, toalhas coladas umas às outras, horas de trânsito e uma logística que já começa a parecer trabalho. E, ainda assim, persiste a sensação de que esse é o único verão possível.

Na minha opinião — e, pelos vistos, também o ponto de vista daquela jornalista do The New York Times — não é. Praia no verão é, para mim, um bocadinho sinónimo de stress. É claro que isto será sempre verdade para quem não se dá bem com grandes aglomerados de pessoas, como as praias no verão. Arrisco dizer que prefiro um passeio na areia num dia de inverno frio a lidar com a praia na chamada época em que lhe é devida. Ficar em casa ou arranjar programas alternativos nestes dias não precisa de ser motivo de estranheza. Sobretudo porque há um leque de coisas que se podem fazer por esta altura do ano que, provavelmente, vão saber muito melhor do que noutras: ir ao cinema, por exemplo. Quem é que se lembra de ir ao cinema quando o termómetro lá fora aponta para altas temperaturas? Eu lembro-me. Dentro da sala de cinema o clima está fresco; as salas encontram-se invariavelmente pouco populosas — podemos comer pipocas à vontade sem o receio de incomodar o próximo com o irritante som das pipocas a estalar. Também há os museus, as galerias, e todos esses locais devidamente refrigerados enquanto lá fora o sol queima a pele.

E trabalhar em pleno agosto? É certo que este é um privilégio reservado àqueles que não têm filhos pequenos e que, por isso, têm de se adaptar às férias dos mais novos. Mas para quem não vive neste cenário, poder trabalhar nos meses mais concorridos em matéria de verão é um luxo. As ruas encontram-se muito mais desertas, o trânsito abranda, a quantidade de trabalho muitas vezes diminui (porque, como bem sabemos, muitos estão de férias). Em suma, a vida desacelera. E o corpo e a mente podem relaxar sem pedir a ninguém licença para passar.

Há verões que cabem numa toalha estendida ao sol. Outros cabem numa sala escura de cinema. Outros ainda numa casa vazia, com as janelas abertas e o som distante da cidade a dissolver-se no calor.

Talvez o problema não seja a praia propriamente dita. Nem o verão. Nem sequer o sol. Talvez o desconforto esteja nesta ideia subtil de que até o descanso precisa de validação. De que não basta descansar — é preciso fazê-lo bem. No sítio certo, à hora certa, com a intensidade certa. Como se o descanso tivesse um guião invisível que todos conhecem, mas ninguém escreveu. Mas há qualquer coisa de profundamente libertador em recusar esse guião. Em aceitar que há dias em que o corpo pede silêncio e não estímulo. Em que o tempo não precisa de ser preenchido, apenas habitado. Em que o verão pode ser vivido longe da praia, longe da multidão, longe da obrigação de “aproveitar”.

Há verões que cabem numa toalha estendida ao sol. Outros cabem numa sala escura de cinema. Outros ainda numa casa vazia, com as janelas abertas e o som distante da cidade a dissolver-se no calor. O verão não existe para se acumular dias e muito menos para cumprir expectativas estivais. O verão está ali porque tem de estar e cada um é livre de o viver à sua maneira. Não é um desempenho. Não é uma prova. É somente a vida a acontecer.

Originalmente publicado no The Portuguese Summer Issue, a edição de julho/agosto de 2026 da Vogue Portugal, disponível aqui.

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