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Nas entrelinhas está o sarcasmo

02 Nov 2026
By Pureza Fleming

Fotografia: Getty Images; iStock. Artwork de João Oliveira.

Todos os dias somos brindados com este tipo de humor — sobretudo através dos ecrãs. Ácido, mordaz e, por vezes, deliciosamente cruel, o sarcasmo ridiculariza, critica e expõe o absurdo ao dizer aquilo que, na realidade, não quer dizer. A piada está precisamente aí: perceber que as palavras são apenas a superfície e que, por baixo delas, existe uma segunda mensagem à espera de ser decifrada.

É considerado um dos principais tipos de humor. Refinado para uns, é, para outros, sinónimo de hostilidade pura. O escritor Oscar Wilde considerava o sarcasmo “a mais alta forma de inteligência”, defendendo que “a sua ironia era desperdiçada com os estúpidos”. Conhecido pelo seu cinismo mordaz, Wilde usava o humor ácido para criticar a sociedade. E é precisamente nessa distância entre aquilo que se diz e aquilo que realmente se quer dizer que reside a força do sarcasmo. Uma frase pode parecer elogiosa, neutra ou até ingénua, mas é no intervalo entre as palavras e a intenção que surge a verdadeira mensagem.

Para a compreender, é preciso ir além do sentido literal — uma operação que, para alguns investigadores, poderá também explicar a sua relação com a criatividade. Um estudo desenvolvido por investigadores das áreas da psicologia das organizações e do comportamento concluiu que interpretar uma afirmação sarcástica obriga o cérebro a lidar com significados que entram em contradição. Esse exercício parece favorecer o pensamento abstrato e, consequentemente, algumas formas de criatividade. Ou seja, aquilo que pode começar como uma provocação ou uma resposta mordaz acaba por exigir uma operação mental consideravelmente mais complexa do que uma afirmação dita de uma maneira direta.

A ideia ganha ainda outra dimensão quando olhamos para uma investigação realizada pelo INSEAD: The Business School for the World. Nela, os participantes associados ao uso do sarcasmo foram avaliados como até três vezes mais inteligentes e criativos do que aqueles que recorriam a uma comunicação mais literal e transparente. Isto não significa, naturalmente, que o sarcasmo seja um certificado de inteligência — nem que toda a pessoa sarcástica seja particularmente criativa. O que os estudos sugerem é algo mais interessante: a linguagem sarcástica pode criar condições para diferentes modos de pensar, precisamente porque obriga quem a ouve a procurar um segundo significado.

A psicóloga Catarina Graça, da Clínica da Mente, corrobora esta ideia, considerando que é, sim, possível ver-se o sarcasmo como um mecanismo criativo e inteligente de comunicar. Assevera, contudo, que nem toda a gente inteligente é sarcástica e vice-versa. “Para utilizarmos de forma bem sucedida o sarcasmo, são necessários alguns ingredientes, tais como perceber o contexto onde é utilizado, o timing, entender o que a outra pessoa quis dizer e também interpretar corretamente aquilo que é dito. Por isso podemos dizer que o sarcasmo bem interpretado também deverá contar com alguma perspicácia da pessoa que o recebe“. Sublinha que este tipo de humor pode ser uma característica genuína e inata da personalidade, fazendo com que algumas pessoas adotem naturalmente esse registo na maneira como se relacionam com os outros. “No entanto, torna-se interessante perceber que, por vezes, o sarcasmo também se manifesta como uma defesa que permite esconder ou disfarçar algumas inseguranças”, salienta aquela psicóloga.

O sarcasmo pode ser uma arma social, é a questão que lanço. Recordo as dezenas de milhares de memes baseadas no sarcasmo que circulam pela Internet diariamente. Contas como Sarcasm Only (mais de 17 milhões de seguidores), Sarcastic Us (mais de 13 milhões de seguidores) ou o famoso Fuckjerry (mais de 13 milhões de seguidores), para nomear apenas algumas, são a prova de que o “sarcasmês” tornou-se uma linguagem universal. Mas o sarcasmo pode servir outros propósitos para lá do entretenimento e da provocação. Pode ser, por exemplo, uma maneira de nos protegermos — uma espécie de escudo verbal. “É precisamente pelo interesse psicológico na desconstrução do sarcasmo que rapidamente podemos perceber que este jeito de comunicar pode ser também uma arma de defesa”, esclarece Catarina Graça. Muitas vezes a pessoa sarcástica deposita a dúvida, a indefinição — “será que estava mesmo a falar a sério ou estava a brincar”. “E é aqui que o sarcasmo pode ser visto como uma arma social e gerar discórdia ou até desentendimentos”, soma. E, tal como assistimos a toda a hora no mundo digital, este estilo humorístico constitui, efetivamente, um modo de expressão que pode facilmente ser mal interpretado. “O sarcasmo tanto pode ser uma forma de humor e inteligência como também pode ser usado para influenciar, para se defender ou atacar disfarçadamente alguém. Como qualquer outro tipo de comunicação tudo depende da intenção e da forma como é utilizado”, avança aquela psicóloga.

Interpretar uma afirmação sarcástica obriga o cérebro a lidar com significados que entram em contradição. Esse exercício parece favorecer o pensamento abstrato e, consequentemente, algumas formas de criatividade.

Numa entrevista que conduzi, em 2018, a Herman José, o rei do humor português observou que quando o sarcasmo é azedo e agressivo, as pessoas não só não entendem como tendem a reagir; e quando ele serve uma ironia fina, pode acontecer que passe despercebido. "Se o ‘sarcasmês’ não se confundir com o ‘sacanês’ ou com ‘filhodaputês’, eu não tenho nada contra”, resumiu, com ironia. A verdade é que nem toda a gente compreende o sarcasmo — e, tal como já foi discutido acima, nem sempre é uma questão de inteligência.

Para Catarina Graça, compreender “sarcasmês” depende da combinação de vários fatores, como a atenção, a experiência, o contexto e a capacidade de interpretação de sinais sociais. “Quando alguém diz uma coisa ironicamente, devemos perceber que as palavras não devem ser interpretadas literalmente. É preciso saber interpretar vários sinais ao mesmo tempo tais como a decifração da linguagem corporal, mais particularmente o tom de voz e a expressão facial, o momento em que a ironia foi utilizada, aquilo que se conhece sobre a pessoa e até o que seria lógico ser dito naquela situação. A partir daqui o cérebro faz as seguintes ligações de raciocínio: ‘O que esta pessoa disse não combina com a situação... por isso provavelmente não está a falar no sentido literal... então o que ela realmente quis dizer foi...’”. Explica que há pessoas que apanham imediatamente a ironia porque estão mais habituadas a procurar segundas intenções e contradições na comunicação. E que outras tendem a interpretar primeiro aquilo que é dito literalmente e só depois percebem que havia outro significado. "Além disso, se se tratar de alguém com quem já estejamos habituados à ironia, por já conhecermos bem a sua personalidade, fica mais fácil interpretarmos aquilo que foi ironicamente verbalizado”, mantém.

Há ainda questões cognitivas que impossibilitam a compreensão do sarcasmo. Um estudo dirigido pela investigadora e neurospicóloga Simone Shamay-Tsoory, publicado em 2005 na revista científica Neuropsychology, da Associação Americana de Psicologia (APA), provou que pessoas com uma lesão (por norma AVC ou bloqueios nas artérias cerebrais) numa zona específica do córtex cerebral, que por sua vez está relacionado com o hemisfério direito, deixam de ter a capacidade de perceber o sarcasmo no outro. E, de certa maneira, deixam de conseguir utilizar o sarcasmo como uma competência básica que um adulto, ou mesmo uma criança, poderá ter.

Apesar da má fama deste estilo humorístico tão em voga nos dias de hoje, é importante distinguir entre sarcasmo e crueldade. E a principal diferença está na intenção e no efeito sobre a outra pessoa. “O sarcasmo é um estilo de comunicação que pode ser usado para fazer humor, criticar, provocar ou dizer algo indiretamente. Já a crueldade envolve, sobretudo, a intenção de magoar, humilhar ou causar sofrimento”, explana aquela psicóloga. E prossegue: “No entanto, uma pessoa pode fazer um comentário sarcástico sem querer realmente ferir alguém. Por exemplo, perante um amigo que chega atrasado, dizer sarcasticamente algo como: ‘pontual como sempre’... pode ser apenas uma brincadeira. Mas, se a pessoa sabe que aquele amigo se sente inseguro com os seus atrasos e usa constantemente esse comentário à frente dos outros, o sarcasmo começa a transformar-se em crueldade”.

Em suma, se o sarcasmo é utilizado de maneira repetitiva para explorar inseguranças previamente conhecidas acerca da pessoa em causa, então já estamos perante um quadro de crueldade e humilhação, e não propriamente de sarcasmo. Parecendo diferente, é. Falar “sarcasmês” é, afinal, apenas mais um estilo de comunicação: agrada a uns, deixa outros indiferentes — por não o entenderem ou, simplesmente, por não se identificarem com ele. Para aqueles que gostam e entendem este dialeto, uma gargalhada cínica (no melhor dos sentidos) está sempre mais do que garantida. E, afinal de contas, não é isso que se quer? Rir, sobretudo no mundo em que hoje vivemos, acaba mesmo por ser o melhor remédio.

Originalmente publicado no The Humor Issue, na edição de outubro de 2026 da Vogue Portugal, disponível aqui.

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