Moda   Entrevistas  

O último a rir: entrevista com Jeremy Scott

22 Oct 2026
By Pedro Vasconcelos

Fotografia: Getty Images

Durante décadas, Jeremy Scott transformou o humor numa assinatura e o excesso numa linguagem. Hoje, enquanto a Moda parece cada vez mais séria, o designer olha para trás, para a sua carreira e para tudo aquilo que continua a achar engraçado.

Em 1992, Jeremy Scott era estudante no Pratt Institute. Tinha acabado de escapar da sua cidade rural. Agora, na Nova Iorque com que sonhara, Scott apanhava três comboios para chegar ao Metropolitan Museum. As visitas ao museu tinham um único propósito: desenhar os vestidos usados pelos manequins. Em 2019, estava diante desses mesmos manequins — desta vez, eram eles que vestiam os seus desenhos. Durante a maior parte dos últimos 30 anos, o nome de Jeremy Scott tornou-se sinónimo de uma determinada estética. Tanto ao longo da sua década na Moschino — onde exerceu o cargo de diretor criativo durante esses dez anos — como através da sua própria marca, o excesso tornou-se uma linguagem e o humor, uma assinatura. E, até muito recentemente, foi o último sobrevivente de uma originalidade inconfundível num sistema que se tornou cada vez mais uniformizado.

Desfiles com o tema da McDonald’s e carrinhos de bebé com asas: a linguagem de Scott não é séria. O seu sentido de humor permite-lhe subverter a política do bom gosto em nome do camp. A sua abordagem descontraída, inspirada na pop art, permitiu-lhe infiltrar-se na cultura numa época anterior à transformação da Moda em entretenimento e antes de cada diretor criativo de uma maison se tornar uma espécie de trivialidade acessível a qualquer pessoa minimamente ligada à Internet. Não o fazia para inspirar a revolução que ajudou a catapultar, mas por amor à cultura — um amor que remonta aos seus dias no Missouri rural, quando telefonava para as lojas para pedir descrições das roupas e imaginava Madonna como uma aliada contra a mentalidade das pequenas cidades.

“Adoro a cultura, é por isso que adoro Los Angeles.” É aí, no seu escritório numa manhã californiana, que conversamos. Scott encontra-se rodeado pelas peças de cerâmica que ele próprio criou — uma das novas formas que encontrou para canalizar o seu fluxo eterno de criatividade. Para além do estúdio de cerâmica, continuou a sua colaboração de várias décadas com a Adidas e a Longchamp, e está até a adaptar um livro para um argumento cinematográfico. “Estou a fazer aquilo para que nunca tive tempo: estou a desfrutar da vida.” Enquanto olha para o futuro e para uma nova etapa da sua vida, a nossa conversa traça o percurso de uma das carreiras mais extraordinárias da indústria da Moda.

A sua casa é linda! Pela luz do sol, imagino que esteja em Los Angeles.

Sim, estou aqui desde que me mudei de Paris. A cidade assenta-me como uma luva. Adoro a cultura americana. E, para mim, Los Angeles é a grande cidade americana por excelência. Grande parte da sua estética baseava-se num futuro otimista. Além disso, Hollywood é um registo permanente da cultura americana. Apesar de estarmos a passar por dificuldades, não consigo evitar o meu amor. Tenho de a desculpar. Está bêbada e precisa de reabilitação.

Acho que Los Angeles existe fora da perceção que o mundo tem dos EUA. Tem um impacto quase independente na cultura global. Lembro-me de ter 13 anos no interior de Portugal e sonhar em ir para LA. Para fazer o quê? Posar em frente de uma parede rosa?

[Risos] Só queria posar, quem o pode culpar? É um desejo simples, um sonho belo e simples.

O Jeremy, por outro lado, não tinha ambições tão simples. Cresceu numa quinta em Lowry City, nos arredores de Kansas City. Como é que começou a sonhar com a Moda?

Cheguei à Moda de várias maneiras. Obviamente, naquela altura não tínhamos o magnífico turbilhão de informação que é a Internet. Ficava encantado com tudo o que tinha a sorte de encontrar na televisão. Na CNN, a Elsa Klensch fazia uma rubrica semanal sobre Moda. Via a Lisa Bonet no The Cosby Show a usar Romeo Gigli, [Jean Paul] Gaultier e Issey Miyake. A Madonna, claro! Mas tinha de me esforçar para encontrar cada pedacinho de informação. Hoje em dia, os miúdos têm tudo ao seu alcance. Costumava ligar para as lojas e pedir que me descrevessem as roupas ao telefone. Às vezes, tinha sorte e conseguia que me enviassem fotos Polaroid pelo correio. Era uma obsessão. Costumavam publicar aquelas fotos do tamanho de um polegar nos jornais depois dos desfiles. Tinha de usar a imaginação.

''Adoro aquela porca (Miss Piggy). Ela é uma diva, mas já lidei com muitas divas. Tenho muito orgulho na vasta gama de pessoas que tive a oportunidade de vestir, mas escolher uma favorita é uma tarefa complicada.

Jeremy Scott

Obviamente, tem um ponto de vista muito específico na Moda. A sua perspetiva é bem-humorada, não se leva demasiado a sério. Qual é a origem da sua linguagem visual?

Tudo comigo sempre foi instintivo. Sinto que sou uma cebola: quanto mais descasco, mais suculento sou. Penso no que fiz no início da minha carreira. Algumas das perceções sobre o que fazia enquanto desenvolvia a minha linguagem estavam erradas. Naquela altura, era eu a fazer os moldes, a costurar tudo sozinho; até fazia os sapatos com as minhas próprias mãos.

Fazer sapatos é toda outra dimensão.

Bem, para ser sincero, não eram sapatos a sério. Foram concebidos sem sola, cobrindo apenas o calcanhar e envolvendo o tornozelo. Já não vemos algo assim há algum tempo, não é? [Risos] Não me vou distrair, voltemos à tua pergunta. Eu estava a dar os meus primeiros passos numa época em que a Moda era extremamente minimalista. O Helmut Lang dominava as passerelles. E depois, havia o [John] Galliano a criar fantasias teatrais. No meu contexto, e em comparação, o meu sentido de humor tornou-se imediatamente visível para a indústria.

Na altura, tinha consciência do seu lugar nesse contexto?

Não, só pensava no quão desesperadamente precisava de me expressar. Finalmente tinha a oportunidade de me conectar com pessoas. Foi algo tão visceral que me fez sentir vivo. Foi muito terapêutico. Antes disso, usava tudo o que tinha, cada dia era um desfile de Moda completamente louco. A maquilhagem dos olhos chegava até ao meu cabelo. Finalmente, com a minha marca, consegui deixar de usar o meu corpo como veículo para a minha visão. Não se tratava de onde me encaixava na Moda porque, na altura, não me encaixava de todo.

Sentia-se incompreendido?

Sem dúvida. Foi muito difícil, especialmente naquela altura. Mais uma vez, vamos contextualizar. Não havia redes sociais onde eu me pudesse justificar, onde pudesse fazer um live e dizer: “Os haters podem ir lixar-se.” Eram apenas pessoas a escrever sobre mim. No final de um dos meus primeiros desfiles, o White Show, quando saí do backstage para fazer uma vénia estava tão entusiasmado! Tinha 23 anos, tinha sido sem-abrigo em Paris um ano antes do desfile, foi um momento maravilhoso. No meio daquela emoção, gritei: “Viva avant-garde!” Como sou americano e tenho sotaque, alguns jornalistas decidiram que eu tinha dito: “I’m a god” [Sou um deus]. É uma diferença enorme. Começaram a espalhar uma narrativa falsa que eu não tinha como corrigir. Foi frustrante. Havia uma forte divisão entre a cultura jovem e a indústria. Eu estava a derrubar barreiras que as pessoas não queriam ver abertas. Tive grandes nomes da Moda, como o André Leon Talley, a aparecer na televisão a dizer que eu não devia ser autorizado a criar roupa porque fiz um desfile com looks dourados no auge do minimalismo. Lembro-me de os jornalistas me perguntarem constantemente: “Está a ser irónico?” Era confuso para mim porque não entendia o que me perguntavam. Porque é que não posso ser bem-humorado ao mesmo tempo que sou sincero? Porque é que teria de fazer alguém sentir-se estúpido para fazer uma piada? Fui dotado com o meu sentido de humor. Acredito que é sempre melhor rir.

Quando é que sentiu que a maré mudou?

Lamento informar que continuo a ser um outsider, pelo menos na minha versão da minha vida. É claro que há momentos que se destacam. Estar na Met Gala para a exposição Camp e perceber que tinha mais peças em exposição do que qualquer outro designer — eu, o miúdo que andava na escola em Brooklyn e apanhava três comboios para chegar ao Met para poder desenhar roupas no meu caderno —, teve um peso enorme. Mas, por mais conquistas que eu consiga reconhecer, logicamente, que alcancei, das quais obviamente me orgulho muito, em todas as fases da minha carreira houve pessoas que se opuseram a mim. Na minha primeira coleção da Moschino, tive editores que se recusaram a escrever sobre o desfile. Não é que eu tenha ressentimento, mas consigo reconhecer como fui maltratado. Há simplesmente algo na minha constituição que faz de mim um outsider. Cresci numa quinta, de certa forma é natural que não me integre em meios mais pretensiosos.

A razão pela qual pergunto é porque, obviamente, tenho uma perceção muito diferente da sua carreira. Tendo crescido no interior de Portugal, foi uma das formas através das quais fui apresentado à Moda. Em muitos aspetos, para mim, o Jeremy representava a indústria.

Isso é ouro para mim e as suas palavras são a razão pela qual estou grato pela minha vida. Não pela aprovação das pessoas da indústria. Trabalho para tocar a vida de alguém, para trazer alegria, para fazer parte da magia da Moda. O mais importante para mim é a ligação humana. Sempre me considerei um comunicador, em vez de um designer de Moda tradicional. Há pessoas que são obcecadas por uma saia, pela forma como ela cai. Eu não sou assim. Quero que as roupas sejam bem feitas, mas essa não é a minha obsessão. Estou a propor ideias, a expressar o que penso através de roupa.

Falámos do contexto quando entrou na indústria e, agora, das pessoas que inspirou com o seu design. Há uma onda de interesse pelas suas coleções por parte de uma geração que não as testemunhou em tempo real. Sente essa ressurgência?

Até me arrepio só de pensar nisso. É maravilhoso sempre que tenho um vislumbre desse fenómeno. Às vezes, tenho interações na rua com pessoas que têm reações viscerais quando me veem. Adoro isso. Sinto-me muito abençoado por ter fãs de diferentes aspetos do meu trabalho. Há quem adore as minhas colaborações com a Adidas, outros vivem no mundo que criei para a Moschino. É por isso que criei um bocadinho de tudo, desde sapatos a carrinhos de bebé, para dar às pessoas acesso à minha visão por diferentes caminhos. Uma das razões pelas quais aceitei a colaboração com a Adidas foi porque eles combinam um excelente trabalho artesanal com um preço acessível. Não faz sentido nenhum ter de gastar o salário de três meses para ter uns sapatos divertidos.

É interessante pensar na amplitude dos caminhos que criou. Encara-os todos como parte do mesmo mundo?

Isso é interessante. Acho que há uma divisão. Quando comecei na Moschino, mas ainda tinha a minha própria marca e fazia colaborações regulares com a Adidas, imaginava-me como um ator. As palavras saem sempre da minha boca, o corpo é sempre o meu, mas estou a desempenhar papéis diferentes.

Ao longo dos anos, não só criou em diferentes meios, como também colaborou com pessoas diferentes, desde Miley Cyrus à Miss Piggy. Qual a sua pessoa ou muppet favorito para vestir?

[Risos] Adoro aquela porca. Ela é uma diva, mas já lidei com muitas divas. Tenho muito orgulho na vasta gama de pessoas que tive a oportunidade de vestir, mas escolher uma favorita é uma tarefa complicada. O look de assistente de bordo para o vídeo Toxic da Britney Spears é tão icónico, Mas, por outro lado, cresci com a Madonna a ser a pessoa mais famosa do planeta. Um dos momentos mais emocionantes da minha vida foi quando ela me entregou um prémio da amFAR. Cresci numa zona rural, atormentado por ser visivelmente gay. Para sobreviver, criei uma realidade alternativa em que a Madonna era a minha melhor amiga. Essa fantasia era a minha concha, o que me protegia até ter idade suficiente para me mudar para Nova Iorque. Até certo ponto, vivi para ver a minha fantasia tornar-se realidade. A ligação criativa e pessoal que temos é muito gratificante para aquela criança gay.

''A busca por um maior crescimento do volume de negócios castrou a Moda. A Moda não é um supermercado, é mitologia, é magia.''

Jeremy Scott

Falou sobre o vazio de atenção que surge depois de deixar de criar coleções — algo que fez durante mais de uma década. Como mantém o seu sentido de identidade numa indústria com uma matriz de sucesso tão rigorosa?

Senti, sem dúvida, um certo choque quando saí da Moschino. Não tinha a certeza de qual era o meu lugar no mundo. Como sou um comunicador, cada estação era uma oportunidade para estabelecer um diálogo. Sinto que as oportunidades de diálogo se tornaram mais escassas. Não que tenha deixado de criar, continuo a colaborar com a Adidas e a Longchamp, mas já não tenho o volume de produção que mantive durante tanto tempo nesse contexto. Tive de refletir sobre o meu próprio valor. Mas essa mudança também me deu tempo para fazer outras coisas. Estou a adaptar um guião. Este verão, frequentei aulas de cerâmica na UCLA. Parece dramático, mas esse estilo de vida envolve muitos sacrifícios.

Voltaria a criar com esse ritmo?

Parte de mim acha que poderia ser divertido, mas não quero fazê-lo só por fazer. É como um casamento. Já passei por um divórcio desse género, em que a minha visão já não se alinhava com a da marca. Não teria sido um ambiente agradável para mim. Não me sinto à vontade em ambientes conflituosos. Preciso de criar a partir da alegria, é daí que o meu trabalho emana.

Sinto que a sua saída do calendário da Moda nos deixou com uma lacuna na indústria. Há muito pouca fantasia, há ainda menos excentricidade e praticamente nenhum humor. O que acha da Moda desde que saiu da Moschino?

Muito do que está a acontecer neste momento tem a ver com a estupidez da liderança. Estão obcecados com números e esqueceram-se de que a Moda é sobre contar histórias. Se estas marcas não têm histórias para contar, ficam desprovidas da razão pela qual as pessoas compravam o produto. A busca por um maior crescimento do volume de negócios castrou a Moda. A moda não é um supermercado, é mitologia, é magia. Ninguém precisa de mais uma peça de roupa; estaríamos todos vestidos para a eternidade com a quantidade de roupa que existe atualmente. Por isso, se o objetivo é inspirar o consumidor a comprar algo, não precisa de lhes fazer uma lavagem cerebral. As pessoas querem fazer parte de algo, se não lhes dermos uma visão, não vão comprar. É por isso que as vendas de todas as marcas estão a cair. A ganância alimentou uma falta de imaginação.

Por falar em falta de imaginação. Nas últimas estações, temos visto bastantes designers a inspirarem-se discretamente em alguns no seu espólio. O que acha do facto de o seu arquivo ser uma fonte de inspiração?

Depende. Às vezes parece-me um pouco indelicado ou agressivo. Ao longo da minha carreira, tive de sofrer as consequências de pôr alguns desses designs para a passerelle. A ideia de que alguém possa simplesmente aparecer e reivindicá-los sem sofrer as consequências representa um dos aspetos mais tristes da Moda: a falta de memória. Mas, na verdade, o que se pode fazer? É para rir. 

Originalmente publicado no The Humor Issue, na edição de outubro de 2026 da Vogue Portugal, disponível aqui.

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