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Vídeos 13. 9. 2018

O manifesto de Johnny Hooker

by Mónica Bozinoski

 

Faz parte de uma nova geração de artistas que tem em comum o sangue brasileiro, a mensagem política de igualdade e o desejo manifesto por um mundo mais inclusivo. A propósito dos seus concertos de estreia em território nacional, no passado fim de semana, a Vogue Portugal sentou-se com o músico Johnny Hooker para uma conversa de tocar o coração.

Johnny Hooker © Fotografia de Manuel Manso

Não é todos os dias que a vida nos presenteia com um feliz acaso como Johnny Hooker. Uma pequena investigação no Google bastou para perceber que iríamos estar perante um dos talentos mais relevantes da sua geração e do panorama musical brasileiro. A voz é forte, mas ecoa com uma delicadeza sublime pelas quatro paredes do estúdio do fotógrafo Manuel Manso. O pulso é firme, mas envolve com o mesmo calor do abraço de um amigo de infância. O sorriso é de orelha a orelha, mas não esconde a luta de um artista que reflete, com a alma e o coração nas mãos para toda a gente ver, a expressão máxima de dar o corpo ao manifesto. 

"Uma vez, Jorge Mautner me falou que a música sempre foi a maior arma de resistência do Brasil, do maracatu ao samba, e isso é muito verdadeiro", conta Johnny Hooker. "É uma cultura que resiste, através da arte, através da música. Fico muito feliz por estar a vir com esta geração de artistas - de mulheres, de negros, de LGBT -, que trazem estas questões para a música". 

Natural de Recife, John Donovan cresceu com uma mãe "que rapava o cabelo, que era punk do ABC Paulista nos anos 80, que usava couro e pintava o cabelo, metade de uma cor, metade de outra", rodeado por referências de provocação e androgenia, de Madonna a Caetano Veloso, sem nunca esquecer o eterno David Bowie, uma paixão que herdou da mãe e que inspirou a sua personagem em palco. 

 

"Quando eu era adolescente e estava no colegial, eu tive um relacionamento com uma amiga, que era uma garota muito liberta", confessou o músico e compositor brasileiro. "A gente era muito fã de David Bowie, e ele tem uma música que se chama Moonage Daydream, em que uma das primeiras frases que ele fala é I'll be a rock 'n' rollin' bitch for you. E eu lembro de a gente cantar um para o outro, olhando-se olhos nos olhos. Foi nessa frase que eu percebi que estava o meu nome". 

Olhou para os ídolos da adolescência. Todos tinham sobrenomes "bem punks", como Sid Vicious ou Johnny Rotten, ambos dos Sex Pistols. Decidiu pegar no dicionário e procurar sinónimos da palavra bitch. "Foi aí que encontrei hooker, e achei que tinha uma força que era punk, mas ao mesmo tempo muito forte, e gostava da sonoridade da palavra, especialmente quando dita com sotaque português". 

Nos dias que correm, o nome do adolescente que ficou completamente "embasbacado" quando entrou em contacto com "a fita VHS de Na Cama com Madonna", uma espécie de figura maternal e uma mulher poderosa, "provocando com o olhar, tocando em questões sensíveis, criando discussões que precisavam de ser discutidas na época", é sinónimo do mesmo sentimento de responsabilidade, de inclusão, de "viajar com a trupe cigana pelo mundo e passar, de alguma maneira, uma mensagem de liberdade e igualdade". 

Johnny Hooker © Fotografia de Manuel Manso

Foi no ano de 2015 que Eu Vou Fazer uma Macumba Pra Te Amarrar, Maldito! o impulsionou diretamente para o estatuto de fenómeno da música brasileira. "Fruto de um tempo progressista", de um momento em que "parecia que o mundo estava caminhando em direção a tempos mais tolerantes, de liberdade e de inclusão", o primeiro álbum de Johnny Hooker era "político num campo mais afetivo". Deste "reflexo de Recife, com uma sonoridade entre o frevo e o maracatu", nasceram temas como Você Ainda Pensa?, Amor Marginal ou Alma Sebosa, que integrou a banda sonora da telenovela Geração Brasil

A mensagem inclusiva, partilhada por outros artistas com sangue brasileiro como Pabllo Vittar, Linn da Quebrada ou Liniker, começava a chegar a todos os cantos do Brail com a força de um verdadeiro furacão. "É muito legal que a música resista neste momento, e que esteja chegando ao mainstream", confessa. "As nossas músicas tocam em novelas, e a gente também teve sucesso graças à Internet, no país inteiro e fora. A música também já chegou aqui a Portugal, e fiquei muito feliz por saber isso". Não só chegou, como foi capaz de esgotar o primeiro concerto de Hooker em território nacional. 

Dois anos depois de Macumba, "num momento em que a gente vê um país em crise institucional profunda", nasce o segundo álbum do músico natural de Recife, intitulado Coração. Temas como Flutua, Corpo Fechado ou Caetano Veloso, cantado por Hooker em acústico para a GQ Portugal, unem os pontos de um projeto discográfico "explicitamente mais político que o Macumba, até pela responsabilidade que eu entendi que tinha quando o primeiro foi sucesso – de falar para um público jovem, transmitir uma mensagem para um público jovem". 

O país natal, mergulhado num estado de incerteza, de instabilidade e de crise profunda, foi a ferida aberta que inspirou este segundo projeto. "O Coração também é uma homenagem ao Brasil, à América Latina", conta Johnny Hooker. "Ali no Coração eu já tinha rodado, não era tanto a minha aldeia, a minha cidade. O formato da América Latina faz-me lembrar um coração, e a América Latina tem essa coisa da resistência. É o coração que bate, que resiste, mesmo perante a tragédia e perante o abandono".

Johnny Hooker © Fotografia de Manuel Manso

"Tivemos uma vereadora que acabou de ser assassinada, entendeu? No Rio de Janeiro. É muito complicado". Na vulnerabilidade e sinceridade de um olhar que vê um Brasil "com um pensamento muito obscuro, quase medieval, que ainda tem um passado muito grande para superar", Johnny Hooker não baixa os braços nem desiste de lutar, dentro e fora do panorama musical, por uma realidade mais inclusiva.

"Eu acho que ainda somos muito sub-representados institucionalmente e politicamente", reconhece o músico e compositor. "No Brasil, a população negra é mais de 50%, mas só 3% do Congresso é negro, ou se declara como. De alguns anos para cá, tivemos o primeiro político abertamente gay no Brasil. Mas é só um, num universo de centenas. O que precisa de mudar é esta representatividade".

Num momento em que "o discurso fascista parece estar a ganhar força", Johnny Hooker relembra que, "como diz a música de Titãs, o pulso ainda pulsa". Num momento obscuro e assustador, o seu manifesto relembra que ainda existe esperança, e que ainda é possível fazer a diferença - uma "tocha" que o Campeão da Igualdade, nomeado pela ONU Brasil, carrega com muita honra e seriedade. 

Johnny Hooker © Fotografia de Manuel Manso

"Na minha geração, eu sonhava em ter alguém assim, e no outro dia um menino chegou ao pé de mim, me abraçou e disse, 'você é o artista que eu sonhava que existiria quando eu crescesse'", conta Johnny Hooker entre um sorriso de humildade verdadeiramente genuína. "Esta nomeação é a história da minha vida. Parece que, quando olho para trás, tudo faz sentido". 

O sentido vai continuando a compor-se com cada barreira derrubada, seja através de prémios como Clipe do Ano nos MTV Miaw 2018, pelo tema Flutua, ou pelas mais de 3 milhões de visualizações no YouTube que a narrativa visual, em menos de um ano, já conseguiu conquistar. 

"Para mim, é importante conversar sobre essas questões, trazer essas discussões para a mesa. Acho que a arte provoca o olhar, e provoca essas questões importantes que nós precisamos de ter na sociedade, neste momento", defende. "Eu acho que a música toca a gente num ponto tão humano que, de uma certa forma, iguala as pessoas", conta o músico e compositor, que se sentiu "muito feliz" por ter a oportunidade de incluir "a mensagem dos meninos surdos no clipe, como uma metáfora para a nossa surdez enquanto sociedade". 

Por cada palavra proferida por Johnny Hooker, existe um nó na garganta que vai dando cada vez mais voltas. Não é por acaso que o artista brasileiro nos diz que existe uma provocação no olhar. Não é por acaso que o artista brasileiro nos diz que o amor é um ato de coragem. Não é por acaso que o artista brasileiro nos diz que, independentemente do género ou da sexualidade, esta mensagem é universal e humana. 

"No outro dia encontrei duas meninas que me pararam na rua para me dar um abraço e tirar uma foto e eu achei muito engraçado porque uma delas deu a definição perfeita sobre os dois álbuns", conta Johnny Hooker. "Ela disse-me assim: 'o primeiro é para cortar os pulsos, e o segundo é para costurar'. Achei ótima essa definição". Num momento como este, é isso que todos nós precisamos de fazer: pegar na agulha e costurar, ponto a ponto, os rasgões que ainda precisam de ser remendados. 

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