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3 banhos de imersão que são o último grito de self-care

Tendências 29. 4. 2021

O prazer é todo meu (ou então não)

by Pureza Fleming

 

“A menina dança, tem par ou descansa”, questiona o homem. A menina pode dançar, pode ter ou não par, e descansar se bem lhe aprouver. A menina regozija-se das suas conquistas, coleciona parceiros, começa e termina casamentos e dá-se ao luxo de se fazer à pista do flirt. A menina, a mulher, a senhora, empoderou-se. Mas, como em tudo o que engloba o reinado feminino, a menina — ou “a devassa”, “essa grande libertina” — ainda não pode usar a sua sexualidade à vontade. Sobra-lhe um tímido “à vontadinha” que, convenhamos, não passa de um enorme turn off.

Deleitação - Útero © Elisa Riemer, 2018. @elaysariemis  

"As mulheres são máquinas para sofrer”, sugeriu Pablo Picasso (1881-1973) a Françoise Gilot (França, 1921), uma das suas inúmeras amantes, de quem teve dois filhos. Depois de ter embarcado num caso com o artista espanhol, tinha ele 61 anos e ela 21, Gilot ouviu de Picasso as seguintes palavras: “Para mim, existem apenas dois tipos de mulheres: deusas e capachos.” Marina, neta de Picasso, que em 2002 publicou um livro de memórias chamado Picasso: My Grandfather, conta que viu o tratamento do seu avô com as mulheres como um fenómeno sombrio, uma parte vital do seu processo criativo: “Ele submeteu-as à sua sexualidade animal, domou-as, embrulhou-as, ingeriu-as e esmagou-as na sua tela. Depois de ter passado muitas noites a extrair a sua essência, uma vez que foram sangradas, ele iria livrar-se delas.”

O trecho que escolhi para dar início a este artigo não estava planeado. No intervalo que fiz, enquanto o escrevia, liguei a televisão para espairecer e estava a passar um filme sobre Picasso. Os escassos 15 minutos que tive o (des)prazer de assistir, foram os suficientes para perceber que Pablo Picasso era um porco — pardon my French. Um artista de mão cheia, um narcisista ainda maior e um macho sem escrúpulos no que diz respeito ao seu comportamento com o sexo feminino. Tudo girava em torno do ato sexual com aquelas variadíssimas mulheres, era só isso e nada mais do que isso. O sexo que roubava às mulheres, e a sua arte — como bom artista que era, de ego a abarrotar — eram tudo o que importava para Pablo Picasso. E as mulheres, tal como escancarou a sua neta Marina na obra acima citada, não eram nada. Ou melhor, até eram: elas eram o seu objeto sexual. As suas vaginas deveriam estar — e, de acordo com a História, estariam — sempre disponíveis e à mercê do génio.

E agora, sim, posso lançar o mote ao tema deste texto, que seria qualquer como: porque é que as mulheres não podem fazer o que querem com o seu corpo — da sexualidade à simples abordagem no flirt? Pois é, poder, até podem — nós até podemos —, mas reza a História que, no que toca à questão da sexualidade, as mulheres não têm quereres. E o que faz mais confusão aqui é que dos tempos de Picasso até aos dias de hoje, já lá vai um século — cem anos. Cem. Ao que a leitora poderá pensar: “Mas, que ideia! As coisas estão diferentes. As mulheres hoje têm toda a liberdade do mundo para fazer o que quiserem com os seus corpos. Afinal, estamos no século XXI.” 

"Apesar de assistirmos a muitas mudanças, ainda temos raízes fortes de castração que vieram de um passado recente em que as mulheres eram desvalorizadas e destinadas a cuidar da casa e da família."

É claro, é óbvio, que as coisas mudaram, é para lá de evidente que o sexo feminino está mais livre, leve, solto e cheio de garra, e mais ainda de tesão. Porém, continuam a haver “mas” na equação — é como se a mulher estivesse cada vez mais à vontade com a sua sexualidade, mas ainda não, pelo menos totalmente, à vontadinha. Senão vejamos: “Apesar de assistirmos a muitas mudanças, ainda temos raízes fortes de castração que vieram de um passado recente em que as mulheres eram desvalorizadas e destinadas a cuidar da casa e da família. Ainda vivemos muitas vezes a nossa sexualidade com culpa e conhecemo-nos pouco. Temos um longo caminho pela frente e a educação sexual formal pode e deve contribuir para essa mudança”, garante a sexóloga Vânia Beliz. Conta que ao seu consultório ainda aterram perguntas ao melhor estilo “se usar uma toalha de um homem faz engravidar?” Confirma que ainda pairam muitas dúvidas sobre o corpo e que “a vulva ainda é uma zona que se evita olhar e da qual se sente vergonha.”

Tudo bem, questionar é bom e recomenda-se. E melhor ainda se começa a haver uma preocupação crescente com a zona íntima, até porque neste campo é entre a mulher, a sua vulva e a sexóloga — e o que acontece no consultório, à partida, fica no consultório. O problema é a selva cá fora. O problema é a mulher querer experienciar toda essa sexualidade no exterior, é a mulher querer dar o primeiro passo, é a mulher querer ter os parceiros sexuais que bem lhe apetecer, é a mulher mandar uma boca picante, é, falando de forma machista e algo redundante, a mulher querer ser “o macho” da relação. Ou das relações. É que poder ela pode, mas não é a mesma coisa — afinal, ela não é ele.

O sociólogo Bernardo Coelho faz uma retrospectiva histórica para que tentemos entender este fosso de cariz sexual: “Para responder a esta questão, temos também de perceber que a história da sexualidade é, também, a história da tentativa do controlo do corpo e da sexualidade das mulheres por parte dos homens. Historicamente, é essa a tentativa — tem sido essa a tentativa — do controlo da sexualidade e do corpo das mulheres. Recuemos a finais do século XIX, início do século XX. Para já, a sexualidade — sobretudo a das mulheres — não era percebida, de forma legítima, fora dos contextos amorosos mais restritos, portanto da conjugalidade e das relações amorosas. Mas nessas relações de conjugalidade a mulher era um mero objeto de transação entre a lei do pai para a lei do marido, de maneira que pouca vontade ou expressividade tinha, até na determinação daquele que seria o seu parceiro de vida, o seu marido. Num certo sentido, é às mulheres que nós devemos a construção, se quisermos até, a importância e a centralidade do amor, nas sociedades contemporâneas, no sentido em que são os movimentos feministas ocorridos logo na primeira vaga que fazem com que o amor seja considerado um aspeto central na vida das pessoas. E, então, o amor aparece também como uma reivindicação feminista e das mulheres no sentido da necessidade destas puderem decidir, de acordo com os seus sentimentos e com os seus desejos, quem é a pessoa com querem viver. E, por conseguinte, desde o início da luta feminista que a questão do controlo do corpo, da sexualidade e da pessoa com quem se quer viver essa a sexualidade, está presente. Contudo, há sempre aqui uma tensão muito grande. Uma disputa política sobre o controlo do corpo e da sexualidade das mulheres, controlo esse que está — e esteve durante muito tempo — associado a uma tentativa de garantir a descendência legítima. No fundo, tratar a mulher, o seu corpo e a sua sexualidade como um objeto — a um reduto doméstico e pouco expressivo —, significava também, para os homens, garantir que os seus descendentes eram legítimos. Que os filho daquelas mulheres eram, de facto, seus filhos”. 

"Ainda hoje, uma mulher que tenha múltiplos parceiros sexuais ao longo da sua vida e sucessivos namorados, fora de contexto amoroso, corre o sério risco da acusação e do insulto."

Mudam-se os tempos, mudam-se as mentalidades, é a questão que faço — supondo que, à partida, é natural que sim, que os ventos da mudança tenham trazido alegrias ao sexo feminino (e à sua sexualidade): “Na segunda vaga do feminismo — por volta da década de 60 do século XX — a coisa mudou profundamente e a agenda política e reivindicativa das mulheres passa pela afirmação e pelo controlo do corpo e da sexualidade feminina. Agenda que é reforçada com a descoberta da pílula contraceptiva o que veio permitir às mulheres um controlo do seu próprio corpo e um controlo da sua sexualidade. Obviamente que esta luta não é feita sem resistência, e essa é a grande dificuldade”, remata Bernardo Coelho.

E é aqui que a coisa se complica (mais ainda) e que são introduzidas as (históricas) matrizes de percepção do que é adequado e do que é desadequado. Daquilo que as grelhas de avaliação ditam relativamente àquilo que é “ser homem” e do que é “ser mulher”, do que é adequado para um homem e do que é adequado para uma mulher: “Esta lógica tensional, sempre na tentativa do controlo do corpo das mulheres e da sua sexualidade, produz (historicamente) aquilo a que podemos chamar de um duplo padrão moral que prescreve às mulheres uma sexualidade contida, controlada, muito mais próxima do pudor, da vergonha, de alguma castidade… E isso é uma forma de controlar o comportamento e a experimentação da sexualidade e do corpo por parte das mulheres. No fundo, a existência dessa moralidade castradora é uma forma de controlo moral e social sobre a sua sexualidade e sobre o seu corpo”, acrescenta aquele sociólogo. Basta que pensarmos que, ainda hoje, uma mulher que tenha múltiplos parceiros sexuais ao longo da sua vida e sucessivos namorados, fora de contexto amoroso, corre o sério risco da acusação e do insulto. O mesmo não acontece a um homem — muito pelo contrário, já que este homem será visto (para os outros homens, evidentemente), como um super-herói das demais camas. 

E continua: “Nas sociedades contemporâneas o que se passa é que as mulheres continuam num sítio relativamente desconfortável. Porque este duplo padrão moral, esta lógica da contenção, de uma moralidade que prescreve uma sexualidade contida às mulheres, não desapareceu. Existe, inclusive, nas grandes narrativas culturais sobre o que deve ser uma mulher e o que deve ser uma mulher na sexualidade. Por outro lado, as mulheres sentem, vivem, querem viver e reivindicam para si uma sexualidade mais expressiva, a possibilidade de expressarem os seus desejos e os seus não-desejos no campo da sexualidade e de o viverem de uma forma livre e igualitária com os homens.”

"O desconhecimento é motivo para não se sentir prazer." 

Em suma, o que se constata é que, apesar de todo o caminho traçado pelo pulso feminino até aos dias de hoje, ainda falta “um bocadinho assim.” Não basta o sentimento de culpabilidade que a mulher carrega no seu ADN, como ainda ter passado a sua existência a ser regida por regras — ditadas pela sociedade, por elas mesmas, ou ainda por homens do calibre de Pablo Picasso. O prazer é um bem universal e está ao serviço de todos os seres humanos — tenham estes um pénis ou uma vagina. Compete também às mulheres permitirem-se saber ter prazer à vontade e regozijarem-se com isso — sem depender de segundos, digamos assim. A sexóloga Vânia Beliz afirma que ainda lhe surgem no consultório muitas queixas no que respeita ao não-orgasmo: “Mas não me surpreende. Em muitos casos o desconhecimento é motivo para não se sentir prazer, mas o stress, a ansiedade e algumas doenças crónicas também podem estar na origem da falta de prazer. Também aqui a forma como somos educadas faz muita diferença. Se aprendermos o sexo como algo importante e gratificante teremos mais possibilidade de usufruir dele de forma gratificante”. Ao que eu acrescentaria: e sem medo de sermos felizes.

 

Artigo originalmente publicado na edição de abril de 2021 da Vogue Portugal.

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