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O meu bairro é o mundo

©Rui Palma

Entrevistas 24. 6. 2017

by Tiago Manaia

 

De bairro em bairro, numa Lisboa em plena mudança, decidimos falar com pessoas que vivem a cidade intensamente. Durante um mês e meio seguimos os ensaios das Marchas Populares de Lisboa, conhecemos os seus marchantes. Ouvimos as suas histórias. Acompanhámos assim o momento em que caminham da realidade até ao sonho – a noite de Santo António, data em que se apresentam na Avenida da Liberdade. Fotografia: Rui Palma.

Isto é um artigo sobre Lisboetas, e de como se relacionam com o bairro onde vivem. “Orgulho”, foi a palavra que mais ouvimos no último mês. Começámos cedo a acompanhar os ensaios das Marchas Populares, ensaiavam em pavilhões desportivos ou escolas. Os campos de futebol enchiam-se de adereços brilhantes todas as noites. Cantavam-se músicas onde Lisboa era evocada sem fim. Quem eram os marchantes? E como os escolhíamos? Esta questão parecia também intrigar os responsáveis de cada marcha. Seguimos o magnetismo de alguns nos ensaios, improvisámos. Porque marchavam? O que sentiam? O que andavam a fazer durante o dia, antes de ensaiar. Nas Marchas, para apresentar um bairro há um tema que é escolhido. Os marchantes vestem uma personagem. O seu desempenho é avaliado primeiro num pavilhão gigante. A festa culmina na noite de Santo António. Descem a Avenida da Liberdade, dançando em pontos de luz. 15 minutos de fama, talvez mais. O caminho para o sonho termina ao amanhecer, quando um bairro é escolhido como vencedor. As Marchas Populares começaram em 1932, mais ou menos constantes durante o regime de Salazar, acabaram por desaparecer com a queda da ditadura. O regresso deu-se no início da década de oitenta. Hoje parecem renovar-se através de uma geração que as vive intensamente.

Começámos esta reportagem no final do mês de Abril. O objetivo era chegar até à noite de Santo António.

“É tão bom quando passamos na rua aqui em São Vicente. As velhotas conhecem-nos desde pequeninas e falam connosco. Perguntam como estamos, admiram-se de como crescemos rapidamente. Estou tão habituada a isto.” – Tatiana diz que a emoção e a alegria a fazem quase sempre chorar. “Sinto que estou a representar a minha tradição, que isto é assim desde a minha avó.”

Um aquário: a Marcha do Alto do Pina chega à Avenida da Liberdade de autocarro.

“No meu bairro se um está mal, todos estão mal. Se um está bem, está tudo bem”. Rúben tem 16 anos, foi sozinho inscrever-se nas Marchas Populares. Ninguém na sua família era marchante, ele já andava a acompanhar a tradição há algum tempo. “Não podia passar deste ano”. Estuda desporto, pensa em mudar de curso para tornar-se piloto. Marcha com o Alto do Pina.

“A gente pode sair do bairro. Mas o bairro nunca sai de nós.”

 

“Diagnosticaram um cancro do estômago à minha avó que tem quase 80anos. Eu disse-lhe, ‘avó assine aqui uma folha com o seu nome’. Pintei-lhe os lábios e pedi que beijasse um papel. Depois fui ao tatuador que escolheu o melhor beijo, desenhou-o como estava. Tatuou-me também a assinatura dela. E agora parece que a minha avó não tem nada, em 6 meses ficou curada”.  Pedro tem 27 anos. “A história de marchar está-me no sangue, no meu e dos meus putos. É como jogar à bola ou pintar”. Faltam minutos para entrar no Meo Arena, e a sua avó está no meio da claque de Alcântara que espera para o ver.

“O nosso bairro era onde havia mais varinas. As mulheres são muito peixeiras, falam um bocado alto. As varinas têm bom coração, isso ainda vive muito lá na Madragoa, aquelas senhoras despojadas de qualquer tipo de riqueza, só que dispostas a ajudar os outros. Isso ainda predomina no bairro.”

Vou parecer um bocado aquelas senhoras no concurso Miss Universo mas... A falta de compreensão atrai a falta de paz. E no clima que estamos a viver hoje a nível mundial, a palavra paz é a mais importante...Devíamos todos erguer uma bandeira”, João tem 24anos, vive na Madragoa, está sem emprego, fez parte da comissão organizadora da sua Marcha. Esteve implicado em todos os processos criativos, “não recebo qualquer tipo de valor monetário pelo trabalho que faço, recebo o carinho.” O bairro da Madragoa ainda está longe da azafama de outros em Lisboa. Mantem uma escala humana, poucos carros e miúdos a brincar na rua.

“A primeira vez tive medo. Na segunda já soube melhor, já sabia marchar.” Ricardo, sai todos os anos com Marvila, mas vê muitos vídeos de outras marchas que admira. Inspira-se na dança e na música. Tem grande parte do braços tatuados, o que tatua? “A minha família. Uma rosa, um olho que eu fiz para o meu irmão. Isto é uma santa e umas asas de um anjo, com umas penas a cair”

Vais tatuar Lisboa ou nome do teu bairro? “Não isso não. Só se fossemos campeões.”

No dia em que Marvila se prepara para sair em direção ao Meo Arena, há um arraial montado. Logo à saída da Sociedade Musical, onde os marchantes se vestem, vê-se o Mar da Palha – estamos em Lisboa. Por momentos pensámos estar mais longe.

 

“O nosso tema este ano é: ‘não toquem na minha Alfama’. Exatamenteporque nós continuamos com a tradição, só que Alfama está a mudar. Aqui já se falam outras línguas, há outros povos. E há uma reflexão sobre isso nas nossas letras. Eu já não consigo morar aqui, mais de 70% das pessoas não consegue. Sem querer entrar em politicas, queríamos passar a mensagem de que as raízes continuam cá”. – Vanessa é ensaiadora da Marcha. Coincidência ou não, à mesma hora nesse dia, a cantora americana Ariana Grande apresentava-se num concerto em Manchester, vestida com uma camisola graficamente idêntica à t-shirt aqui fotografada.

Tirámos esta fotografia no momento em que os marchantes se preparam para sair à rua. Mostram os figurinos ao bairro de Alfama pela primeira vez. Há uma claque que se acumula à porta do Centro Cultural Magalhães Lima.

“Tenho uma tatuagem com o nome do meu bairro” – Diogo faz esta revelação, quando tentaexplicar o quanto está preso a Alfama. Estamos a passar uma fase diferente. Infelizmente as gentes de cá são obrigadas a ir morar para fora da zona, os custos do arrendamento estão muito altos.” Diogo tem 29 anos, é diretor do Centro Cultural Magalhães Lima – onde ensaia a Marcha de Alfama. É casado com a ensaiadora. Muda alguma coisa ser tão próximo da pessoa que imagina as coreografias da marcha que vence consecutivamente? “Ensaiamos em casa. A Vanessa antes de executar um passo novo, experimenta comigo. Vê se resulta ou não”.

A minha mãe era uma coisa que não dápara falar: Era uma estrela de cinema. A sorte é que tenho fotografias para as pessoas perceberem que não é um delírio ou o complexo de Édipo.” – Fernando Santos é figurinista e cenógrafo da Marcha de São Vicente. À noite é conhecido como Deborah Kristal, maîtresse des cérémoniesno Clube Finalmente. Nasceu na Mouraria há mais de 50 anos. Cresceu naquelas ruas com uma noção de liberdade grande, “percebo no entanto que as pessoas tenham sofrido com a PIDE e etc. Mas a minha mãe era vendedeira, fazia o que queria. Até batia nos polícias.”

Perguntamos a Fernando se alguma vez pensou em transformar a sua personagem Deborah Kristal, na Madrinha de uma Marcha. “Não”, ri-se. “Qualquer dia, eu faço é a Marcha do Príncipe Real. Uma Marcha só com travestis”.

“Aqui brinquei, cresci, aprendi muita coisa. Tive uma infância feliz, é tudo o que eu tenho a dizer. Andei muito descalço no Bairro Alto. Pisei muitos vidros no chão. Eu e os meus amigos pedíamos sempre moedinhas para o Santo António e ganhávamos muito dinheiro assim. Agora os miúdos já não brincam como nós, só querem tablets. Nós passávamos dias a fim na rua, com as nossas mães aos gritos à janela para irmos para casa.” Iuri tem 17 anos e estuda microtecnologias, “quero criar novas ideias, é o meu objetivo de vida”.  Ele marcha porque segue a tradição. Há vinte anos que a sua irmã está envolvida no ritual. O que sente quando desce a avenida? “Tem a ver com a emoção, a alegria, os nervos e cagança.” Cagança?

“Sim, é o exibicionismo. A força.”

“Tenho aqui no telefone uma gravação que diz, ‘o novo som de Lisboa’. O pessoal fica assim curioso. Pensa que é algum fado ou uma novidade. E é só o som que os trolleys dos turistas fazem no passeio.” Gimba venceu três vezes a Grande Marcha de Lisboa – um concurso para autores e compositores que elege uma canção que é interpretada por todos os bairros. Algumas tornaram-se icónicas,  o “Lá Vai Lisboa”, teve versões de Beatriz Costa ou Amália. A Marcha de São Vicente este ano homenageia os músicos, tocam num estrado ao qual chamam “o cavalinho”. Gimba compôs duas canções para eles. “Gostava de fazer uma biblioteca com os sons desta cidade. Já não tens assim tantos: tens o amolador, e o do elétrico é único. O elevador da Glória faz um ronco muito particular. Ainda tens algumas varinas e talvez alguns pregões.”

No dia em que visitamos a Marcha de Belém, os ensaios decorrem praticamente às escuras, no campo de futebol de uma escola. A luzes que iluminam o jogo guiam também os movimentos dos marchantes. Quando a música da marcha para, ouvem-se gritos: os futebolistas exigem que sejam marcados penalties ou faltas.

Luís trabalha como cantoneiro e tem um grupo de rap. Foi com os outros membros da banda que surgiu a ideia de experimentar as marchas. Achava que não era mundo para ele, foi conquistado nos ensaios. Já marcha há cinco anos no Lumiar, este ano juntou-se à marcha de Belém. “Isto dá para esquecer um pouco os problemas. Vimos para aqui, estamos em família a cantar ou a marchar. E é isso que me dá a alegria.”

“Eu estou a tentar participar num programa de televisão, tem a ver com música, gosto de cantar.”

O que cantas? “Acho que canto qualquer coisa.”

Numa audição, o que cantavas? “Uma canção da Adele. Talvez a turning tables.”

O que te está a impedir de o fazer? “Talvez o medo de estar em frente a um público.”

Porque não fechas os olhos?  “Não sei se isso funciona. Se os abrir vai estar lá toda a gente na mesma. Eu já tentei cantar em frente várias pessoas, depois desisti.” Merrita vem da Margem Sulpara ensaiar com a Marcha Bica, tem 25 anos. Também anda numa marcha na Caparica, “Foi aí que nasceu a paixão, eu namorava com o filho do ensaiador. Olha, foi mais um incentivo.”

“Eu fui afastado do meu bairro, fui afastado dos meus pais. Quando era miúdo não consegui estar cá em Lisboa acompanhava as marchas na televisão, andava sempre a tentar encontrar o meu pai. Era uma coisa que mexia comigo. Mas consegui sempre vê-lo lá no meio.”

Porque foste afastado da tua família?

“Por razões familiares mesmo. Tive com a minha avó, agora já estou com os meus pais.”

A casa da tua avó era longe? “Era no norte a 365 km daqui.” E ficavas a ver televisão na noite da marchas? “ Sim, chegava a estar até às duas da manhã só para poder ver a Marcha da Madragoa.” Rui tem 17 anos.

Assistimos ao ensaio da Marcha do Castelo na noite de 24 de Abril. Gabriela marcha desde o início dos anos 80. Quando lhe pedimos para nos descrever o bairro da sua infância, diz: “esta noite hoje é especial para mim”. Há 43 anos estava ali quando se deu a queda da ditadura, “eu passei o 25 de Abril aqui. Nessa noite telefonaram para minha casa às 4 da madrugada, diziam que o Terreiro do Paço estava cheio de blindados. No dia seguinte foi todo um pandemónio a irmos ao Limoeiro para ver os presos. Tinha 7 anos, lembro-me como se fosse hoje.” Quando era criança brincava na rua, “nos santos vínhamos por florezinhas aqui à porta da coletividade, ajudava-nos a ganhar dinheiro. Queimávamos a alcachofra. Tudo isto são vivências que já não existem.” Gabriela lamenta a despovoação da zona do Castelo, “à noite o bairro parece um fantasma”.

Nuno tem 26 anos trabalha como calceteiropara a Junta de Freguesia. Marcha desde os 18, foi a namorada que o convenceu a ir aos ensaios. “Ela era lá do meu bairro, eu não sabia nada de marchas. No primeiro ano, não achei graça.”

Ainda tens a mesma namorada? “sim, ainda.” O que te fez continuar a marchar?

“O convívio, os marchantes, a família que isto é”. Nuno parece ser uma figura de destaque na Marcha de Campolide, “não foi sempre assim”, ri-se. Diz que a pressão aumenta, acaba por andar preocupado a ver se tudo está bem. O orgulho que sente ao marchar é inabalável.

Lembro-me do bairro desde sempre, com os seus altos e baixos, com as suas diferenças de antigamente para hoje. Nos prédios: as pessoas vão e veem – Morrem, chegam outras. Há uma nova população a crescer aqui, a Mouraria está a ser tomada por pessoas mais novas, com as quais posso interagir de igual para igual, com o sentido respeito” – Ana tem 17 anos, foi mãe há dois, “não foi planeado”. Estuda línguas e humanidades. Como é estudar e ser mãe ao mesmo tempo? “Foi uma tarefa complicada, não estava preparada. Tive a ajuda dos meus pais, foi fundamental. O pai do meu filho está comigo, acompanha a vida dele, só não moramos juntos”. Como consegue arranjar tempo para ensaiar na Mouraria? “É difícil ter uma carga horária tão pesada na escola, conciliar isso com o ser mãe. E agora há a Marcha... É difícil, mas é gratificante: ver a evolução do meu filho, a minha evolução na Marcha, e nos estudos.”

O que sentes quando marchas? “Amor e bairrismo. Um misto de emoções. Medo: é o primeiro ano que marcho desde que fiz as marchas infantis”.

No ensaio de São Vicente, Sérgio ainda espera recuperar do acidente que teve a jogar à bola. Partiu e deslocou o braço. No Meo Arena percebemos que acabou por ser Porta-Estandarte. “Eu queria mesmo era estar lá dentro”.

Marta fala connosco com um sorriso de orelha a orelha. Está de regresso aos ensaios, esteve dois anos sem marchar, “custa mesmo estar do lado de fora, principalmente no dia do ensaio geral. Uma vez chorei, chorei, chorei.”

O que estavas a perder ? “Tudo. Isto é a melhor altura do ano. Quando acabas na Avenida, a única coisa em que pensas é em voltar”.

Há 16 anos que marcha pela Mouraria. Alguma recordação forte? “Uma vez enganei-me. Tinha de me baixar e fiquei de pé, as outras estavam todas ajoelhadas. O júri deve ter pensado que era a única que estava bem.”

“A Madragoa é um bom lugar de viver, temos tudo ali.”

O que é ter tudo? “ É ter amizades. Fazemos festas, ajudamo-nos uns aos outros. É o que interessa... E há muito respeito e humildade.” – Vasco recebeu uma carta do hospital, não poderá marchar este ano por causa de um problema na perna, será Aguadeiro – distribui assim água aos marchantes, coloca e retira adereços durante as coreografias. “Para o ano vou marchar se Deus quiser”.

“O momento mais incrível é quando nos apresentamos no pavilhão. Entras num sítio em que as pessoas estão a olhar para ti de cima, e sentes obviamente adrenalina, estás a mostrar o teu bairro a alguém. Muitas pessoas podem estar a desaprovar o que fazes, porque é real, muitas pessoas estão a julgar-te e a mandar abaixo. Aí sentes a energia máxima, pensas: ‘é agora ou nunca’.” – Marta Tomas tem 27 anos, é auxiliar de educação infantil.

“Sou bombeiro durante o dia, e barman em part-time. É à moda aqui do Bairro Alto. Nascemos com isso, educaram-nos a lutar pela vida. Muitos dos que vivem e  nasceram no Bairro, trabalham em bares. Tinham esse dom no sangue.”- Filipe tem 29 anos, marcha desde os 16. “Antigamente havia concorrência para entrar na marcha. Era como se fossemos jogadores de futebol, tínhamos de nos motivar e trabalhar duro. Entrar fazia parte do desejo de todos”. Em tempos aquelas ruas foram consideradas problemáticas. “Dentro do Bairro Alto existe uma peça de teatro, cada um tem o seu papel, a sua interpretação. Quando nos juntamos sabemos que fazemos parte de um todo. Os meus avós ensinaram-me que cada conquista deve ter um novo sabor. Se isto fosse fácil, não teríamos a mesma cor ou a mesma piada. Tivemos dificuldades no passado, no que toca a alimentação e o vestir. Hoje estamos aqui todos com saúde.”

“Eu nasci na Mouraria e sempre quis vir na marcha. Nós até podemos sair daqui, mas o bairro nunca sai de dentro de nós.” Nelson, 27 anos, é estafeta na Junta de Freguesia de Santa Maria Maior. Não foi fácil começar a marchar no seu bairro, andou dois anos a tentar inscrever-se “em 2005 houve uma revolução, os antigos saíram. Mudaram as pessoas todas. Tiveram a capacidade de perceber que o tempo deles tinha acabado, nesse ano foi um sucesso. Ficamos em segundo lugar”. No dia me que assistimos ao ensaio, Nelson fez as coreografias com o filho ao colo, chorava se não tivesse perto do pai. A sua filha mais velha vai ser a mascote do grupo, “quando eu não tiver capacidades para seguir na marcha, eles vão marchar por mim. E eu vou ficar na Avenida ou no pavilhão a ver”.

André consegue ler os lábios quando falamos com ele. Com a ajuda da mãe e da irmã comunicamos também gestualmente. É marchante há quatro anos, em criança foi mascote da Marcha de Campolide. Perguntamos, como veio parar às marchas? “Gosto disto desde pequenino”. A mãe acrescenta: “ele sempre mostrou um grande entusiasmo”.

“O irmão dele disse-me: ‘olha vou apresentar-te o teu futuro namorado’. E há 3 anos que estamos juntos.” Soraia e Leandro têm 16 anos, não se conheciam do bairro, “Ele é de Chelas, e eu sou de Marvila”. A família de Soraia leva as marchas a sério, “logo no meu primeiro ano de vida, a minha avó fez-me uma farda de marchante, já estava no sangue.” O que vos faz sonhar? “ O futebol”, diz Leandro. Soraia fala de música.

Senti que não era a minha geração que ia acabar com isto, se a minha família toda foi porque é que não hei de ir?” – Pedro (à direita) tem 15 anos, começou este ano a marchar pelo Castelo.

Francisco (à esquerda), vive no bairro desde os 6 anos, “sei que as pessoas me veem aqui na rua e me conhecem. Na realidade eu não conhecia ninguém. Os ensaios mudaram isso.”

“Conheci opai do Daniel nas marchas. Foi amor à primeira vista, daquelas coisas maravilhosas de Santo António. Nunca mais consegui deixar isto”. Quem fala é Rute Dias, mãe de Daniel (aqui fotografado).

“Estava a falar com as minhas colegas hoje, ando cansada com trabalho, e depois há o marido e filhos. Tenho sempre a cabeça feita em água. Só que nós estamos aqui mesmo por amor à nossa cultura, isto faz parte dela. Enquanto puder e me sentir com forças nas pernas, não vou deixar de marchar.” Rute, o marido e Daniel, ensaiam na Penha de França.

Fedra tem um retiro em Alfama. É um arraial popular onde vende sardinhas e faz a festa. Por causa das noites agitadas de Santo António, nem sempre consegue marchar com o seu bairro – falta de tempo. “É uma dor muito grande. Um bocadinho de nós está ali. Quando não vou na marcha, sinto que não estou com eles de corpo e alma. Só lá está mesmo a alma”.

Pedro é presidente de uma associação na Margem Sul, trabalha com jovens de bairros sociais. Também é ensaiador de uma marcha, “nós do outro lado ensaiamos durante a tarde. A faixa etária é mais baixa, entre os 14 e os 22 anos. Acabo lá e venho para cá”. Em Lisboa, marcha com a Bica. Desistiu da escola cedo, “não me corria bem, muitas faltas e o comportamento não era bom”. Foi quando integrou a marcha da Margem Sul que encontrou um caminho, “até me tornar presidente da associação, nunca mais parei de crescer”. Em Lisboa marcha-se com outro profissionalismo. Fala do orgulho que sente quando está a descer a Avenida da Liberdade, “sorriso sempre na cara e cabeça levantada. Não posso ir trancado.”

João veiopara a Marcha da Graça por haver falta de homens marchantes, o número tem de ser exato, 24 em cada uma. É a primeira vez. “sinto um aperto quando penso na apresentação do pavilhão”. A ensaiar a sua marcha está Andreia, vive um verdadeiro dilema. Passou de marchante a ensaiadora, comove-se quando fala connosco, “quando vestimos aquele fato parece que estamos a encarnar uma personagem, vou ter de exteriorizar de outra maneira”.

“Lembro-me de uma noite em que acabámos de descer a Avenida: correu tão bem que fomos para dentro de uma fonte. Saltámos!” – Ana Raquel tem 16 anos, é da Mouraria. Os ensaios da sua marcha são feitos no Clube Desportivo do bairro. É um mundo à parte, logo à entrada do clube há uma guitarra de brilhantes gigante, cobre uma parte da fachada do prédio. O campo de futebol tem vista para a Igreja da Graça.

Os ensaios da Marcha do Bairro Alto aconteciam numa rua por trás da casa onde Cátia cresceu, “ninguém podia assistir ao que se passava lá dentro, mas aquilo tinha um buraquinho na parede, e nós íamos todos para lá espreitar. O meu irmão já andava na Marcha, eu perguntava todos os anos a mesma coisa, ‘quando posso começar?’.” Marcha desde 1997. Perguntamos: o Bairro Alto mudou muito? “Não tem nada a ver. Lembro-me de sermos miúdos e andarmos aos trinta a correr nas ruas. Agora é turismo. E acaba com as cenas de bairro, em que conheces toda a gente e vais à mercearia da Maria, ou estás com um fogareiro ligado e as pessoas juntam-se sem ser convidadas. Cenas naturais no nosso dia a dia. Agora, felizmente ou infelizmente, o natural acabou... Mas nenhum turista vai para o Bairro para ver só turistas. Em Alfama ainda existe um tanque onde as mulheres lavam roupa, se só lá forem turistas, ninguém vai lá lavar nada.”

“Se eu tiver de mandar uma lágrima por o meu bairro, eu mando a lágrima”, diz Gil Mendes, soltando uma gargalhada. “A gente diz que não, mas sabe que aquela lágrima vai sempre cair.” Foi ele o primeiro a marchar na sua família, veio acompanhar a mãe da filha. Foi na Mouraria que cresceu e faz um apelo: quem não conhece estas ruas deveria perder-se aqui. “Se não formos aos sítios, sentimo-nos sempre um bocado estranhos. O bairro evoluiu de uma maneira que nem eu estava à espera. Há creches e escolas ATL para as crianças. Já há aqui um futuro para a minha filha e para os filhos dela. Antes, não tínhamos nada para nos divertir, tínhamos de andar aí de um lado para o outro. Agora posso sair do meu trabalho mais tarde e sei que a minha filha está em segurança. Têm de vir ver como é, só eu não consigo explicar.”

Na Mouraria as guitarras brilham.

Madragoa, no início de Maio. Lisandra está grávida de 9 meses. “Quando vi que as datas coincidiam com a apresentação da Marcha, custou-me um bocadinho. O pai também é marchante, e a bebé dentro da barriga mexe muito durante os ensaios.” Lisandra será Porta-Estandarte. A nossa conversa foge para as mudanças do bairro, “já quase não há casas para arrendar ”, diz-nos.

Tens medo de ser empurrada para fora daqui? “Às vezes sim. Quando engravidei, pensei em procurar uma coisa diferente, é mais um elemento na família. Até agora foi impossível, quando se põe a hipótese de sair para encontrar conforto, é assustador. Tentamos adiar a saída, foi o que fiz até agora. Há sempre esperança. Vai aparecer qualquer coisa.”

Lisandra entretanto foi mãe (está a rir na fotografia).

Qual é o tema da vossa marcha este ano? “A alma de uma varina. Nós somos varinas e pescadores, e vamos mostrar ao público o que é uma verdadeira varina. Porque nós acabamos por ser varinas modernas, já sem todas aquelas tradições e aquele trabalho. Nem que seja só nestes meses do ano, somos as verdadeiras varinas da Madragoa.”

Antes de começar a andar em direção aos pontos de luz da Avenida, muitos sapatos são presos com fita-cola.

“Dançar é aquilo que me faz mais feliz.” – Bárbara tem 13 anos, pratica danças de salão e é atleta federada. Vai representar Portugal no campeonato do mundo a dançar samba, chá-chá-chá e pasodoble. Marcha por Campo de Ourique. Diz-nos que o mundo deveria andar mais atento ao racismo, “ainda há muito, e todos deveríamos ser respeitados. Não falo só em raças, falo também em coisas como a maneira de vestir. As pessoas ainda comentam a diferença.”

“Marchar? Parece que isso já vinha nos meus pés.” Mónica ri, fala timidamente. Tem 17 anos, gostaria de trabalhar numa creche. Pedimos que nos descreva Bela Flor-Campolide, onde cresceu, “Muitos dizem que é um bairro de pessoas intriguistas, eu não concordo nada. Somos todos unidos. Por exemplo, quando há bola, ficamos todos juntos no café a ver o jogo. Na verdade somos uma família, as pessoas de fora é que acham que não.”

Enquanto esperam para entrar na Avenida, os músicos improvisam.

Nuno acaba de sair do palco do Meo Arena. Ainda sem fôlego descreve o nervosismo. Este era o seu segundo ano a marchar, representava os Olivais – “ se lá forem têm de visitar a fonte dos amores”.

“Eu corro sozinha, mas aqui marcho por todos.” – Mafalda faz atletismo no Benfica. No dia a dia o seu maior esforço consiste em conciliar, estudos, a intensidade dos treinos, e os ensaios no Castelo. “O desporto é uma coisa incerta, nunca se sabe o que vai acontecer, posso estar aqui e magoar-me, e não poder voltar a correr.” Os pais conheceram-se na marcha, “começaram a namorar, casaram, e tiveram-nos a nós”. Por isso as suas primeiras corridas foram ali, no local onde ensaia agora.

No momento em que todos os detalhes são importantes.

Para chegar aos ensaios da Marcha da Bica é preciso atravessar uma minúscula porta, entramos no que parece ser um típico prédio lisboeta, mas um patamar de escadas de escadas leva-nos até um gigantesco pavilhão de vidro construído num pátio interior. Dizem que foi o primeiro o estúdio de cinema em Portugal. Ali improvisam-se coreografias com garrafões de água vazios. “Nesta altura do ano viramos marchantes. Há sete anos que marcho, mas só os dois últimos foram aqui. Eu agora sou ‘bicaense’” – Fábio, tem 27 anos, vive na Ajuda, afastado do centro histórico. O que acha do crescimento do turismo no centro da cidade? “Gosto de saber que atraímos as pessoas – os turistas. Já não somos só nós a ir lá fora, gosto que venham cá para nos conhecer.”

“Na Marcha da Ajuda acolhemos as pessoas de outros bairros, é isso que representamos para os outros.” - dizia Rúben, minutos antes de entrar no pavilhão. Consumido pelos nervos, sentia o tempo com demasiada intensidade.

Fábio da Madragoa, minutos antes de descer a Avenida.

“Quando fiz a primeira passagem pelo bairro, e souberam que eu ia ser a madrinha, olharam-me assim de lado, ‘o que é que esta do jet-set está aqui a fazer?’. Ao fim de um mês de ensaios, cada vez que abria a boca, já só se riam.” Cinha é madrinha de Alfama há muitos anos, “penso que foi em 2005”. Caiu no bairro de paraquedas, não tinha qualquer ligação às marchas. “Eu costumo dizer que sou uma mulher do povo, e eles riem-se muito quando digo isso”.

Vem de onde, essa ideia de ser do povo? Perguntamos. “Vem do futebol, o Benfica é o clube do povo. Os meus amigos, eram todos do Sporting e eu não, sempre fui assim determinada. Ainda hoje as pessoas que não me conhecem têm uma ideia diferente, mas eu sinto que mal há uma aproximação, as coisas mudam. E eu não me esforço para ser assim. Cativei Alfama, e eles cativaram-me a mim”.

Fechámos os olhos a Cinha, esta foi a última vez que marchou.

Diamonds é um titulo de uma canção de Rihanna, o refrão, como na tatuagem de Cristiana diz, shine bright like a diamond. “Se repararem os diamantes têm um D e um S, de Diogo e Simão. “Quando tive o meu filho mais novo, ouvia muito essa música”. Cristiana marcha há 16 anos, focada na ideia de um dia conseguir alcançar o prémio de melhor marcha do ano, “está a ser difícil, vamos tentando. Água mole em pedra dura, tanto bate até que fura.”

As pernas de Belém.  

A minha mãe nuncapode entrar na marcha, o meu avô nunca deixou. Ela já tem 55 anos e antigamente quem entrava eram as raparigas consideradas... Como é que eu vou dizer isto?  Eram consideradas mais libertinas. E o meu avô nunca deixou a minha mãe entrar.  Ela sempre teve o sonho de o fazer, mas nunca o fez. Mal pude, vim cumprir esse sonho por ela.”

O que é que a tua mãe te diz agora? “ Tem muito orgulho e chora sempre que me vê no pavilhão ou na televisão, enquanto desço a Avenida.” – Vânia tem 28 anos, Marcha por Alcântara.

“Isto há confusão em todos os bairros, mas a marcha limpa sempre essas confusões.”, Daniel (à esquerda) tem 19 anos, marcha pela Madragoa.

Madragoa, no momento em que os marchantes deixam o bairro.

A tradição faz com que a Madragoa marche descalça.

“O meu pai foi organizador da Marcha de Alfama durante 20 anos. Em 2006, no dia em que saímos da Avenida, estávamos perfilados e ele faleceu. Eu desfilei, a minha irmã não conseguiu”.

To be continued...

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