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Tendências 13. 11. 2018

O diário de um detox digital

by Pip Usher

 

De Selena Gomez a Kendall Jenner, passando por Kanye West e Ed Sheeran, algumas das celebridades mais ativas nas redes sociais já elogiaram as virtudes de um detox digital. Mas como é que funciona para nós, mortais? Depois de conversar com peritos em wellness sobre as suas próprias pausas do mundo digital, uma jornalista da Vogue decidiu testar a teoria.

Nenhum de nós gosta de admitir que tem um problema. Mas os sinais do meu vício andavam a chamar por mim com a mesma insistência de uma criança. Havia aquele sentimento de tensão quando, a bordo de um avião, tinha que ativar o modo de avião no meu telemóvel, seguido de um sentimento de alegria pura quando o podia voltar a ligar normalmente. As viagens de carro ou de comboio, um momento para olhar pela janela e esvaziar a cabeça, transformaram-se em sessões prolongadas de submissão ao ecrã. Depois vieram os reparos do meu marido: “Precisas mesmo de usar o teu telemóvel quando estamos deitados?”

A resposta era sempre afirmativa. Estava no meio de enviar uma mensagem a uma amiga ou precisava de responder a um e-mail. Ou estava simplesmente numa investigação prolongada e deliciosa no Instagram. O meu tempo de ecrã sempre soube a algo bom, à semelhança do primeiro copo de uma garrafa de vinho – um buzz de simplicidade irracional. Ainda assim, quanto mais tempo passava a olhar para o ecrã, mais amortecida me sentia nas arestas, como se existisse um punhal de autoaversão a fatiar o entusiasmo, à medida que a indulgência se tornava doentia. Bloqueava o ecrã, e guardava o meu telemóvel longe da cama – tudo isto para o ir buscar dois minutos depois. A negação não me estava a levar a lado nenhum. Precisava de um detox digital.

Primeiro, contactei o Dr. Larry Rossen, um professor emérito e antigo presidente do departamento de Psicologia da California State University, que estuda o impacto das tecnologias há 35 anos. Ele confirmou aquilo que eu há muito temia: segundo um dos seus estudos, as pessoas que mais usavam as redes sociais eram aquelas que mostravam mais sintomas de distúrbios psiquiátricos. Outros estudos mostram que metade das refeições familiares no Reino Unido são interrompidas por telemóveis, e que os níveis mais altos de depressão e ansiedade estão ligados a estudantes universitários que usam o seu telemóvel com uma frequência elevada. O desejo de curar o meu vício aumentava a cada estatística.

O segundo passo foi conversar com a Shona Vertue, uma ginasta que agora é personal trainer, e pedir-lhe alguns conselhos. Apesar dos seus 215 mil seguidores, Vertue encoraja a sua comunidade digital a passar mais tempo offline – uma ironia que a própria aponta instantaneamente, antes de me recomendar um artigo de Tristan Harris, antigo “Product Philosopher” do Google, sobre a forma como as empresas de tecnologia cultivam comportamentos compulsivos, de forma deliberada, nos seus utilizadores. Numa comparação entre imagens e máquinas de jogo, Harris explica o vício psicológico e as estratégias à base de recompensas que garantem que continuamos agarrados, das notificação vermelhas do Facebook ao movimento tentador que fazemos quando atualizamos os nossos emails.

A sugestão da Vertue para quebrar o meu próprio ciclo de dependência? Manter um diário, como a própria explica, é um modo de cultivar a autoconsciência através do detox. “É uma forma de mindfulness que te pode ajudar a ter mais consciência do modo como usas o teu telemóvel”, explica Vertue. Para além disso, existem etapas práticas que podem facilitar o processo, como agendar as atividades com antecedência ou definir objetivos mais simples para alcançar durante o período em que não está a utilizar o seu telemóvel. “Se pensares em todos os objetivos que tens para a tua vida, e depois acumulares o tempo que perdes a ver o feed do cão da nova namorada do teu ex, é um pouco triste pensar que existem todos estes desejos que podíamos alcançar neste tempo”, diz Shona.

“Enche a tua vida com vida, em vez de usares o teu telemóvel para isso”.

Apesar de existirem diversas opções de detox digitais e formas de bloquear aplicações pensadas para pessoas com o mesmo vício que eu, decidi adotar uma abordagem mais instantânea – desligar o telemóvel e o computador portátil, e arrumá-los dentro de uma gaveta durante o fim-de-semana. Depois disso, segui o conselho da Vertue e anotei alguns planos sociais no meu diário: jantar na sexta-feira, seguido de uma ida ao cinema no sábado. Deixei o domingo em aberto, uma brecha de tempo para testar a minha determinação. “Enche a tua vida com vida, em vez de usares o teu telemóvel para isso”, diz Vertue. Prometo a mim mesma que vou seguir o conselho com alguns objetivos simples: levar o cão num passeio mais longo e acabar de ler a pilha de revistas empeiradas.

Na sexta-feira, a chegada do crepúsculo acompanha um sentimento de inquietação. À medida que os emails de trabalho se vão acumulando na minha caixa de correio, penso que talvez fosse melhor adiar o meu detox – mas sei que, na verdade, estou apenas à procura de uma desculpa. Pego num pequeno caderno, anoto algumas observações, e guardo os dispositivos numa gaveta. Alguns momentos depois, pego novamente no caderno. “Fui ver as horas”, escrevi. “Percebi que não tenho o meu telemóvel. Decido que não preciso de saber as horas. Dois minutos depois, pergunto que horas são”.

Este foi o primeiro de muitos obstáculos logísticos que uma existência sem telemóvel representa. Tenho planos para ir ver um filme – mas não sei a localização do cinema. “Por favor, consegues encontrar”, imploro ao telemóvel de uma amiga. No dia seguinte, sinto-me desencorajada do meu longo passeio depois de perceber que a ideia de vaguear por uma nova cidade é muito menos apelativa quando não tem o Google Maps para te guiar de volta a casa. Vou acabar por me perder. Durante as horas mortas da tarde de domingo – que, apesar da pilha de revistas e do passeio com o cão, parecem arrastar-se indeterminadamente -, dou por mim irritada, a varrer o chão. Devia ter antecipado e verificado os horários do estúdio de yoga local. É chocante perceber que as horas passam tão lentamente quando não tens o escapismo do ecrã.

Mas existem momentos que me agarram pela sua simplicidade. Quando acordo na manhã de domingo, não há nada para fazer, a não ser ficar deitada, sonolenta e aconchegada. Mais tarde, passo a manhã a refinar um romance e a organizar o meu quarto. “Silenciosamente produtiva”, anoto no meu diário, surpreendida por ter desfrutado tanto destes momentos. Uma sessão do Phantom Thread acaba por relevar ser duas horas dececionantes de alta-costura e relações dependentes, mas sinto-me feliz quando percebo que vi o filme sem sentir o impulso de usar o telemóvel. Inspirada pela pilha de revistas terminadas, declarei um objetivo a longo prazo: daqui em diante, nada de telemóveis na cama. “Costumo dizer que a primeira hora do dia é a hora do poder”, confessou Steffy White, instrutora de yoga e fundadora dos retiros White Light Yoga Retreats, alguns dias antes. “Tens que ter muito cuidado com aquilo que absorves nesses momentos”.

A tarde de domingo traz consigo o final do meu detox, e aquilo a que o meu marido chamou de “maratona de duas horas” enquanto me debruço atentamente sob o meu telemóvel reativado. Todas aquelas mensagens e notificações deliciosas – havia tanto para ver. Mas, estranhamente, senti que o meu interesse era entediante. Possivelmente, o psicologicamente viciante Fear of Missing Something Important (FOMSI) de que Harris fala diminuiu com a consciência de que, na realidade, não estava a perder nada.

Uma semana depois, o quarto continuou uma zona livre de telemóveis. “Recomendo que, a cada 90 minutos, tires uma pausa de 10 a 15 para te dedicares a uma atividade que acalme e reponha o teu cérebro”, aconselhou o Dr. Rosen, apontando o exercício, a música e a meditação como possíveis e valiosas atividades. Com isto em mente, começo a deixar o meu telemóvel em casa quando vou sair para dar um passeio. Nas minhas próximas férias, prometi deixá-lo no interior de uma gaveta. A estrada da recuperação é longa – mas já dei o meu primeiro passo.

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